sexta-feira, junho 17, 2022

Quase 37 milhões de crianças estavam deslocadas no mundo em 2021, diz Unicef




Quase 37 milhões de crianças se viram deslocadas até o final do ano passado em todo o mundo, o número mais alto registrado desde a Segunda Guerra Mundial, diz um relatório do Unicef, que pede que sejam fortalecidos a proteção e o acesso a serviços básicos para menores refugiados, migrantes e deslocados.

Esses dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) não incluem os mais de dois milhões de menores que fugiram da Ucrânia desde o final de fevereiro como resultado da invasão russa, nem os três milhões de deslocados internos.

Também não incluem menores deslocados por desequilíbrios climáticos e desastres naturais, alertou a agência da ONU.

Em 2021, cerca de 13,7 milhões eram refugiados e requerentes de asilo e cerca de 22,8 milhões eram deslocados internos por conflitos, violência e outras crises. No total, são 2,2 milhões a mais que no ano anterior.

"Não podemos ignorar as evidências: o número de crianças que foram deslocadas por conflitos e crises está crescendo rapidamente e é nossa responsabilidade alcançá-los", disse a diretora executiva do Unicef, Catherine Russell.

Russell instou os governos a prevenir tais situações e "garantir", quando ocorrerem, "seu acesso à educação, proteção e outros serviços críticos que apoiem seu bem-estar e desenvolvimento agora e no futuro".

A população de refugiados no mundo mais que dobrou na última década e quase metade deles são menores de idade.

Mais de um terço dos menores deslocados vivem na África Subsaariana (3,9 milhões), um quarto na Europa e Ásia Central (2,6 milhões) e 13% (1,4 milhão) no Oriente Médio e Norte da África.

Quase metade das crianças e menos de um quarto dos adolescentes refugiados frequentam a escola.

AFP / Estado de Minas

Justiça brasileira x justiça democrática




Cabe lembrar, para a aferição exata da distância que estamos da democracia, que a função do juiz de common law não é exatamente julgar os réus e dar-lhes penas segundo o seu “alto saber jurídico”, mas antes zelar pelo cumprimento de todos os passos de um julgamento justo. 

Por Fernão Lara Mesquita (foto)

O recall do promotor distrital de São Francisco, Chesa Boudin, aprovado terça-feira retrasada, dia 7, por 121.956 votos a 99.571, enseja uma olhada de comparação entre os sistemas judiciários de common law das democracias e o nosso.

A função dos promotores públicos nas democracias é a de decidir, com base no cotejamento da lei escrita, quais casos apurados pela polícia e submetidos a essa autoridade devem ou não ir a julgamento pelo júri, caso em que os próprios promotores se encarregarão de demonstrar aos jurados porque cada réu merece ser condenado.

Os nossos também têm essa atribuição mas não apenas ela. Se você der uma pesquisada no Google sobre o que é o Ministério Público brasileiro vai encontrar os aleijões em camadas sucessivas que se foram acrescentando ao longo do caminho, ou para atender a esquemas ancestrais de privilégio, ou para fazer o sistema conviver com as distorções do que chamam “a democracia brasileira”.

O Ministério Público da União (MPU), por exemplo, divide-se em três ramos além do original que é o Ministério Público Federal (MPF): o Ministério Público do Trabalho (MPT), herança do “trabalhismo” que foi a ferramenta de suborno eleitoral de Getúlio Vargas e sucessores, o Ministério Público Militar (MPM) para calar a boca dos fardados com quem sempre é perigoso mexer “de fora”, e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios para satisfação da alta classe da privilegiatura…

Como o único fundamento inegociável da “democracia à brasileira” é que o cidadão é e deve permanecer absolutamente impotente, num dos nossos raros momentos de febre súbita de “cidadania” como foi o da “redemocratização” e da constituinte findo o regime militar, em vez de restituir ao povo o poder de cuidar de si mesmo e mandar nos seus representantes eleitos deu-se ao Ministério Público superpoderes para “substituir o povo” nesse papel.

Passou a ser dele a atribuição de cuidar dos “interesses sociais e individuais indisponíveis”, seja isso o que se quiser que seja, coisa que por si mesmo é impossível definir com alguma precisão até hoje e para sempre, para além de “zelar”, em lugar do povo e para o povo, por tudo o mais que os constituintes se lembraram de nomear, entre eles os interesses de cada um de nós em “educação, saude, meio ambiente, direitos dos incapazes, dos idosos, das crianças e dos adolescentes” e por aí afora…

A pretexto de tão nobre tarefa e para que ela pudesse ser exercida sem peias, dentro da brasileiríssima lógica da falta de lógica, deu-se ao Ministério Público uma integral e absurda “independência” dos três poderes, o Judiciário inclusive … que começa, é claro, pela de decidir o próprio salário.

