quinta-feira, setembro 15, 2022

Bolsonaro e Lula atacam rejeição na reta final




Foi a partir da pandemia que uma parte do eleitorado bolsonarista de 2018 se foi para nunca mais voltar

Por Vera Magalhães (foto)

Sempre se disse que a atual eleição seria uma batalha de rejeições. Na reta final, três semanas até o primeiro turno, tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Jair Bolsonaro investem em mitigar esse fator na expectativa de cumprir seus objetivos — o do petista, tentar vencer já em 2 de outubro; o do presidente, romper uma barreira que, hoje, torna sua reeleição inviável.

Lula vem enfrentando o antipetismo há mais tempo, de forma mais consistente. Contaram pontos para isso as anulações em série das condenações a ele impostas no âmbito da Lava-Jato e a obra de três anos e oito meses de governo Bolsonaro, como fator de comparação em diferentes setores.

Deixou de negar a ocorrência da corrupção, principal fator negativo associado a ele e ao PT, e passou a dizer que a apuração só foi possível graças à autonomia de que seus governos e os de Dilma Rousseff dotaram os órgãos de controle.

Bolsonaro resolveu se dedicar a tentar reverter a aversão que gera em pelo menos 50% do eleitorado na última hora, e o resultado é menos crível. O teatro começou a ser encenado num podcast transmitido em pool por influenciadores evangélicos na segunda-feira.

Com ar compungido, o presidente se disse arrependido de ao menos uma das dezenas de declarações de desdém com a pandemia que deu ao longo dos últimos dois anos e meio: a de que não era “coveiro”, proferida quando havia 2.500 mortos.

Agora que os cadáveres são mais de 685 mil e que muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas se tivesse havido vacina mais cedo e um protocolo sanitário claro do governo federal, em harmonia com governadores e prefeitos, resolveu dizer que deu uma “aloprada”.

O cálculo fica evidente quando ele, ato contínuo, reafirma a defesa do tratamento precoce e de medicamentos sabidamente ineficazes contra a Covid-19, como a cloroquina.

Da mesma maneira, a tentativa, ao longo das quase cinco horas de entrevista, de soar arrependido de frases misóginas como a dedicada à própria filha, a quem chamou de “fraquejada”, vem acompanhada de novas manifestações da mesma natureza, como dizer que é “comum” entre homens que estão à espera de bebês discutir se serão “fornecedores” ou “consumidores”.

A rejeição maciça a Bolsonaro tem sua gestão da pandemia como marco. Foi a partir dali que uma parte do eleitorado de 2018 se foi para nunca mais voltar. É por isso que perguntas sobre vacina e suas atitudes o irritam quando em debates ou entrevistas, e não em ambientes controlados, como os podcasts amigos.

O presidente imaginava que, com a melhora da economia e as benesses artificialmente concedidas, aplacaria essa rejeição brutal, mas isso não ocorreu. Quem analisa pesquisas qualitativas entende algumas das razões.

Os eleitores de classes D e E não votavam em Bolsonaro e continuam não votando, mesmo com o Auxílio Brasil. Têm a memória viva de que Bolsonaro cortou o Auxílio Emergencial em janeiro de 2021, no auge da pandemia e antes da vacina. E, por isso, não acreditam que manterá os R$ 600 caso reeleito.

Nas classes A e B, que se beneficiam da melhora do ambiente econômico e da redução dos combustíveis, Bolsonaro já vai melhor.

E na classe C, que ele precisaria atingir, a inflação de alimentos ainda castiga o bolso de quem vota. As pessoas relatam ter trocado arroz e feijão por macarrão, numa tradução cristalina da piora da vida no que ela tem de mais básico, o direito à alimentação.

Para um quadro em que os fatores de voto são uma memória muito recente de um trauma nacional e pessoal para todos e uma situação econômica ainda não resolvida, não há discurso improvisado que dê jeito, ainda mais quando vem depois que todas as tentativas de se mostrar “imbrochável” paradoxalmente falharam na hora H.

O Globo

De qual Brasil falamos?




Nossos amados ou odiados ‘políticos’ não vieram de Marte, Pasárgada, inferno ou céu, mas são nossos amigos, filhos e compadres

Por Roberto DaMatta (foto)

O da Colônia ou o do Império, o do republicanismo elitista ou o democrático, o do sertão ou o do litoral, o dos aristocratas ou o Brasil polarizado e sectário de hoje?

No meu trabalho, distingo um Brasil lido como sociedade (costumes e cultura) de um Brasil representado como nação e Estado nacional. O primeiro seria governado por hábitos do coração, conforme diriam Rousseau e Tocqueville; o segundo, administrado por uma legião de leis e procedimentos jurídicos.

Nossas sociologias e politicologias falam do Brasil como Estado nacional e pouco do Brasil como um sistema de valores. E menos ainda dos diálogos, dilemas e paradoxos dos encontros entre esses Brasis.

Um encontro responsável pela emergência de estadolatria, estadomania e estadopatia. Sem perceber que não há governo sem sociedade e que povo e governo não podem ser inimigos, numa polarização em que um “Estado forte” (ou uma “Nova República”) deveria corrigir uma sociedade velha e fraca, a solução tem sido a adoção de “estadolatrias” messiânicas. Despotismos, entretanto, destinados a se desfazer porque os hábitos relacionais do “Brasil sociedade” acabam englobando e criando uma inércia histórica promotora de retornos aterradores, das tais leis que não pegam.

