terça-feira, outubro 18, 2022

Jornalismo - a hora de virar o jogo




A sociedade está cansada do clima de militância que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação.

Por Carlos Alberto Di Franco (foto)

Escrevo esta coluna no campus da Universidade de Navarra, Espanha. Estou participando do VII Encontro Internacional do Programa de Graduados Latino-Americanos (PGLA). Um evento formidável, com muitos colegas de prestígio no mundo da comunicação.

O cenário do consumo de informação preocupa. E muito. Exige reflexão, autocrítica e coragem. Todos, sem exceção, percebem que chegou para o jornalismo a hora da reinvenção.

A sociedade está cansada do clima de militância que tomou conta da agenda pública. Sobra opinião e falta informação. Os leitores estão perdidos num cipoal de afirmações categóricas e pouco fundamentadas, declarações de “especialistas” e uma overdose de colunismo. Um denominador comum marca o achismo que invadiu o espaço outrora destinado à informação qualificada: radicalização e politização. Trata-se de um fenômeno generalizado.

O jornalismo reclama alguns valores essenciais: amor pela verdade, paixão pela liberdade e uma imensa capacidade de sonhar e de inovar. Eles resumem boa parte da nossa missão e do fascínio do nosso ofício. Hoje, mais do que nunca, numa sociedade polarizada e intolerante, precisam ser resgatados e promovidos.

As redes sociais e o jornalismo cidadão têm contribuído de forma singular para o processo comunicativo e propiciado novas formas de participação, de construção da esfera pública, de mobilização da sociedade. Suscitam debates, geram polêmicas (algumas com forte radicalização) e exercem pressão. Mas as notícias que realmente importam, isto é, as que são capazes de alterar os rumos de um país, são fruto não de boatos ou meias-verdades disseminadas de forma irresponsável ou ingênua, mas resultam de um trabalho investigativo feito dentro de padrões de qualidade, algo que deve estar na essência dos bons jornais.

O jornalismo sustenta a democracia não com engajamentos espúrios, mas com a força informativa da reportagem e com o farol de uma opinião firme, mas equilibrada e magnânima. A reportagem é, sem dúvida, o coração da mídia.

Jornalismo independente reclama liberdade. Não temos dono. Nosso compromisso é com a verdade e com o leitor. Mas a reinvenção do jornalismo passa por uma imensa capacidade de sonhar. É preciso vencer comportamentos burocráticos, reconhecer a nossa crise e tratar de virar o jogo. O fenômeno da desintermediação dos meios tradicionais, por exemplo, teve precedentes que poderiam ter sido evitados, não fosse o distanciamento da imprensa dos seus leitores, sua dificuldade de entender o alcance das novas formas de consumo digital da informação e, em alguns casos, sua falta de isenção informativa e certa dose de intolerância.

Os leitores, com razão, manifestam cansaço com o tom sombrio das nossas coberturas. É possível denunciar mazelas com um olhar propositivo. Pensemos, por exemplo, na ignominiosa situação da corrupção. É preciso reverter um quadro que agride a dignidade humana, envergonha o Brasil e torna inviável o futuro de gerações. Não seria uma bela bandeira, uma excelente causa a ser abraçada pela imprensa?

Com seriedade e profundidade, e não como consequência do jogo político. Em vez de ficarmos reféns do diz-que-diz, do blá-blá-blá inconsistente, das intrigas e da espuma que brota nos corredores de Brasília, que não são rigorosamente notícia, mergulhemos de cabeça em pautas que, de fato, ajudem a construir um país que não pode continuar olhando pelo retrovisor.

Não podemos viver de costas para a sociedade real. Isso não significa ficar refém do pensamento da maioria. Mas o jornalismo, observador atento do cotidiano, não pode desconhecer e, mais do que isso, confrontar permanentemente o sentir das suas audiências. A verdade, limpa e pura, é que frequentemente a população tem valores diferentes dos nossos.

A internet, o Facebook, o Twitter e todas as ferramentas que as tecnologias digitais despejam a cada momento sobre o universo das comunicações transformaram a política e mudaram o jornalismo. Queiramos ou não. Precisamos fazer a autocrítica sobre o nosso modo de operar. Não bastam medidas paliativas. É hora de dinamitar antigos processos e modelos mentais ideológicos. A crise é grave. Mas a oportunidade pode ser imensa.

A violência, a corrupção, a incompetência e a mentira estão aí. E devem ser denunciadas. Não se trata, por óbvio, de esconder a realidade. Mas também é preciso dar o outro lado, o lado do bem. Não devemos ocultar as trevas. Mas temos o dever de mostrar as luzes que brilham no fim do túnel. A boa notícia também é informação. A análise objetiva e profunda, sem viés ideológico, é uma demanda dos leitores. E, além disso, é uma resposta ética e editorial aos que pretendem tornar o jornalismo refém da fácil cultura do negativismo.

A imprensa de qualidade, séria e independente, é essencial para a democracia. E tudo isso, tudo mesmo, depende da nossa coragem e da nossa humildade para fazer a urgente e necessária autocrítica.

Chegou a hora do jornalismo propositivo. Aquele que não se limita a mostrar os problemas, mas vai além: aponta alternativas e soluções.

O Estado de São Paulo

"Pintou um clima", pedofilia em Marajó e a armadilha da moralidade nas eleições.




Não bastava falar de refugiadas venezuelanas em situação de pobreza, também precisava acrescentar, falsamente, que estavam sendo prostituídas. 

