domingo, maio 18, 2025

Partidos grandes aderem a federações para ganhar poder, mas especialistas apontam efeitos colaterais

 Foto: Divulgação/Arquivo

Ciro Nogueira e Antônio Rueda18 de maio de 2025 | 19:09

Partidos grandes aderem a federações para ganhar poder, mas especialistas apontam efeitos colaterais

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O mecanismo criado para conter a pulverização partidária, até então utilizado principalmente como estratégia de sobrevivência à cláusula de barreira por partidos pequenos, passou a ser usado por legendas maiores com outro intuito: ampliar seu poder político e eleitoral. O movimento, entretanto, pode gerar desgastes importantes entre lideranças regionais das legendas, resultado em perda de poder e não aumento, avaliam especialistas.

O movimento mais recente de junção de siglas grandes em uma federação envolveu o União Brasil e Progressistas. Já há sinais claros de desavenças entre líderes dos dois partidos em alguns Estados. Os embates podem levar até mesmo à saída de alguns desses líderes.

Diferentemente dos partidos menores que recorreram às federações em 2022 para se manter ativos, essas duas siglas, que não enfrentam risco de exclusão, optaram pela aliança com fins exclusivamente eleitorais. A proposta inicial das federações, de facilitar a formação de maiorias e a articulação, não tem sido, na prática, o foco das legendas envolvidas.

Criadas pela reforma eleitoral de 2021, as federações partidárias permitem que dois ou mais partidos atuem como uma só legenda, em um vínculo de prazo indeterminado, por no mínimo quatro anos, a partir da data de sua formação.

Até então, a federação havia sido utilizada somente como ferramenta de enfrentamento à cláusula de barreira. Para 2026, as siglas deverão eleger no mínimo 13 deputados, distribuídos em pelo menos um terço dos Estados, ou seja 9 unidades federativas, ou obter 2,5% dos votos válidos para que tenham direito ao Fundo Partidário e ao tempo de propaganda eleitoral.

Em 2022, o PT se uniu ao PCdoB e ao Partido Verde, enquanto o PSOL se juntou à Rede Sustentabilidade e o Cidadania se uniu ao PSDB. A próxima disputa eleitoral deverá inaugurar uma nova utilização do mecanismo, segundo o especialista em direito eleitoral Alexandre Rollo.
“Acredito que essa federação esteja sendo criada para terem uma bancada maior, principalmente na Câmara dos Deputados e no Senado, e com isso terem maior peso político nas negociações de ministérios e no Congresso Nacional”, sugere Alexandre.

Apesar da estratégia, na avaliação do cientista político Marco Teixeira, as questões regionais deverão se intensificar diante da disputa de poder local, principalmente em lugares onde há histórico de enfrentamento direto entre as siglas.

“Essa união vai mostrar se ela veio para valer mesmo na escala regional. Onde cada partido está, digamos assim, num lado da polarização na disputa local”, avaliou. “O fato de você ter criado uma federação não significa que os parlamentares mudaram de posição”, destacou.

Nos bastidores, parlamentares já ameaçam deixar seus partidos como uma reação à federação. Outros integrantes das siglas, no entanto, avaliam que o maior problema – o desejo do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP) de comandar a federação – já foi solucionado com a definição de um rodízio entre os presidentes Antonio Rueda (União Brasil) e Ciro Nogueira (PP).

Para eles, a força que a federação ganha, visando as eleições de 2026, supera as divergências entre os dois partidos.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, o presidente do PT, Humberto Costa, enfatizou as diferenças entre as duas siglas no Nordeste, inclusive na relação com o governo Lula.

“O PP tem uma força no Nordeste e com muita proximidade com o Lula. Já o União sempre foi oposição muito mais forte. Quem segura mais a proximidade com o governo é Davi Alcolumbre (presidente do Senado e integrante do União Brasil). Acho que, com a federação, ficou um pouco mais distante. Acredito que, se o Lula estiver com candidatura forte (em 2026), esses partidos vão liberar participação nos Estados”, opinou.

O cientista político e professor da FGV Jairo Nicolau ressalta que a política “possui um componente estadual particular no Brasil”, que se organiza em torno da liderança dos caciques regionais. O problema, para Nicolau, é que as siglas unem adversários históricos.