Uma visão enviesada do Brasil engendra batalhas entre costumes não escritos (mas estabelecidos) e leis explícitas (destinadas a corrigir a índole de tais costumes). Ela conduz ao que estamos revivendo hoje: um momento eleitoral que seria de futuro nos leva ao passado justamente porque há um impasse entre o “Brasil nação” e o “Brasil das simpatias populistas”. O Brasil das impessoalidades legais encontra seu limite no Brasil das pessoalidades do “você sabe com quem está falando?” e das “leis que não pegam”.

O Brasil dos personalismos avessos à igualdade é mais resistente que o das normas que valem para todos. Mas como ter normas valendo para todos sem realizar uma crítica honesta do peso das obrigações familísticas? Não para liquidá-las, mas seria possível neutralizá-las escolhendo os valores democráticos da liberdade sem esquecer a igualdade.

Um primo é por mim nomeado ministro. Devo tratá-lo como primo ou como ministro? Ele se comportará como dono do meu governo ou como um funcionário? Se houver um conflito entre o ministério e o governo, ele agirá como primo ou como ministro?

Essas são questões que jamais discutimos francamente, que foram providencialmente esquecidas por nossa agenda democrática, que teria de passar a limpo o Brasil da casa pelo Brasil impessoal da rua e vice-versa.

A dificuldade com a democracia tem a ver com esse dilema entre o poder insuspeito da simpatia pessoal, que tende ao segredo e à corrupção, e a demanda da liberdade igualitária, que tende ao mundo público da impessoalidade e do anonimato — esses pilares do dinamismo democrático.

Em relação ao tamanho imenso da tarefa de implantar democracias em sociedades relacionais e patriarcais, há a dificuldade de perceber que nossos amados ou odiados “políticos” não vieram de Marte, de Pasárgada, do inferno ou do céu, mas são nossos amigos, filhos e compadres. As acusações quase sempre irascíveis com que os tratamos só podem ser compreendidas quando nos damos conta do isolamento com que situamos o “político” num campo em que o “poder” — como uma ponte desgastada entre o pessoal e o impessoal — tem a elasticidade das simpatias e conveniências. Do ganhar brutalmente muito dinheiro até o dobrar (ou driblar) legalismos para favorecer os amigos.

Com isso, entramos no terreno da impunidade, mas isso é, como diria o poeta, uma outra história...

O Globo

Arrependimento




Mesmo depois de dois anos, Bolsonaro nem sequer começou a intuir como suas atitudes na pandemia foram desumanas

Por Nicolau da Rocha Cavalcanti* (foto)

Na entrevista ao Jornal Nacional, o presidente Jair Bolsonaro não pediu desculpas à população brasileira por suas falas e, principalmente, por suas atitudes no enfrentamento da pandemia. Agora, vendo que a rejeição à sua pessoa não diminui, mudou o tom. “A questão do coveiro eu retiraria”, disse na segunda-feira em entrevista a um conjunto de podcasts evangélicos. Em abril de 2020, após ser questionado sobre o número de mortes por covid, disse: “Não sou coveiro”.

“Dei uma aloprada (na questão do coveiro). Aloprei. Perdi a linha. Aí eu me arrependo”, falou Jair Bolsonaro aos entrevistadores evangélicos.

O arrependimento é uma das atitudes humanas mais admiráveis. Ele permite reconciliar-nos com o nosso passado e com as pessoas que possamos ter ferido ou magoado ao longo da vida. Há um ditado africano, de grande realismo, que relaciona a maturidade com a descoberta da nossa capacidade de magoar – de fazer sofrer – os outros. De fato, a vida ganha outra dimensão quando se descobre como as nossas ações, nossas ausências, nossas falas, nossas distrações, nossos silêncios, nossas piadas e até mesmo nossos olhares podem afetar os outros de uma maneira muito diferente do que havíamos originalmente pensado. É simplesmente espetacular a descoberta do outro, de sua alteridade.

O arrependimento também se relaciona com o futuro. Não existe arrependimento sem a disposição de não voltar a fazer aquilo do que nos arrependemos. O propósito quanto ao futuro é consequência necessária desse condoer-se interiormente pelo que fizemos ou deixamos de fazer. E aqui está outro aspecto espetacular do arrependimento humano: a abertura a um futuro diferente do que foi o passado, a possibilidade real de um novo modo de vida.

No caso do arrependimento de Jair Bolsonaro, não é preciso fazer um julgamento de suas disposições internas para concluir que ele não representa um ato de grandeza moral, um ato de coragem. As suas próprias palavras expressam a natureza de sua atitude.

Não duvido de que, neste momento eleitoral, Jair Bolsonaro preferisse não ter esse passivo verborrágico. Ou seja, não duvido de que o presidente da República possa, diante das atuais circunstâncias eleitorais, ter-se arrependido do que disse. Suas palavras na segunda-feira podem ter sido sinceras. O ponto é outro. Jair Bolsonaro explicita que, no seu modo de ver, foi mero deslize: “Dei uma aloprada. Aloprei. Perdi a linha”.