Por Diogo Schelp (foto)

A campanha de Jair Bolsonaro à reeleição aposta a maior parte de suas fichas na ideia de superioridade moral em relação ao adversário, o ex-presidente Lula. Para além do histórico de corrupção e de presidiário, o petista é apresentado como abortista, contra a família, contra os cristãos e a favor das drogas, entre outras posições que atentam contra a moralidade da sociedade brasileira.

A maior parte das acusações contra a moralidade é falsa. Não há nada que indique que Lula pretenda perseguir cristãos, por exemplo. O ditador nicaraguense Daniel Ortega é amigo de Lula e persegue católicos? Sim, é verdade. Mas isso não significa que o brasileiro vai fazer a mesma coisa. O presidente Jair Bolsonaro considera-se aliado da monarquia da Arábia Saudita e até chamou o príncipe herdeiro e primeiro-ministro de lá, Mohammed bin Salman, de "irmão". Mas isso não significa que Bolsonaro pretende matar jornalistas opositores e esquartejá-los dentro de embaixadas, como fez o regime saudita controlado por bin Salman.

A campanha de Bolsonaro nem precisa fazer acusações diretas ao petista em sua exploração do temor da perda da moralidade por parte dos eleitores brasileiros. Basta espalhar o pânico em cima da ideia de uma suposta degradação moral que avança sorrateiramente, com a conivência de forças ocultas, nem sempre bem explicadas, mas de alguma forma associada à esquerda.

Foi, ao que tudo indica, o que fez a ex-ministra e senadora eleita Damares Alves, na semana passada. Damares falou que tinha conhecimento de um esquema de tráfico humano para exploração de crianças, que envolvia tortura com dentes arrancados e alimentação pastosa para a prática forçada de sexo. Disse que tinha até fotos das atrocidades. E que quando Bolsonaro mandou investigar os casos, "o inferno se levantou".

O problema é que não existem as tais evidências das mutilações de crianças para exploração sexual. Existem, sim, investigações sobre pedofilia, exploração de menores e outros crimes. Mas o Ministério Público do Pará informou que, de 100 mil casos de exploração sexual de crianças e adolescentes investigados nas últimas décadas, nenhum tem as características descritas de ex-ministra, que se viu obrigada a mudar sua versão da história. Em vez de evidências, ela passou a dizer que ouviu os relatos "nas ruas". Se é assim, então ela estava basicamente ajudando a disseminar boatos para associá-los, de maneira torta, sub-reptícia, à oposição política contra Bolsonaro.

Em seguida, foi a vez de Bolsonaro cair na armadilha da moralidade como arma eleitoreira. Em entrevista agora censurada a um podcast, ele falou mais uma vez sobre o risco de o Brasil virar uma Venezuela e, para ilustrar o perigo, contou que, durante um passeio pela periferia do Distrito Federal, encontrou meninas venezuelanas arrumadas, na sua interpretação, "para ganhar a vida", sugerindo que eram exploradas sexualmente.

"Parei a moto numa esquina, tirei o capacete e olhei umas menininhas, três, quatro, bonitas; de 14, 15 anos, arrumadinhas num sábado numa comunidade. E vi que eram meio parecidas. Pintou um clima, voltei, 'posso entrar na tua casa?' Entrei. Tinha umas 15, 20 meninas, sábado de manhã, se arrumando — todas venezuelanas. E eu pergunto: meninas bonitinhas, 14, 15 anos se arrumando num sábado para quê? Ganhar a vida. Você quer isso para a tua filha, que está nos ouvindo aqui agora? E como chegou neste ponto? Escolhas erradas."

A declaração não foi tirada de contexto, como foi feito, por exemplo, em vídeo da campanha petista com uma fala de Bolsonaro sobre a possibilidade de comer carne humana. É exatamente o que se lê acima: para falar sobre a miséria dos venezuelanos, que se viram obrigados a fugir da ditadura chavista, Bolsonaro contou sobre uma visita que fez a uma casa na periferia do Distrito Federal, em abril de 2021, onde encontrou meninas de 14 e 15 anos, com quem sentiu que "pintou um clima". Todo mundo sabe o que significa "pintou um clima". Em todas acepções da expressão, há um cunho romântico/sexual.

Há duas hipóteses para esse episódio. A primeira é que tudo aconteceu exatamente como Bolsonaro descreveu no podcast. E aí é muito, muito grave, porque o presidente sentiu que "pintou um clima" entre ele e meninas de 14 ou 15 anos que, na sua visão, estavam arrumadas para a prostituição. E também porque, se ele achou que estava diante de uma situação de exploração sexual de menores, deveria ter denunciado o fato às autoridades competentes para averiguação — o que, segundo consta, não foi feito.

A segunda hipótese é a de que Bolsonaro fez um relato fantasioso do episódio, com o intuito de acrescentar o elemento da pedofilia ao espantalho de moralidade antipetista (dentro da lógica de equiparar o adversário ao regime chavista). Não bastava falar de refugiadas venezuelanas em situação de pobreza, também precisava acrescentar, falsamente, que estavam sendo prostituídas. E isso também é grave pois revela o presidente mentindo e expondo indevidamente as meninas venezuelanas.