“Quando houve a fusão do PSL com DEM, que virou União, já tivemos uma primeira parte de um conflito. Se você olhar retrospectivamente, três partidos viraram uma federação. Ou seja, o PSL juntou com o DEM, virou União, que se juntou com o PP”.

Em 2022, o Democratas (DEM), liderado pelo ex-prefeito de Salvador (BA) Antonio Carlos Magalhães (ACM) Neto (União Brasil), se fundiu com Partido Social Liberal (PSL), comandado por Luciano Bivar (União Brasil), criando o União Brasil. A junção, no entanto, gerou disputas internas no novo partido. A mais emblemática entre o atual presidente da sigla, c, e Bivar que tentou uma “virada de mesa” para evitar que Rueda assumisse o cargo em 2024.

Segundo integrantes das legendas, o caso mais problemático seria do Estado da Bahia, onde União Brasil e Progressistas acumulam divergências. No estado, o União Brasil tem como cacique ACM Neto, que disputou o governo em 2022. Por outro lado, uma ala do Progressista apoiou a candidatura do governador Jerônimo Rodrigues (PT), mesmo o partido compondo a coligação de ACM.
Aliados do diretório do União Brasil na Bahia minimizaram a situação sob a justificativa de que não haverá problemas, uma vez que o partido, que conta com 6 deputados no Estado, é maior que o PP, atualmente com 4.

Interlocutores do PP no Estado sinalizaram, no entanto, que pode haver “uma questão” sobre quem a sigla deveria apoiar para governador, mas disseram que isso deverá ser resolvido somente em 2026.
Outro Estado visto como problemático é São Paulo, onde já houve um impasse sobre quem comandaria o diretório. Maurício Neves (PP) chegou a divulgar uma nota anunciando que estaria à frente da federação em SP, mas foi rebatido por lideranças do União Brasil que defenderam o comando nas mãos do presidente municipal da sigla, Milton Leite (União Brasil).

Sob condição de anonimato, integrantes do PP usaram uma expressão para se referirem à disputa, dizendo que “o cara sem mandato na política, nem o vento bate nas costas”, fazendo referência a Leite que decidiu não se candidatar à reeleição na Câmara dos Vereadores, embora continue sendo um dos políticos mais influentes na cidade.

Interlocutores apontam que também deve haver divergências em Estados onde as siglas não entraram em acordo nas eleições de 2022. Na Paraíba, Pedro Cunha Lima (União Brasil), enfrentou João Azevedo (PSB), que foi reeleito com apoio do PP.

Em Campo Grande, o PP saiu vitorioso com Adriane Lopes sendo reeleita à frente de Rose Modesto (União Brasil). No Pernambuco, PP optou por apoiar Marília Arraes (PSD) contra Raquel Lyra (PSD), apoiada pelo candidato do União, Miguel Coelho (União Brasil), que foi derrotado no primeiro turno.

No Acre, a disputa foi interna entre o União. O então deputado federal, eleito senador, Alan Rick (União Brasil) declarou apoio ao governador Gladson Camello (PP), apesar de seu partido ter lançado Márcio Bittar (União Brasil).

Outro problema previsto pelos especialistas será o mando sobre os recursos financeiros, que ficam sob controle de quem comanda os diretórios. Para o cientista político e professor da FGV Jairo Nicolau, isso deverá abrir margem para possíveis conflitos sobre a distribuição e manejo do dinheiro.

“A gente sabe que vai haver pressão, vão dizer que estão sendo preteridos, o que a gente viu nas eleições municipais”, exemplificou, citando a federação Cidadania-PSDB. O Cidadania decidiu romper a federação com o PSDB diante de reclamações sobre a perda de espaço, como revelou a Coluna do Estadão.

Decisão gera movimentações em outras siglas
A superfederação entre União e PP também fez com que negociações avançassem entre outros partidos de centro-direita. O PSDB avalia uma fusão com Podemos, e mira uma possível federação com MDB e Republicanos, que conversam entre si.

