segunda-feira, setembro 19, 2022

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O deputado influencer e o presidente humorista




Político deve trabalhar, em vez de assediar jornalista e fazer comentário machista. 

Por Lygia Maria

A jornalista Vera Magalhães foi atacada pelo deputado Douglas Garcia. Filmando com o celular, o deputado acusou a jornalista de receber salário de R$ 500 mil para criticar Bolsonaro (uma falácia já esclarecida diversas vezes) e ainda a chamou de "vergonha do jornalismo brasileiro".

Se o deputado acha que há uso ilegal de verba pública, deve procurar os meios cabíveis para investigação. Deputado não assedia cidadão. Deputado não é influencer, que faz vídeo para ganhar like no Instagram. Deputado deve propor projetos de lei e fiscalizar o Executivo. Ou seja, deputado deve trabalhar.

O ataque faz parte do modus operandi bolsonarista em relação à imprensa e às mulheres. Bolsonaro já disse que não estupraria uma deputada porque ela é muito feia. Disse que uma repórter da Folha "queria dar o furo", imputando conotação sexual à atividade profissional. Estimulou o turismo sexual, falando que "quem quiser vir aqui fazer sexo com mulher, fique à vontade". Para ele, mulheres devem receber salários menores porque engravidam. Sem contar a famosa "fraquejada" porque teve uma filha. A lista é interminável.

Ao ser questionado, Bolsonaro sempre fala que é piada ou jeito de se expressar (mesma desculpa usada para a vacina que transforma as pessoas em jacaré e para a imitação grotesca de pacientes com falta de ar). Porém, assim como deputado não é influencer, presidente não é humorista. O chefe de Estado deve respeitar a liturgia do cargo e o princípio da moralidade. Por sinal, a partir desse princípio, a Justiça Federal condenou a União a pagar R$ 5 milhões de indenização por falas machistas de Bolsonaro.

Presidente não é humorista porque não governa para os fãs, governa para todos os cidadãos. O que um presidente fala e faz representa os valores da sociedade que governa e tem o poder de influenciar os governados. Queremos que o machismo seja valorizado e estimulado no Brasil? Essa é uma boa pergunta a ser feita na hora de eleger um governante.

Folha de São Paulo

Uma muralha atrás da outra




Sem munição, Bolsonaro enfrenta rejeição, má avaliação, dificuldade em SP e MG e... ele mesmo

Por Eliane Cantanhêde (foto)

O presidente Jair Bolsonaro terá de implodir várias muralhas para vencer em outubro, mas, seja qual for o resultado, já garantiu ineditismo. Se perder, será o único presidente derrotado na disputa pela reeleição. Se vencer, será o primeiro candidato a superar uma rejeição de mais de 50% a duas semanas das urnas.

E tem mais. Para derrotar o favorito nas pesquisas, Luiz Inácio Lula da Silva, Bolsonaro teria de implodir as muralhas que bloqueiam seu caminho com a mesma força com que detonou o teto de gastos, a responsabilidade fiscal e a lei eleitoral.

Ah! E sem apoio do Centrão, que foi uma mão na roda para aprovar a PEC da reeleição e os R$ 41 bilhões para comprar votos, mas não tem sido de grande valia para arrancar votos de Lula e dar para ele no Nordeste, por exemplo.

Se o poderoso Centrão não ajuda muito, Bolsonaro é o principal vilão da sua candidatura, falando bobagens, atacando segmentos do eleitorado e amedrontando a Nação. Não tem marqueteiro, general, pastor, grupo ideológico e comício com dinheiro público que deem jeito.

O resultado é nos índices das pesquisas. Como um candidato pode vencer se mais da metade do eleitorado diz que não vota nele de jeito nenhum? Como um presidente pode se reeleger se 44% dos eleitores consideram seu governo ruim ou péssimo e só 30% avaliam como bom e ótimo?

Nenhum candidato ganhou eleições com mais de 50% de rejeição nem com tal avaliação negativa. Na mesma fase de campanha, Fernando Henrique tinha 43% de ótimo/bom e 17% de ruim/péssimo; Lula, 48% e 17%; Dilma, 37% e 24%. Todos eram mais aprovados do que desaprovados, ao contrário de Bolsonaro.