Com isso, Jair Bolsonaro desvela a natureza de seu arrependimento. Mesmo depois de mais de dois anos, ele nem sequer começou a intuir como suas atitudes na pandemia foram profundamente desumanas, como foram profundamente agressivas, como foram profundamente desrespeitosas, como foram profundamente inadequadas para o cargo que ocupa, como foram profundamente desconectadas da realidade que a população vivia, como foram profundamente covardes. Na hora mais difícil, Jair Bolsonaro não assumiu o peso de suas responsabilidades. Teve medo das consequências políticas. Teve medo de liderar. Teve medo de olhar a realidade de frente. Teve medo de falar de morte quando a vida exigia falar de morte.

Não nego a possibilidade de que Jair Bolsonaro venha a se arrepender genuinamente de sua covardia, de sua escandalosa covardia, durante a pandemia. Mas, quando isso ocorrer, as palavras e as atitudes a expressar esse arrependimento terão de ser muito diferentes – ou não será arrependimento.

Fico abismado como líderes religiosos, que, a princípio, lidam cotidianamente com profundas conversões humanas, possam apoiar alguém tão indecorosamente superficial em sua contrição. Terão esses líderes religiosos meditado alguma vez sobre o Salmo Miserere, no qual Davi manifesta a Deus a dor pelo seu pecado? Arrependimento é coisa séria. Não é dito fazendo piada. Não é formulado em meio a deboches. Não é truque eleitoral.

Uma das consequências do arrependimento é uma grande vergonha pelo que se fez ou deixou de fazer. Isso se dá porque o arrependimento não é mera decisão racional, como se fosse a detecção de um erro de cálculo. Nunca é descoberta de mero deslize. Arrependimento é cair em si, é dar-se conta do que fez e de suas consequências. O arrependimento gera um reenquadramento afetivo dos atos passados, com um desejo incontido de agir no futuro de forma inteiramente diferente.

Até agora, Jair Bolsonaro não fez nada disso. Ele disse que cometeu um deslize ao falar “não sou coveiro”. Será essa a sua grande reflexão sobre o seu governo durante a pandemia? Será esse o seu grande aprendizado? Não é preciso recorrer aos críticos mais ardorosos de Jair Bolsonaro para desqualificar sua gestão. Ele mesmo explicita quem ele é.

Causa perplexidade, não há dúvida, que tantos brasileiros queiram a reeleição de Jair Bolsonaro. Mas é possível também ver a situação atual por outra perspectiva. Quantos brasileiros não eleitores de Jair Bolsonaro em 2018 querem votar nele agora? Quantos se sentiram positivamente surpresos com o atual governo? Por mais que haja fake news, a covardia ainda não se tornou uma virtude.

*Advogado e jornalista

O Estado de São Paulo

Voto do eleitor de SP




Eleição no Estado vai decidir o destino da Presidência e das principais forças políticas até 2026

Por Marcelo Godoy (foto)

Enquanto as pesquisas consolidam o cenário de uma disputa entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva pela Presidência, outro confronto deve selar o destino das principais forças eleitorais do País. Trata-se da eleição para o governo de São Paulo.

Não só a rivalidade entre o antipetismo e o antibolsonarismo terá um encontro decisivo no Estado, mas também o futuro do centro político. Todos precisam garantir um lugar no segundo turno e, depois, vencer. Aqui a sorte dos padrinhos se mescla à de seus herdeiros. Se o ex-ministro Tarcísio de Freitas não chegar ao segundo turno, dificilmente Bolsonaro conseguirá bater Lula, assim como Haddad só vencerá o pleito se reunir o voto lulista e o alckmista, historicamente um eleitorado muito maior que o petista.

Também o PSDB, que patrocina a candidatura do novo tucano Rodrigo Garcia, tem o seu destino como força política de relevo nacional atrelado à reeleição do governador. Mais do que isso. É o centro que dependerá de seu sucesso nas urnas para saber o papel que terá no País nos próximos quatro anos, seja qual for o futuro presidente – Lula ou Bolsonaro.

Assim como as consequências da eleição em São Paulo pairam como uma sombra sobre o destino da presidencial, elas também ultrapassarão o pleito e condicionarão o futuro governo. Bolsonaro aposta na vitória de Tarcísio para fazê-lo seu sucessor no Planalto. Em caso de derrota do presidente, o sucesso em São Paulo daria ao bolsonarismo uma fortaleza para resistir ao petismo triunfante.

Já Lula, se eleito, terminará seu novo mandato com 81 anos. Teria em Haddad a opção de passar o bastão não para seu vice, Geraldo Alckmin, mas para um integrante da nova geração petista, um político sem as máculas do mensalão ou da Lava Jato e afinado com a esquerda identitária que vê na alienação do homem e não do trabalho a origem das desigualdades e, portanto, o centro de sua atuação política.

Por fim, Garcia, como governador reeleito do mais importante Estado do País, seria candidato natural, assim como seus adversários, na disputa à Presidência, em 2026. A trincheira paulista, mantida pelos partidos do centro nos governos anteriores do PT, foi o que permitiu ao tucanato liderar a oposição a Lula e a Dilma Rousseff.