Toda essa maçaroca confusa o suficiente para permitir que a “otoridade” faça o que bem entender contra ou a favor de quem quiser, as democracias substituem pelo expediente simples de fazer com que o promotor público, do mais alto ao mais baixo da escala geográfica – federais, distritais ou estaduais – assim como todos os funcionários que ela julgue importantes o bastante para isso, sejam diretamente eleitos por sua majestade o povo, cujos interesses eles devem defender a contento para evitar perder o cargo numa votação de recall, o que pode acontecer a qualquer momento e por qualquer motivo que caiba no conceito vago da insatisfação do freguês-eleitor.

Chesa Boudin, graduado em Yale e com mestrado em Oxford, Inglaterra, foi eleito promotor distrital de São Francisco em 2019. Mas qualquer recall, pelas leis da Califórnia, precisa apenas de uma notificação que não pode exceder 200 palavras da lavra de qualquer eleitor, individualmente, acrescentada de 10 (dez) assinaturas de residentes do distrito que o elegeu, dirigida ao funcionário visado, para começar. Uma cópia é entregue ao Secretário de Estado que organiza todas as “votações especiais” e eleições da área. O funcionário visado tem então sete dias para resumir sua defesa nas mesmas 200 palavras. O Secretário de Estado publicará então as duas peças e anunciará o número de assinaturas requeridas, uma porcentagem estabelecida em lei dos votos que ele teve para ganhar o cargo, para que o processo vá adiante e a data limite para a entrega dessas assinaturas. Seguem-se uns meses de campanha livre contra e a favor. Uma vez conferidas as assinaturas entregues e confirmada a sua validade, convoca-se a nova votação de todos os eleitores do seu distrito.

Os movimentos de recall estão em alta histórica em todo o país em função da crise que pega o povo por vários flancos diferentes, especialmente o da segurança pública. O de Boudin, que requeria 51.325 assinaturas e conseguiu mais de 83 mil, foi aprovado em 25 de outubro de 2021 e votado terça passada como a “Proposition H” das eleições locais. O governador nomeará um substituto até a eleição do próximo promotor distrital que ocorrerá em novembro.

Não são só os promotores, 24 estados americanos elegem diretamente os seus juízes, e quase todos os demais, inclusive os que nomeiam os seus, provêm hoje “eleições de retenção” desses juízes a cada quatro anos. Um por um é submetido à pergunta ao eleitorado: ”fica por mais quatro anos ou não”? Boudin, tido como “o rosto do movimento dos promotores progressistas” americano, era acusado de ser leniente com o crime, recusar-se a processar diversos ofensores da lei sob o pretexto de que “prisão não resolve”, o que fez com que “assaltos, homicídios e mortes relacionadas a overdoses ganhassem proporções epidêmicas”. É, tipicamente, o mesmo gênero de argumento que tem derrubado juízes. A defesa de Boudin foi genérica, na linha de declarar-se vítima da polarização entre democratas e republicanos, mas não colou.

Cabe lembrar, para a aferição exata da distância que estamos da democracia, que a função do juiz de common law não é exatamente julgar os réus e dar-lhes penas segundo o seu “alto saber jurídico”, mas antes zelar pelo cumprimento de todos os passos de um julgamento justo.

Para entrar na justiça de common law o queixoso tem de procurar nos dicionários de precedentes o caso parecido ao seu e pedir a mesma satisfação que foi dada ao anterior. Cabe ao juiz aferir se todas as partes deram o devido depoimento ao júri assistidos por todos os garantidores profissionais dos seus direitos e se aquele caso é exatamente semelhante ao precedente, e ao júri concluir, depois de ouvir todo mundo com direito a depor, se o réu é ou não culpado. Nesse caso, o juiz se limitará a confirmar que a sentença é a mesma que sempre foi dada para aquele crime.

Nas democracias sob common law todos os julgamentos são decididos por um júri de “iguais do réu”. Na brasileira, só os crimes de morte porque sob tudo o mais, segundo a “autoridade” e não só ela, “o povo não tem capacidade de discernir”…

É desse manancial que mina, aos borbotões, o grosso dessa corrupção que nos devora.

Vespeiro

Sem tropa para um golpe




A ‘crise militar’ provocada por Bolsonaro é resultado de fracas lideranças civis

Por William Waack (foto)

Jair Bolsonaro faz de tudo para reverter duas longas tendências históricas quando se considera o papel dos militares na política brasileira. Até aqui, não conseguiu.