Dizem a lenda e a realidade que todos os eleitos chegaram ao início da propaganda eleitoral na frente nas pesquisas, inclusive Bolsonaro em 2018. Em 2022, foi Lula. Também dizem a lenda e a realidade que só sobe a rampa do Planalto quem vence em Minas. Bolsonaro ganhou no Estado com 58% dos votos válidos. Hoje, está dez pontos atrás de Lula pelo Datafolha.

É a mesma diferença em São Paulo, onde Bolsonaro venceu com 68% dos votos válidos em 2018, mas está dez pontos atrás de Lula. Seu capital de votos esfarelou no maior colégio eleitoral do País e, como esgotou todo o seu arsenal, parte para a pancadaria na TV. Pode até aumentar a rejeição de Lula, mas não reduz a sua.

Num mato sem cachorro, e sem armas, o que Bolsonaro foi buscar em Londres e Nova York? Uma bala de prata, dinamite ou bomba atômica? Está difícil de encontrar.

O Estado de São Paulo

Homeschooling e eleições: por que Bolsonaro se alia a pais que querem ensinar filhos em casa




Bolsonaro em oração com famílias praticantes do homeschooling; seu programa de governo defende a primazia da família nas decisões da educação

Pesquisa mostra que maioria das famílias brasileiras se opõem a que pais possam retirar seus filhos da escola (acima, foto de criança estudando em casa durante a pandemia, em 2021)

Por Paula Adamo Idoeta, em Londres

Em 29 de agosto, já em campanha pela reeleição, o presidente Jair Bolsonaro (PL) dedicou a manhã a receber no Palácio do Alvorada famílias defensoras da educação domiciliar, que entoaram hinos religiosos e fizeram uma oração por um segundo mandato. Repetiu essa agenda com outro grupo semelhante de pais, em 8 de setembro.

No programa de governo de uma eventual reeleição, um dos pontos defendidos é "a premissa de que os pais são os principais atores na educação das crianças, e não o Estado".

Na Câmara dos Deputados, a base governista apoiou a aprovação, em maio, do projeto de lei que regulamenta a educação domiciliar - algo que estava entre as metas prioritárias do governo. O projeto agora tramita no Senado.

Essa modalidade de ensino, apesar de ter ganho proeminência inédita no atual governo, abarca por enquanto estimadas 35 mil famílias no país — uma quantidade ínfima perto dos cerca de 38 milhões de alunos matriculados na rede pública de ensino básico.

O que explica, então, essa relevância? E como o homeschooling é percebido pelo público em geral — seja ele apoiador ou não do atual governo?

'Menos Estado, mais família'

Pesquisadores observam que temas em discussão no ensino domiciliar se encaixaram com as bandeiras levantadas pelo governo — e dialogam até mesmo com um público mais amplo que o estritamente bolsonarista.

"O principal argumento da defesa desse modelo de ensino por Bolsonaro e pelo bolsonarismo é essa noção de que o ator que tem que decidir em primeiro plano sobre educação é a família, e não o Estado", aponta Fernando Romani Sales, que analisou o âmbito jurídico do homeschooling em sua tese de mestrado e hoje é pesquisador do Laut (Centro de Análise da Liberdade e do Autoritarismo).

Ele cita, nesse sentido, "a lógica neoliberal trazida ao plano social", de reduzir a presença do Estado na vida das pessoas.

"Talvez seja uma pauta que abrace diferentes eleitorados. Tem um público-alvo religioso que enxerga nisso uma forma concreta de traduzir anseios religiosos através do ensino, porque vai ter menos controle do Estado — mais de supervisão e fiscalização do que prestação direta do ensino. Mas tem um outro lado que dialoga muito com esses anseios que é essa ideia de combater ou evitar a suposta doutrinação da esquerda no ensino", pondera.

Ao mesmo tempo, existem limites para o quanto essa pauta de fato engaja o eleitorado — inclusive o religioso e conservador —, aponta Jacqueline Moraes Teixeira, professora do Departamento de Sociologia da UnB (Universidade de Brasília) e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e do Iser (Instituto de Estudos da Religião).

