sexta-feira, setembro 16, 2022

A demolição da política externa brasileira




O que o Brasil ganhou com a série de desfeitas e equívocos gratuitos de seu governo, inclusive em relação aos mais importantes parceiros do País?

Por Sergio Amaral* (foto)

O Itamaraty é uma das instituições mais respeitadas do serviço público brasileiro. Seus funcionários são, via de regra, competentes. O concurso de ingresso é rigoroso, a formação e o aperfeiçoamento dos diplomatas estendem-se ao longo de toda uma carreira. Seu compromisso com o País é inquestionável.

Não obstante, a política externa foi um dos desastres do governo de Jair Bolsonaro. De início, o presidente seguiu, em suas linhas básicas, a política externa de Donald Trump, que isolou os Estados Unidos do mundo e fez adversários em todas as partes, inclusive na Europa, onde os Estados Unidos sempre mantiveram alianças estreitas e amigos fiéis. Combateu a ordem mundial concebida e implantada por iniciativa dos Estados Unidos nas conferências de São Francisco e de Bretton Woods, logo após o término da Segunda Guerra Mundial.

As confusas e obscuras visões de mundo de Ernesto Araújo, o primeiro chanceler de Bolsonaro, inspiraram-se nas exóticas teses de Steve Bannon, o influente guru e “estrategista” de Trump, que chegou a criar um “movimento” nacional populista na Europa, com sede no mosteiro medieval de Trisulti, na Itália. Seu objetivo era o de abrigar uma escola para a formação dos cruzados do século 21. Ali eles seriam adestrados para defender os valores da cultura judaico-cristã contra as ameaças dos infiéis e do materialismo ateu. Os alunos do Instituto Rio Branco foram convocados para assistir a palestras nas quais ouviram, perplexos, uma doutrinação em defesa dos valores do cristianismo medieval. Não chegaram a realizar o seu treinamento em Trisulti, mas no auditório do Instituto Rio Branco, em Brasília.

Influenciado por essas visões insólitas, também compartilhadas por membros do gabinete da Presidência da República, o governo Bolsonaro iniciou uma meticulosa demolição de algumas de nossas mais respeitadas tradições diplomáticas. O alvo privilegiado, como também o era para Trump, foi a ONU, particularmente o Conselho dos Direitos Humanos e a Organização Mundial da Saúde. O multilateralismo passou, então, a ser considerado uma ameaça aos interesses brasileiros.

Na mesma linha, o Mercosul, que já foi um dos pilares de nossa diplomacia, sob Bolsonaro foi condenado ao descaso. Foi acusado por não ter alcançado

a união aduaneira, nem mesmo o livre-comércio, o que é em parte verdade, sem lembrar que muitos dos que faziam a crítica são os mesmos que se haviam oposto a uma desgravação mais ampla. E não reconhecem tampouco a contribuição valiosa da harmonização do marco regulatório, nos mais diferentes setores, para a circulação mais desimpedida dos bens e capitais, ciência e tecnologia, transporte e serviços de infraestrutura, cultura e turismo, entre outros.

Nessas condições, o Mercosul ficou praticamente restrito a uma discussão ociosa entre Brasil e Argentina sobre o grau de redução da Tarifa Externa Comum, como se dois ou três pontos porcentuais, para cima ou para baixo, pudessem fazer a diferença para atingir um patamar mais elevado de integração entre os membros do acordo regional.

Enquanto isso, as reais questões sobre a reforma do Mercosul, a dinamização do comércio, a ampliação ou a expansão em direção à Aliança do Pacífico, ou mesmo em direção à Parceria Transpacífica, passaram para o segundo plano, pois não é possível avançar numa agenda regional, complexa e desafiadora sem o engajamento ativo dos chefes de Estado.

Outra iniciativa de que o Brasil havia participado e mesmo liderado, o acordo MercosulUnião Europeia, está paralisada diante das ofensas pessoais de Bolsonaro à esposa do presidente da França, um episódio sem precedentes na história da diplomacia brasileira. A recusa em não ratificar o acordo, da parte de outros países europeus, deveu-se ao descumprimento pelo Brasil de seus compromissos com a redução do desmatamento na Amazônia.

Por fim, vale relembrar os ruídos, senão hostilidades, em relação aos dois mais importantes parceiros econômicos do Brasil. A China, em razão das hostilidades gratuitas a membros de sua Embaixada em Brasília. Os Estados Unidos, pela embaraçosa, mas deliberada demora no reconhecimento da vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais norte-americanas.

Na iminência de concluirse o governo do presidente Bolsonaro, resta uma indagação central: o que o Brasil ganhou com esta série de desfeitas e equívocos gratuitos de seu governo, inclusive em relação aos mais importantes parceiros do País? Os riscos e custos são conhecidos: o isolamento internacional do Brasil; a perda de sua liderança, inclusive em nossa própria região; e a criação, pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de um comitê especial para investigar a progressão do desflorestamento na Amazônia, cujos resultados serão levados em conta na aprovação ou não do pedido de adesão do Brasil ao organismo, por exemplo.

A política externa está entre os setores que o próximo governo, qualquer que seja, terá de mudar substancialmente.