Segundo interlocutores dos presidentes das siglas, Baleia Rossi (MDB) e Marcos Pereira (Republicanos), uma reunião entre os dois para discutir uma possível federação entre as legendas gerou impacto positivo entre as bancadas federais, e é vista como um enfrentamento à federação União Progressista, que poderá ficar mais atraente diante do tamanho da bancada, que chegará a 109 deputados, 14 senadores, seis governadores, além de cerca de R$ 950 mil anuais do Fundo Partidário. Integrantes da federação União Progressista esperam que a janela partidária, que permite aos políticos mudarem de partidos, traga novos nomes para as siglas.

No caso do MDB e do Republicanos, uma última reunião entre os líderes ainda deverá ocorrer para alinhar disputas regionais, como é o caso do Espírito Santo, onde o vice-governador Ricardo Ferraço (MDB) e o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), planejam disputar o governo estadual.

Na Paraíba, a disputa será pelo comando do diretório, que na avaliação de integrantes das siglas, deveria ir para as mãos do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos).

Ainda que as movimentações em torno das federações como estratégia eleitoral e de composição do Congresso estejam ganhando forma, o cientista político Antonio Lavareda destacou a complexidade operacional dessas uniões. “Apesar de maximizar a chance de crescimento das bancadas, são 27 unidades da federação, você tem 54 organismos dirigentes tendo que se acomodar aí dentro”, relembrou.

No entanto, essa pulverização pode dificultar a formação de maiorias estáveis e a articulação de políticas públicas, comprometendo a governabilidade.

Para o especialista em Direito Eleitoral, Antônio Carlos de Freitas, a falta de regulação provoca desorganização intrapartidária. “Como o poder se organiza intrapartidariamente, intrafederação, ainda é mal regulado, desorganizado, dependente muito do estatuto”, afirma. A consequência disso, para Freitas, é um processo de degeneração dos partidos, que deveriam, em tese, ser unidades programáticas.

“À medida que o fenômeno partidário no Brasil está avançando, cada vez mais está virando uma mera coligação. O União se juntou com PP, sem discutir programa, é só por uma estratégia eleitoral. Tudo isso que era a missão do partido político, no Brasil, está sendo jogado fora”, alertou.

“Você vai votar num partido, num deputado de um partido, e elege outro que não tinha a menor afinidade. As pessoas começam a perder o mínimo de identidade, o mínimo de noção e consciência sobre quem estão votando”, concluiu.

Adriana Victorino/Estadão Conteúdo

Descontos da Conafer saíram de R$ 400 mil (2019) para R$ 202 milhões (2023)


charge de Thiago Lucas (@thiagochargista), para o Jornal do Commercio. #INSS  #corrupção #aposentados #aposentadoria #dinheiro #governo #lula #brasil  #chargejc #chargejornaldocommercio #chargethiagojc #chargethiagolucas  #chargethiagolucasjc

Charge de Thiago Lucas (@thiagochargista).

Patrik Camporez
O Globo

O INSS recebeu, em junho de 2022, um ofício com uma série de relatos de descontos não autorizados em aposentadorias e pensões em favor da Confederação Nacional de Agricultores Familiares (Conafer), que registrou o maior aumento no volume de deduções em benefícios de 2019 a 2024. A entidade, alvo de uma investigação da Polícia Federal, informou estar revisando todos os seus cadastros de associados.

Os descontos do INSS destinados à Conafer saíram de R$ 400 mil em 2019 para R$ 202 milhões em 2023, segundo dados da Controladoria-Geral da União (CGU). As deduções, de modo geral, foram suspensas no mês passado, quando houve a operação da PF que trouxe à tona suspeitas de desvios de recursos. A entidade nega qualquer irregularidade.

DENÚNCIAS INÚTEIS – Um ofício relatando suspeitas de irregularidades foi enviado ao INSS por outra entidade do setor, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que disse que vinha recebendo diversas denúncias feitas por aposentados e pensionistas rurais de “descontos indevidos de mensalidade associativa em favor da Conafer”.

O documento foi dirigido pela Contag ao então presidente do INSS, Guilherme Serrano, e ao então diretor de Benefícios do órgão, Sebastião Faustino.

Procurado, Faustino disse que se recorda do ofício e deu encaminhamento administrativo para que a Conafer se manifestasse. Afirmou, porém, não saber informar o desfecho, pois deixou a diretoria naquele ano. Serrano e o INSS não responderam.

