sexta-feira, setembro 16, 2022

Bolsonaro muda discurso e agora diz que ‘não errou nenhuma vez na pandemia’

 

SEP



Três dias após dizer que "deu uma aloprada" e "perdeu a linha" com declarações na pandemia, o presidente Jair Bolsonaro (PL) mudou o discurso nesta quinta-feira, 15, e afirmou que "não errou nenhuma" durante a crise sanitária da covid-19. Numa tentativa de se mostrar mais "moderado" na reta final da corrida pelo Palácio do Planalto, o candidato à reeleição chegou a declarar na segunda-feira, 12, que se arrependia de ter dito que não era "coveiro" ao ser questionado em 2020 sobre as mortes de brasileiros por covid.

"Eu não errei nenhuma vez durante a pandemia. Cada vez que eu falava, a imprensa me rotulava por 'falastrão', 'sem comprovação científica', 'fala isso, fala aquilo'. Em 2020 eu falei, se procurar aqui nas mídias sociais, você vai ver. Eu falei que a política do 'fica em casa', do lockdown, 'fecha tudo', ia aumentar a taxa de suicídio no Brasil", afirmou Bolsonaro durante transmissão ao vivo nas redes sociais. "E nós vamos, com o passar do tempo, saber cada vez mais a verdade sobre a covid, entre outras coisas que estão enterradas, mas essa verdade vai aparecer", emendou.

Em entrevista a um podcast voltado para jovens cristãos, o presidente havia adotado outro tom no começo da semana. "Dei uma aloprada, sim. Perdi a linha", declarou o chefe do Executivo nesta segunda-feira, 12. "Eu sou o chefe da nação, sei disso. Lamento o que eu falei, não falaria de novo. Você pode ver que de um ano para cá meu comportamento mudou. Minha cadeira é um aprendizado", emendou, ao responder o questionamento de um dos entrevistadores, cujo sogro morreu de covid-19.

No podcast, apesar de reconhecer que determinadas frases foram inadequadas, Bolsonaro voltou a usar o fato de ter melhorado da covid-19 para defender remédios ineficazes. "Eu tive covid, estou no grupo de risco. Eu sou idoso já, estou com 67 anos. E eu tomei o remédio. Não vou falar o nome aqui. E no dia seguinte estava bom", declarou. Quando foi contaminado, em 2020, o presidente disse que havia tomado hidroxicloroquina.

"Eu acredito que, com o que eu fiz divulgando o tratamento precoce, que muita gente, milhões de pessoas dizem que se salvaram graças a isso, porque eu tive coragem de mostrar que tinha uma alternativa que poderia ser realmente boa", afirmou Bolsonaro, na contramão da comunidade médica e científica. Hoje, ele voltou a defender remédios ineficazes contra a covid.

Na segunda-feira, Bolsonaro afirmou ter usado uma "figura de linguagem" quando disse que quem tomasse a vacina contra a covid-19 poderia "virar jacaré" e, mais uma vez, negou que tenha imitado pessoas com falta de ar. "Se pegar a imagem, eu não estou zombando de ninguém", declarou.

Estadão / Dinheiro Rural

STF fixa regras para compartilhamento de dados entre órgãos públicos




A Corte julgou duas ações protocoladas pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o PSB, que contestaram a legalidade do Cadastro Base do Cidadão e do Comitê Central de Governança de Dados. O julgamento começou no dia 1º de setembro e foi finalizado hoje.

As entidades alegaram que o compartilhamento de dados viola a privacidade da população e traz riscos de uso indevido, como envio de dados à Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e vazamento de informações.

Além disso, também deverão ser adotados mecanismos rigorosos de controle de acesso ao Cadastro Base do Cidadão, que deverá ser limitado a órgãos e entidades que comprovarem necessidade de acesso às informações. 

O uso de dados de cidadãos em atividades de inteligência deverá ser justificado e obedecer ao interesse público. O acesso deverá ser feito por sistema eletrônico de controle para rastrear eventuais abusos. 

O governo federal terá 60 dias para que o Comitê Central de Governança de Dados passe a ter perfil independente e plural, sendo aberto à participação de outras instituições democráticas, e garanta que os integrantes não sofram influências indevidas. 

Após a entrada em vigor da LGPD, o governo regulamentou o compartilhamento de dados entre os órgãos da administração pública federal e criou o Cadastro Base do Cidadão, por meio do Decreto 10.046, de 9 de outubro de 2019.

Com o cadastro unificado, órgãos do governo federal cruzam dados disponíveis na base de informações para digitalização de serviços públicos, como certificação de internacional de vacinação, registro de pescador amador, declaração de aptidão para programas de agricultura familiar e para solicitação de benefícios sociais. 