O mais provável é que a segunda hipótese seja a verdadeira. Isso porque a história de que as meninas eram exploradas sexualmente já foi desmentida por algumas das próprias venezuelanas que estavam na casa no dia da visita surpresa do presidente, por amigos e vizinhos delas e por uma cabeleireira que, naquela ocasião, havia levado alunos do Centro Técnico de Treinamento Underground da Beleza, de Paranoá, para treinar as técnicas de graça na residência das venezuelanas, como parte de um projeto social. Ou seja, as meninas estavam tendo um dia de "beleza" não para se arrumar para "ganhar a vida", como afirmou o presidente, mas como parte de uma ação social para valorizar a autoestima de pessoas humildes.

Além disso, o próprio presidente mudou sua versão sobre o episódio, eliminando o comentário sobre "pintar um clima" e sobre "ganhar a vida". Ele agora se vê injustamente acusado de pedofilia. E voltou para a versão anterior da história, que foi objeto de uma live dele próprio na ocasião do ocorrido, em que nada menciona sobre "exploração sexual".

Em sua cruzada para espalhar o pânico do risco à moralidade nacional, associando esse perigo ao contexto eleitoral, à sua "guerra contra mal", Bolsonaro chegou ao ponto de criar novas versões, com detalhes sórdidos, sobre fatos que ele já relatou ou explorou de forma completamente diferente no passado. É grave o suficiente. Não precisava nem ter "pintado um clima".

Não é Mito. É mitomania.

Gazeta do Povo (PR)

"Hiroshima digital": cibersegurança e democracia.




Mais do que ameaças nucleares, vivemos sob a sombra de um “Hiroshima digital”, perante o risco de um ataque de larga escala às infraestruturas essenciais. 

Por Rodrigo Adão da Fonseca (foto)

Nas últimas duas décadas, pessoas, empresas e instituições públicas aderiram massivamente às soluções digitais pelas facilidades que elas nos trazem. Vivemos uma revolução digital onde novas tecnologias nos simplificam processos, aproximam pessoas, ampliam oportunidades. A tecnologia tem vindo a alterar os comportamentos das pessoas, a integrar cadeias logísticas, a facilitar meios de pagamento, prestação de serviços, acesso acelerado à informação, patrocinando novas formas de entretenimento e até a forma de trabalhar.

Novas oportunidades trazem, no entanto, novas ameaças.

Por várias razões, não temos sido tão eficientes na tutela das ameaças quanto na adesão às vantagens do mundo digital.

Desde logo, há uma barreira difícil de ultrapassar: enquanto as vantagens são imediatamente tangíveis e percetíveis, as ameaças nem sempre são fáceis de antecipar e identificar. Se a isso acrescermos os graves problemas de alfabetização digital que ainda subsistem na maioria das pessoas que navegam nos ambientes digitais, e a própria estrutura da internet, pensada e projetada para ser resiliente e eficaz, mas não segura, temos um ambiente estruturante muito favorável para a afirmação do crime cibernético.

O cibercrime está, além disso, cada vez mais sofisticado e criativo, pelo que a luta conta o mal muitas vezes faz-se com armas desiguais.

Por fim, há razões orçamentais significativas: as pessoas, o Estado e as empresas tendem a investir no digital pelas vantagens, mas nem sempre sobram recursos adequados para a segurança, o que se traduz necessariamente em riscos acrescidos.

O cenário, hoje, não é muito auspicioso. Grande parte de nossas infraestruturas essenciais estão conectadas em redes públicas e dependentes de sistemas digitais, assentes numa internet projetada para ser resiliente e compartilhada, mas insegura, vulneráveis ​​a ataques executados por agentes ao serviço de Estados com o objetivo de colocar em risco o nosso modo de vida. Para muitos, soa estranho que, em 2022, a tecnologia seja ela própria a antecâmara da nossa debilidade, e que as nossas liberdades estejam tão fragilizadas pela adesão massiva que fizemos a todo um conjunto de possibilidades que visam pretensamente melhorar as nossas vidas. Nas últimas décadas demos por adquiridas e irreversíveis certas conquistas políticas, ignorando – ou simplesmente esquecendo ou negligenciando – que as liberdades sempre foram ao longo da História conquistas dos povos, dos cidadãos. A promoção das liberdades nunca foi ao longo dos tempos desejada por quem exerce o Poder, algo que permanece até hoje. A tecnologia criada sem o escrutínio da lei e sem o polimento dos valores imanentes à humanidade tem em si um potencial totalitário, que os Estados, mesmo aqueles que se dizem democráticos, não deixam de explorar. Acresce que, no momento atual, algumas das grandes potências cibernéticas, como a Rússia, a China ou a Coreia do Norte, não bebem de nossa conceção de liberdade. E mesmo a maior potência global, os EUA, tem uma visão de democracia e de certos direitos fundamentais nem sempre alinhada com a europeia, valorizando abordagens securitárias a meu ver bastante questionáveis.

O poder cibernético desses Estados é significativo: basta pensar na capacidade das brigadas cibernéticas chinesas, batizadas de “Advanced Persistent Threats” ou “APT”, equipadas com satélites, soldados com competência para programar código e produzir malware específico, e com capacidades de processamento quase ilimitadas; ou no que tem sido a ação das agências russas de desinformação nas últimas décadas. Neste particular, valerá a pena recordar, a título de exemplo, o que a Europol escreveu, num relatório divulgado a 3 de Abril de 2020, no início da pandemia, sobre o aumento da desinformação em torno do COVID-19 levada a cabo não só por organizações criminosas, mas também por Estados e atores apoiados por Estados, procurando explorar a crise de saúde pública para obter não apenas lucros mas também para promover interesses geopolíticos, com consequências potencialmente prejudiciais para a saúde pública e para a comunicação eficaz da crise pandémica.