PROVAS ABUNDANTES – Ao INSS, a Contag enviou extratos de benefícios contendo descontos destinados à Conafer, declarações de aposentados informando que não reconheciam essas autorizações e boletins de ocorrência.

O Jornal Nacional revelou, na quinta-feira, que uma testemunha no caso dos descontos contou à Polícia Civil do Distrito Federal, em 2021, que a Conafer adulterou documentos para deduzir recursos de aposentadorias.

Procurada, a Conafer respondeu que está revisando seus cadastros “para identificar ocorrências de eventuais impropriedades nos processos associativos de maneira a esclarecer as autoridades sobre qualquer espécie de inconsistência conforme reportagens vêm apontando”.

GRAVIDADE DOS FATOS – “Diante da gravidade dos fatos relatados, solicitamos ao INSS que sejam adotadas medidas urgentes para coibir a continuidade de tal prática abusiva contra os aposentados e pensionistas rurais”, alertava o documento da Contag, que atua no mesmo segmento da Conafer, de aposentados rurais.

A Contag também foi alvo de da operação da PF deflagrada no fim de abril para apurar suspeitas de descontos indevidos em aposentadorias e pensões. A entidade afirmou em nota que, a partir de 2021, passou a receber denúncias de descontos sem autorização e que repassou esses fatos “inúmeras vezes” ao INSS e órgãos de controle.

“Por isso somos favoráveis à investigação e apuração de todas as irregularidades e punição dos responsáveis”, sustenta a Contag.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Cadê a prisão preventiva desses saqueadores? Cadê o bloqueio dos bens dessa gentalha? Cadê o Xandão, o vingador dos tribunais superiores? O que houve? Se evaporaram? (C.N.)


Zambelli enfrenta abandono e teme mulheres na prisão após década sob turbilhão

 Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados/Arquivo

Carla Zambelli18 de maio de 2025 | 07:25

Zambelli enfrenta abandono e teme mulheres na prisão após década sob turbilhão

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Em outubro de 2015, oito manifestantes ficaram algemados, durante nove dias, nas pilastras do salão verde da Câmara dos Deputados, em Brasília. O objetivo era pressionar o então presidente da Casa, Eduardo Cunha, à época no MDB, a aceitar um dos 37 pedidos de impeachment contra Dilma Rousseff (PT). Entre os acampados estava Carla Zambelli, a líder do protesto, que mobilizava a militância com entradas ao vivo pela internet.

“A gente perguntava para os políticos: ‘você é a favor do impeachment?’ Se fosse, ele assinava um painel”, lembra a deputada federal do PL, em entrevista por videoconferência, horas antes de ser considerada culpada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) pelos crimes de falsificação ideológica e invasão de dispositivo informático.

Uma década depois do protesto “Algemados pelo Impeachment”, Zambelli, 44, pode ser presa, agora no sistema penitenciário.

No entendimento dos ministros do STF, a deputada, que foi a face do bolsonarismo no Congresso até cair no ostracismo logo depois das eleições de 2022, orientou o hacker Walter Delgatti a invadir o sistema do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) para forjar documentos falsos, entre os quais um mandado de prisão para o ministro Alexandre de Moraes, e causar tumulto político no país.

Caso os recursos da defesa não sejam acatados, a deputada perderá o mandato, ficará inelegível e cumprirá a pena de dez anos de prisão, seguindo a decisão unânime dos cinco ministros da Primeira Turma do STF. Delgatti, por sua vez, foi condenado a oito anos de prisão.

“Eu tenho um pouco de receio das outras mulheres na cadeia, né? Porque eu nunca sei o que vou encontrar, mas eu também luto, então não tenho medo de apanhar. O maior problema é ficar longe da família”, diz a deputada, relatando temer por sua saúde.

Ela afirma ter recebido o diagnóstico de três doenças: síndrome de Ehlers-Danlos, que causa hipermobilidade nas articulações, síndrome de taquicardia postural ortostática, que provoca tontura e aumento da frequência cardíaca quando alguém se levanta, e depressão. Zambelli diz nunca ter cometido qualquer crime e afirma ser vítima de uma perseguição, mas sua vida política está ameaçada também por outros dois processos.

