domingo, maio 08, 2022

Inflação, desemprego, educação e saúde: quais os desafios de quem vencer as eleições em 2022?




A BBC Brasil procurou especialistas de diversas áreas para que apontassem os principais problemas que o vencedor ou vencedora das eleições presidenciais terá que enfrentar nos próximos quatro anos

Por Leandro Prazeres, em Brasília

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lança neste sábado (7/5) a sua pré-candidatura em um evento para pelo menos quatro mil pessoas em Campinas (SP). Oficialmente, as campanhas só poderão começar em agosto, quando termina o prazo das convenções partidárias. Mesmo assim, o evento de Lula, líder das principais pesquisas de intenção de voto sobre as eleições presidenciais, vem sendo visto como uma espécie de "pontapé inicial" para a corrida eleitoral deste ano.

Enquanto parte dos pré-candidatos ainda não expôs de forma clara quais as suas propostas caso sejam eleitos, a BBC News Brasil procurou especialistas de diversas áreas para que eles apontassem quais são os principais problemas do Brasil que o vencedor ou vencedora das eleições presidenciais deste ano terá que enfrentar nos próximos quatro anos.

Os especialistas indicaram desafios em cinco áreas: economia, saúde, educação, segurança pública e meio ambiente. As áreas coincidem parcialmente com a hierarquia de preocupações indicadas pelos brasileiros em pesquisas de opinião pública.

O relatório mais recente divulgado pelo Datafolha sobre o assunto, em março deste ano, mostra que as maiores preocupações da população são: saúde (22%), violência e economia (15%), desemprego (12%), inflação (10%), e educação (9%).

Na área econômica, os principais desafios apontados foram o combate à chamada estagflação, (recessão associada a inflação alta), redução do desemprego e aumento da rede de proteção social. Na educação, os principais problemas são a melhoria da qualidade da aprendizagem no ensino fundamental e médio, combate à evasão escolar e aumentar o engajamento do aluno com a escola. Na área ambiental, o desafio é a redução das taxas de desmatamento na Amazônia.

O consenso entre os especialistas ouvidos é de que os desafios apontados são urgentes e, se não forem enfrentados por quem quer que esteja no comando do Palácio do Planalto a partir de 1º de Janeiro de 2023, o Brasil sofrerá consequências no curto, médio e longo prazos.

Economia: estagflação, desemprego e redução da desigualdade

'Para o sociólogo Marcelo Medeiros, um desafio para quem vencer as eleições será ampliar a rede de proteção social para a população mais vulnerável'

O cenário econômico no Brasil vem inspirando preocupação de economistas e organismos internacionais há alguns anos. Essas preocupações são, em parte, reflexo dos números da economia do país. Na média, o Brasil vem apresentando taxas de crescimento econômico inferiores à média mundial.

Em 2019, o produto interno bruto (PIB) cresceu 1,2%. Em 2020, ano em que teve início a pandemia de Covid-19, o PIB caiu 4,1%. Em 2021, houve uma recuperação e a economia cresceu 4,6%, mas ainda menos do que a média mundial, que foi de 5,7%, segundo estimativa da consultoria Austin Rating.

Para 2022, a estimativa não é otimista. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) espera um crescimento de 1,1% enquanto o Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, estima um aumento de apenas 0,7%. Os dois índices são menores que a estimativa de crescimento do PIB do planeta segundo o Banco Mundial, que é de 4,1% em 2022.

Ao mesmo tempo em que a economia demonstra dificuldade para crescer, a inflação segue em alta. Em 2021, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegou em 10,06%, pior número desde 2015.

E enquanto isso, a taxa de desemprego no Brasil registrada pelo governo é de 11,2%, o que equivale a pouco mais de 12 milhões de pessoas.

Para o economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o principal desafio que o próximo presidente da República enfrentará nos próximos anos é a combinação de recessão ou crescimento baixo e inflação em alta, conhecida como estagflação.

"Esse fenômeno é um dos principais problemas que quem quer que assuma a presidência em 2023 vai ter que enfrentar. No mundo, estamos vendo esse cenário de inflação e desemprego altos, mas no Brasil isso é pior, especialmente entre os mais pobres", afirma o economista.

Na avaliação do economista, a tendência é que o desemprego fique ainda maior uma vez que o Banco Central tem aumentado a taxa de juros básica da economia como uma forma de conter o avanço da inflação.

"Esse aumento da taxa de juros freia a economia, o que pode gerar ainda mais desemprego no futuro", explica.

Para o sociólogo e professor visitante da Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos, Marcelo Medeiros, a dificuldade em reverter este cenário cria um novo desafio a quem vencer as eleições: ampliar a rede de proteção social para a população mais vulnerável.

"Há uma tendência de aumento do trabalho informal no Brasil e isso precisa ser enfrentado criando uma rede de proteção social que não seja tão vinculado às contribuições trabalhistas. Hoje, a maior parte dessa rede é financiada por quem está no mercado de trabalho formal. É preciso criar novas formas de financiar essa rede e ampliá-la", explica o sociólogo.

Segurança pública: polícias, facções e milícias

'O pesquisador Renato Sérgio de Lima diz que reestruturar as carreiras policiais é uma das medidas mais urgentes a serem tomadas'

O Brasil ainda é um dos países com a maior taxa absoluta de homicídios do mundo, mas os números vêm mostrando uma tendência de queda.

Segundo o Atlas da Violência divulgado em 2021 e produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e pelo Ipea, houve 45.503 homicídios no ano de 2019, uma queda de 22,1%.

Apesar disso, a violência é o terceiro problema que mais preocupa os brasileiros, de acordo com o Datafolha.