A forma como massivamente agências de desinformação ao serviço dos Estados totalitários exploraram as potencialidades da internet para amplificar o medo e promover visões do apocalipse, bloqueando a racionalidade e empurrando os governos para uma ação política muitas vezes indesejada por quem teve de assumir o papel odioso de decidir, contribuiu – resta saber, com que intensidade – para o atual estado de fragilidade económica e social com que temos agora, nas sociedades livres, de emergir no pós-Covid. Pense-se, ainda, no contexto da atual guerra entre Ucrânia e Rússia, como reagirão as nossas democracias se na sequência de um ciberataque na Europa ficarmos, por exemplo, sem comunicações móveis, ou sem acesso à energia, durante quatro ou cinco semanas. Certamente muitas pessoas acabarão por questionar a posição da Europa na guerra, não só alterando o curso atual dos acontecimentos, como o apego futuro em relação à liberdade: o nosso modo de vida é, num mundo digital, a maior fraqueza das sociedades livres, pois é aqui que os nossos adversários tentarão tirar vantagem, protagonizando ataques, para impor as suas agendas totalitárias. Por isso tenho afirmado que, mais do que ameaças nucleares, vivemos sob a sombra de um “Hiroshima digital”, perante o risco de um ataque de larga escala às infraestruturas essenciais que causariam um enorme dano ao nosso modo de vida e às sociedades de bem-estar que são o pilar das nossas democracias.

O mundo não vai voltar atrás, não vai haver menos digital no futuro. Se a nossa integração digital tende a aumentar, o que temos de perceber é como queremos organizar, com mais segurança e liberdade, este novo ambiente emergente, que veio para ficar.

Precisamos urgentemente entender que se o mundo está a mudar radicalmente, e de forma acelerada, por causa da nossa adesão ao digital, a sociedade, o modo de funcionamento dos Estados, das empresas e dos próprios cidadãos deve seguir o novo paradigma. Temos de saber pensar o presente e os pilares do futuro segundo os novos pressupostos, e não tentar emular o novo mundo segundo as regras e cânones de um tempo que se tornou obsoleto. O primeiro grande passo para inverter a curva crescente de riscos e ameaças – e até dos desafios do nosso bem-estar – não é tecnológico, mas epistemológico e – importa dizê-lo – ético: se há uma rutura civilizacional – porque estamos perante uma revolução industrial recheada de disrupções –, temos de ganhar equidistância e pensar o mundo como ele é, hoje, e em termos do futuro que se avizinha, em vez de continuarmos tão ancorados na pesada herança que naturalmente temos do que vem de trás, em muitas áreas onde as regras do passado não funcionam mais. Por exemplo, as estruturas de segurança, a forma de legislar ou a regulação, o trabalho, a previdência social, a prestação dos serviços públicos, hoje, e para o futuro, não podemos continuar a pensar todas estas expressões da realidade da mesma forma como as víamos no passado.

Nesse campo, os poderes públicos têm enormes responsabilidades. Desde logo, porque lhes cabe compreender como podem os recursos que são de todos acompanhar as mudanças, seja na tutela dos novos riscos, seja reorganizando a resposta pública às necessidades e aos problemas. Do mesmo modo, e porque é no plano legal que se fará a conformação da tecnologia, cabe à lei assegurar que no futuro o digital se alinha com os valores éticos e humanos que fazem parte do nosso padrão civilizacional, (sendo nesse campo de louvar o esforço europeu, na aprendizagem de perceber como se legisla sobre tecnologia).

Os que defendem, porém, como eu, que a pessoa precede o Estado, e que o papel fundamental na defesa dos nossos direitos e do nosso modo de vida é da responsabilidade de cada um de nós, não devem deixar de referir que cabe sobretudo às sociedades civis e aos cidadãos comuns reforçar as literacias necessárias para exigir e defender o património de valores que coloca as democracias liberais ao serviço das pessoas, travando a concentração de poder, em Estados e “big corporations”, de dimensão estatal, que resulta do modelo cibernético atual.

Nota final: Por estes dias muitos assinalaram o centenário do nascimento de Agustina Bessa-Luís, personalidade maior de um país cuja mediania ela nunca se cansou, com erudição e requintado humor, de desmontar. Quem leia o que por aqui vou escrevendo sabe da minha predileção por uma escritora com quem tenho inúmeras afinidades, e que não me canso de citar. Desde logo, afinidades familiares. Mas também de pensamento, de uma forma de ver as coisas que me é próxima pelas origens e referências. Separam-nos cinquenta anos. Une-nos o Porto. O desprendimento de quem não se levava demasiado a sério, mas sempre escreveu vinculada à verdade. A consciência de se ter nascido adulto desejando morrer criança. O gosto por Dostoievski. Nas obras de Agustina, que a perpetuam, nenhuma frase é supérflua ou vazia, tudo tem um sentido e um valor. Certo dia o meu pai, depois de a ouvirmos falar sobre a economia do tempo, mostrou-me uma lista com todos os livros que desejava ler durante a vida, uma lista imensa que o levou à seguinte conclusão: “não viverei o suficiente para ler tudo o que gostaria, por isso, faz como nós, não percas tempo com má literatura, ela impede-te de ler o que realmente te interessa”. Numa época onde a moralidade é crescentemente uma fachada de aparência, vazia de referências reais, escreveu, “na nossa sociedade, que se entende por permissiva, não há afinal homens exemplares. Há só leis que substituem o exemplo; há só alíneas morais que estão em vez dos atos reais e da sua humanidade”. Esta frase, que alinha, com uma outra, de Sir IsaiahBerlin (“no luxuryand no comfort, no delightand no pleasure, no newlibertyand no newdiscovery, no praiseand no flattery, whichwemayenjoyonourjourney, willmeananything to usifwehaveforgottenthepurposeofourtravels, andtheendofourlabours”), ainda hoje me persegue nas ações do quotidiano. No centenário do seu nascimento, presto-lhe aqui a minha homenagem, celebrando a sua obra e recordando a sabedoria quase aristotélica de uma das suas frases mais célebres: “Fim – o que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa”.