A base integrada contém dados gerais sobre os brasileiros como o Cadastro de Pessoa Física (CPF), nome, data de nascimento, sexo, filiação, nacionalidade e naturalidade.

Agência Brasil / Dinheiro Rural

Candidatos alvos da PF declaram dinheiro vivo apreendido ao TSE




Josimar Maranhãozinho (PL-MA)

Dois candidatos que disputam as eleições de outubro declararam à Justiça Eleitoral, juntos, R$ 2,4 milhões em dinheiro vivo apreendido em operações policiais. O patrimônio bloqueado está nas declarações de bens entregues ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no registro das candidaturas.

Alvo de investigação por desvio de emendas parlamentares, o deputado federal Josimar Maranhãozinho (PL-MA) foi flagrado em investigação da Polícia Federal manipulando maços de dinheiro.

O parlamentar indicou os R$ 2,3 milhões confiscados como "dinheiro em caixa apreendido". Maranhãozinho foi flagrado guardando dinheiro em uma ação policial que instalou câmeras ocultas no escritório político dele. Próximo ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, Josimar Maranhãozinho tenta a reeleição à Câmara e já recebeu R$ 500 mil da cúpula nacional do seu partido para a campanha.

Ex-prefeito de Mauá (SP), Átila Jacomussi (Solidariedade) informou ao TSE ter R$ 87 mil em dinheiro vivo "apreendido em operação federal, devidamente declarado junto à Receita Federal".

O político chegou a ser preso duas vezes, em 2018, no curso de investigações da PF sobre suspeitas de pagamentos de propinas por empresas que prestavam serviços à prefeitura. Ambos negaram as acusações feitas pela investigação e não têm impedimento para concorrer às eleições deste ano. As candidaturas dos dois aparecem como deferidas pela Justiça Eleitoral.

Como mostrou o Estadão, um outro grupo de candidatos declarou à Justiça Eleitoral de joias a obras de arte como patrimônio. Segundo dados do TSE, 193 políticos registraram possuir alguma preciosidade, como livros raros, pedras preciosas, gravuras históricas e obras de arte. São R$ 62,6 milhões em itens pouco usuais acumulados por cidadãos com renda média.

Estadão / Dinheiro Rural

Brasileiros desconhecem canais de denúncias contra a corrupção




A pesquisa ouviu 1,6 mil pessoas em todo o país de forma online, entre os dias 10 e 16 de junho deste ano, e apontou que 55% dos entrevistados não conhecem ou não sabem quais são os canais de denúncias contra a corrupção que existem em suas cidades. Outros 34% dizem conhecê-los, mas jamais terem feito uso desses canais.

“O Brasil não dispor de uma política pública anticorrupção acaba gerando esse tipo de consequência. Temos política pública de saúde, temos política pública de educação, temos política pública de habitação e de moradia. Mas não temos política pública anticorrupção. E isso gera gravíssimos problemas: as pessoas não conhecem o caminho das pedras para se oferecer ou formular denúncias [contra a corrupção]”, disse Roberto Livianu, presidente do Instituto Não Aceito Corrupção e procurador de justiça de São Paulo.

“Os portais não podem ser labirintos. Eles têm que acolher o usuário e devem prestar contas de forma bastante clara e descomplicada. Esse é um ponto que nos parece absolutamente crucial e que deveria demandar, por parte dos que se apresentam como postulantes ao poder [que disputam um cargo político], propostas claras de política pública em relação à corrupção. Mas não estamos vendo isso”, destacou.

De acordo com o procurador, diversos órgãos recebem denúncias sobre corrupção, que podem ser feitas de forma anônima, desde que sejam apresentadas evidências do ato ilícito. Um deles, destacou Livianu, é o Ministério Público.

“É muito importante [denunciar] porque a corrupção é devastadora em vários níveis. Primeiro porque ela devasta a credibilidade das instituições. Ela também devasta a confiabilidade nas relações interpessoais e impede a chegada dos recursos para as diversas políticas públicas, bloqueando a chegada dos recursos para a saúde, a segurança, a moradia, o saneamento. Por isso, é vital que tenhamos a devida responsabilização”, disse.

Propina

A pesquisa realizada pelo Instituto Não Aceito Corrupção apontou que 44% dos entrevistados já tiveram contato ou conhecem alguém que sido abordado a respeito de pagamento de propina.

“Essa é uma realidade muito próxima das pessoas. Não estamos falando de algo abstrato, de um mundo distante. Estamos falando de algo muito concreto, muito próximo, ao alcance das pessoas”, completou.

Outro dado apontado no estudo é que o brasileiro, em geral, naturaliza a corrupção, ou seja, considera naturais ou normais comportamentos que deveriam ser denunciados.