A primeira tendência foi a extinção dos “chefes militares”, entendidos como donos de feudos políticos. Esse processo começou com Castello Branco ainda em 1964. A segunda foi a consolidação da ideia de que os militares não são instância de “moderação” ou “tutelagem” da política e do equilíbrio entre os Poderes. Essa noção vem desde 1988.

As duas ferramentas com as quais Bolsonaro tentou abalar esses alicerces do papel das Forças Armadas foram levar a agitação partidário-eleitoral para dentro dos quartéis e a nomeação de militares para o Ministério da Defesa. A agitação política não funciona enquanto estiver mantida a hierarquia. E ela está mantida.

Quanto ao Ministério da Defesa, Bolsonaro “obteve” um grande efeito negativo, do ponto de vista de suas pretensões de arrastar os militares para uma aventura política. Ele privilegiou quadros do Exército, em detrimento da Marinha e da Aeronáutica, acirrando uma velha disputa. Sem que tivesse conseguido estabelecer comando de fato sobre tropas – e, sem tropas, não há golpe.

Mas as causas profundas dos recentes tumultos em relação ao papel dos militares têm a ver, paradoxalmente, com as lideranças políticas civis.

Recente evento com a participação de ex-ministros da Defesa e militares que estiveram no governo destacou o fato de que os civis se desinteressaram em discutir e definir o que é uma estratégia de defesa nacional – e ninguém lidera sem um projeto, afirma Raul Jungmann.

Foi uma lacuna deixada por civis que gerou interpretações sobre o artigo 142 da Constituição (obrigaria aos militares arbitrar desequilíbrio entre os Poderes), suscitando perguntas sobre o papel político das Forças Armadas, observa o general Rêgo Barros.

E na presente ofensiva bolsonarista contra o sistema eleitoral foi uma instância civil que legitimou as manifestações de militares em relação às urnas eletrônicas. A ideia do então presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, de trazer os militares para um comitê de transparência foi um grave equívoco, assinala Nelson Jobim, ex-ministro da Defesa e ex-presidente do STF.

Num sentido abrangente Bolsonaro não “conduz” uma revisão do papel político dos militares. Na verdade, ele expressa a desagregação institucional, a falta de rumos estabelecidos por lideranças políticas (portanto, dos partidos) e a ausência de um “projeto de Nação” desenhado por elites dirigentes em todas as esferas. Ele é só consequência.

O Estado de São Paulo

Justiça decreta sequestro de bens do PCC e de contador ligado a Lula




A 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro da Justiça estadual de São Paulo determinou o bloqueio de R$ 40 milhões em imóveis e ônibus de integrantes do PCC e do contador João Muniz Leite, que foi responsável pelo Imposto de Renda do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, até hoje, cuida da contabilidade e divide sala com empresas do filho do petista, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

O pedido foi feito pelo delegado Fernando Santiago, e endossado pelo Ministério Público Estadual de São Paulo. Além de Muniz, atinge o traficante de drogas Anselmo Becheli Santa Fausta, o Cara Preta, considerado um dos principais fornecedores de drogas do Primeiro Comando da Capital (PCC), e seu sócio, Silvio Luiz Ferreira, o "Cebola", chefe da Sintonia do Progresso, o setor que cuida do tráfico doméstico mantido pela facção. Santa Fausta foi morto, em dezembro de 2021, em uma emboscada na zona leste.

A medida da Justiça atingiu 250 ônibus da UPBus, a empresa de ônibus comprada por Santa Fausta supostamente com o dinheiro lavado nas loterias. A UPBus mantém contrato de R$ 660 milhões com a Prefeitura de São Paulo e toma conta de 13 linhas de ônibus na zona leste. Além de Santa Fausta, Cebola, que está foragido, faz parte da diretoria da empresa. O sequestro dos ônibus e não das contas da empresa serviu para que ela não paralise seu funcionamento, prejudicando os usuários.

O contador é suspeito de ser o "operador de um complexo esquema de lavagem de dinheiro através de prêmios da Loteria Federal". Como mostrou o Estadão, Muniz, ao lado da esposa, ganhou em loterias federais 55 vezes somente no ano de 2021. Segundo a contagem final da Polícia Civil, o montante lavado pelo contador em prêmios na loteria chegou aos R$ 40 milhões. Do total, R$ 16 milhões ficaram com o contador e o restante teria ficado com Santa Fausta. Em diversas ocasiões, os valores das apostas superavam o dos prêmios obtidos, com exceção de dois prêmios de R$ 16 milhões na Mega Sena.