Ela cita duas pesquisas: a primeira delas, Mulheres evangélicas, política e cotidiano, conduzida pelo Iser. Muitas mulheres entrevistadas de fato manifestaram, segundo Teixeira, temor de que o Estado — no papel da escola — pudesse interferir nos valores defendidos pelas famílias, como suas crenças religiosas. Mas, mesmo assim, a educação domiciliar não foi vista como uma política pública viável para a maioria.

"Para grande parte das mulheres que a gente entrevistou, o homeschooling aparece apenas como uma espécie de liberdade individual, de decidir sobre os filhos. (Mas) quando a gente pergunta de fato sobre a aplicabilidade, todo mundo já entende que é uma realidade para poucos", afirma Teixeira à BBC News Brasil.

A segunda pesquisa, Educação, Valores e Direitos, foi conduzida pelo Datafolha em março deste ano, a pedido das organizações educacionais Cenpec e Ação Educativa.

Nela, 78% dos entrevistados opinaram que os pais não devem ter o direito de tirar seus filhos da escola e ensiná-los em casa. Nove em cada dez pessoas afirmaram que as crianças devem ter o direito de frequentar a escola mesmo que os pais não queiram.

Para a maioria da população, em particular de baixa renda, avalia Teixeira, o maior anseio ainda é por uma escola mais presente e melhor.

"Há a percepção de que a família é importante e que a mulher (porque muitos lares são chefiados por mulheres) precisa ter o poder de decisão por cima do Estado, mas também de que esse Estado precisa atuar mais. Há uma sensação não de presença ostensiva do Estado, como o homeschooling coloca, mas uma sensação de que esse Estado não existe, é completamente ausente."

Além disso, diz Teixeira, entre a população mais pobre, "a escola é um espaço de ascensão social". "Para essas famílias, é importante nutrir a crença de que a participação dos filhos na escola vai garantir que eles tenham acesso a uma condição socioeconômica melhor. Aí a gente percebe que o homeschooling tem muitas limitações quando a gente está pensando no engajamento de voto desse público que corresponde à maior parte da população, que não se enxerga como sendo de direita nem de esquerda."

'Garantia de direitos'

Para defensores do ensino domiciliar, não se trata de massificar a prática, mas sim de dar às famílias o que consideram ser o direito de escolher uma melhor forma de educar os filhos.

'Famílias praticantes do 'homeschooling' dizem defender direito de educar seus filhos em casa'

"Entendam que defendemos o direito das famílias a essa modalidade de ensino, não a obrigatoriedade. E estão asseguradas a convivência comunitária (das crianças) e a fiscalização por parte do Estado. Outros países têm experiências muito boas a esse respeito", escreveu no Twitter a ex-ministra da Mulher e Direitos Humanos e hoje candidata ao Senado pelo Distrito Federal, Damares Alves.

Ela foi uma das principais defensoras da pauta no atual governo e ajudou a difundi-la entre o público evangélico.

Por sua vez, a Aned (Associação Nacional de Educação Domiciliar) diz que é preciso tirar a discussão em torno do homeschooling "do campo ideológico e político".

"Não é uma questão de direita ou de esquerda, de cristão ou não cristão, é uma questão das famílias", diz à BBC News Brasil Ricardo Dias, presidente da Aned.

Nesse sentido, diz ele, a associação ao governo Bolsonaro se deu mais por uma oportunidade de ver a modalidade ser regulamentada do que por afinidade ideológica.

"São 28 anos que esse assunto é discutido (no Legislativo), 15 projetos de lei e uma PEC (proposta de emenda à Constituição). E existe uma ala da esquerda que coloca na cabeça das pessoas que isso é 'coisa de direita'. De repente aparece um candidato (Bolsonaro) que abraçou isso quando ainda era deputado. Como vamos recusar esse apoio? Pensa na esperança das famílias de ensino domiciliar (...) ao ter o apoio do Planalto. Não podemos recusar apoio nenhum. Se a (ex-presidente) Dilma tivesse apoiado também teríamos aceitado", afirma Dias.

Porém, Dias acredita que, "se um governo de esquerda assumir" no ano que vem, a pauta voltará a encontrar resistência.