Observador (PT)

Política externa fora da lei




Por Demétrio Magnoli (foto)

Crimes de guerra — assim Josep Borrell, o diplomata-chefe da União Europeia, classificou a chuva de mísseis russos lançada sobre cidades e infraestruturas civis ucranianas. Simultaneamente, na Assembleia Geral das Nações Unidas, uma larga maioria aprovava resolução condenando as anexações russas (143 contra cinco, com 35 abstenções). O Brasil, que escolheu a abstenção diante de texto similar apresentado ao Conselho de Segurança, acabou votando favoravelmente. Entre a incoerência e a vergonha absoluta, o governo Bolsonaro escolheu a primeira.

Será o fim da cínica “neutralidade” mantida ao longo de mais de sete meses? Improvável. Sob Bolsonaro, nem mesmo crimes de guerra em série convenceram o Brasil a apoiar, ainda que verbalmente, as sanções contra a Rússia e a assistência financeira e militar à Ucrânia. A “solidariedade” prometida a Vladimir Putin expressa-se na prática, sob a forma de oposição às iniciativas concretas destinadas a proteger a nação invadida.

Sobram, nos meios acadêmicos brasileiros, esforços de justificação teórica da posição de “neutralidade pró-Rússia”. Os analistas executam acrobacias históricas e filosóficas. Escreve-se que a fonte da guerra é a expansão da Otan, que a segurança russa depende do controle de Moscou sobre a Ucrânia, que o ucraniano é um dialeto regional russo, que inexiste uma nação ucraniana.

Tais teses reproduzem as alegações laterais putinistas para a guerra imperial — e ignoram as motivações imperiais explícitas do chefe do Kremlin, expressas no discurso que anunciou a invasão. No fundo, constituem apenas elucubrações ideológicas primitivas. Mas, de fato, mesmo que fossem corretas, não serviriam para sustentar a posição brasileira.

O fundamento mais básico da política externa das nações democráticas é a lei — a lei internacional e a lei constitucional. A guerra russa viola frontalmente a Carta da ONU, algo que se tornou indiscutível após o decreto de anexações de províncias ucranianas. A Constituição define a “independência das nações” e a “autodeterminação dos povos” como princípios de nossas relações internacionais. Com sua neutralidade de araque, o governo Bolsonaro pratica uma política externa que despreza o Direito Internacional e o contrato constitucional.

As sanções à Rússia e a assistência à Ucrânia, pelo contrário, alinham-se à lei internacional. No artigo 51, a Carta da ONU consagra o direito à “autodefesa coletiva” — o direito de todas as nações de defender, inclusive por meio de ajuda militar, uma nação agredida. A transferência de material bélico ao país agredido não converte os países que o apoiam em partes do conflito militar. É falsa a afirmação difundida pelos propagandistas do Kremlin de que a Rússia encontra-se em guerra com a Otan.

Bolsonaro não liga para a lei, nacional ou internacional. Tudo indica que um futuro governo Lula também a desprezará, ao menos no campo da política externa. Meses atrás, Lula esboçou sua “neutralidade” ao responsabilizar igualmente Putin e Volodymyr Zelensky pela guerra de agressão russa. Há pouco, foi adiante, alinhando-se com o discurso atual do Kremlin.

— A gente só ouve que os Estados Unidos vão colocar mais armas, que a Otan vai colocar mais armas, quando na verdade a gente precisa ter um conjunto de pessoas falando em paz — disse Lula.

Aí, pela voz de Lula, ouvem-se os ecos das mais recentes declarações de Putin. Numa ponta, Putin alerta que a ajuda militar à Ucrânia ultrapassa uma “linha vermelha” russa. Na outra, volta a pedir negociações de paz, não sem explicar que as anexações russas são “inegociáveis”. A paz putinista — que é a paz lulista —equivale ao triunfo da potência que iniciou uma guerra imperial de conquista.

—Caso a Rússia pare de combater, a guerra acaba. Mas, caso a Ucrânia pare de combater, a Ucrânia acaba — sintetizou o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken.

O Brasil putinista de Bolsonaro e Lula não quer a paz, como alega, mas uma “paz russa” — a eliminação da Ucrânia como nação soberana — provocada pelo fim da ajuda militar ocidental.

Carta da ONU? Constituição? O Brasil putinista não dá a mínima para a lei.

O Globo

Eleições 2022: os cinco temas que dominaram o debate entre Lula e Bolsonaro




Durante debate, Lula e Bolsonaro usaram maior parte do tempo para falar sobre pandemia, fake news e corrupção

Os candidatos à Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) participaram no domingo (16/10) do primeiro debate na corrida do segundo turno.

No encontro, transmitido pela TV Bandeirantes e um "pool" de outros veículos, os candidatos se enfrentaram diretamente em três blocos e durou quase duas horas.

Entre os principais temas discutidos pelos presidenciáveis estão pandemia, fake news, economia e benefícios sociais.