Entre essas atitudes que são socialmente aceitas estão, por exemplo, o fato de uma padaria convidar policiais para refeições gratuitas ou um cidadão pedir ajuda de um vizinho, que é servidor público, para agilizar o andamento de um processo.

“As pessoas acham natural ou normal que um policial não pague [por uma refeição em uma padaria]. Como assim? Se estou consumindo, tenho que pagar. Se o policial consome, ele também tem que pagar. Isso não é algo normal”, enfatizou o procurador.

“É preocupante o aumento da naturalização da corrupção dentre as pessoas que foram entrevistadas. A sociedade não pode se conformar com a corrupção. A sociedade deve se manter indignada, inconformada. Quando vemos um quadro de indiferença ou de letargia em relação à corrupção isso é muito grave e sério”, destacou.

A pesquisa apontou ainda que a corrupção (11%) não é a principal preocupação do brasileiro, aparecendo somente em quarto lugar, atrás de temas como saúde (26%), educação (23%) e desemprego (13%).

Segundo o procurador, a ideia é que esse estudo seja feito continuamente, a cada dois anos, coincidindo sempre com as eleições. “Nosso planejamento é realizar a segunda edição da pesquisa em 2024 por ocasião das eleições para escolha dos prefeitos e vereadores”, adiantou.

Agência Brasil / Dinheiro Rural

Uma campanha eleitoral mais podre




Discussão sobre eleição é dominada por medo e torpezas do bolsonarismo

Por Vinicius Torres Freire

Uma das notícias mais comuns desta campanha eleitoral é a violência. Há alguns assassinatos, pancadarias e ataques como esses liderados por Jair Bolsonaro (PL) contra a jornalista Vera Magalhães.

No mais, qual o "debate"? Ganhar eleitores evangélicos; a tentativa do bolsonarismo de apagar décadas de imundícies contra mulheres e a humanidade; a campanha das cartas democráticas, que amorteceu a ofensiva golpista; o efeito do Auxílio Brasil na votação.

Sim, há realidades que determinam resultados, como o voto de classe e fome, a influência dos novos poderes sociais e políticos, uma nova divisão regional do voto, a propensão dos mais velhos e muito jovens a votar em Lula da Silva (PT). Mas o que é tema de conversa?

Não parece haver uma onda grande de mortes motivada diretamente pela política partidária, apesar de a pistolagem estar solta nos cafundós onde se caçam, à bala, a ferro e a fogo, indígenas, sem-terra e ambientalistas, aquele massacre que fingimos não ser política. Mas há morte político-partidária, há ameaça, há medo, como houve medo de sair à rua no 7 de Setembro do Bicentenário e no de 2021. Há o grande medo de um futuro sob autocratas ignorantes.

Como fazer truques para ganhar ou não perder votos de evangélicos é mais um assunto central. Os líderes do partido evangélico-bolsonarista fizeram diferença na votação extra de Bolsonaro, no último par de meses.

Feminismo é um tema, mas por motivos em geral torpes ou degradantes. Bolsonaro afirmou que "pisou na bola" ao dizer um dia que deu uma "fraquejada" por ter uma filha, para em seguida explicar, a sua maneira imbecil e asquerosa, que isso é resultado de uma "brincadeira comum entre homens". A brincadeira: perguntar se um futuro pai vai ser "consumidor" (de mulheres) ou "fornecedor" (por ter uma filha "para consumo").

Não é, propriamente, um debate sobre o que fazer de desigualdades, discriminações e opressões diversas contra a diversidade humana.

Em suma, Bolsonaro tenta dar algum golpe a fim de apagar décadas de atrocidades, entre elas ameaças de estupro. Por exemplo, "arrepende-se" por ter "aloprado" quando afirmou não ser coveiro, indiferente ao morticínio que ajudou a promover no pior da epidemia. Foi apenas nisso que "deu uma aloprada" _o restante de sua carreira de crimes contra a decência humana básica não importa.

Mas vemos extensas discussões no comentarismo tolo e oficioso sobre a "moderação" de Bolsonaro na campanha e em debates, uma fraude propagandeada pelo governismo e regentes do Centrão.

O que mais há no "debate público" da eleição, ao menos o mais midiático ou que rende fofoca extensa em rede social? Temos um referendo radical de Bolsonaro, uma espécie de júri popular de Lula e torpezas. Nem corrupção foi bem assunto, apesar de esforços jornalísticos. O PT tem telhado de vidro e prefere não jogar no ventilador a ficha corrida dos Bolsonaro.

Economia? Será assunto de algum acordão ou acordinho, a partir de outubro, se Lula ganhar, ou vai seguir nos solavancos do trem-fantasma do bolsonarismo, talvez decorado com uma caveira de Pinochet, genocida, assassino, falsário e ladrão, mas "liberal", como dizem alguns economistas.