Familiares

O ex-presidente Lula não é alvo da investigação. Muniz é contador da família do ex-presidente até os dias atuais. Levam o logo da JML Assessoria Contábil e Fiscal os documentos de cadastro, na Junta Comercial de São Paulo, em fevereiro de 2022, da mais recente empresa criada por Lulinha, a LLF Tech Participações LTDA, sediada no apartamento onde o filho do ex-presidente reside. O imóvel está em nome do empresário Jonas Suassuna, que foi sócio de Lulinha e proprietário formal do sítio Santa Bárbara, em Atibaia, propriedade em razão da qual Lula foi processado na Lava Jato.

O advogado de João Muniz, Jorge Delmanto, afirmou ao Estadão que vai "acessar o processo", para, então se manifestar sobre a investigação. "Adianto apenas que a empresa de Contabilidade tem mais de 30 anos de atuação, com mais de 60 funcionários e média de 1000 clientes ativos, sendo empresa voltada ao profissionalismo, legalidade, ilibada e com postura ética em todos os casos", disse.

A reportagem procurou ainda a assessoria de Lula e a sua defesa e a de seu filho. O advogado Cristiano Zanin Martins, que defende Lula, disse não saber se Muniz ainda presta serviços para o petista. O criminalista Fábio Tofic, que defende Lulinha, não se manifestou. A defesa da família Santa Fausta e dos demais integrantes do PCC investigados pelo Denarc também não foi localizada pela reportagem.

Estadão / Dinheiro Rural

Israel preocupado com atividade aérea iraniana na América Latina




A embaixada de Israel em Buenos Aires expressou nesta quinta-feira (16) "preocupação" com as atividades na América Latina de duas companhias aéreas iranianas, que acusa de "se dedicarem ao tráfico de armas", e aplaudiu a decisão da Argentina de reter um avião venezuelano com tripulantes iranianos.

Um comunicado da representação diplomática reconheceu "a ação rápida" da Argentina, onde um avião cargueiro venezuelano que pousou no aeroporto de Ezeiza em 6 de junho com 19 tripulantes - cinco iranianos e 14 venezuelanos - foi retido sob investigação judicial.

"O Estado de Israel está particularmente preocupado com a atividade das companhias aéreas iranianas Mahan Air e Qeshm Fars Air na América Latina, empresas que se dedicam ao tráfico de armas e à transferência de pessoas e equipamentos que operam para a Força Quds, que são sancionadas pela Estados Unidos por estarem envolvidos em atividades terroristas", disse o comunicado.

Al Quds, uma força de elite dos Guardiões da Revolução - o exército ideológico iraniano -, é classificado como uma organização terrorista pelos Estados Unidos. Embora a Argentina não inclua o grupo em sua lista, o nome de um dos membros da tripulação está no documento.

O avião de carga retido no aeroporto de Ezeiza, nos arredores de Buenos Aires, pertence à empresa Emtrasur, subsidiária da venezuelana Conviasa, sob sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. A aeronave foi comprada há um ano da companhia aérea iraniana Mahan Air.

Como resultado da investigação iniciada no último domingo pela justiça local, os 19 tripulantes estão proibidos de deixar a Argentina. O caso está sob sigilo sumário.

A embaixada israelense expressou seu "reconhecimento pela ação rápida, eficaz e firme das forças de segurança argentinas que identificaram em tempo real a potencial ameaça da aeronave".

O ministro da Segurança, Aníbal Fernández, elogiou o conteúdo do comunicado, bem como o embaixador dos Estados Unidos na Argentina, Marc Stanley, que agradeceu as medidas tomadas pelo governo local.

"A Argentina sofreu dois ataques em 1992 e 1994, não estar vigilante seria uma grande preocupação, mas ninguém ficou parado", disse o ministro à rádio Delta.

A Argentina sofreu um ataque à embaixada israelense em 1992 e outro ao centro judaico da AMIA em 1994, causando um total de 114 mortes e cerca de 500 feridos.

"O governo executou todas as medidas que tinham que ser realizadas", disse a porta-voz presidencial, Gabriela Cerruti, nesta quinta-feira, que lembrou que "nenhum dos tripulantes tinha alertas ou antecedentes".

AFP / Estado de Minas

O ecossistema do crime na Amazônia - Editorial




Enquanto o presidente combate fantasmas, cresce a verdadeira ameaça à soberania da Amazônia: um narcoestado paralelo entrelaçado aos crimes ambientais

O desaparecimento do indigenista Bruno Araújo e do jornalista Dom Philips despertou o mundo para um mal que atinge a região do Alto Solimões, na fronteira do Brasil com Peru e Colômbia, mas que se alastra cronicamente por toda a Amazônia. A escalada do narcotráfico está cada vez mais entrelaçada a uma velha rede de ilicitudes, como o garimpo e a extração de madeira, formando um ecossistema do crime. A Amazônia é hoje um barril de pólvora onde se misturam três mazelas que destroem a reputação do Brasil no mundo: a violência, a miséria e a devastação ambiental.