*Foi embaixador em Washington e presidente do Conselho Empresarial Brasil-China

O Estado de São Paulo

O que precisa mudar no tabuleiro da democracia brasileira




A sociedade brasileira abraçou cada vez mais a ideologia da dependência do Estado, esperando de forma exagerada que essa entidade abstrata cumprisse a obrigação de prover as necessidades humanas.

Por Maria Helena Santos* (foto) 

Se existe hoje uma certeza dominante no coração dos brasileiros, ela é, sem qualquer dúvida, a de que o Brasil precisa mudar. E mudar rápido. Gerações antes de nós – e mesmo a nossa própria – cresceram com a esperança de que o Brasil seria o país do futuro, ainda que, no presente de cada época, as coisas não corressem tão bem quanto todos gostariam.

Mas, infelizmente, a sociedade brasileira abraçou cada vez mais a ideologia da dependência do Estado, esperando de forma exagerada que essa entidade abstrata cumprisse a obrigação de prover as necessidades humanas, mesmo quando isso superava os limites da viabilidade. Como resultado surgiram entre nós lideranças políticas de caráter cada vez mais populista, com promessas impossíveis e absurdas, amparadas na ingenuidade do povo.

Com a Constituição de 1988, instaurou-se no Brasil uma democracia participativa. De fato, em seu artigo 1º, a Carta Magna garante que “todo o poder emana do povo”. Porém, o que temos visto nestas três décadas de redemocratização é uma distância crescente entre o povo e seus representantes. Tivemos pacotes econômicos desastrosos, confiscos, aumento da recessão e do desemprego, alguma expectativa e muita frustração. E a corrupção se institucionalizou.

A desigualdade econômica gerada por aqueles que usam suas conexões no governo para conseguir vantagens, proteção e subsídios é uma barreira que impede o progresso econômico da maioria da população. O filósofo francês Michel de Montaigne escreveu muitas obras sobre as instituições, e ao analisar o papel dos parlamentos numa sociedade, cunhou uma das suas mais célebres frases: "Nenhum governo está isento de legislar absurdos. O problema é quando tais absurdos são levados a sério".

Em ano de eleições, os políticos discutem muitos disparates populistas em busca de votos. Entre os exemplos de propostas absurdas estão a revogação da reforma da Previdência, a anulação das privatizações e concessões realizadas, a volta do imposto sindical e muitos outros. Temos de ficar atentos para impedir que esses absurdos não sejam aprovados no Congresso Nacional. Não podemos andar para trás, nosso país tem de progredir! Daí a grande responsabilidade que temos na escolha dos nossos representantes. Nunca podemos esquecer que, formalmente, o Congresso dá a última palavra nas decisões, já que pode derrubar os vetos da Presidência.

O protagonismo da mudança, portanto, está nas mãos do eleitor. O governo geralmente só muda se é forçado a mudar. E o político em geral só muda de política quando sente que perde voto. O contraste da situação política e social brasileira frente em comparação com vários outros países gera uma incessante busca por respostas. Por que o Brasil é assim? Eu tenho uma série de conclusões, e a principal delas é que as lideranças que dominaram o cenário político nas últimas décadas sempre tiveram enorme desprezo pela liberdade econômica e preferiram acreditar que a saída possível para o desenvolvimento era o planejamento estatal da economia. Sabemos que não deu certo.

Enquanto a maior parte do mundo está se liberalizando, o Brasil continua do mesmo jeito. Temos alguns altos e baixos, mas em relação ao resto do mundo as coisas parecem não mudar tão rápido no nosso país. Praticamente o mundo todo se moveu na direção de menos impostos, mais privatizações, negócios mais livres, e o Brasil ainda tem muito a fazer em relação a isso. Por aqui, o maior violador da liberdade econômica das pessoas é o próprio estado. Quando o Estado cobra impostos demais, quando faz regulações demais, torna nossa vida muito pior.

É sempre bom lembrar que o Brasil é um dos países mais protecionistas do mundo. Por aqui, chegam menos produtos e as informações circulam com mais lentidão que em outras economias. Sabe quando o brasileiro viaja e volta com a sensação de que no Brasil tudo é mais caro e com menos variedade? É porque a economia é fechada demais. Não é razoável que ter um carro “popular” (o modelo, e não o preço) ainda seja um símbolo de status no nosso país.

Sem contar o custo econômico de um parlamentar, reconhecidamente alto demais. Um senador custa, por ano, R$ 54 milhões. E um deputado federal custa R$ 11,3 milhões por ano. Mas o custo anual direto de cada parlamentar é o menor dos custos. Os piores e mais elevados são aqueles projetos aprovados ou não aprovados que possuem impacto no orçamento público. Projetos aprovados que agregam uma despesa recorrente, com viés estritamente populista, são o caminho para afundar uma nação.

Não podemos esquecer também do nosso Judiciário, que é sobrecarregado, moroso e ineficiente. A ação da Suprema Corte na legislação e a judicialização de casos que deveriam ser resolvidos em instâncias superiores prejudica o ambiente de negócios. Para piorar, há influências externas no Judiciário, o que nas cidades grandes é entendido como lobby, nas pequenas é intimidação.

O país tem dificuldade de implementar câmaras de arbitragem (uma instância para resolução de conflitos de forma não judicial) e fica preso na ineficiência sistêmica. É difícil decidir bem quando você tem que decidir sobre tudo. Para completar, o nosso Judiciário é um dos mais caros do mundo. Precisamos melhorar a gestão dos processos, automatizar tribunais, criar resoluções alternativas de litígios e reduzir o favoritismo na obtenção de sentenças e votos pode ajudar o Brasil a reduzir sua insegurança jurídica.