Apesar da tensão nas campanhas, o debate teve poucos momentos mais acalorados — o que se refletiu, por exemplo, no número relativamente baixo de pedidos de direito de resposta, ao contrário do que ocorreu no último debate do primeiro turno.

Em alguns momentos, Lula administrou mal o tempo que poderia usar para responder e questionar o adversário dele. No terceiro bloco, por exemplo, Lula esgotou o tempo dele quando Bolsonaro, que tenta a reeleição e está atrás nas pesquisas, ainda tinha mais de cinco minutos para falar.

A última pesquisa feita pelo instituto Datafolha, divulgada na sexta-feira (16/10) mostrou Lula com 49% das intenções de voto contra 44% de Bolsonaro. O segundo turno das eleições presidenciais acontecerão no dia 30 de outubro.

Confira abaixo uma seleção feita pela BBC News Brasil de alguns trechos do que foi discutido no debate.

Pandemia

O primeiro bloco do debate entre os presidenciáveis foi tomado pelas discussões sobre a pandemia. De um lado, Lula responsabilizou Bolsonaro por mais de 400 mil mortes de brasileiros que, segundo ele, poderiam ter sido evitadas e teriam sido causadas diretamente por atraso na compra de vacinas.

"O Brasil tem 5% da população mundial e 11% das mortes. Por que houve tanta demora para comprar vacina?", questionou o petista.

Bolsonaro se defendeu dizendo que não atrasou a vacina, pois "não havia venda em 2020".

'O primeiro bloco do debate entre os presidenciáveis foi tomado pelas discussões sobre a pandemia'

"No Brasil, em janeiro de 2021 começaram a vacinar. Todos aqueles que quiseram se vacinar, se vacinaram. E o Brasil foi um dos países que vacinou mais rápido", afirmou o candidato do PL.

Lula, então, retrucou dizendo que esse "é um fato de concreto" de que a negligência de Bolsonaro levou brasileiros à morte na pandemia.

"A verdade é que o senhor debochou, o senhor gozou das pessoas e deixou as pessoas morrerem afogadas por falta de oxigênio em Manaus. Apareceu na TV imitando pessoas sem ar."

Bolsonaro, então, atacou Lula afirmando que "tem um vídeo de Lula dando graças a Deus que à natureza criou a covid".

"O que eu fui contra é protocolo do sr. Mandetta (então ministro da Saúde), que mandava à pessoa irem pra casa até sentir falta de ar. A vacina não é para quem está contaminado - é para quem ainda não foi", disse.

Bolsonaro também acusou o PT e políticos do Nordeste de corrupção na pandemia.

Benefícios sociais

Bolsonaro iniciou o debate dizendo que o Auxílio Brasil será mantido de "forma vitalícia", caso ele seja reeleito e que o PT era contra o benefício.

Lula respondeu dizendo que o PT havia feito proposta de Auxílio maior antes da determinação dos 600 reais. "O presidente só propunha 200 reais", disse o petista.

O petista disse ainda que "se souber planejar vai ter dinheiro para fazer as coisas" e fala em aprovar uma reforma tributária.

O ex-presidente citou feitos do seu governo: "Fizemos a maior política social que esse país já teve, geramos 22 mi de empregos" e cita criação de universidades. E questionou Bolsonaro sobre quantas universidades ele fez em seu governo.

Bolsonaro disse que "não tinha cabimento abrir universidade para ficar fechada (na pandemia)" e disse que deu anistia a dívidas do Fies.

Fake news

Uma declaração de Bolsonaro, dada em entrevista a um podcast, causou polêmica nas redes sociais nesta semana após ele narrar um episódio em que teria visto adolescentes venezuelanas em situação de vulnerabilidade no Distrito Federal. Vídeos mostram o presidente dizendo que "pintou um clima" ao passar pelas meninas que, segundo ele próprio, teriam entre 14 e 15 anos.

Bolsonaro aproveitou a pergunta de um jornalista para tocar no tema e chamar a campanha de Lula de mentirosa.

"O seu programa, influenciado por Gleisi Hoffmann, me acusou de pedofilia, tentando me atingir naquilo que tenho mais de sagrado: a defesa da família brasileira, defesa das crianças", afirmou Bolsonaro.

'Bolsonaro usou decisão de Alexandre de Moraes para dizer que campanha de Lula usou fake news'

E usou uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tomada pelo ministro Alexandre de Moraes, que mandou excluir vídeo sobre as meninas e também proibiu que o PT o use em sua campanha.

"O sr. Alexandre de Moraes dá uma sentença contrária a essas mentiras. Diz a sentença aqui: 'A postagem realizada pela representada Gleisi Hoffmann (que representa o PT), em 15 de outubro, agora, se descola da realidade por meio de inverdades, fazendo uso de recortes em encadeamentos inexistentes de falas gravemente descontextualizadas do representante Jair Bolsonaro, com o intuito de induzir o eleitorado negativamente. Tal contexto evidencia a divulgação de fato'."

Lula, por outro lado, diz que o adversário dele tem 36 processos por fake news

"A imprensa publica fartamente que pelo menos seis ou sete mentiras por dia são contadas (por Bolsonaro). Brinca-se de contar mentira. Levanta de madrugada, tem vontade, vai e conta uma mentira, faz uma live e conta uma mentira, sabe? Levanta até uma hora da manhã para fazer live", afirmou o petista.