Na última década, o Brasil passou de um mercado consumidor da cocaína latino-americana para um dos principais fornecedores do planeta. Organizações como o PCC, o Comando Vermelho e a Família do Norte passaram a orquestrar o transporte transatlântico de cocaína, seja a da Colômbia e do Peru, passando pela rota amazônica até os portos do Nordeste, seja a da Bolívia, passando pelo interior do Centro-Oeste aos portos do Sudeste. A média de apreensões, que entre 1995 e 2004 era de 6 toneladas ao ano, explodiu nos últimos seis anos para 50 toneladas.

Segundo a ONU, o País responde por 7% das apreensões globais, atrás apenas de Colômbia (34%) e EUA (18%). O Brasil é a quarta maior origem para a Oceania e a primeira para a Ásia e a África, e está se tornando para a Europa o que o México é para os EUA.

Na Amazônia, o narcotráfico se entrelaça com os crimes ambientais. As facções se valem dos carregamentos clandestinos de madeira e manganês para escoar as drogas, e também estão envolvidas na mineração ilegal de ouro e invasão de terras indígenas. “Esses grupos criam empresas, lavam dinheiro e tomam parte no contrabando e no tráfico de armas e drogas”, diagnosticou Aiala Couto, um dos coordenadores da pesquisa Cartografias das Violências na Região Amazônica, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

O estudo constata que, entre 1980 e 2019, enquanto no Sudeste os homicídios caíram 19%, no Norte aumentaram 260%. A dinâmica também se diferencia pela acentuada interiorização: enquanto nos municípios rurais do País a violência cai, nos amazônicos, cresce. Para não deixar dúvidas sobre a imbricação entre crimes ambientais, grilagem e as dinâmicas das facções, nos municípios sob pressão do desmatamento, as taxas de homicídios são bem superiores à da Amazônia Legal.

No Alto Solimões, os cartéis de Miami, Medellín e Sinaloa mantêm um grande esquema de transporte de armas e drogas, pistolagem, lavagem de dinheiro e pesca e caça ilegais, que se mescla aos negócios de comerciantes, pescadores, caçadores e políticos locais. A polícia trabalha com a hipótese de que atravessadores tenham assassinado Araújo e Philips por causa dos prejuízos que suas investigações causavam à pesca ilegal.

“A criminalidade à frente das ilicitudes ambientais tem efeitos brutais, incluindo mais insegurança e corrosão da autoridade”, disseram R. Muggah e M. Margolis, do Instituto Igarapé, em artigo para a Reuters. “O Brasil megalopolitano conhece esse roteiro bem demais. Os municípios no caminho da onda de crimes amazônicos devem agora escrever o seu.” 

O mero envio de forças militares é caro e pouco efetivo para enfrentar o ecossistema do crime. “É preciso investir no fortalecimento de mecanismos integrados de comando e controle, que conectem esferas federal e estadual, e, em especial, diferentes órgãos e Poderes (Polícias, MP, Defensorias, IBAMA, ICMBio, Judiciário, entre outros)”, aponta o Fórum.

Mas é precisamente essa tessitura de uma rede institucional que tem sido explicitamente desconstruída pela agenda antiambientalista de Jair Bolsonaro. O mesmo presidente que nutre paranoias conspiratórias sobre ameaças à soberania da Amazônia por parte de Estados e ONGs e gosta de desafiar autoridades que poderiam auxiliar o Brasil no combate a organizações criminosas cada vez mais sofisticadas e internacionalizadas faz vista grossa à real e crescente ameaça às vidas, ao desenvolvimento e à soberania da região: o sequestro da Amazônia por um narcoestado paralelo.

O Estado de São Paulo

Os sem-noção




Por Merval Pereira (foto)

O sucesso subiu à cabeça dos congressistas, especialmente dos deputados federais. Sucesso do ponto de vista deles, não dos cidadãos, fique bem claro. O ápice dessa “vitória” foram os fundos eleitoral e partidário, que encheram as burras dos partidos, e o orçamento secreto, que privilegiou aliados fiéis do bolsonarismo. Há um ditado latino que diz: “Os deuses primeiro enlouquecem aqueles a quem querem destruir”.

Parece que alguns deputados estão colocando o próprio pescoço na forca, levados pela húbris, conceito grego que significa “excesso” (ou “petulância” na visão romana). Homens assim, que sucumbem à embriaguez do poder, perdem o pudor e são levados a um fim desonroso, diz a tradição histórica.