Por tudo isso, o eleitor paulista, além de conhecer e julgar os planos para São Paulo de cada candidato e força política, tem diante de si outras razões para acompanhar o debate entre os candidatos ao Palácio dos Bandeirantes, como o que será promovido pelo Estadão, Rádio Eldorado, Terra, SBT, Veja, CNN e Nova Brasil FM no dia 17: é que seu voto terá consequências para além das divisas do Estado. 

O Estado de São Paulo

Prisão de delegado no Rio revela como o crime organizado infiltrou a polícia - Editorial




Captura do aparato de segurança por criminosos resulta da cultura em que florescem as milícias e outros males

O relacionamento espúrio do aparato de segurança pública do Rio de Janeiro com o crime organizado ficou mais uma vez exposto com a operação Águia na Cabeça, do Ministério Público fluminense. A operação, cujo nome é inspirado no jogo do bicho, teve como alvo os policiais que mantêm ligações com bicheiros, para os quais, segundo as denúncias, trabalham como informantes e aliciadores de assassinos de aluguel.

Da operação, resultou a prisão do delegado e hoje candidato a deputado federal Allan Turnowski (PL), chefe da Polícia Civil no governo Sérgio Cabral em 2010 e 2011. Na época, ele deixou o cargo por causa do vazamento de uma operação investigada pela Polícia Federal. Voltou em 2020 para mais uma vez chefiar a polícia, numa secretaria da atual gestão de Cláudio Castro (PL). Outro policial investigado pela operação, Antônio Ricardo Lima Nunes, ex-chefe do Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa, contra quem foi emitido um mandado de busca e apreensão, é candidato a deputado estadual pelo Podemos.

Os promotores acusam Turnowski de ter atuado como agente duplo na guerra travada entre os contraventores Rogério de Andrade e Fernando Iggnácio, respectivamente sobrinho e genro de Castor de Andrade, patrono de escola de samba e capo do jogo no Rio, cuja morte, em 1997, deflagrou uma guerra familiar pelo espólio que se estende até hoje. As máquinas caça-níqueis mudaram a jogatina de patamar e aumentaram a ganância dos herdeiros.

A guerra no clã eclodiu um ano depois da morte de Castor, com o assassinato de seu filho, Paulo Andrade, parado num sinal de trânsito à noite na Barra da Tijuca. Em novembro de 2020, Iggnácio foi assassinado, segundo o MP a mando de Rogério. O foco da investigação da Águia na Cabeça são entendimentos para matar Rogério envolvendo o delegado Maurício Demétrio, a quem as investigações atribuem ligações com Iggnácio. Preso por corrupção desde o ano passado, Demétrio foi agora acusado de participar de organização criminosa e de violar sigilo funcional.

No conteúdo de 12 celulares apreendidos com ele, os investigadores descobriram conversas com um homem de confiança de Iggnácio que tratam de um atentado contra Rogério. Também descobriram uma troca de mensagens com Turnowski, que sugere um plano para atingir adversários políticos, como o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o ex-presidente da OAB Felipe Santa Cruz.

A operação do MP é um alerta para o poder público e para a sociedade sobre a contínua infiltração do crime nas instituições, em particular nas próprias corporações encarregadas de investigar os criminosos. Apenas a punição exemplar pode ser capaz de reverter a cultura leniente que permite o florescimento desse tipo perverso de corrupção, que resulta nas milícias e em tantos outros males. É preciso haver tolerância zero com policiais criminosos e corruptos.

O Globo

O valor das tradições




A tradição, por si mesma, não é um valor mágico. Mas a tradição inglesa não é desse tipo. E a prova disso é que é a Inglaterra quem, dentro da Europa, mais ajuda os ucranianos na sua luta. 

Por Paulo Tunhas (foto)

Foi uma coisa que veio progressivamente com a idade. Refiro-me à descoberta de que a maioria das pessoas, dispondo de alguma liberdade – isto é, podendo deliberar em privado e em conjunto sobre questões substantivas –, partilham, a maior parte das vezes, intuições morais justas. É claro que a cláusula da liberdade não é uma condição sine qua non das intuições morais justas – elas existem certamente em indivíduos que vivam sob regimes totalitários; não faltam exemplos, talvez até os mais salientes, disso –, mas certamente que o é do seu desenvolvimento e da sua difusão.

É mesmo, creio, uma generalização tão acertada quanto pode ser acertada uma generalização sobre a vida ético-política dos seres humanos. E ela sobrevive aos contra-exemplos que se podem extrair tanto de situações claramente patológicas – que são quase as situações normais em regimes políticos onde as condições da liberdade não se apresentam – como de casos onde a deliberação comporta erros de cálculo, o que acontece fatalmente com todos os indivíduos e em todas as sociedades. Nenhum destes contra-exemplos, por mais caracteristicamente poderosos que sejam, chega para infirmar a tese geral, mesmo que qualquer deles baste para condicionar a sua generalidade. Mas tal limitação, como disse, é partilhada com qualquer outra generalização sobre a dimensão ético-política da vida humana. Não é a excepção: é a regra.