Essas são reflexões para termos em mente por causa do calendário eleitoral que se aproxima. E nunca podemos esquecer que quem manda no Brasil é o Congresso: ele virou um balcão de negócios de interesses particulares dos políticos. Se quisermos mudar o nosso país, mudar o Congresso é um bom ponto de partida.

*Marina Helena Santos, economista, foi diretora de Desestatização do Ministério da Economia em 2019 também foi CEO do Instituto Millenium. É fundadora do Movimento Brasil Sem Privilégios.

Gazeta do Povo (PR)

Bolsonaro vai inaugurar escola com internet de Elon Musk às vésperas da eleição




O presidente Jair Bolsonaro (PL) irá a Manaus (AM) em 22 de setembro para inaugurar a primeira escola beneficiada pela parceria do governo com a Starlink, empresa do bilionário Elon Musk.

Ele participará do seminário 5G.Br, organizado pelo ministro das Comunicações, Fábio Faria (PP), às vésperas do primeiro turno das eleições. Estará a seu lado Gwynne Shotwell, CEO da SpaceX e espécie de braço direito de Musk.

A parceria foi anunciada em 19 de maio em um almoço com a participação do bilionário e prevê o fornecimento de internet para 19 mil escolas do meio rural no Brasil.

Na ocasião, o encontro foi usado por aliados do presidente para rebater as críticas ao isolamento no cenário internacional e, ainda, às políticas públicas adotadas na Amazônia.

O 5G.Br Manaus faz parte de uma série de encontros que o Ministério das Comunicações tem promovido para apresentar a tecnologia principalmente ao mercado consumidor. Nesta quinta-feira (15) acontece a edição de

Natal (RN) e em 11 de agosto foi realizado um em São Paulo, do qual Bolsonaro também participou.

Há previsão de outros dois ainda até o final do mandato, um em Brasília e outro em Porto Alegre, ainda sem data marcada.

FolhaPress / Daynews

Eleições 2022: Vantagem de Lula é folgada ou apertada? Por que pesquisas dão resultados diferentes




Pesquisas eleitorais de diferentes institutos respeitados no Brasil têm captado a mesma tendência na disputa presidencial: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera as pesquisas, enquanto o atual presidente, Jair Bolsonaro (PL), aparece em segundo lugar, seguido de longe por Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB).

Por Mariana Schreiber, em Brasília

No entanto, o tamanho da vantagem de Lula sobre Bolsonaro medida nessas pesquisas tem variado bastante. Enquanto alguns desses levantamentos colocam o petista com chance de vitória já no primeiro turno, em 2 de outubro, outros indicam que o mais provável é a disputa ser decidida apenas no dia 30 de outubro, em um segundo turno contra o candidato à reeleição.

A pesquisa Ipec divulgada na segunda-feira (12/09), por exemplo, traz o melhor cenário para Lula: o petista aparece com 46% das intenções de voto, uma vantagem de 15 pontos percentuais sobre Bolsonaro, que teve 31%.

Considerando apenas votos válidos (sem contar brancos e nulos), esse levantamento coloca Lula com 51% de apoio dos eleitores, o que pode ser suficiente para elegê-lo em primeiro turno.

Já na pesquisa da Quaest, divulgada na quarta-feira (14/09), a diferença entre os dois está em oito pontos percentuais, com Lula recebendo 42% das intenções de voto e Bolsonaro, 34%.

O Ipec foi fundado por executivos do antigo Ibope Inteligência, instituto de longa tradição no Brasil que fechou as portas em 2021. Já a Quaest começou a fazer pesquisas eleitorais em âmbito nacional apenas neste ano, mas é respeitada por especialistas no tema.

Os dois institutos realizam as entrevistas presencialmente, assim como o Datafolha, outra empresa renomada cuja pesquisa mais recente, divulgada em 9 de setembro, mostra uma distância de 11 pontos percentuais (45% para Lula, contra 34% de Bolsonaro).

Outros levantamentos recentes, feitos por telefone, apontaram margem ainda mais estreita que a da Quaest. O Poder Data, por exemplo, divulgou também na quarta-feira um levantamento em que a diferença é de apenas seis pontos percentuais, com 43% para o petista e 37% para o presidente.

A diferença é a mesma captada pela última pesquisa da FSB, divulgada segunda-feira, que deu 41% para Lula e 35% para Bolsonaro.

Já o Ipespe, outro que faz pesquisa por telefone, divulgou no sábado (10/09) sondagem que mostra o petista com 44% e o presidente com 36%, uma distância de oito pontos.

Quase todos os levantamentos citados têm margem de erro de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. A única exceção é o do Ipespe, cuja margem de erro é de três pontos.

O que explica diferenças? Qual é mais correta?

Essas discrepâncias entre as pesquisas têm levantado questionamentos nas redes sociais: afinal, qual pesquisa estaria mais correta? E o que explica essas variações?

Segundo especialistas em pesquisa eleitoral ouvidos pela BBC News Brasil, é normal que diferentes institutos não tenham resultados idênticos porque a forma como cada um faz a pesquisa varia.