É o que acontece no Congresso, num momento complicado do país que exigiria foco nas questões essenciais, mas temos de lidar com propostas esdrúxulas que revelam o âmago dos interesses pessoais dos congressistas. É o caso do deputado federal Domingos Sávio, do PL, que recolocou em discussão uma proposta de Emenda Constitucional (PEC) que permite a deputados e senadores anular decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) que não forem tomadas por unanimidade.

Prerrogativa que o Legislativo não tem e não terá, posto que inconstitucional, pois acaba com a lógica dos Poderes independentes. Proposta com o mesmo objetivo já foi feita pelo deputado petista Nazareno Fonteles em 2011 e, naturalmente, arquivada em 2019. Vê-se que o interesse por controlar o Supremo é suprapartidário.

A Comissão de Segurança Pública da Câmara aprovou projeto do deputado Bibo Nunes, também do PL (será coincidência?), prevendo pena de até um ano de detenção para o cidadão que descumprir regras de comportamento durante uma abordagem policial: obedecer às ordens do agente; deixar as mãos livres e visíveis; não realizar movimentos bruscos; manter uma distância mínima de um metro e não tocar no policial. Evidente que ninguém pode atacar um policial, ninguém tem o direito de desacatar um policial. Mas a legislação proposta, além de inócua, é tendenciosa.

Existem normas internas que regem a abordagem, e ela deve seguir esses fundamentos, que também limitam a ação dos policiais. Num momento em que temos notícia de diversas abordagens violentas, e até mesmo causadoras de morte (como no caso do cidadão que morreu sufocado pelo gás lacrimogêneo lançado propositalmente no porta-malas do carro da Polícia Rodoviária Federal), não é possível tratar apenas de um lado da questão. Os policiais são orientados a não ofender o abordado, a não ter atitudes violentas, mas, pelo visto, é preciso primeiro treiná-los novamente. Evidentemente o cidadão que atacar um policial deve estar sujeito a penas severíssimas, é algo que não pode ser aceito pela sociedade.

Para dar um exemplo, em Nova York, atacar um policial é motivo de pena severa, e até motoristas de ônibus são protegidos por uma legislação rigorosa. A cereja do bolo é saber que o relator dessa proposta esdrúxula é o (ainda?) deputado federal Daniel Silveira.

Outro fato curioso, que seria risível se não demonstrasse uma intenção fisiológica capaz de destruir nossa diplomacia, é a proposta do senador Davi Alcolumbre, do União Brasil, que permite a parlamentares assumir embaixadas do Brasil sem perder o mandato, apenas ficando de licença enquanto durar a “mordomia”.

A Associação dos Diplomatas Brasileiros (ADB) se movimenta para barrar o que consideram, com razão, “quebra na separação de Poderes”. A diplomacia brasileira faz parte do Executivo e, com a mudança, sofrerá forte influência do Legislativo, diz a embaixadora Maria Celina de Azevedo Rodrigues, presidente da ADB: “Muda a natureza nacional do serviço de diplomacia. Um legislador representa um Estado, e isso é legítimo.

Mas ele não pode representar seu país no exterior de olho na reeleição em seu estado”. Justamente por a diplomacia ser do Executivo, parlamentares que assumem postos de embaixada deveriam ter de abrir mão de seus mandatos, pois foram eleitos para outro Poder da República. Em democracias representativas maduras, caso dos Estados Unidos, um parlamentar abre mão de seu mandato para assumir um ministério, como fez Hillary Clinton para ser secretária de Estado do governo Obama, assumindo a chefia da política externa. No parlamentarismo é que parlamentares assumem postos no Executivo representando seus partidos.

Na nossa geleia geral, a representação partidária é fluida porque os 32 partidos não representam projetos, apenas grupos políticos que se ajeitam nas siglas de acordo com seus interesses pessoais momentâneos.

O Globo

Líderes europeus na "cidade heroica" e a fuga "impossível" da fábrica Azot

 

JUN



Ao 113.º dia de guerra, quatro líderes europeus visitaram Kiev e Irpin, "símbolo da crueldade inimaginável" da guerra. Macron, Scholz, Draghi e Iohannis disseram apoiar a ideia de conceder à Ucrânia um estatuto de candidato "imediato" à UE. Depois de um corredor humanitário falhado na fábrica Azot, em Severodonetsk, as forças russas afirmaram que iam tentar novamente. Porém, o governador de Lugansk garantiu que "é impossível sair de lá". Os pontos-chave desta quinta-feira:

- O dia ficou marcado pela visita de quatro líderes europeus a Kiev: o presidente francês Emmanuel Macron, o primeiro-ministro italiano Mario Draghi, o chanceler alemão Olaf Scholz e o presidente romeno Klaus Iohannis. As sirenes de ataque aéreo tocaram na capital, mas isso não impediu a visita a Irpin, uma "cidade heróica, marcada pelos estigmas da barbárie" e "símbolo da crueldade inimaginável". Draghi garantiu que "tudo será reconstruído" na Ucrânia.