O PT e outros partidos de oposição votaram contra o projeto de lei aprovado na Câmara em maio — um dos motivos argumentados é a obrigação constitucional do Estado de prover educação.

O projeto, aprovado por 264 votos a 144, criou regras para o homeschooling da educação infantil até o ensino médio. O texto prevê que ao menos um dos pais responsáveis pelo ensino precisa ter concluído o ensino superior, que sejam apresentados relatórios trimestrais das atividades pedagógicas e que as crianças passem por avaliações periódicas.

Por enquanto, na ausência da aprovação também no Senado, o homeschooling ainda é considerado uma prática ilegal no Brasil.

Em julgamento em 2018, o Supremo Tribunal Federal havia decidido que caberia ao Congresso aprovar ou não leis sobre o assunto.

'Educação personalizada'

E é um debate cheio de nuances.

O pesquisador Fernando Romani Sales lembra que, no caso que chegou à alçada do STF, o casal de Canela (RS) que pedia para educar sua filha em casa citava entre seus argumentos que se opunha à Teoria da Evolução de Darwin ser ensinada à menina — uma vez que a família acreditava na teoria religiosa do criacionismo.

"Entra na discussão sobre o que é Ciência — parece que se torna mais uma questão de preferência pessoal do que do consenso científico (que embasa o evolucionismo). Não é só uma questão de opinião, mas é colocado dessa forma, o que torna a coisa um pouco ardilosa", avalia ele.

'Fechamento das escolas também mudou a percepção dos pais sobre o tema, dizem observadores'

Ricardo Dias, da Aned, diz que a motivação religiosa é minoritária entre as famílias acompanhadas pela associação.

"Quando fizemos uma pesquisa com nossos associados, em 2017, um terço das famílias educadoras de todo o Brasil disse que o motivo principal é que queriam dar aos filhos uma educação personalizada", afirma.

A Aned defende que essa educação personalizada permite "explorar o potencial, dons e talentos de cada criança e adolescente", com teoricamente mais eficácia em relação ao ensino tradicional, e "proporciona amadurecimento, desenvolve disciplina de estudos e gosto pelo aprendizado".

"A preocupação religiosa existe, mas não foi a principal — foi mencionada por 10% das famílias na época", prossegue Dias.

"E no pós-pandemia, o quadro mudou bastante, pela nossa impressão. Temos sido procurados por pais que dizem que, ao terem que estudar com os filhos (durante o fechamento das escolas), descobriram que pagavam uma fortuna por um projeto pedagógico ruim. E houve também o inverso: de crianças que aprenderam mais rápido estudando em casa, com atenção individualizada. E os pais perceberam: 'caramba, eu consigo ir além de apenas ajudar meu filho a fazer lição de casa'."

Quanto à proeminência que um assunto tão minoritário ganhou no debate nacional, Dias rebate: "Faz sentido essa mentalidade para quem ama a escola. Mas então parem de emperrar uma pauta (a do homeschooling) que já deveria ter passado há muito tempo e de nos tratar como se fôssemos uma ameaça".

Mas, do outro lado, há argumentos jurídicos, pedagógicos e sociais.

"O direito à educação escolar é um direito da criança. (...) Mesmo como uma exceção para aqueles que assim o desejarem, (a educação domiciliar) é uma violação aos direitos da infância", afirma Romualdo Oliveira, diretor de pesquisa e avaliação do Cenpec.

"O segundo ponto é que a escola propicia uma socialização com uma pluralidade que a família não tem condições de propiciar. Isso é muito importante num mundo cada dia mais diverso e plural. Eu não vou conviver só com pessoas que têm a mesma religião que eu, da mesma classe social, dos mesmos valores, os mesmos comportamentos", diz.

"É uma necessidade da contemporaneidade que eu aprenda a aceitar as diferentes opções. Isso é uma socialização que só a escola propicia. As alternativas de socialização que os homeschoolers propiciam são entre iguais, e nesse sentido não é a necessária para se viver em uma sociedade como a nossa. Privar a criança disso é um grande problema."

Sobre o argumento de suposta "doutrinação" no ambiente escolar muitas vezes citado pelo bolsonarismo, Oliveira acha "fantasioso".