Resta, é óbvio, saber o que se pode entender por “intuições morais justas”. Banalmente, são aquelas que assentam no respeito pelos outros, ou, dito de outra maneira, no reconhecimento da sua autonomia. Se preferirmos o vocabulário de um filósofo, as intuições morais justas são aquelas que decorrem do simples facto de considerarmos os outros não apenas como meios para a satisfação dos nossos desejos – o que, obviamente, na vida em sociedade eles também terão de ser –, mas, ao mesmo tempo, como fins em si, agentes morais que temos de respeitar. Não há intuição moral justa que não tenha por base tal consideração.

O que distingue as sociedades democráticas das sociedades autoritárias ou totalitárias é exactamente o elas assentarem nessa base. E o permitirem a denúncia dos casos em que essa base é posta em causa. A vida do dia-a-dia dá-nos inúmeros exemplos das duas coisas. Nos países mais livres, onde, por cultura e tradição, mais se preza a autonomia individual, mais (muito mais) exemplos do que nas democracias onde a liberdade é menor, é claro. Mas, desde que exista alguma liberdade, desde que a nossa capacidade deliberativa, tanto individual como colectiva, esteja estabelecida, tanto a base como a possibilidade de protestar contra a sua violação se encontram asseguradas.

Isto, que vale para o dia-a-dia, vale ainda mais para as situações excepcionais. Porque é que, por exemplo, a invasão da Ucrânia por Putin gerou uma condenação tão unânime por parte dos regimes democráticos – e, inversamente, uma aprovação, tácita ou explícita, pelos regimes autoritários ou totalitários? Porque os primeiros partilham as tais intuições morais justas – e os segundos não. Os primeiros exprimiram sentimentos inequívocos de solidariedade com os ucranianos porque lhes reconheceram o direito à autonomia, individual e colectiva, que para si querem e de que eles próprios têm experiência em grau variável. Os segundos, não possuindo tal experiência nem a desejando, evitaram condenar a invasão, quando não a apoiaram declaradamente. O que se diz dos regimes vale igualmente para os cidadãos produzidos por esses regimes. Alguém que não sabe o que é a liberdade, não a pode desejar – nem para si, nem para os outros.

O que mostra bem o valor das tradições e nos leva a outro aspecto da actualidade. Refiro-me, é claro, ao extraordinário sentimento de simpatia para com Isabel II aquando da sua morte e ao interesse pelo complexo e milimétrico ritual visando a passagem do poder para Carlos III que se lhe sucedeu e que podia, por si só, ser objecto de um extenso tratado sobre a soberania e a representação política. A simpatia deve-se, em larga medida, não só às características pessoais de Isabel II, mas ao facto de, dada a longevidade do seu reinado, o seu tempo se confundir com o nosso tempo. E de, devido à natureza do seu cargo, ela não se ter visto envolvida nas acções que a actividade política necessariamente engendra e que promovem descontinuidades. Era uma pura continuidade e, por isso, uma pura duração que podíamos identificar com o sentimento de duração que sentimos face à nossa própria vida, que, como se sabe, também ela convive com a experiência de descontinuidades várias. Boris Johnson, por acaso, exprimiu isso muito bem. O ritual, por sua vez, visa igualmente o estabelecimento de uma continuidade, no plano impessoal da soberania, o que, sendo menos íntimo, não é menos fascinante.

Este segundo tipo de continuidade é politicamente importante. Porque num mundo político inteiramente constituído por descontinuidades, a deliberação deixa de fazer sentido. Porquê deliberar, com efeito, se tudo amanhã pode ser de uma maneira ou de outra? Se nada nos assegura que um certo número de condições, que podemos calcular, serão as mesmas? E se a deliberação se torna impossível, a liberdade, por arrasto, igualmente é impossível. Não há liberdade num mundo em que a contingência reina absolutamente, sem nenhum pano de fundo de necessidade.

É claro que há continuidades e continuidades, ou, se se preferir, tradições e tradições. Há tradições que, claramente, funcionam como um impedimento à deliberação, à inovação, à autonomia e à liberdade. A Rússia é, de resto, disto um bom e quase ininterrupto exemplo. A tradição, por si mesma, não é um valor mágico. Mas, como se sabe, a tradição inglesa – sinédoque para “britânica”, se se quiser – não é desse tipo. E a prova disso é que é a Inglaterra quem, dentro da Europa, mais ajuda – e ajuda naquilo que mais conta – os ucranianos na sua luta contra a barbárie de Putin e mais voz dá às intuições morais justas dos nossos sentimentos comuns.

Quanto àqueles que, no mundo democrático, adoptam, com mais ou menos truques verbais, uma posição pró-russa, que dizer? É um direito político inegável e intocável. Infelizmente, é igualmente uma prova incontestável que não partilham as intuições morais comuns de uma sociedade democrática. Em grande parte dos casos, de resto, nunca as partilharam.

Observador (PT)

Funeral da rainha Elizabeth 2ª: quem foi convidado e quem não foi?

 




Biden será um dos presentes na cerimônia

O funeral da rainha na segunda-feira (19/9) deve ser um dos maiores encontros da realeza e de políticos realizado no Reino Unido em décadas.