Nem com a fumaça da Amazônia e do Cerrado empesteando o ar e o mundo rico ameaçando sanções a gente trata de ambiente na campanha. Reforma partidária? O que fazer do Supremo, que segurou algumas pontas nesta era de trevas, mas está muito politizado e fora da casinha? Como mandar militares para o quartel?

Sim, campanhas costumam ser baixas e o nível foi baixando cada vez mais rápido a partir de 2010. A de 2022 é um pote meio vazio e meio cheio de imundície.

Folha de São Paulo

Tesourada na saúde popular - Editorial




Corte de recursos do Farmácia Popular no Orçamento de 2023 é terrível, mas não surpreende, ante o histórico de desprezo de Jair Bolsonaro pela saúde dos mais necessitados

Em mais um golpe contra a saúde dos brasileiros, o presidente Jair Bolsonaro decidiu cortar cerca de 60% da verba do Programa Farmácia Popular, destinado à distribuição de remédios gratuitos ou parcialmente financiados pelo governo, além de fraldas geriátricas. Fixado inicialmente em R$ 2,04 bilhões, o gasto previsto para esse programa foi reduzido na proposta orçamentária de 2023, enviada ao Congresso no fim de agosto. Com isso, dificulta-se o acesso a medicamentos para hipertensão, diabetes e asma, entre outras doenças, enquanto se preservam os muitos bilhões do orçamento secreto, mantido graças ao entendimento entre o chefe de governo e seus apoiadores do Centrão. Todos os produtos da Farmácia Popular servem para o tratamento de problemas muito disseminados.

Se o corte de recursos for mantido, ficará ameaçada até a sobrevivência da Farmácia Popular, advertiram técnicos do governo citados pelo Estadão. A ação do governo como grande comprador facilitou, lembraram essas fontes, o barateamento de produtos muito importantes para a saúde de milhões de pessoas. Será importante considerar também esse detalhe durante a tramitação da proposta orçamentária – se houver, é claro, um número razoável de parlamentares interessados em discutir questões tão importantes para a população. Esse tipo de preocupação tem sido raramente notado durante a tramitação de projetos orçamentários.

Sem o apoio do programa, pessoas dependentes dessa distribuição acabarão recorrendo ao Sistema Único de Saúde (SUS), em busca de medicamentos de uso continuado e, portanto, essenciais para a manutenção de condições mínimas de segurança. O risco dessa migração foi apontado por Telma Salles, presidente da PróGenéricos, associação de laboratórios do setor. Se isso ocorrer, uma grande pressão será deslocada para um serviço público já comprometido com uma tarefa complexa, custosa e de grande alcance social.

Embora terrível, a nova exibição de desprezo à saúde pública pelo presidente Jair Bolsonaro nada tem de surpreendente. Ao contrário, é perfeitamente compatível com seu currículo. Há poucos dias, o presidente encenou uma autocrítica ao lembrar sua reação a uma pergunta sobre a mortandade durante a pandemia. “Não sou coveiro”, foi sua resposta, naquele momento. Com enorme atraso e, além disso, a poucas semanas da eleição, ele ensaiou um lamento: “Eu dei uma aloprada, sim. Eu aloprei e perdi a linha”, disse o presidente numa conversa com influenciadores evangélicos.

Há uma escandalosa desproporção entre essa aparente autocrítica e o drama dos brasileiros na pior fase da pandemia. Não houve uma “aloprada” passageira e contida nos limites de uma entrevista, num dia qualquer de 2020. Houve, sim, um desastre ocasionado pela maior crise sanitária em cerca de um século, num país sujeito a um chefe de governo indiferente ao sofrimento e às mortes. Houve a atuação devastadora de um Ministério da Saúde conduzido de forma incompetente, irresponsável e devastadora. Houve um presidente empenhado em recomendar terapias ineficazes, em propagar informações falsas, em combater as ações mais prudentes de governadores e prefeitos e em retardar e dificultar a vacinação.

Não adianta esse presidente dizer-se arrependido de algumas palavras infelizes, quando ele continua, em arranjos com o Centrão, agindo contra o bem-estar e o desenvolvimento. Nem os gastos com educação infantil e construção de creches foram sustentados em seu mandato. Quem poderá acreditar em seu lamento, quase no fim da campanha eleitoral, quando todos devem lembrar-se de sua mensagem mentirosa sobre vacina anti-covid e HIV?

A proposta de Orçamento para 2023, com a tesourada na verba da Farmácia Popular, é mais uma confirmação, em nada surpreendente, do padrão bolsonariano de uso do poder. Quase quatro anos depois de assumir a Presidência, Bolsonaro reafirma dia a dia sua preferência pelos piores e seu desprezo à boa gestão, à prosperidade sustentável e, é claro, a valores como educação, cultura, ciência e saúde pública.