"É só você conviver com o magistério pra ver que não há homogeneidade ideológica (entre professores). É uma suposição que não tem nenhuma base na realidade", ele diz.

'Questões pessoais, religiosas e insatisfação com a qualidade do ensino são algumas das motivações que levam à escolha pelo ensino domiciliar'

Oliveira cita também a preocupação com o fato de que o homeschooling, ao ser regulamentado, passe a disputar recursos estatais — seja para políticas de fiscalização, seja para possíveis subsídios às famílias educadoras — que estão cada vez mais escassos no Ministério da Educação.

Por sua vez, Ricardo Dias, da Aned, diz que "nenhuma das famílias pediu nenhum tipo de recurso" e que "quanto menos o Estado interferir, melhor". Sobre a socialização, ele argumenta que seus dois filhos, educados em casa, "hoje estão na universidade, felizes e sociáveis".

Romualdo Oliveira cita também um quarto ponto: "A tarefa de educar é para profissionais. O professor estudou, se formou no conteúdo específico da disciplina, ele estudou a didática, e por mais escolarizados que os pais sejam, não vão ter condições de suprir esse tipo de especialização. É um processo de rebaixamento do ensino oferecido aos estudantes".

"A proeminência que isso (o homeschooling) adquiriu no debate educacional tem muito a ver com o estímulo que o Bolsonaro dá a essa temática pelo seu acordo com determinados grupos evangélicos e pela ausência de outras propostas educacionais deste governo", opina.

Oliveira defende ainda que, ao menos no que diz respeito à educação pública, "a população é bem menos conservadora do que os conservadores querem nos fazer crer".

Ele cita o fato de que, também na pesquisa encomendada ao Datafolha, 70% dos entrevistados opinaram que a escola está mais preparada que os pais para explicar temas como puberdade e sexualidade.

Segundo a pesquisadora Jacqueline Teixeira, apesar de haver medo entre as famílias de que a escola propicie uma iniciação sexual precoce das crianças, "ao mesmo tempo se defende que a escola precisa ter esse papel em alertar, proteger e coibir a violência sexual dentro dos núcleos familiares. (...) Tem um reconhecimento de que a escola é um agente de proteção."

Já a ex-ministra Damares Alves questionou esses argumentos. Em diferentes entrevistas, afirmou que ela própria foi "barbaramente abusada no âmbito da escola", que a educação domiciliar seria uma "opção para a melhoria do ensino" e que a socialização das crianças pode ocorrer em outros ambientes que não o escolar.

Enquanto o assunto tramita no Senado, Ricardo Dias, da Aned, diz explicar a todas as famílias que o procuram que podem, potencialmente, ser processadas por abandono intelectual dos filhos se não os matricularem em uma escola formal.

"Mas já acompanhei mais de 200 famílias processadas. Nem um pai até hoje perdeu a guarda ou foi preso por abandono intelectual por homeschooling. O pior cenário é ser processado e condenado a matricular o filho na escola. Veja a ironia disso, ser condenado à escola."

Fernando Romani Sales, por sua vez, destaca que o debate, por mais que tenha crescido no atual governo, não se limita a ele — uma vez que os agentes envolvidos nessa discussão, assim como o próprio movimento conservador, não são algo monolítico.

"Não significa que (a pauta) esteja atrelada só a este governo. E o conservadorismo de modo geral é um campo com muitos atores e forças políticas, e generalizações são um pouco perigosas. São sujeitos e forças se relacionando com o movimento conservador, inclusive que podem se alinhar a ele menos por ideologia e mais por conjuntura política", diz.

BBC Brasil

A violência pode aumentar na reta final do primeiro turno




Na reta final da campanha eleitoral, clube de tiros estão virando comitês eleitorais e muitos de seus integrantes fazem uso ostensivo de suas armas em eventos públicos

Por Luiz Carlos Azedo (foto)  

A pistola G2C 9mm tem carregadores de 12 munições e uma bala na câmara, para pronto emprego, sendo atualmente a arma compacta de porte velado mais vendida no Brasil. Custa em torno de R$ 3,8 mil no mercado legal de armas e pode ser comprada pela internet, parcelada em até 12 vezes no cartão de crédito. Nos Estados Unidos, custa US$ 200, pouco mais de R$ 1 mil. Quase todo bolsonarista raiz que se preza tem uma arma: as mais populares são as pistolas Taurus da linha G, a arma mais vendida no mundo.