- Os líderes apoiam a ideia de conceder à Ucrânia um estatuto de candidato "imediato" à União Europeia. "Apoiamos os quatros o estatuto de candidato imediato à adesão", disse o presidente francês, Emmanuel Macron, em conferência de imprensa, acrescentando que "este estatuto será acompanhado por um guia e irá ter em conta a situação nos Balcãs e na vizinhança, em particular na Moldávia". O líder ucraniano Volodymyr Zelensky afirmou que a Ucrânia está "pronta" para trabalhar para se tornar "membro de pleno direito" da UE. A Comissão Europeia vai emitir na sexta-feira a sua recomendação sobre a candidatura da Ucrânia à adesão à União Europeia, sendo expectável que se manifeste favorável à concessão do estatuto oficial de país candidato.

- Cerca de dez mil pessoas permanecem em Severodonetsk, no leste da Ucrânia, onde prosseguem violentos combates, segundo o governador de Lugansk, Sergei Haidai. O Kremlin afirmou que as forças russas iam abrir um corredor humanitário para a retirada de civis da fábrica Azot, em Severodonetsk, depois de, ontem, a tentativa ter falhado. Porém, segundo Haidai, centenas de civis não podem sair por causa das barragens de artilharia russas. "É impossível sair de lá agora. Quero dizer, é fisicamente possível, mas é muito perigoso devido aos constantes bombardeamentos e lutas. Se alguém saísse, teria 99% de hipóteses de morrer".

- Um ataque aéreo russo à cidade de Sumy, no norte da Ucrânia, matou quatro pessoas, ferindo outras seis. Um outro ataque russo atingiu um prédio que abrigava civis na cidade de Lysychansk, no leste da Ucrânia, matando pelo menos três pessoas e ferindo pelo menos sete.

- O Kremlin assegurou que a Rússia está preparada para retomar as negociações de paz com a Ucrânia, culpando Kiev pela falta de resposta às suas propostas.

- O objetivo estratégico da Rússia é a destruição completa do Estado ucraniano e da nação, disse a vice-ministra da Defesa da Ucrânia, Hanna Malyar. Segundo Malyar, "os principais objetivos estratégicos, político-militares e económico-militares da Rússia em relação ao nosso estado continuam a ser a destruição completa do estado ucraniano e da nação, bem como a destruição das fundações militares e económicas do nosso estado".

- O Reino Unido anunciou uma nova vaga de sanções ao Kremlin devido ao "tratamento bárbaro" de crianças na Ucrânia. Na lista de sancionados está a comissária russa dos Direitos das Crianças, Maria Lvova-Belova, acusada de envolvimento na "movimentação e adoção forçada" de duas mil crianças ucranianas. As sanções afetam também o líder da Igreja Ortodoxa Russa, Patriarca Kirill, aliado de longa data de Putin.

- A Alemanha espera entregar à Ucrânia sistemas de lançamento de mísseis "no final de julho" ou "início de agosto", depois de treinar as forças armadas no uso desse armamento. França vai entregar mais seis canhões Caesar, camiões equipados com sistema de artilharia conhecido pela sua precisão. O Reino Unido, por sua vez, comprou e reparou mais de 20 armas de longo alcance - M109s - de uma empresa de armas belga que vai enviar para a Ucrânia. Por fim, a administração Biden vai continuar a fornecer assistência militar significativa à Ucrânia "tão depressa quanto pudermos enviá-la" pelo tempo que for necessário.

- Zelensky "aceitou um convite" da Alemanha para participar na próxima cimeira do G7, no final de junho, na Baviera.

- O serviço de informações holandês descobriu que um agente militar russo tentou usar uma identidade falsa para se infiltrar no Tribunal Penal Internacional (TPI), que está a investigar acusações de crimes de guerra na Ucrânia. Sergey Vladimirovich Cherkasov criou uma elaborada identidade para tentar entrar nos Países Baixos como cidadão brasileiro para um estágio no tribunal de Haia em abril. O homem, com o pseudónimo Viktor Muller Ferreira, foi detido num aeroporto holandês, foi declarado estrangeiro indesejável e colocado no voo seguinte para regressar ao Brasil, onde enfrentará processos judiciais. Leia mais aqui

-O vice-primeiro-ministro da Rússia Alexander Novak assegurou que 90% a 95% do gás exportado pela Gazprom para países europeus está a ser pago em rublos, cumprindo o determinado pelo Kremlin. Porém, admitiu uma subida maior dos preços do petróleo até ao final do ano, enquanto a OPEP+ debaterá se prolonga o acordo que permite ajustar mensalmente o teto de produção conjunta. Paralelamente, a Rússia advertiu que os problemas técnicos com as turbinas da empresa alemã Siemens poderão levar à suspensão do fornecimento através do gasoduto Nord Stream.