Os convites foram enviados no fim de semana, com cerca de 500 chefes de Estado e dignitários estrangeiros esperados para comparecer. O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, está entre os que confirmaram presença no funeral.

A maioria dos líderes foi convidada a chegar em voos comerciais e será transportada até a cerimônia de um local no oeste de Londres.

O funeral será realizado na Abadia de Westminster, que tem capacidade para cerca de 2,2 mil pessoas.

Confira abaixo o que se sabe até agora sobre quem estará e não estará presente.

Famílias reais europeias

'O rei Willem-Alexander e a rainha Maxima da Holanda confirmaram que estarão no funeral'

Membros de famílias reais de toda a Europa, muitos dos quais eram parentes de sangue da rainha, são esperados.

O rei da Bélgica, Philippe, e a rainha Mathilde confirmaram que estarão lá, assim como o rei Willem-Alexander e sua esposa, a rainha Maxima, junto com sua mãe, a ex-rainha holandesa, princesa Beatrix.

O rei Felipe e a rainha Letizia da Espanha também aceitaram o convite, assim como as famílias reais da Noruega, Suécia e Dinamarca.

Presidentes dos EUA

'O presidente Joe Biden comparecerá junto com a primeira-dama, Jill Biden'

A Casa Branca confirmou que o presidente Joe Biden comparecerá junto com a primeira-dama, Jill Biden.

Houve dúvidas se Biden convidaria seu antecessor, Donald Trump, mas os limites para o tamanho das delegações significam que os ex-presidentes não necessariamente poderão comparecer.

Tem havido especulações de que alguns ex-presidentes e primeiras-damas — particularmente os Obama — podem receber convites particulares.

Jimmy Carter, que foi presidente de 1977 a 1981, não recebeu um convite, disse seu escritório ao site Politico.

Líderes da Commonwealth

'O primeiro-ministro indiano Narendra Modi não confirmou se participará'

Espera-se que os líderes de toda a Commonwealth, dos quais a rainha serviu como chefe de Estado durante todo o seu reinado, participem.

O primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, aceitou o convite, assim como a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, e o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau.

Espera-se que vários governadores-gerais que atuam como representantes da monarquia em um reino da Commonwealth compareçam com os líderes de seus países.

O antigo primeiro-ministro de Bangladesh, Sheikh Hasina, e o presidente do Sri Lanka, Ranil Wickremesinghe, também aceitaram convites. O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, ainda não confirmou se irá.

Outros líderes mundiais

'O presidente alemão Frank-Walter Steinmeier e o presidente italiano Sergio Mattarella comparecerão ao funeral'

Outros líderes mundiais que aceitaram convites incluem o irlandês Micheal Martin, o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, e o presidente italiano, Sergio Mattarella, bem como a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

O presidente sul-coreano Yoon Suk-Yeol e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e a primeira-dama Michele também confirmaram sua presença.

Também devem fazer a viagem o imperador japonês Naruhito, o presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, e o presidente francês, Emmanuel Macron.

Não se sabe se o presidente chinês Xi Jinping, cujas visitas ao Cazaquistão e ao Uzbequistão nesta semana marcarão a primeira vez que deixará a China desde o início da pandemia de covid-19, receberá um convite ou se ele o aceitaria.

A República Islâmica do Irã, sujeita a sanções internacionais por causa de seu programa nuclear, será representada apenas por um embaixador, disseram fontes de Whitehall.

Não convidados

'Vladimir Putin está entre os líderes mundiais que não foram convidados'

Nenhum representante da Rússia, Belarus ou Mianmar foi convidado, diz James Landal, repórter para assuntos diplomáticos da BBC.

As relações diplomáticas entre o Reino Unido e a Rússia entraram em colapso desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, e um porta-voz do presidente russo, Vladimir Putin, disse na semana passada que ele "não estava cogitando" comparecer ao funeral.

A invasão foi lançada parcialmente a partir do território de Belarus, cujo presidente, Aleksandr Lukashenko, é um aliado próximo de Putin.

O Reino Unido também reduziu significativamente sua presença diplomática em Mianmar desde um golpe militar no país em fevereiro de 2021.

BBC Brasil

Se o povo quer, não "é proibido proibir".




A liberdade fundamental defendida por Gustavo Maultasch existe só nos EUA e só foi consolidada no século XX. 

Por Bruna Frascolla (foto)

Em O império do politicamente correto, Mathieu Bock-Côté comenta que uma característica da esquerda pós-68 é estar em eterna mutação. Isso explicaria por que há tantos ex-comunistas entre os conservadores: não é necessário mudar para se tornar um conservador; basta ficar parado. Você acha que homem é homem e mulher é mulher? Conservador. Se Che Guevara saísse da tumba, precisaria dizer que Lia Thomas é mulher e tem o direito de competir com outras mulheres. Do contrário, seria considerado um reacionário pela vanguarda.

Eu creio que Mathieu Bock-Côté tem muita razão ao caracterizar o movimento ideológico. Há uma vanguarda marchando rumo ao “progresso”, e quem pausar a marcha é automaticamente considerado um conservador. Mas penso que essa análise não se limite à esquerda, e valha para um certo liberalismo autoritário que tem muita afinidade com o slogan de 68, a saber, que “é proibido proibir”.