Considerando o repasse da inflação, a receita da Taurus com a venda de armas cresceu 47,4% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Sua participação no mercado brasileiro de armas passou de 21,3%, no primeiro semestre de 2021, para 28,6%. Foram 186 mil armas vendidas no Brasil de janeiro a junho, um aumento de 17,7% em base anual.

A Taurus produziu 1,1 milhão de armas no primeiro semestre deste ano, sendo 702 mil na fábrica brasileira, um aumento de 1,7% em relação a igual intervalo de 2021. A receita líquida da empresa alcançou R$ 1,3 bilhão de janeiro a junho, um aumento de 9,2% ante mesmo intervalo de 2021.

Os irmãos Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro, senador pelo Rio, deputado federal por São Paulo e vereador carioca, respectivamente, são lobistas dos fabricantes de armas concorrentes da Taurus. Eduardo Bolsonaro tem conversado com gigantes estrangeiras do mundo dos armamentos e munições, como a alemã SIG Sauer e a italiana Beretta, para abrirem filiais no Brasil. Outras empresas do setor, como a austríaca Glock e a americana Smith & Wesson, também estariam interessadas em investir no país. A política de liberação do porte e uso de armas pelo presidente Jair Bolsonaro transformou o Brasil na fronteira do mercado de armas de pequeno porte para uso individual, em razão da multiplicação dos clubes de tiro.

“É uma situação que está fora do controle”, segundo o jornalista Leonardo Cavalcanti (SBTNews), pesquisador junto ao Núcleo de Estudos sobre Violência e Segurança da Universidade de Brasília (NevisUnB). De agosto de 2011 a julho deste ano, foram concedidas autorizações para 264.129 pessoas comprarem armas e munições, média de 795 por dia.

“O número é maior do que os efetivos das Forças Armadas (356 mil) e de policiais militares de todo o país (417 mil). O Brasil tem 700 mil pessoas aptas a andarem armadas, inclusive com armas bem mais potentes, como fuzis”, explica. O Exército não tem informações básicas sobre essas pessoas, como origem, gênero, idade ou renda salarial, no Sistema de Gerenciamento Militar de Armas (Sigma); também não tem acesso ao Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Infoseg) do Ministério da Justiça, utilizado pela Polícia Federal para checar se as pessoas têm antecedentes criminais.

O Estado brasileiro sempre teve dificuldades para exercer o monopólio da força. O conceito tem origem hobbesiana, inspirado na figura do Leviatã, o mito fenício relatado no Livro de Jó: um monstro gigantesco, meio dragão, meio crocodilo, que vivia num lago e tinha como missão defender os peixes mais fracos dos peixes mais fortes.

O inglês Thomas Hobbes fez essa analogia em 1651 (Leviatã), para responder a duas questões: como as sociedades foram formadas e como devem ser governadas. É dele a famosa frase em latim “homini lupus homini” (o homem é o lobo do homem), justamente por sermos egoístas e entrarmos em conflito uns com os outros.

Radicalização política

Apesar de egoístas, porém, temos racionalidade e “medo da morte violenta”. Para Hobbes, era possível abrir mão da liberdade total e fazer um pacto, o “contrato social”, para sair da vida solitária e selvagem — ou seja, do “estado de natureza” — e viver junto, sob um poder soberano, no “estado civil” — isto é, em sociedade. Entretanto, para isso, é preciso um poder que os obrigue a respeitar o contrato. O Estado sozinho, absoluto, não resolve o problema. É preciso garantir liberdade e direitos aos cidadãos contra a “ditadura da maioria”.

É aí que John Stuart Mill, no século XIX, ou seja, dois séculos depois, entrou em cena. Em Sobre a Liberdade (1859), Mill resumiu: o Estado deve preservar a autonomia individual e, ao mesmo tempo, evitar a tirania da maioria. Tudo é permitido ao indivíduo, desde que as suas ações não causem danos a terceiros.