- A Rússia pediu à Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) que crie um órgão de arbitragem, uma espécie de "cruz vermelha alimentar", para evitar uma crise alimentar global que gere fome.

Jornal de Notícias (PT)

O Putinzinho de Putin: ele fala em público o que outros dizem em privado

 

J



O ex-presidente Medvedev (dir.), que esquentou lugar para o chefe, faz declarações tóxicas contra a Ucrânia, revelando o que a cúpula realmente acha. 

Por Vilma Gryzinski

As coisas que Dimitri Medvedev sibila no Telegram são simplesmente inacreditáveis. A mais recente: “E quem pode dizer que a Ucrânia ainda vai existir daqui a dois anos?”.

Referia-se a uma notícia segundo a qual a Ucrânia negociava com os Estados Unidos um empréstimo para a compra de gás liquefeito, a ser pago dentro de dois anos.

Medvedev, que já foi chamado de Robin de Putin quando alternava com ele a posição de presidente e primeiro-ministro, mas acabou rebaixado desde então, também já escreveu que odeia os ucranianos e gostaria que eles desaparecessem. Sim, ele queria sumir com 40 milhões de pessoas.

Na linha de ameaças brutais geralmente feitas por apresentadores de televisão, que normalizaram as referências à aniquilação nuclear, Medvedev apelou: “Os cavaleiros do Apocalipse estão a caminho” e os países da aliança ocidental se arriscam a um “ataque total” por apoiarem a defesa da Ucrânia contra o invasor russo.

Medvedev pode estar se posicionando para uma eventual sucessão do chefe – a boataria sobre Parkinson e câncer corre cada vez mais forte -, apelando à linha dura, embora suas chances sejam consideradas próximas de zero.

Nikolai Patrushev, secretário do Conselho de Segurança e um sucessor teoricamente mais viável, também tem soltado as feras.

Medvedev, retirado por Putin do cargo de primeiro-ministro em 2020, é o vice do Conselho. Ou o sub do sub.

Mas ele tem uma ligação antiga com o chefe: os dois começaram a carreira política em São Petersburgo, quando o líder local era Anatoli Sobchak.

Ocupar uma posição subalterna, até humilhante, tem suas compensações. Alexei Navalni, o indômito opositor agora colocado em uma prisão mais dura ainda, divulgou uma investigação em 2017 mostrando mansões e iates ligados a Medvedev. A fortuna dele foi avaliada em 1,2 bilhão de dólares.

Diz uma piada, de quando ele era presidente, que vazou nas comunicações diplomáticas americanas: “Medvedev entra num carro novo e fica impressionado com o aparato tecnológico, mas nota que está sem volante. Vira-se para Putin e pergunta: ‘Vladimir Vladimirovich, onde está o volante?’. Putin saca um controle remoto do bolso e responde: ‘Sou eu quem vai dirigir”.

Qualquer esperança de que ele fosse a cara mais moderna da Rússia pós-comunismo, sem as arestas e a sede autoritária de Putin, acabou nessa época.

A situação hoje não está para piadas. As barbaridades ditas por Medvedev revelam o que integrantes da cúpula realmente gostariam de fazer na Ucrânia, se tiverem a oportunidade. O próprio Putin já mandou dizer, através de Emmanuel Macron, que pretende “esmagar” Volodymyr Zelensky.

Mikhailo Podoliak, um dos assessores mais próximos do presidente ucraniano e porta-voz frequente do governo, respondeu à expressão de desejo do poodle de Putin. “A Ucrânia foi, é e será. Mas onde estará Dimitri Medevedev daqui a dois anos?”.

“Ele é um homenzinho com grandes inseguranças cuja única maneira de se reafirmar é expelir veneno contra a Ucrânia ou ameaçar o mundo”.

A referência não é à altura – 1,62 metro – de Medvedev. O próprio Zelensky, que impressionou o mundo com sua coragem, também é baixinho.

É a estatura moral do ex-presidente russo que conta. E esta se arrasta no chão. Enquanto Zelensky dá show de liderança e ucranianos comuns têm atitudes nada menos que heróicas, Medvedev e companhia são uma vergonha que arrasta na na mais profunda das lamas da taiga a honra da nação russa.

Revista Veja

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