O Estado de São Paulo

As muitas escapulidas de Eduardo Bolsonaro para o Bahrein




Por Vicente Nunes

Sem alarde, mas com uma frequência que chama a atenção de vários árabes, o deputado federal Eduardo Bolsonaro tem viajado com frequência para o Bahrein, no Oriente Médio.

Em boa parte das viagens, Eduardo, o filho 03 do presidente Jair Bolsonaro, não tem agenda oficial, o que amplia o estranhamento entre aqueles que  acompanham a movimentação dele.

Em uma das recentes idas ao país árabe, o deputado levou a família, que ficou no Marrocos, para que ele pudesse seguir até o destino final. Armas, como se sabe, são a paixão da família Bolsonaro.

Correio Braziliense

A guerra das pesquisas




Projeções têm sido usadas como 'armas' para o discurso político na corrida pelo Palácio do Planalto

Por Malu Gaspar (foto)

Tirando a onipresente preocupação com o futuro da nossa democracia, há traços bem marcantes por que esta campanha eleitoral será lembrada. É a primeira vez que dois políticos já testados na Presidência, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, disputam o mesmo pleito. Provavelmente por já conhecerem bem os dois personagens, os eleitores manifestam um grau de certeza sobre o voto dos mais altos já registrados, em torno de 80%.

Esse quadro ajuda a explicar outro fenômeno que está se provando tão marcante nesta eleição quanto foi a preponderância das redes sociais em 2018: o uso das pesquisas eleitorais como arma para o discurso político.

Numa disputa polarizada e há meses sem nenhum fato novo que mude substancialmente o cenário geral, estrategistas, analistas políticos e o público têm ido buscar nas pesquisas a fórmula para sair da inércia.

Diferentemente do que costuma acontecer nas campanhas, em que os fatos criados pelos candidatos interferem na opinião do eleitor e podem alterar os resultados dos levantamentos, nesta eleição, mais do que em outras, as pesquisas têm interferido de forma decisiva nas estratégias dos candidatos. Muitas vezes, elas são o próprio “fato novo”.

Lula passou semanas batalhando para fechar alianças com nanicos e capturar seus votos, enquanto tentava conquistar o voto útil de eleitores de Ciro Gomes e Simone Tebet.

Como eles cresceram nas pesquisas após a sabatina do Jornal Nacional e o debate na TV, a ofensiva perdeu força. Agora que o Ipec sugere de novo que há possibilidade de Lula ganhar no primeiro turno e que 52% dos eleitores de Ciro podem mudar de ideia, os petistas voltaram à carga.

Lula afirmou no Twitter que nunca fez eleição para ganhar no segundo turno. Ontem, citando pesquisas mostrando, segundo ele, que 20% pretendem se abster ou votar nulo, afirmou: "Quem não vota não tem o direito de reclamar".

Bolsonaro diz que não acredita nas pesquisas divulgadas pelos grandes veículos de imprensa, porque elas até agora mostram Lula com larga vantagem. Mas já gastou R$ 2,2 milhões contratando levantamentos, e os utiliza para difundir a versão que lhe interessa (a campanha de Lula até agora não informou gastos com pesquisas ao Tribunal Superior Eleitoral).

Ao longo das últimas semanas, aliados do presidente vêm insistindo que, segundo os dados internos da campanha, ele já está à frente de Lula. Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil, todo dia posta mensagens enigmáticas no Twitter, sugerindo que o presidente ultrapassou o petista em algum estado.

De acordo com os auxiliares, Bolsonaro ganhou terreno entre evangélicos e jovens, numa proporção que os institutos de pesquisa tradicionais não captaram.

Mesmo o debate sobre a metodologia dos levantamentos, que tomou conta das redes sociais e da imprensa nos últimos dias, demonstra quanto elas mexem com os ânimos da política. Tudo porque o Ipec mostra Lula 15 pontos percentuais adiante de Bolsonaro, enquanto na Quaest/Genial a liderança é de oito pontos.

A explicação mais comum para a diferença está na fatia da amostra representada pelos eleitores que ganham até dois salários mínimos — 57% para o Ipec e 38% na amostra da Quaest.

Impossível dizer quem está certo. Nem os próprios diretores dos institutos arriscam. Mas a diversidade é a grande novidade desta eleição, que pela primeira vez tem muito mais que os antigos Ibope e Datafolha registrando levantamentos no TSE e divulgando os resultados.

Se por um lado a “quebra de duopólio” tem o efeito salutar de proporcionar mais possibilidades de aferir o humor do eleitor, por outro também reforça a desconfiança e traz questionamentos que levam tempo até ser sanados.