Meio ambiente

Outro tema muito debatido entre Bolsonaro e Lula foi o meio ambiente, principalmente o desmatamento na Amazônia.

Lula afirmou que o Brasil era reconhecido como um país que preservava o meio ambiente.

"O Brasil participou da COP-15, em Copenhagen, e de um encontro em Paris, em que era elogiado porque era o país que menos desmatava e que mais cuidava da questão ambiental. Não existiu nenhum governo que fizesse o que a gente fez na questão ambiental", afirmou.

O candidato petista dise que, caso seja eleito, vai implantar políticas de preservação que vão atrair investimento internacional para o país.

"E agora nós vamos fazer mais, porque nós vamos fazer com que a agricultura de baixo carbono possa fazer com que o Brasil receba, quem sabe, muito dinheiro da União Europeia e de outros países, por conta do sequestro de gás de efeito estufa que nós vamos fazer preservando a Amazônia, coisa que você (Bolsonaro) não sabe. Nós vamos tentar fazer da biodiversidade da Amazônia uma forma de enriquecimento daquele povo", afirmou.

'Lula e Bolsonaro debateram sobre o interesse estrangeiro na Floresta Amazônica'

Já Bolsonaro disse que a intenção do candidato petista é dar parte da riqueza da Floresta Amazônica a outros países.

"Lula, tu acabou de dizer, há poucas semanas, que ia dividir a biodiversidade da Amazônia com o mundo. Você já está se curvando ao mundo. Em vez de você falar que a Amazônia é nossa, você quer dividir a nossa biodiversidade", afirmou Bolsonaro.

O candidato à reeleição disse ainda que Lula não executou políticas para proteger a floresta durante os anos em que ele e Dilma Rousseff foram presidentes do país.

"Em 14 anos, você não fez nada. Está prometendo que vai fazer pela Amazônia agora? Você não fez nada! Você passeou por aí, nas suas viagens, mas nada além disso", disse.

Corrupção

Lula disse que houve corrupção no governo Bolsonaro durante a compra de vacinas, algo que foi investigado por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).

"O senhor atrasou a vacina, depois tendo um processo inclusive de corrupção definido e denunciado pela CPI. E o fato concreto é que a sua negligência fez com que 680 mil pessoas morressem quando mais da metade poderia ter sido salva. A verdade é que o senhor não cuidou, debochou, riu, dizia que quem tomava vacina virava jacaré, virava homossexual, que não podia tomar vacina. O senhor gozou das pessoas, imitou as pessoas morrendo afogada por falta de oxigênio em Manaus", disse o petista.

Bolsonaro disse que Lula mentiu e disse que "não teve corrupção porque não teve vacina no Brasil". E retrucou dizendo que o PT se envolveu em corrupção durante a pandemia.

"Corrupção fez o seu partido na covid. Quando chegou na CPI a notícia de 50 milhões de reais desviados do sr. Carlos Gabas, ex-ministro de Dilma Rousseff, que passeava de bicicleta com ela, a CPI, dos seus amigos Renan Calheiros e Omar Aziz, não quis investigar. 50 milhões torrados em uma casa de maconha, não chegou nenhum respirador, e daí sim irmãos nordestinos morreram por falta de ar, por corrupção do sr. Carlos Gabas, deixar bem claro, e, em especial, o seu governador da Bahia, Rui Costa", afirmou o candidato à reeleição.

BBC Brasil

O ambicioso plano de Xi Jinping no Congresso do PCC




Presidente chinês resumiu em discurso as conquistas do governo nos últimos cinco anos. Taiwan, seguranças nacionais, autossuficiência foram tema no evento em que Xi prepara o caminho para um terceiro mandato.

Por William Yang

Em tom triunfante, o presidente chinês, Xi Jinping, destacou as conquistas de sua sigla durante a abertura do 20º Congresso do Partido Comunista Chinês (PCC) neste domingo (16/10). E prometeu uma série de reformas e mudanças visando promover o rejuvenescimento da nação chinesa.

Ao discursar para cerca de 2.300 membros do partido único, Xi defendeu a estratégia de zero covid, dizendo que as medidas de controle da pandemia "protegeram a vida e a saúde”, e que as decisões para impor o "governo dos patriotas” em Hong Kong ajudaram a mudar a situação da região "de caos para governança”.

Além disso, embora Pequim insista em lutar pela reunificação pacífica com Taiwan, nunca renunciaria à opção de usar a força para alcançar esse objetivo: "As rodas da história estão girando em direção à reunificação da China e ao rejuvenescimento da nação chinesa. A reunificação completa da pátria pode e deve ser alcançada."

Discurso sem muitos conflitos

Wen-Ti Sung, professor de Estudos Taiwaneses da Universidade Nacional Australiana, atualmente residente em Taipei, considerou discurso de Xi muito menos agressivo do que esperavam certos analistas: "Ele diz que a ‘reunificação completa da nação deveria e precisaria acontecer', mas é muito vago sobre como pretende fazer isso."

"Enquanto alguns analistas taiwaneses temiam que o presidente chinês apresentasse novas estratégias para resolver a questão com Taiwan, seu discurso sinaliza um desejo maior de preservar a continuidade, em vez de mudança. Ele mencionou determinação firme e capacidades fortes para se opor à independência de Taiwan, mas não especificou um plano ou cronograma. A intenção é aumentar ainda mais a ambiguidade quanto ao cronograma e à urgência da unificação com Taiwan."