Todas as pessoas podem desenvolver de maneira autônoma o seu projeto de vida; a sociedade deve proteger a liberdade de indivíduos se desenvolverem de modo autônomo e, em troca, os seus membros não devem interferir nos direitos legais alheios; os danos que são causados a outras pessoas têm como consequência uma punição proporcional.

Na reta final da campanha eleitoral, clube de tiros estão virando comitês eleitorais e muitos de seus integrantes fazem uso ostensivo de suas armas em eventos públicos, o que é uma forma de intimidação. Os casos de violência já estavam se multiplicando, principalmente, os feminicídios. A radicalização política também já registra mortes por motivos fúteis.

A violência tende a aumentar nas próximas duas semanas que antecedem as eleições de 2 de outubro. Houve reforço até da segurança dos juízes eleitorais. Mesmo os policiais civis e militares, no cumprimento de suas missões, estão com a vida em risco em razão da grande quantidade de armas nas mãos de indivíduos violentos.

Correio Braziliense

Em Londres para funeral da rainha, Bolsonaro faz discurso em tom de campanha e fala em vitória no 1º turno




Em viagem a Londres para o funeral da rainha britânica Elizabeth 2ª, o presidente Jair Bolsonaro fez discurso em tom de campanha e mencionou vitória em primeiro turno, embora apareça atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas de intenção de voto.

Por Laís Alegretti e Giovanni Bellon, em Londres

"Não tem como a gente não ganhar no primeiro turno", disse na manhã deste domingo (18/09) o presidente, em sacada da residência oficial do embaixador brasileiro em Mayfair, Londres.

O presidente iniciou a fala dizendo que se trata de um momento de pesar e falando em "profundo respeito pela família da rainha e pelo povo do Reino Unido". Disse que esse era o "objetivo principal", mas falou nos cerca de quatro minutos restantes sobre contexto político no Brasil e sobre sua plataforma de campanha (contrária à descriminalização do aborto e do consumo de drogas, por exemplo).

"A nossa bandeira sempre será dessas cores que temos aqui, verde e amarela", afirmou, ao lado de bandeira do Brasil a meio mastro. A frase faz uma referência a uma expressão popular entre seus apoiadores, de que a bandeira brasileira "jamais será vermelha" (cor associada ao comunismo e ao PT).

Bolsonaro chegou acompanhado do pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e do padre Paulo Antônio de Araújo. A comitiva presidencial inclui ainda o filho do presidente e deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e Fabio Wajngarten, ex-secretário de comunicação do governo Bolsonaro e membro da campanha de Bolsonaro à reeleição.

Questionados sobre Bolsonaro falar em campanha eleitoral em meio às cerimônias fúnebres da rainha, Wajngarten argumentou que o presidente iniciou sua fala hoje falando do funeral. Malafaia, por outro lado, disse que não dá para "fingir que não está tendo um processo eleitoral no Brasil".

O discurso de Bolsonaro foi acompanhado por um grupo de 100 a 200 pessoas, segundo a polícia londrina.

Após a fala dele, parte dos apoiadores do presidente hostilizaram jornalistas brasileiros que estavam no local, entre eles a equipe da BBC News Brasil.

Houve xingamentos, gritos e acusações de parcialidade. Não houve registro de violência física contra os jornalistas.

Em seguida, policiais londrinos passaram a escoltar os jornalistas nas proximidades da casa do embaixador brasileiro em Londres.

Quase duas horas depois, um grupo de manifestantes ligados às organizações Amazon Rebellion (rebelião amazônica, em tradução livre) e Brazil Matters (Brasil importa, em tradução livre) fez um protesto contra Bolsonaro. Os cartazes em inglês traziam dizeres como "Parem Bolsonaro pelo futuro do planeta" e "Bolsonaro é uma ameaça ao planeta e à humanidade".

Os ativistas começaram a ser hostilizados pelos apoiadores do presidente, e por isso a polícia londrina precisou separá-los para evitar uma escalada na violência.