Tomem a elite midiática de hoje. Ela diz que é proibido proibir drogas (e libera os traficantes), que é proibido proibir mudança de sexo (e libera castração química de menores e doentes mentais) etc. Não à toa seu alvo predileto é a polícia, encarregada de efetivar as proibições que ela quer proibir. No entanto, o povo, o suposto legitimador de toda democracia, é invariavelmente contrário à proibição das proibições, e vibra quando a polícia mata bandido.

Quando a União Soviética ainda era uma potência, os letrados achavam chique defender proibições. Em 68, surge a Nova Esquerda, muito mais afim à esquerda dos EUA do que à URSS. Passa a ser muito mais chique, então, defender amor livre e autoconhecimento pelas drogas. Houve também um movimento minoritário não filiado à esquerda, mas que gozava de respeitabilidade intelectual: o “liberal por inteiro”, isto é, o apologista do mercado para o qual “é proibido proibir”.

Gustavo Maultasch, que é ao mesmo tempo fundador do Livres (um antro politicamente correto) e propositor do abaixo-assinado em defesa de Risério (um adversário do politicamente correto), lançou um livro que defende justo a proibição de uma proibição, a saber, Contra Toda Censura (Avis Rara, 2022).

Fiz este preâmbulo pretendo explicar a minha impressão geral após ler o livro: Gustavo Maultasch representa e defende muito bem uma opinião corrente entre os letrados de dez minutos atrás. A turma letrada apressou o passo, Gustavo Maultasch ficou para trás junto com uma meia dúzia de “radicais de extrema direita”. Ademais, essa ideologia representa apenas uma fase passada da política dos EUA e é perfeita para preparar o terreno para a atual, da hegemonia progressista politicamente correta.

O caso de Skokie

Digamos que um punhado de sobreviventes do Holocausto saia da Europa e resolva, em solo novo, criar uma associação política – fundar um Estado. A pergunta filosófica fundamental aqui é: esse povo tem o direito de proibir propaganda nazista em seu solo? A minha resposta é: Tem, porque o povo é soberano. Creio que a minha resposta seja intuitiva o bastante para prescindir de justificações, e o caso particular da proibição do nazismo encontra amparo em qualquer lugar relevante do Ocidente… à exceção dos Estados Unidos.

Pois bem: em vez de se associarem e fundarem um Estado – o que, convenhamos, dá muito trabalho –, uma porção de sobreviventes do Holocausto foi para a pequena vila de Skokie, no estado de Illinois, nos Estados Unidos. Em função da grande presença de judeus e vítimas do Holocausto nessa vila, o Partido Nacional-Socialista dos EUA decidiu que lá era um bom lugar para fazer uma manifestação nazista e supremacista branca. É óbvio que os habitantes protestaram e buscaram meios judiciais para fazer valer a sua vontade. No entanto, a Suprema Corte entende que a Primeira Emenda impede qualquer tipo de censura a discursos ideológicos abstratos, de modo que os neonazistas têm o direito inalienável de realizar uma parada neonazista numa vila de sobreviventes do Holocausto. A ACLU, uma ONG de advogados liberais, defendeu os neonazistas. A ACLU era cheia de judeus e o próprio Maultasch é neto de sobrevivente do Holocausto. Ou seja: em vez de se tratar de um conflito entre judeus e neonazistas, era um conflito entre o habitante comum de uma vila e os letrados. E é claro que nunca, jamais, em hipótese alguma, o letrado ficará ao lado do cidadão comum. Defende o neonazista.

Se você é um liberal “por inteiro” e um entusiasta da liberdade de expressão, como Gustavo Maultasch, nada mais coerente. Do tanto de gente que tinha ali, no breve período Temer, se declarando liberal, era de se esperar que a posição de Maultasch fosse mais comum no meio letrado. Mas a marcha dos letrados brasileiros rumo ao “progresso”, nos últimos 10 anos, foi assim: primeiro era-se de esquerda anti-mercado e pró-bundalelê, depois era-se liberal pró-mercado e pró-bundalelê, por fim se é “civilizado”, pró mercado regulado (via ESG ou crédito de carbono), pró-bundalelê e antiliberal (contrário às liberdades individuais consagradas). Antes, ser pró-bundalelê era uma consequência de defender as liberdades individuais. Agora, se você se opuser ao bundalelê, é discurso de ódio e é crime. Gustavo Maultasch parou de marchar com os letrados durante o governo Temer.

Qual a fundamentação filosófica?

O fundamento intuitivo para criminalizar a expressão de algumas ideologias é a soberania do povo. Se o povo decidir que tal ideologia deva ser criminalizada, tem legitimidade para tal. “E se o povo decidir algo imoral?” Se você acha um dado povo imoral, esse é um juízo de valor seu. Você pode reprová-lo ao máximo e pode ganhar uma guerra contra ele. Só não me diga que você pode impor a um povo as suas convicções e querer, ainda assim, que esse povo seja uma democracia enquanto não pode ter a sua própria moral. Esse é um dilema moral típico das nossas elites letradas. Quando eram comunistas, abominavam os camponeses que não queriam coletivizar as terras. Quando se tornaram capitalistas e democráticas, não melhoraram. Que fazer com um país como o Afeganistão, cheio de “machistas”? Os EUA implementaram uma “democracia” com quotas para mulheres no parlamento. É possível crer que essa democracia não é um formalismo despótico? E a situação do Ocidente, onde nunca há plebiscito para o povo decidir se aprova casamento gay e aborto? As elites progressistas desprezam a moral do povo e passam tudo pelo judiciário. É um aparato formal sem legitimidade popular.