Isso está relacionado a escolhas metodológicas de cada empresa, explica o estatístico Neale Ahmed El-Dash, que estudou métodos de pesquisa durante seu doutorado na USP e é fundador da empresa Polling Data.

Por exemplo, alguns institutos optam por fazer pesquisas presenciais, em que as entrevistas com os eleitores são feitas nas ruas (Datafolha) ou em visitas aos domicílios dos entrevistados (Ipec e Quaest). Outros institutos preferem fazer as entrevistas por telefone, opção mais barata.

Neste ano, as pesquisas presenciais têm captado, em geral, uma vantagem maior para Lula, enquanto as por telefone têm indicado que Bolsonaro estaria mais próximo do petista - uma hipótese para essa diferença é que esse método teria mais dificuldade de medir a opinião de eleitores mais pobres que preferem Lula, já que uma parte da população de menor renda não tem acesso a telefone (entenda melhor ao final da reportagem).

No entanto, tem chamado atenção o fato de mesmo institutos que fazem pesquisa presencial domiciliar terem captado resultados bem diferentes entre si, como Ipec e Quaest.

Nesse caso, o principal fator que parece explicar a discrepância é a diferença de metodologia dos dois institutos para definir o perfil de renda dos entrevistados.

Toda pesquisa é feita a partir de uma amostra. Levantamentos eleitorais nacionais, por exemplo, costumam ouvir cerca de mil a três mil pessoas. Para que esse grupo sirva como um bom termômetro da opinião dos mais de 156 milhões de eleitores brasileiros, é importante que o perfil dos entrevistados reproduza o perfil do eleitorado.

Por exemplo, os registros oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que mulheres são 53% dos eleitores e homens, 47%. Dessa forma, os institutos buscam uma amostra que tenha 53% de mulheres entrevistadas e 47% de homens.

'Tamanho da vantagem de Lula sobre Bolsonaro tem variado bastante nas pesquisas'

A definição da renda dos entrevistados, porém, é mais complexa e cada instituto adota metodologias diferentes, explicou à reportagem o estatístico Raphael Nishimura, diretor de amostragem do Survey Research Center, da Universidade de Michigan.

Na pesquisa do Ipec, que dá maior vantagem a Lula, 57% dos entrevistados eram pessoas com renda familiar de até dois salários mínimos. Já na pesquisa Quaest, em que a liderança de Lula está mais apertada, 38% dos eleitores ouvidos estão nesse grupo de renda.

Essa diferença tem impacto grande no resultado porque Lula tem recebido apoio bem maior entre os mais pobres. Dessa forma, uma pesquisa que ouve mais eleitores desse segmento, tende a medir uma intenção de voto maior para o ex-presidente. Já a que ouve mais eleitores de maior renda tende a medir um cenário melhor para Bolsonaro.

Para checar se essa hipótese está correta, Raphael Nishimura fez uma simulação, aplicando a distribuição dos grupos de renda da Quaest nos resultados do Ipec e vice-versa. A simulação confirmou a tese, pois mostra uma aproximação do resultado dos dois institutos.

Quando se aplica a distribuição de renda do Ipec nos dados coletados pela Quaest, Lula aparece com 45% de intenção de voto (em vez de 42%) e Bolsonaro com 32% (em vez de 34%). A diferença entre ambos então sobe de oito para treze pontos nessa simulação, se aproximando da vantagem de quinze pontos medida pelo Ipec.

Já quando se aplica a distribuição de renda da Quaest nos dados coletados pelo Ipec, Lula fica com 43% (em vez de 46%) e Bolsonaro com 35% (em vez de 31%), reduzindo a diferença de quinze para oito pontos (a mesma medida pela Quaest).

Por que os institutos têm faixas de renda tão diferentes?

Alguns analistas políticos têm afirmado nas redes sociais que essa diferença metodológica seria consequência do atraso no Censo, que estava previsto para 2020, mas está ocorrendo apenas agora. Essa pesquisa é realizada a cada dez anos pelo IBGE e coleta dados de renda de toda a população brasileira.

Segundo a avaliação desses analistas, a falta de um Censo atualizado deixou os institutos sem parâmetros confiáveis de renda, provocando uma grande variação das faixas usadas nas pesquisas.

No entanto, os especialistas consultados pela reportagem não consideram o atraso do Censo relevante para as pesquisas eleitorais. Segundo eles, outro levantamento realizado pelo IBGE trimestralmente, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), fornece bons parâmetros de renda, substituindo bem o Censo.

Dessa forma, dizem os entrevistados, o que explica a diferença são escolhas metodológicas de cada instituto.

No caso da Quaest, o instituto aplica exatamente a distribuição de renda medida pela Pnad, cujo dado consolidado mais recente é de 2021.

Dessa forma, seus entrevistadores têm ido a campo sempre com o objetivo de ouvir 38% de pessoas com renda familiar de até dois salários mínimos, 40% com renda familiar entre dois e cinco salários mínimos, e 22% com renda familiar acima de cinco salários mínimos.

Já Ipec e Datafolha não utilizam cotas de renda nas suas sondagens. Ou seja, ambos vão a campo sem ter como meta cumprir um certo percentual de pessoas em cada faixa salarial.

A BBC News Brasil tentou entrevistar a diretora do Ipec, Márcia Cavallari, para entender melhor a metodologia empregada, mas não obteve retorno.