Além de enfatizar o sucesso do Partido Comunista Chinês na superação de desafios, Xi também destacou "mudanças rápidas na situação internacional”, elogiando os esforços da legenda para "manter a equidade e a justiça internacionais, defender a prática do multilateralismo genuíno e se opor claramente a todos os tipos de hegemonia e políticas de poder”.

À medida que aumenta a tensão geopolítica entre a China e os países ocidentais liderados pelos Estados Unidos, Ian Chong, cientista político da Universidade Nacional de Singapura, afirma que a ênfase no multilateralismo significa que a China continuará desafiando e competindo com Washington. "Quando se fala de multilateralismo, muitas vezes significa que Pequim trabalhará por meio de instituições internacionais, principalmente as Nações Unidas e as agências da ONU, para combater o que considera influência dos EUA."

Ênfase em ideologia e autoconfiança

Embora o discurso seja amplamente visto como uma continuação das políticas do governo de Xi Jinping na última década, o cientista político Ian Chong considerou notável a ênfase do líder chinês em valores não tangíveis: "Uma das maneiras de Xi Jinping lidar com os desafios, inclusive com a desaceleração da economia e a rivalidade da China com os EUA, é enfatizar a disciplina e a ideologia partidária."

Durante o discurso, Xi descreveu o marxismo como a ideologia orientadora do PCC, e que é "responsabilidade histórica solene” dos membros do partido continuarem "abrindo novos capítulos na adaptação do marxismo ao contexto chinês”.

Ao apresentar a visão para os próximos cinco anos, em meio aos crescentes desafios econômicos, Xi disse que Pequim continuará a promover a prosperidade comum, melhorar a distribuição de riqueza e acelerar o desenvolvimento de um sistema habitacional. Ele também destacou a necessidade de crescimento por meio de uma economia de mercado socialista e estratégias de dupla circulação doméstica-internacional.

Buscando educação de classe mundial

Dexter Roberts, membro do Conselho do Atlântico, criticou o discurso de Xi por não explicar muito sobre o conceito de "prosperidade comum”: "Foi uma declaração sem muita informação, e não há muitos detalhes sobre como eles realmente vão fazer isso."

"Também acho que a prosperidade comum tem,  na liderança e na cabeça de Xi, um elemento de punição aos ricos. Muitas das repressões contra empreendedores e grandes empresas de tecnologia na China estão relacionadas à segurança econômica e de dados."

No entanto, Iris Pang, economista-chefe do ING para a China, acredita que Pequim está tentando colocar a prosperidade comum sob um novo signo, destacando a necessidade chinesa de construir uma educação de classe mundial, "e isso dará à geração mais jovem a oportunidades de subir na pirâmide da riqueza – e eles têm um canal para fazer isso adequadamente".

E com os EUA aumentando seus esforços para impedir o acesso da China a tecnologias de semicondutores, Xi prometeu se concentrar no "desenvolvimento de alta qualidade" que priorizaria educação, ciência e tecnologia: a China "acelerará a realização de um alto nível de autossuficiência científica e tecnológica e autoaperfeiçoamento".

Para Dexter Roberts, a ênfase de Xi na "autossuficiência" indica que Pequim quer provar que pode "seguir sozinho", embora possa ser um desafio. "Não acho que Xi entenda quão difícil seria para eles a nacionalização de alta tecnologia em sua cadeia de suprimentos."

Modernização militar e fortalecimento de "seguranças"

Ao lado da autossuficiência, Xi também enfatizou a importância de continuar os esforços de modernização militar, prometendo acelerar a "modernização da doutrina militar, a organização do Exército, dos militares, e de armas e equipamentos".

Xi destacou a importância de fortalecer uma ampla gama de "seguranças" no país, mencionando a palavra cerca de 50 vezes ao longo do discurso. Ele instou a China a fortalecer sua base de segurança nacional melhorando o sistema de alerta precoce e garantindo o fornecimento de alimentos e energia.

David Bandurski, codiretor do China Media Project,considera o conceito de segurança nacional um dos sinais mais claros do discurso. "É uma continuação completa do que vimos sob o governo de Xi. Podemos deduzir com relativa certeza que eles estão falando dos Estados Unidos, e parte disso se refere a preocupações internas de segurança do desenvolvimento ou do trabalho."

No geral, alguns especialistas acham que, com o discurso do domingo, Xi está ampliando a visão e a direção traçadas na última década. Para Holly Snape, especialista em política chinesa da Universidade de Glasgow, em vez de estabelecer novas metas, o discurso de Xi reforça uma visão estreita de "modernização definida pelo partido”.

'Congresso do Partido Comunista Chinês foi assistido até em restaurantes de Pequim'

Moldando a história para traçar o futuro

Snape acreditar ser "importante que Xi tenha liderado a elaboração do discurso, pois isso permitiu que ele aprofundasse e consolidasse o pensamento que começou a definir, principalmente em 2017”.

Bandurski, do China Media Project, acrescenta que o relatório político entregue por Xi no domingo serve, principalmente, para sinalizar o poder do presidente chinês e posicioná-lo na história do Partido Comunista. "A história está sempre bem na mira do Partido Comunista, e interpretar e expandir a história é realmente a chave para Xi sinalizar seu poder. Tudo gira em torno de contar a história básica de que os últimos cinco anos foram um grande sucesso e mostrar por quê.”

O Congresso do Partido Comunista é realizado a cada cinco anos, e até o fim do presidente chinês deverá garantir um terceiro mandato Na ocasião, o Partido Comunista Chinês também divulgará a formação de sua nova liderança.

Deutsche Welle

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