Um deles tem a ver com a proliferação de pesquisas pagas por instituições financeiras. Outro, o fato de haver institutos sabidamente “bolsonaristas” ou “petistas” tentando se camuflar na paisagem como se fossem independentes. Há, ainda, institutos que posam de independentes, mas nos bastidores trabalham para algumas candidaturas.

Numa comparação um tanto grosseira, é um efeito parecido ao provocado pelas redes sociais, ao quebrar o monopólio da mídia tradicional na difusão da informação. Não é coincidência que nesta campanha as pesquisas, assim como o jornalismo profissional, sirvam ao mesmo tempo de bússola e de saco de pancadas.

Se o contexto das redes sociais servir de parâmetro, só se pode concluir que ainda viveremos muito tumulto e desorientação até navegarmos com mais segurança no universo das pesquisas. Antes de começar a melhorar, ainda piorará um pouco.

O Globo

Os planos dos presidenciáveis para a educação




Escola em Sobral, no Ceará, cidade considerada um caso de sucesso na educação. Ciro Gomes é conhecido por sua atuação na área como governado do estado

Por Vinícius De Andrade

Ciro tem o plano mais completo, mas com propostas que podem ser utópicas; Bolsonaro tem o pior, com frases clichês e perigosas; e Lula decepciona com um plano raso demais, analisa o colunista Vinicius De Andrade.

Estamos a poucos dias de uma das mais importantes e decisivas eleições do país. Sinto que tudo está sendo considerado para decidirmos em quem votar, menos o plano de governo de cada candidato, e não culpo a maioria das pessoas por isso. Não somos ensinados a votar de forma crítica. Eu nunca fui ensinado a procurar os planos de governo de cada candidato, meus pais também não foram e posso assumir com segurança que a maioria da população brasileira também não.

O contexto acima é fértil para a disseminação de fake news e propício para que a maioria das discussões se resuma a direita e esquerda como sinônimos de bem e mal.

São discussões muito rasas e carecem de mais informações. No site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), está disponibilizado o documento oficial do plano de governo de todos os candidatos à presidência. Neste texto trarei os planos para a educação de três candidatos: Bolsonaro, Lula e Ciro Gomes. Por que esses três? A razão é simples e não subjetiva: são os mais bem colocados nas últimas pesquisas do Datafolha. Apenas no final do texto farei minha análise e trarei minha opinião pessoal.

Ciro, o mais ousado

Para Bolsonaro, a educação é um dos eixos estratégicos do seu governo. Ciro é mais ousado e pretende apresentar o mais revolucionário programa de educação pública da história brasileira. Já Lula pretende colocar o povo no orçamento e fortalecer a educação pública universal, gratuita e de qualidade. Todos prometem investimentos na área.

A população negra e demais grupos que carecem de políticas públicas de inclusão através de cotas está presente de forma clara e objetiva em todos os planos, exceto no de Bolsonaro. O candidato do PT vai além, e engloba as pessoas com deficiência.

Ciro planeja expandir o ensino integral e frisa a importância da alfabetização. Já Bolsonaro, por outro lado, fala bastante sobre o ensino profissionalizante e repete, inúmeras vezes, que a educação precisa estar a serviço da economia e da geração de empregos. Nesse ponto ele difere dos seus adversários, que a interpretam como instrumento para o desenvolvimento da nação, e é o único a ter como meta a inclusão do ensino à distância, alinhado com o presencial.

O candidato do PT e o atual presidente entendem que as sequelas da pandemia na educação podem limitar qualquer avanço e consideraram isso no planejamento que fizeram. O plano do petista é mais completo e propõe um caminho claro: "Um programa de recuperação educacional concomitante à educação regular".

Sabemos que nenhum avanço pode ser feito na educação sem a devida atenção para nossos professores da educação básica. Felizmente, todos os planos consideram esses tão importantes agentes e entendem que eles também precisam ser contemplados pelas mudanças. Nessa pauta, o plano de Lula é o mais raso e se resume à "valorização e reconhecimento". Os outros dois vão além e planejam oferecer formação, capacitação e melhores salários. Ciro inclusive continuou: "Adoção de processos seletivos, através de concurso público, para professores e diretores."

Lula tem o plano de investimentos mais completo

É comum ouvirmos nos debates discussões sobre crescimento econômico. Economistas entendem que um dos ingredientes para garantir que um país cresça no longo prazo é investir em ciência e tecnologia. Os candidatos estão alinhados nesse entendimento. O plano de Ciro Gomes é o mais raso para a área. Já Bolsonaro mostrou uma maior preocupação, mas apenas com as "áreas estratégicas". Lula trouxe o plano mais completo e promete "recompor o sistema nacional de fomento do desenvolvimento científico e tecnológico, via fundos e agências públicas como o FNDCT, o CNPq e a Capes".