Já a diretora do Datafolha, Luciana Chong, falou com a reportagem. Segundo ela, o instituto usa apenas cotas fixas de gênero e idade, tendo como referência os dados oficiais do TSE sobre a composição do eleitorado.

No entanto, embora não haja cotas para outras variáveis, o Datafolha usa dados do seu histórico de pesquisas para garantir que a amostra represente bem outras características do perfil dos eleitores. O instituto tem décadas de atuação.

"Além da variável renda, o Datafolha monitora outras: religião, escolaridade, ocupação, voto declarado em 2018, para garantir que a amostra é representativa do universo pesquisado. Para isso consideramos nosso histórico de pesquisas", respondeu por escrito.

Para Chong, não faz sentido usar uma cota fixa de renda porque os ganhos dos brasileiros têm variado muito, ainda mais após a pandemia de covid-19, quando o governo pagou benefícios sociais de forma intermitente para a população.

Segundo pesquisas do Datafolha, a faixa de brasileiros com até dois salários mínimos de renda familiar subiu de 48% para 60% da população no momento em que o pagamento do Auxílio Emergencial foi suspenso pelo governo, no final de 2020. Em meados de 2021, o benefício retomou, em valor menor.

Depois, já no final daquele ano, o governo passou a pagar o Auxílio Brasil, que teve o valor elevado de R$ 400 para R$ 600 no mês passado. Atualmente, o Datafolha considera que os brasileiros com até dois salários mínimos de renda familiar são 51% da população, patamar que serve de parâmetro nas pesquisas eleitorais.

Já o diretor da Quaest, Felipe Nunes, diz que a distribuição de renda medida pela Pnad não sofre variações tão bruscas ano a ano, de modo que o dado de 2021 continua adequado para 2022. Na sua avaliação, não usar cotas de renda pode levar as pesquisas a subestimarem em suas amostras os grupos de renda mais alto.

"A maior crítica feita a pesquisas domiciliares, por sinal bem fundamentada, diz respeito à dificuldade de se ter acesso a condomínios e edifícios: é muito trabalhoso tentar entrevistar um morador de um luxuoso edifício em Pinheiros (bairro nobre de São Paulo). Sem as cotas de renda, é possível que se subestime esses eleitores", argumentou em artigo ao jornal O Globo, em que detalha a metodologia da Quaest.

Nishimura também considera a Pnad uma boa referência para cotas de renda. Ele diz, porém, que não é possível saber qual dos institutos está medindo melhor a intenção de voto do eleitor.

"Existem inúmeras decisões metodológicas que os institutos precisam fazer e, cada uma delas, acarreta em consequências para a qualidade das estimativas de pesquisa", ressalta.

O estatístico da Universidade de Michigan lembra que pesquisas eleitorais são retratos do sentimento do eleitor no momento das entrevistas e não servem para prever o resultado das urnas, já que as preferências do eleitor podem mudar até o dia da votação.

Dessa forma, ele diz, não adianta comparar as pesquisas feitas agora com o saldo das urnas em outubro. Na sua avaliação, a melhor forma de avaliar a qualidade da metodologia de cada instituto seria comparar pesquisas de boca de urna (feitas no dia da votação) com o resultado oficial contabilizado pelo TSE. No entanto, como o sistema eletrônico brasileiro permite apurar o resultado oficial com muita agilidade, sondagens de boca de urna estão se tornando pouco comuns.

Pesquisas por telefone x pesquisas presenciais

A pesquisa presencial, adotada pelo Datafolha e o antigo Ibope (atual Ipec), é o método de sondagem eleitoral com mais tradição no Brasil. Os levantamentos por telefone, porém, têm se tornado cada vez mais comuns por aqui, ressalta El-Dash, tendência que acompanha o que ocorreu em outros países, como Estados Unidos.

Segundo ele, boas pesquisas podem ser realizadas com ambos os métodos, que apresentam vantagens e desvantagens. A pesquisa por telefone, por exemplo, não alcança o eleitor que não possui uma linha fixa ou um celular. Por outro lado, explica El-Dash, é mais fácil chegar a eleitores de maior renda, que vivem em condomínios, assim como aqueles que moram em áreas mais violentas, em que também pode ser difícil o acesso da pesquisa presencial.

De acordo com El-Dash, não está totalmente claro porque as pesquisas por telefone costumam dar uma vantagem menor para Lula do que as presenciais.

"Uma hipótese é que as pessoas se sentem mais à vontade para falar que vão votar no Bolsonaro no telefone do que ao vivo, mas a gente não tem dados para comprovar isso", ressalta.

Outra possível explicação, diz Nishimura, é que Lula teria apoio maior que Bolsonaro entre eleitores mais pobres, sem telefone, que acabam não sendo entrevistados nesses levantamentos.

Os institutos que realizam pesquisas por telefone minimizam esse efeito. O gerente de Pesquisas de Opinião Pública do Instituto FSB Pesquisa, André Jacomo, ressalta que 96,8% dos domicílios brasileiros possuem acesso à telefonia fixa ou móvel, segundo o dado mais recente do IBGE, relativo ao último trimestre de 2019.

"Há um acesso quase universal à telefonia no Brasil, de acordo com as estatísticas oficiais. Assim, não há como afirmar que a pesquisa telefônica não alcança o eleitor de menor renda", disse à reportagem.