Em janeiro, o TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral) decidiu cassar o seu mandato por desinformação eleitoral. Dois meses depois, o STF formou maioria para condená-la a cinco anos de prisão em regime semiaberto por porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal. Na véspera do segundo turno das eleições, a parlamentar ameaçou atirar em um homem, nos Jardins, na zona oeste paulistana, depois de ter sido, segundo conta, hostilizada por um militante de esquerda. Foi o começo da derrocada de Zambelli.

Não tardou para que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) atribuísse sua derrota eleitoral, há três anos, àquele episódio. Pouco a pouco, a parlamentar viu se afastarem seus antigos aliados, a tal ponto de se dizer abandonada pelo próprio Bolsonaro. “Não me arrependo de ter apoiado ele”, diz. “Eu me arrependo de ter entrado de cabeça em alguns processos, como ter pedido impeachment dos ministros do STF.”

À medida que a condenação à prisão se tornava uma realidade, Zambelli viu acenos de alguns integrantes do PL, que pedem à Câmara a suspensão da ação penal contra ela.

A parlamentar diz, de todo modo, que Bolsonaro nunca mais a procurou. Afirma ter o apoio da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro. “Se ela for candidata à Presidência, sim, apoiaria, com certeza.”

Antigos aliados de Zambelli em Brasília foram procurados pela reportagem, mas nenhum deles aceitou conceder entrevistas. A orientação era deixar o líder do partido na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), comentar o caso. “Lealdade e fidelidade são as principais marcas de Zambelli. É uma condenação política”, afirma ele, que se diz amigo da deputada desde “quando ela se amarrou nas colunas da Câmara”.

Não se falava de política na casa onde Zambelli nasceu em Ribeirão Preto, no interior paulista. Filha de uma pedagoga e de um administrador, ela é a caçula da família. Seus irmãos são o deputado estadual Bruno Zambelli (PL) e a professora de direito constitucional do Mackenzie Paula Zambelli — que, segundo Carla, é de esquerda. A parlamentar afirma ter hoje boa relação com a irmã.

Na juventude, a deputada ingressou na faculdade de arquitetura, mas não concluiu o curso porque, segundo a versão dela, a maioria da classe era gay e queria que ela se tornasse bissexual. Estudou planejamento empresarial e trabalhou na KPMG, uma multinacional que atua como auditoria.

Há dez anos, descobriu um tumor no cérebro e, impossibilitada de trabalhar, resolveu aprofundar a sua militância com o Nas Ruas, movimento que fundara em 2011, famoso pela atuação nas Jornadas de Junho de 2013. Passou a liderar protestos pelo impeachment de Dilma. Nessa época, sua pauta era anticorrupção. Zambelli chegou a ser vista em um protesto no Femen Brazil, mas ela nega ter integrado o grupo.

Outro manifestante a descreve como ativista com capacidade de comunicação incomum. Lembra que Zambelli tomou a iniciativa de criar bonecos infláveis com os rostos de políticos, a fim de evidenciar as pautas dos protestos.

A deputada diz que se tornou se direita a partir do encontro com duas figuras: o jurista Ives Gandra Martins, que lhe indicou livros, e o pastor Marcos Feliciano, hoje deputado pelo PL, que a apresentou à pauta de costumes.

A eleição de Zambelli em 2018, com 76 mil votos, foi reflexo do Nas Ruas. Já a reeleição, quando foi a terceira mais votada no país, com mais de 946 mil votos, deveu-se a uma estratégia digital arrojada.

Um assessor afirma que a relação entre ela e Bolsonaro sempre foi assimétrica: o ex-mandatário nunca a tratou com a mesma consideração.

Diz ainda que Zambelli não ouvia ninguém e que chegou a receber recado da alta cúpula do Judiciário para abaixar o tom das críticas. Relata também desequilíbrio emocional da parlamentar e um jeito histriônico de fazer política. Em Brasília, ela aprovou seis projetos de lei de sua autoria, entre eles o dia de combate à fenilcetonúria, doença metabólica rara.