O plano de Ciro é o que traz mais projetos para a área. Dentre eles: financiamento da dívida do FIES, criação de um programa de alfabetização na idade certa, programa de metas de aprendizagem em cada ciclo e um sistema de incentivo financeiro para colégios alcançarem bons resultados. Ele pretende alinhar um conteúdo teórico de qualidade, novas formas de financiamento e novas tecnologias de ensino. Além disso, sinaliza a importância do uso efetivo das avaliações de aprendizagem, do acompanhamento escolar, do ambiente familiar e busca ativa por alunos faltosos e aulas de reforço.

Propostas de Ciro são utópicas demais?

As informações expostas acima foram retiradas do plano de cada candidato e preferi não as misturar com minha opinião para ser fiel aos planos. No entanto, este ainda é um texto de opinião e trarei a minha a seguir. Você, leitor, tem todo o direito de discordar.

Ciro teve o plano mais completo e coeso com as demandas da educação brasileira. Bolsonaro apresentou o pior, e Lula trouxe um raso demais.

Já havia ouvido falar muito sobre a atuação ativa do Ciro Gomes na educação do Ceará. Uma das cidades do estado, Sobral, é um grande caso de sucesso. Estive em Fortaleza neste ano e fiquei admirado com alguns colégios que conheci. O plano apresentado pelo candidato é o mais completo, mas confesso que isso também me assusta.

Ele pretende colocar a educação pública brasileira entre as dez melhores do mundo no período de 15 anos, e suas metas me parecem bem difíceis de serem viabilizadas, necessitando de uma grande mobilização nacional e do envolvimento de muitos agentes na mesma agenda: algo que parece ser bem utópico em nosso país. Além disso, espero que ele considere que há diferenças regionais que podem ser grandes obstáculos para a replicação do êxito cearense.

Fiquei desapontado com o candidato petista. Senti falta de projetos e metas mais claras. Talvez ele tenha confiado demais na associação de sua imagem com a valorização da educação, construída em outros mandatos, e achou que bastaria.

Por que Bolsonaro já não fez isso no primeiro mandato?

Bolsonaro apresentou o pior plano, e é engraçado, pois foi o que mais falou sobre a agenda. Me incomodou a quantidade de vezes que a educação foi associada a uma posição de estar a serviço da economia e da geração de empregos. O problema é que o plano apresenta uma imagem chamada "ciclo da pobreza" e segundo eles o termo "direito do trabalhador" é utilizado para enfraquecer a geração de emprego e acabar com empregos como Uber e Ifood. 

É uma pena ler isso no plano de um candidato e mais triste ainda saber que foi nosso presidente nos últimos anos. A palavra "direito" faz justiça ao significado e, se não fosse por esses direitos tão arduamente conquistados, nossos trabalhadores estariam em condições piores do que já estão.

Há também a frase: "Alunos possam exercer um pensamento crítico sem conotações ideológicas que apenas distorcem a percepção de mundo, em particular aos jovens, e geram decepções no cidadão que busca se colocar no mercado após concluir sua formação."

Não está explícito a qual ideologia ele se refere, mas, pensando no contexto geral e na agenda de seu governo, me parece que é justamente a questão de direitos trabalhistas. Me parece não querer pessoas que pensam e questionam e isso foi, mais uma vez, corroborado quando indicou as áreas de pesquisas que merecem investimento e as humanas não foram citadas.

Ele afirma que sem professores valorizados e motivados não é possível um ensino de qualidade e que ações para isso serão reforçadas no segundo mandato. Por que não aconteceram no primeiro? Por que devemos acreditar agora?

Acredito que a escola precisa fazer sentido para o jovem e ser sim um instrumento para um futuro melhor, com emprego e boa remuneração. No entanto, eu desejo um futuro para esses jovens com direitos, que não sejam explorados e que possam questionar e pensar de forma crítica. Um plano que não está alinhado com isso e que esconde suas verdadeiras intenções, utilizando frases clichês e perigosas como "rodar a economia e facilitar a geração de empregos" para estar a serviço de grandes corporações e não do povo, para mim não é um bom plano.

Deutsche Welle

A demolição da política externa brasileira




O que o Brasil ganhou com a série de desfeitas e equívocos gratuitos de seu governo, inclusive em relação aos mais importantes parceiros do País?

Por Sergio Amaral* (foto)

O Itamaraty é uma das instituições mais respeitadas do serviço público brasileiro. Seus funcionários são, via de regra, competentes. O concurso de ingresso é rigoroso, a formação e o aperfeiçoamento dos diplomatas estendem-se ao longo de toda uma carreira. Seu compromisso com o País é inquestionável.