"Em pesquisas eleitorais, optamos desde 2018 pelas pesquisas telefônicas porque elas se mostram mais ágeis e antecipam tendências de movimentos do eleitorado. Nas eleições de 2018, nossas pesquisas telefônicas anteciparam todos os movimentos dos eleitores e, às vésperas do primeiro e do segundo turnos, nos aproximamos muito do resultado das eleições, sempre com diferenças inferiores à margem de erro", argumentou ainda.

Para Nishimura, é positivo que o país tenha um cardápio de pesquisas com diferentes metodologias. Isso permite agregar o resultado de diferentes levantamentos, minimizando eventual viés que cada pesquisa possa ter.

Na eleição desse ano, alguns veículos de imprensa brasileiros criaram agregadores de pesquisas eleitorais. Cada um escolhe quais institutos acompanhar e alguns optam por dar diferentes pesos para as pesquisas, de acordo com sua tradição, ou decidem excluir sondagens que fogem muito dos resultados mais comuns.

O agregador de pesquisas eleitorais do jornal Estado de S. Paulo, por exemplo, que considera pesquisas por telefone e presenciais de 14 empresas, indicava na noite de quarta-feira (14/09) que a intenção de voto em Lula está em 44%, contra 33% de Bolsonaro, uma diferença de 11 pontos percentuais.

O cenário mudou pouco na comparação com um mês antes. Em 14 de agosto, o agregador mostrava o petista com 45% e o presidente com 32%, distância de 13 pontos. 

BBC Brasil

A combustão bolsonarista




Praga do radicalismo, depois de ter sido alimentada pelo presidente, agora se volta contra as campanhas majoritárias do bolsonarismo

Por Maria Cristina Fernandes (foto)

Quando duas pesquisas de metodologia reconhecida, como a do Ipec e da Quaest, discrepam para além da margem de erro sobre a distância entre os líderes da disputa presidencial, de 15 pontos para o primeiro e oito para o segundo, nenhuma biruta sinaliza melhor os rumos do que aquela das campanhas. A do bolsonarismo está desgovernada.

O sinal derradeiro disso foi dado pela agressão do deputado estadual Douglas Garcia (Republicanos) à jornalista Vera Magalhães. Foi a espontaneidade do gesto que o torna mais eloquente. Está claro que o parlamentar não foi instruído pela campanha bolsonarista, mas pela expectativa de alavancar sua reeleição.

E é por isso que a reeleição do presidente está em apuros. Se em 2018 ele foi capaz de tirar os radicais do armário para dar combustão a um sentimento difuso que se denominou de antipetismo, esses mesmos radicais hoje fugiram controle. Até podem alavancar candidaturas proporcionais, mas produzem estragos em candidaturas majoritárias. Se servem de combustível para algo hoje é ao antibolsonarismo que move a campanha de 2022.

Não foi outro o motivo de o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) ter vindo a público repreender o deputado, seu maior aliado na Assembleia Legislativa além de titular da sucursal paulista do gabinete do ódio. Além de vergonha, passou recibo: “Essas atitudes inconsequentes visando os holofotes e a autopromoção, além de erradas em si mesmas, podem pôr a perder um trabalho de meses, reforçar estereótipos e trazer prejuízos a todo um grupo político. Neste caso, a direita.”

Há cinco meses o mesmo Eduardo Bolsonaro comentava um tuíte de Miriam Leitão com a frase “Ainda com pena da cobra”, valendo-se do símbolo do animal que foi colocado numa sala escura em que a jornalista foi trancada nua, grávida, aos 19 anos, para ser torturada. Foi uma fatia dessa virulência que Douglas Garcia transpôs para a plateia do debate dos candidatos ao governo de São Paulo na agressão à Vera Magalhães.

As pragas gestadas pelo bolsonarismo no berçário do ódio se acostumaram a se voltar contra o jornalismo para desviar o foco do essencial. Ao fazer dos jornalistas o personagem da notícia, o bolsonarismo aposta na desmoralização da imprensa, além de montar a armadilha para que o jornalismo deixe de se ocupar do outro - o eleitor e de seus dramas, argamassa da profissão. O problema é que as agressões são tantas, à democracia, ao decoro e à civilidade, que o personagem da notícia emerge sem concorrência. É ele, o agressor.

Tarcísio Freitas deu-se conta disso de imediato e tentou se dissociar do episódio que envolveu um convidado de sua comitiva dizendo mal conhecer o parlamentar. Poucos minutos depois, porém, apareceu a foto dos dois abraçados e, no dia seguinte, o candidato a governador já estava em campanha no interior de São Paulo com Jair Bolsonaro, autor da agressão à jornalista repetida à exaustão por Douglas Garcia.

O mesmo candidato que, além de inspirar, armou as bestas-feras, apareceu arrependido na entrevista a um podcast de influenciadores evangélicos. A missão, por óbvio, era diminuir a rejeição.

Se foram instruídos, até que os influenciadores apareceram sinceros em suas interpelações. Um falou do sogro, morto pela demora da vacina - “Não tenho inclinação pela esquerda, mas sua fala me entristeceu.” Outro perguntou se, olhando para trás, retiraria algo do que disse. Uma terceira lembrou-lhe do preceito cristão: “Faltou sensibilidade, sabe presidente, não custa nada pedir perdão.”