Nesses dois mandatos, fez alguns inimigos. Não à toa, ela conta guardar um caderno intitulado “ICC – Ingratos Com Certeza”, que tem 30 nomes. A deputada teve um mal-estar com o senador Sergio Moro (União Brasil), padrinho de seu casamento com o coronel Aginaldo de Oliveira — Zambelli tem um filho de 17 anos, fruto de um primeiro relacionamento.

Moro, então ministro da Justiça de Bolsonaro, divulgou uma troca de mensagens entre os dois para mostrar não ter condicionado uma mudança no comando da Polícia Federal a uma indicação ao Supremo.

Já a ex-deputada federal Joice Hasselmann comemora a condenação de Zambelli. “O STF está fazendo a justiça, o que a Câmara devia ter feito e não fez”, afirma. As duas foram amigas, mas brigaram logo que Joice rompeu com Bolsonaro.

Zambelli afirma que não se arrepende de ter entrado na política. “Entraria de novo, porque acho que fiz diferença”, afirma. “Sempre tive o sonho de ser senadora, mas, diante de tudo isso, aí já é um sonho que provavelmente não vou realizar.”

Gustavo Zeitel/Folhapress

STF ouve ex-comandante do Exército em primeira audiência de testemunhas da trama golpista

 Foto: Antonio Augusto/Arquivo/Ascom/STF

Plenário do STF18 de maio de 2025 | 12:54

STF ouve ex-comandante do Exército em primeira audiência de testemunhas da trama golpista

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A Primeira Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) inicia nesta segunda-feira (19) a fase de depoimentos das testemunhas do processo sobre a trama golpista que tem o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e outros réus.

As primeiras pessoas a serem ouvidas serão as indicadas pela PGR (Procuradoria-Geral da República), com destaque para o ex-comandante do Exército general Marco Antônio Freire Gomes.

O militar foi o primeiro a confirmar à Polícia Federal que Bolsonaro o convocou para uma reunião no Palácio da Alvorada, em dezembro de 2022. Ele disse aos investigadores que o então presidente apresentou aos chefes militares o documento que ficou conhecido como minuta golpista, que previa intervenção no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) após as eleições.

“Que confirma que o conteúdo da minuta de decreto apresentada foi exposto ao declarante nas referidas reuniões. Que ressalta que deixou evidenciado a Bolsonaro e ao ministro da Defesa [general Paulo Sérgio Nogueira] que o Exército não aceitaria qualquer ato de ruptura institucional”, disse Freire Gomes, segundo o termo de depoimento.

O ex-chefe do Exército afirmou à Polícia Federal que o documento apresentado por Bolsonaro tinha conteúdo idêntico à minuta de decreto encontrada na casa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres —também réu pela trama golpista.

O general conta ainda que o chefe da Marinha, almirante Almir Garnier Santos, teria concordado com a proposta de ruptura democrática apresentada pelo ex-presidente.

“Que ele e Baptista [Júnior, ex-chefe da Aeronáutica] afirmaram de forma contundente suas posições contrárias ao conteúdo exposto. Que não teria suporte jurídico para tomar qualquer atitude. Que acredita, pelo que se recorda, que o almirante Garnier teria se colocado à disposição do presidente da República”, disse o militar, segundo a PF.

O depoimento de Freire Gomes foi uma das bases da denúncia da PGR contra o núcleo central da trama golpista —o órgão fatiou a denúncia segundo o que seriam os grupos de atuação.

Freire Gomes e o ex-chefe da Aeronáutica foram as únicas testemunhas do círculo militar que admitiram ter conhecimento das conspirações no Palácio da Alvorada no fim de 2022.

As declarações do ex-comandante do Exército se tornaram conhecidas em março de 2024, quando ele já estava na reserva. Ele decidiu submergir diante de sua exposição pública.

A Folha conversou com sete oficiais-generais que conviveram com Freire Gomes no fim de 2022. O sumiço do ex-comandante é motivo de preocupação para alguns. No fim do último ano, um grupo de oficiais até planejou fazer uma confraternização para reencontrar colegas.

O encontro tinha como único objetivo integrar Freire Gomes após um longo período distante do QG do Exército. Ficou acertado que pediriam pizza. O general comunicou que não iria, e o evento acabou cancelado.