'Polícia londrina precisou cercar manifestantes para evitar escalada da violência'

No Twitter, o jornalista britânico e editor de meio ambiente do jornal The Guardian Jonathan Watts disse: "O insensível, superficial e grosseiro Bolsonaro está tentando usar o funeral da rainha como uma parada de campanha eleitoral. Que vergonhoso representante do Brasil." O comentário de Watts foi feito em resposta a uma postagem do correspondente do jornal The Guardian no Brasil, Tom Phillips, que escreveu: "Bolsonaro decidiu marcar o funeral da rainha com discurso sobre gênero, ideologia, abortos e males do comunismo de sua sacada em Mayfair."

Em reação, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que integra a comitiva do presidente, escreveu que o jornalista britânico omitiu que Bolsonaro mencionou a rainha no início do seu discurso. E afirmou que "vocês se enterram sozinhos, sem credibilidade".

Agenda de Bolsonaro em Londres

Bolsonaro chegou à capital inglesa na manhã deste domingo e deve deixar a cidade na segunda-feira (19/09), em direção a Nova York, onde participará da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

Em Londres, está previsto que Bolsonaro faça uma visita à câmara ardente em Westminster, onde o corpo da rainha está sendo velado, por volta das 10h (horário de Brasília). Pouco depois, o presidente brasileiro deve assinar o livro de condolências.

'Bolsonaro vai ao velório da rainha acompanhado da primeira-dama, Michelle, e do pastor Silas Malafaia'

Por volta das 13h (horário de Brasília), Bolsonaro deve comparecer à recepção real acompanhado da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e possivelmente de um tradutor.

O Itamaraty não soube informar se Bolsonaro terá em seguida algum compromisso com aliados ou seus apoiadores em Londres.

No dia seguinte, segunda-feira (19/09), Bolsonaro participará da cerimônia fúnebre da rainha (exéquias) por volta das 7h (horário de Brasília). Haverá logo em seguida uma recepção para os convidados estrangeiros promovida pelo governo britânico.

Horas depois, Bolsonaro deve seguir para os EUA. Ainda não há informações sobre o horário exato do voo do presidente, mas ele deve ocorrer por volta das 13h (horário de Brasília).

'Corpo da rainha está sendo velado em câmara ardente de Westminster'

Funeral da rainha: quem foi convidado e quem não foi

Os convites para o funeral da rainha foram enviados poucos dias depois da morte dela, e espera-se que compareçam quase 500 chefes de Estado e dignitários estrangeiros ao funeral na Abadia de Westminster, que tem capacidade para cerca de 2,2 mil pessoas..

Além de Bolsonaro, diversos líderes mundiais já chegaram a Londres para as cerimônias em torno do funeral da rainha. Entre eles, Joe Biden (presidente americano), Justin Trudeau (primeiro-ministro canadense) e Jacinda Ardern (primeira-ministra neozelandesa).

A lista de convidados ao funeral da rainha gerou polêmica no Reino Unido. Houve críticas ao convite feito ao príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, por causa das acusações de envolvimento dele com o assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi em 2018, dentro de um consulado saudita na Turquia. Salman nega qualquer envolvimento com o assassinato.

Outro que gerou controvérsia no Reino Unido foi o convite feito ao presidente chinês, Xi Jinping, por causa de acusações de crimes contra a humanidade que teriam sido cometidos contra uigures, uma etnia majoritariamente muçulmana com mais de 11 milhões de pessoas no noroeste da China. O governo chinês nega qualquer irregularidade.

Xi, no entanto, não deve comparecer ao evento. Segundo a BBC apurou, a delegação chinesa (caso compareça ao evento) teria sido barrada de visitar a câmara ardente, onde o corpo da rainha está sendo velado.

Há ainda aqueles que não foram convidados, entre eles os mandatários de Belarus, Síria, Venezuela, Afeganistão e Rússia.

As relações diplomáticas entre o Reino Unido e a Rússia entraram em colapso desde a invasão da Ucrânia pela Rússia no início de 2022, e um porta-voz de Putin disse na semana passada que ele "não estava cogitando" comparecer ao funeral.

Houve, por fim, convites ao Irã, à Coreia do Norte e à Nicarágua, mas apenas para os embaixadores, e não para os chefes de Estado.

BBC Brasil

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