O muro das lamentações estava erguido. Era só se encostar. Disse ter dado uma “aloprada”, falou em arrependimento, deu razão ao entrevistador que perdeu o sogro, retirou o “coveiro”, o “jacaré” e a “fraquejada”. Agiu como o delinquente que é enquadrado pela esposa evangélica: “Apesar de ser bronco, tô tentando melhorar. Manda quem pode, obedece quem tem esposa.”

Como constatou que o Auxílio Brasil de R$ 600 não serviu para aplacar a rejeição à sua condução na pandemia ou a agressividade de seu comportamento, tentou emplacar uma conversão. E se não der certo? “Se não for a vontade de Deus, a gente passa a faixa e vou me recolher porque com minha idade não tenho mais o que fazer na terra”.

Parece sugerir que, se o deixarem em paz, não vai mandar sua horda de seguidores, por exemplo, fazer uma reprise tupiniquim da invasão do capitólio. Foi mais ou menos o que um dos ministros de quem é mais próximo no Supremo Tribunal Federal disse, no dia da posse de Rosa Weber, ao ser indagado se Bolsonaro, deixando o governo seria preso.

Depois de queixar-se da imprensa com a veemência de um bolsonarista, este ministro disse que a prisão de Bolsonaro só colaboraria para radicalizar o país. “Se ele for preso, os filhos dele continuarão soltos”, disse, como pretendesse antecipar o papel da Procuradoria-Geral da República e do STF num Brasil que, eventualmente, caia sob novo comando.

No dia seguinte às declarações de Bolsonaro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, respondeu ao jornalista William Waack, na CNN, se anistiaria Bolsonaro: “Não se vai querer presidir o país para instigar a confusão. O país precisa de paz para crescer. E quem pode fazer isso é o presidente da República. O comportamento dele dita as regras da sociedade. O atual presidente vive disso, de ofender, de instigar. Vamos ganhar a eleição para reconstruir a paz”.

A reação ao comportamento de Bolsonaro foi tão grande que mudou Lula, do discurso à vestimenta. Do candidato que, no início da campanha, posava de sunga com sua noiva, Janja, na praia, e dizia ter 76 anos de idade, energia de 30 e “tesão de 20”, agora, quando lhe perguntam sobre sua vida amorosa, se levanta com um risinho envergonhado e diz: “Gente, chega por hoje”.

Se Bolsonaro tentou ganhar pelo medo, primeiro de golpe, depois da violência, o tiro saiu pela culatra. Hoje Lula faz da paz o apelo pelo voto útil. A contrição não é a única aposta de Bolsonaro. Ontem voltou a chamar Lula de "pinguço" e "vagabundo" e vai continuar a fazê-lo para manter seu poder de mobilização, quesito em que supera seu principal adversário.

Vai em busca do eleitor e não do seu séquito habitual com a ida à ONU e aos funerais da rainha Elizabeth. Sua campanha sabe dos riscos que o presidente corre de se repetirem os protestos que marcaram as idas ao exterior durante o mandato. Se viajar o repúdio pega, se ficar a rejeição come. Vai pagar pra ver.

Valor Econômico

Procuram-se votos




Campanha de Lula pelo voto útil no primeiro turno mostra incongruência do petista

Por Merval Pereira (foto)

O ex-presidente Lula está demonstrando, mais uma vez, que é uma metamorfose ambulante. Muda de opinião dependendo de a situação ser favorável a ele ou não. Agora se empenha em pedir o voto útil em seu nome já no primeiro turno da eleição e garante que sempre disputou eleição para vencer direto, o que nunca conseguiu, desde 1989, primeira vez em que concorreu à Presidência.

Mas sua visão sobre voto útil já foi diferente. Em 2020, na disputa pela Prefeitura de São Paulo, o PT se recusou a apoiar Guilherme Boulos, do PSOL, contra o então prefeito Bruno Covas. O candidato petista, Jilmar Tatto, ficou nos 6% dos votos e, mesmo assim, não abriu mão da disputa. Não tinha a menor chance de vencer, como aparentemente não têm hoje Ciro Gomes e Simone Tebet, mas se recusou a retirar seu nome em favor do candidato de esquerda mais bem colocado. Acabou vencendo o então prefeito tucano. O que demonstra que não havia voto suficiente na esquerda para vencer a eleição, no primeiro ou no segundo turno.

Lula justificou-se dizendo que o primeiro turno é para votar no candidato preferido, no segundo faz-se o acordo. Hoje, o PT faz pressão para que eleitores de Ciro e Tebet votem em Lula no primeiro turno, com base em várias presunções: eles não têm chance de vencer; votar neles seria ajudar Bolsonaro a ir para o segundo turno; não votar em Lula é ser bolsonarista.

Querer ganhar no primeiro turno é um desejo normal de qualquer candidato, especialmente para Lula, que já sentiu a dor de perder duas vezes no primeiro turno para Fernando Henrique. Mas insinuar que os eventuais eleitores de seus adversários sejam fascistas, direitistas, bolsonaristas, enfim, não é uma atuação democrática. Nem inteligente, pois esses eleitores são os que poderão dar a Lula a votação extra para vencer no segundo turno. Se Lula não vencer no primeiro turno, é porque não terá obtido votos suficientes para tal. Ciro tem razão de ficar irritado, pois seu eleitorado, majoritariamente de esquerda, é o principal alvo dos petistas para acrescentar “o tiquinho que falta” para vencer no primeiro turno.