Não obstante, a política externa foi um dos desastres do governo de Jair Bolsonaro. De início, o presidente seguiu, em suas linhas básicas, a política externa de Donald Trump, que isolou os Estados Unidos do mundo e fez adversários em todas as partes, inclusive na Europa, onde os Estados Unidos sempre mantiveram alianças estreitas e amigos fiéis. Combateu a ordem mundial concebida e implantada por iniciativa dos Estados Unidos nas conferências de São Francisco e de Bretton Woods, logo após o término da Segunda Guerra Mundial.

As confusas e obscuras visões de mundo de Ernesto Araújo, o primeiro chanceler de Bolsonaro, inspiraram-se nas exóticas teses de Steve Bannon, o influente guru e “estrategista” de Trump, que chegou a criar um “movimento” nacional populista na Europa, com sede no mosteiro medieval de Trisulti, na Itália. Seu objetivo era o de abrigar uma escola para a formação dos cruzados do século 21. Ali eles seriam adestrados para defender os valores da cultura judaico-cristã contra as ameaças dos infiéis e do materialismo ateu. Os alunos do Instituto Rio Branco foram convocados para assistir a palestras nas quais ouviram, perplexos, uma doutrinação em defesa dos valores do cristianismo medieval. Não chegaram a realizar o seu treinamento em Trisulti, mas no auditório do Instituto Rio Branco, em Brasília.

Influenciado por essas visões insólitas, também compartilhadas por membros do gabinete da Presidência da República, o governo Bolsonaro iniciou uma meticulosa demolição de algumas de nossas mais respeitadas tradições diplomáticas. O alvo privilegiado, como também o era para Trump, foi a ONU, particularmente o Conselho dos Direitos Humanos e a Organização Mundial da Saúde. O multilateralismo passou, então, a ser considerado uma ameaça aos interesses brasileiros.

Na mesma linha, o Mercosul, que já foi um dos pilares de nossa diplomacia, sob Bolsonaro foi condenado ao descaso. Foi acusado por não ter alcançado

a união aduaneira, nem mesmo o livre-comércio, o que é em parte verdade, sem lembrar que muitos dos que faziam a crítica são os mesmos que se haviam oposto a uma desgravação mais ampla. E não reconhecem tampouco a contribuição valiosa da harmonização do marco regulatório, nos mais diferentes setores, para a circulação mais desimpedida dos bens e capitais, ciência e tecnologia, transporte e serviços de infraestrutura, cultura e turismo, entre outros.

Nessas condições, o Mercosul ficou praticamente restrito a uma discussão ociosa entre Brasil e Argentina sobre o grau de redução da Tarifa Externa Comum, como se dois ou três pontos porcentuais, para cima ou para baixo, pudessem fazer a diferença para atingir um patamar mais elevado de integração entre os membros do acordo regional.

Enquanto isso, as reais questões sobre a reforma do Mercosul, a dinamização do comércio, a ampliação ou a expansão em direção à Aliança do Pacífico, ou mesmo em direção à Parceria Transpacífica, passaram para o segundo plano, pois não é possível avançar numa agenda regional, complexa e desafiadora sem o engajamento ativo dos chefes de Estado.

Outra iniciativa de que o Brasil havia participado e mesmo liderado, o acordo MercosulUnião Europeia, está paralisada diante das ofensas pessoais de Bolsonaro à esposa do presidente da França, um episódio sem precedentes na história da diplomacia brasileira. A recusa em não ratificar o acordo, da parte de outros países europeus, deveu-se ao descumprimento pelo Brasil de seus compromissos com a redução do desmatamento na Amazônia.

Por fim, vale relembrar os ruídos, senão hostilidades, em relação aos dois mais importantes parceiros econômicos do Brasil. A China, em razão das hostilidades gratuitas a membros de sua Embaixada em Brasília. Os Estados Unidos, pela embaraçosa, mas deliberada demora no reconhecimento da vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais norte-americanas.

Na iminência de concluirse o governo do presidente Bolsonaro, resta uma indagação central: o que o Brasil ganhou com esta série de desfeitas e equívocos gratuitos de seu governo, inclusive em relação aos mais importantes parceiros do País? Os riscos e custos são conhecidos: o isolamento internacional do Brasil; a perda de sua liderança, inclusive em nossa própria região; e a criação, pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de um comitê especial para investigar a progressão do desflorestamento na Amazônia, cujos resultados serão levados em conta na aprovação ou não do pedido de adesão do Brasil ao organismo, por exemplo.

A política externa está entre os setores que o próximo governo, qualquer que seja, terá de mudar substancialmente.

*Foi embaixador em Washington e presidente do Conselho Empresarial Brasil-China

O Estado de São Paulo

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