Outro oficial-general próximo de Freire Gomes disse que o encontrou somente uma vez após o fim do governo Bolsonaro. Conversaram amenidades por duas horas enquanto bebiam uísque. Não tocaram no assunto das investigações da Polícia Federal.

São diversos os motivos pelos quais o depoimento de Freire Gomes é um dos mais esperados pelas pessoas envolvidas no processo sobre a trama golpista.

A acusação espera que o general reforce o testemunho sobre as pressões por um golpe de Estado que recebeu no fim de 2022. As defesas pretendem aproveitar possíveis deslizes do militar para questionar seu depoimento. Os generais querem o fim do processo para o colega voltar aos círculos militares.

Os depoimentos devem ter início às 15h desta segunda. A imprensa poderá acompanhar a audiência por videoconferência dentro do plenário da Primeira Turma do STF —com a proibição de gravar áudios e vídeos do depoimento, sob pena de responsabilização criminal.

O primeiro dia de audiências terá os depoimentos de Freire Gomes, Clebson Ferreira de Paula Vieira (ex-integrante do Ministério da Justiça), Adiel Pereira Alcântara (ex-diretor da PRF) e Éder Lindsay Magalhães Balbino (dono de empresa contratada pelo PL para fiscalizar o processo eleitoral).

O ex-comandante da Aeronáutica brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Júnior teve o depoimento adiado para quarta-feira (21). Ele está em viagem, fora do país.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, havia indicado o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), como a última de suas testemunhas. O procurador desistiu da inquirição do emedebista na sexta (16).

As testemunhas das defesas só serão ouvidas após as pessoas indicadas pela acusação. O Supremo vai dedicar duas semanas para os depoimentos.

Como a Folha mostrou, as audiências com as testemunhas arroladas pelas defesas correm o risco de ficarem esvaziadas, pois o ministro Alexandre de Moraes decidiu não intimar as pessoas indicadas pelos réus —assim, a presença deixa de ser obrigatória.

Para contornar a dificuldade, as defesas dos réus têm recorrido a estratégias diversas para garantir a presença das testemunhas. Algumas têm notificado as pessoas por um aviso de recebimento, e outras procuram os depoentes individualmente e tentam convencer da importância da participação na audiência.

Cézar Feitoza/Folhapress

Ex-ministro diz que Bolsonaro já gastou metade da vaquinha de R$ 17 milhões e pede novas doações

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil/Arquivo
Gilson Machado18 de maio de 2025 | 16:32

Ex-ministro diz que Bolsonaro já gastou metade da vaquinha de R$ 17 milhões e pede novas doações

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Ex-ministro do Turismo e Cultura do governo Bolsonaro (PL), Gilson Machado afirmou que o ex-presidente já gastou metade dos R$ 17,2 milhões recebidos de apoiadores via Pix há dois anos e, por isso, decidiu lançar uma nova campanha nas redes sociais para pedir doações.

O dinheiro, afirmou o ex-ministro, servirá para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) pagar advogados, despesas pessoais e os gastos do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos, onde ele está desde março alegando perseguição do STF (Supremo Tribunal Federal).

“Em praticamente um ano, já se foi gasto com advogado, com despesa, com tudo, quase oito milhões de reais”, disse Machado. Em 2023, apoiadores fizeram uma vaquinha para arrecadar dinheiro para que Bolsonaro pagasse multas judiciais aplicadas durante a campanha eleitoral.

Bolsonaro recebe quase R$ 100 mil em dinheiro público por mês. São R$ 12.307,85 de pensão como capitão reformado do Exército, R$ 41.563,98 mensais de aposentadoria da Câmara dos Deputados e mais de R$ 40 mil como presidente de honra do PL, bancados com o fundo partidário.

O ex-ministro disse que tomou a iniciativa de fazer uma nova campanha por conta própria, ao ouvir de Bolsonaro que metade do dinheiro recebido com a vaquinha já foi gasto e que as despesas subiram.

“Agora está tendo o Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, que ele está ajudando também, e que não é barato morar nos Estados Unidos”, disse Machado.

À Folha, o deputado licenciado disse que ainda não tem data para voltar ao Brasil.

Raphael Di Cunto/Folhapress 

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