É direito de qualquer candidato fazer campanha para vencer no primeiro turno. Considero essa abordagem, no entanto, um erro político do PT, porque, se não conseguir a vitória, além de animar o adversário, abaterá o moral de sua militância, que entrará desanimada no segundo turno, como aconteceu em 2006 contra o então candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, que obteve surpreendentes 41% de votos no primeiro turno. Lula não conseguiu ganhar direto, embora tenha obtido 48,61% dos votos.

Ficou tão deprimido que desapareceu durante uma semana. Alckmin aceitou parar a campanha por esse período e deu fôlego para que o adversário se recuperasse. Teve menos votos no segundo turno que no primeiro. No final, não acredito que Bolsonaro tenha votos para vencer no segundo turno, mas há divergências entre as pesquisas. Algumas dão de seis a oito pontos de diferença entre Lula e Bolsonaro, enquanto Datafolha e Ipec, que têm maior estrutura, dão de 13 a 15.

A alegação é que a amostragem de segmentos está prejudicada porque o país não faz Censo há 12 anos, e os institutos têm dificuldade para chegar a uma amostra realmente representativa. Uns trabalham com o índice de 57% de brasileiros na faixa de dois salários mínimos, outros com 38%, sem que haja números oficiais. Uns usam pesquisas por telefone, os mais bem equipados fazem pesquisas presenciais. Essas explicações, no entanto, não invalidam o fato de as pesquisas de opinião influenciarem o ânimo dos candidatos e apoiadores.

Como as pesquisas mudam a expectativa da eleição a cada semana, podem criar ambiente psicológico negativo para Lula se Bolsonaro chegar ao segundo turno com números mais favoráveis. O certo é que, com o aumento da tensão, Ciro ficará neutro no segundo turno. Vai para Paris ou outro lugar, mas não apoiará Bolsonaro, nem fará campanha para Lula. Pela lógica, o PDT é partido de esquerda, e o eleitor de Ciro deverá votar majoritariamente em Lula num segundo turno, ou mesmo ainda no primeiro, se a campanha pelo voto útil for exitosa. Mas, como nossa política partidária não tem lógica, uma parcela do eleitorado pode ir para a direita, como mostram as pesquisas. Outro fator relevante será a abstenção na votação, que neste ano, tudo indica, será maior devido ao medo da violência.

O Globo

Lula precisa dizer




Não está claro se o líder nas pesquisas compreendeu as mudanças dos últimos 20 anos

Por William Waack (foto)

Lula mantém nos debates e entrevistas uma referência central para dizer como governaria em 2023: o que ele pegou em 2003. Ocorre que o Brasil e o mundo mudaram muito e, para pior, do ponto de vista de um presidente da República. Vamos a algumas mudanças decisivas (a lista não é exaustiva).

A questão fiscal se agravou e virou um sério dilema representado pela quebra de um consenso social, que foi o de criar no Brasil um estado de bem-estar sem a capacidade de financiar crescentes gastos sociais. Lula estaria obrigado a combinar política monetária contracionista (para evitar inflação) com uma política fiscal expansionista (para fazer transferência de renda). Ainda não disse como.

No já ruim sistema de governo, o Legislativo avançou sobre o Executivo de maneira inédita e usurpou instrumentos de poder real. Emendas impositivas e do relator mudaram a característica da relação entre Planalto e Congresso, talvez de forma definitiva. O presidente, reconhece Lula, se tornou refém. Para governar, teria de alterar essa relação, mas não disse como.

O STF se tornou protagonista político. O próprio Lula é bom exemplo: foi e saiu da cadeia por decisões do STF. O ativismo judicial não é novidade, mas se acentuou com enorme velocidade nos últimos anos. Lula sempre disse que sabia lidar com a política, mas não com o Judiciário, que estaria obrigado a enfrentar. Não disse como.

Partidos se enfraqueceram e pouco cumprem do que se imaginou que fosse seu papel constitucional. São ridiculamente mais de 30, numa maçaroca ideológica agravada pelo fato de que o sistema eleitoral não ajuda a reduzir a distância entre representantes e representados. Ambos os fatores têm peso no fracionamento do Legislativo e complicam a formação de maiorias sólidas. Além de muito conversar, Lula precisa dizer como alteraria o quadro.

Violência política não é novidade no Brasil. Mas Lula assumiria enfrentando uma oposição nutrida, aguerrida, motivada, mobilizada e liderada por um clã que provavelmente terá problemas na Justiça. Lula fala em pacificar o País, ao mesmo tempo que participa ativamente de festival de pauladas cuja escalada é preocupante. Não disse como conseguiria essa pacificação.

Por último (neste texto) vivia-se há 20 anos o período dos “dividendos da paz” com o fim da Guerra Fria e o boom das commodities. A China é hoje uma superpotência desafiando a ordem que os EUA chefiaram, e a guerra da Ucrânia é a expressão de nova e perigosa guerra fria. Lula precisaria dizer quais são os interesses do Brasil, que nunca foram idênticos aos do PT, nesse quadro internacional de enorme tensão. 

O Estado de São Paulo

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