Se não há legitimidade popular, que tipo de legitimidade haverá? Vamos enfim à argumentação de Gustavo Maultasch. A liberdade de expressão é defendida por ele por duas vias: uma, pragmática; outra, filosófica. Podemos discutir a pragmática noutra ocasião; por ora, vamos à fundamentação filosófica – afinal, o fato de ele ter escolhido Skokie mostra que ele não defende a soberania popular como limite último da lei.

Cito-o: “A justificativa mais fundamental da Liberdade de Expressão [sic] é uma justificativa deontológica [i. e., correta por questão de princípios], não residindo em nenhum valor instrumental que ela possa garantir à sociedade. A sua razão fundamental, que podemos chamar de razão existencial, afirma que a Liberdade de Expressão é um fim em si mesmo, um princípio ético apriorístico, um direito natural, uma característica intrínseca ao que chamamos de ‘viver’, pois o pensamento e a comunicação livres são aspectos fundamentais da nossa existência; o que eu penso é parte do que eu sou, e muitas vezes é apenas na exposição das ideias que eu aprimoro o meu entendimento daquilo que eu mesmo penso – e, portanto, aprimoro aquilo que eu sou. Se nós somos livres para buscar nossa felicidade – conforme a nossa própria definição de felicidade –, nenhuma via pode ser fechada. Cada indivíduo é dono do seu destino, dono de si, seu cérebro e sua boca; cada indivíduo é senhor único da jurisdição de sua consciência – o seu foro mais íntimo – e, assim, é o único legítimo árbitro das exportações que faz, para o mundo, das ideias de sua cabeça” (p. 36-37).

Calma lá

Assim, ele decreta a existência de um princípio apriorístico, isto é, anterior à existência e à experiência. Um princípio, se é que possível, mais que universal, e até atemporal.

Seria mais fácil e mais preciso dizer que ele diviniza a Liberdade de Expressão (com maiúsculas, como Deus). Acontece que só um punhado de letrados tem vocabulário para aderir a essa prece racionalista. Mas eu tenho esse vocabulário e rejeito. Tudo o que Gustavo Maultasch diz da Liberdade de Expressão pode ser dito, por muito mais gente, de Deus. Se o letrado descer do apartamento até a portaria, encontrará quem concorde que: Deus antecede a existência do mundo; a vida do homem sem Deus não faz sentido; o homem sequer pode ser livre de verdade sem Deus; uma sociedade decente respeita Deus. A diferença é que o porteiro do letrado vai ser incondicionalmente contra o racismo e sua expressão; o letrado, não. Em resumo, no parágrafo acima, não é a “razão fundamental” que “afirma” nada, é Gustavo Maultasch. E eu rejeito, assim como rejeitavam os moradores de Skokie.

O segundo problema que enxergo é a equivalência entre legislação e realidade. Existe uma noção de liberdade num sentido profundo que é exaltada pelo cristianismo e pelo judaísmo: o livre arbítrio. A liberdade, nesse sentido fundamental, é inerente à condição humana. Tem-se até mesmo num campo de concentração, como ensinou Viktor Frankl. O escravo e filósofo Epiteto, lá na Antiguidade, era dotado de uma liberdade que abolicionista nenhum poderia conferir a um ser humano. A liberdade em seu sentido existencial e em seu sentido jurídico ou factual não podem ser confundidas, sob pena de esculhambar a maior parte da humanidade.

Vejamos bem: a liberdade fundamental defendida por Gustavo Maultasch existe só nos EUA e só foi consolidada no século XX. Quer dizer que Sócrates, Galileu Galilei, Michelangelo, Beethoven e Machado de Assis são menos indivíduos menos livres e menos senhores de si do que qualquer norte-americano drogado? E bom, se é um princípio atemporal, quer dizer que deveria ter sido aplicado na Idade Média na Europa e no Império Asteca; no Japão Meiji e nas tribos tupinambás que zanzavam pela Mata Atlântica; na Índia dos brâmanes e na Bombaim dos muçulmanos. Não é uma pretensão excessiva aplicar um particularismo da história dos EUA a toda existência social humana? Um pouco de prudência recomendaria a avaliação de contingências. De todo modo, essa postura lembra a da repórter da CNN que exigia dos políticos quenianos uma especial atenção à questão LGBT. O líder eleito respondia, com muita plausibilidade, que a questão LGBT não era uma prioridade para os quenianos agora.

Já se imaginaram chegando no Japão Meiji e tentando convencer o povo da necessidade da Liberdade de Expressão? E se isso for como pregar sobre a questão LGBT para quenianos? A reivindicação de Liberdade de Expressão é um fenômeno histórica, social e culturalmente restrito. Seu culto não pode lastrear, com legitimidade, regime algum.

Gazeta do Povo (PR)

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