Na avaliação do pesquisador Renato Sérgio de Lima, que faz parte do FBSP, mesmo diante da tendência de queda na taxa de homicídios no Brasil, quem assumir o governo em 2023 terá três grandes desafios na área da segurança pública: reestruturar as carreiras policiais e aumentar a integração dos órgãos que atuam no setor; conter o crescimento de facções e milícias; e enfrentar a violência contra mulheres.

Lima defende que reestruturar as carreiras policiais é uma das medidas mais urgentes a serem tomadas. Ele diz que essa reestruturação passa tanto pela valorização financeira das carreiras na área de segurança quanto na escolha de um formato mais adequado para as polícias funcionarem.

"É preciso discutir a possibilidade de unificar carreiras das polícias ou de encontrar formas para que os diferentes órgãos atuem de forma conjunta. Hoje, a gente observa que há, cada vez mais, uma atuação isolada. Cada um cuida das suas atribuições e a integração é baixa", explica.

O pesquisador afirma que a reestruturação das carreiras policiais também é urgente porque há demandas represadas dessas categorias como regras para salários, punições e promoções que, no passado, já resultaram em motins como o da PM do Ceará, em 2020.

Lima diz, também, que a redução na taxa de homicídios não pode tirar de foco a necessidade de conter o avanço de facções criminosas e das milícias. Segundo ele, esses grupos estão penetrando cada vez mais em setores da economia e ganhando força econômica e política.

"As facções e as milícias entraram em uma nova fase de atuação. Talvez, não haja mais tanta violência e mortes, mas elas estão se tornando cada vez mais poderosas porque começam a controlar segmentos da economia. Há facções controlando redes de postos de gasolina, indícios de que estão indo para garimpos de ouro na Amazônia", diz o especialista.

Para conter esse crescimento, Lima diz que é preciso haver ações integradas focadas no estrangulamento financeiro dessas organizações. "É preciso usar inteligência financeira e investigação para seguir a rota do dinheiro e evitar que elas se expandam ainda mais", diz o pesquisador.

Lima também diz que é importante que a próxima gestão preste atenção à violência contra a mulher. Dados preliminares divulgados pelo FBSP em março deste ano indicam uma ligeira queda (2,4%) no número de feminicídios em 2021 em relação ao ano anterior. Mesmo assim, 1.319 mulheres foram vítimas desse crime no ano passado.

Além disso, houve um aumento de 3,7% no número de estupros contra mulheres em 2021 na comparação com 2020. No ano passado, foram registrados 56.098 estupros contra pessoas do gênero feminino. Isso significa quase seis estupros por hora.

"A gente vem observando um aumento significativo nesses casos que se intensificou durante a pandemia. Há uma crença de que o Estado não tem muito o que fazer nesses casos, mas a criação de campanhas contra esse tipo de prática mostra que há muito espaço para o poder público atuar", explica.

Saúde: epidemias, investimentos e retomada

'Brasil é o segundo colocado no mundo em número absoluto de mortes por covid-19'

A saúde lidera o ranking das preocupações do brasileiro, segundo pesquisa do Datafolha divulgada em março. Analistas afirmam que o resultado está em linha com pesquisas anteriores, mas apontam que os efeitos da pandemia ajudam a explicar os motivos pelos quais o tema se sobressai tanto.

Para o médico sanitarista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Armando Massuda, alguns dos principais desafios a serem enfrentados na área de saúde são, em parte, derivados ou efeitos colaterais dos estragos causados pela pandemia de covid-19.

Na avaliação dele, os três principais desafios são: recuperar o padrão de atendimento do Sistema Único de Saúde e lidar com a demanda reprimida causada pela covid-19; enfrentar o possível surgimento de epidemias que antes estavam controladas; e ampliar as fontes de recursos destinadas para a saúde pública.

Segundo ele, a pandemia gerou uma redução drástica na capacidade do SUS de lidar com outras questões de saúde pública. Milhares de pessoas deixaram de fazer consultas, cirurgias eletivas ou serem atendidas. Um estudo publicado recentemente na revista Lancet mostra que, entre 2019 e 2020, houve uma redução de 25% na quantidade de procedimentos médicos no SUS.

"Isso gerou uma demanda reprimida grande e vai ser um enorme desafio lidar com isso. É preciso preparar o sistema de saúde para aumentar os níveis de produção do SUS e atender a esse público que deixou de ser atendido. Isso gerou consequências graves para a população", explica.

Massuda explica que já havia uma tendência de queda no número de procedimentos realizados pelo SUS antes mesmo da pandemia.

Ele diz que outro problema a ser enfrentado é a possibilidade do surgimento de novas epidemias de doenças que antes estavam sob controle no Brasil como o sarampo.

Dados compilados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mostram que a a cobertura contra a tríplice viral, que inclui o sarampo, caxumba e rubéola, caiu de 93,1%, em 2019, para 71,49% em 2021. A cobertura contra a poliomielite caiu de 84,2%, em 2019, para 67,7%, em 2021.

"Esse (ressurgimento de epidemias) é um cenário com o qual o próximo gestor, qualquer ele que seja, vai ter que lidar. É preciso ampliar os investimentos em ações de prevenção como a vacinação para evitar que isso ocorra", explica Massuda.

O sanitarista diz ainda que para lidar com a demanda reprimida no sistema de saúde e evitar o ressurgimento de doenças controladas anteriormente será necessário ampliar e qualificar os investimentos na área de saúde.

"Não se faz tudo isso sem recursos. É preciso que a gente encontre novas formas de financiar o SUS e, principalmente, que isso não dependa de emendas parlamentares. É preciso um compromisso firme do Estado em relação a isso", defende Massuda.

Educação: qualidade e mercado

'Brasil tem desafios da educação básica ao ensino superior'

Para os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, os desafios do país na área educacional se dividem em dois grandes blocos. Um focado na educação básica e fundamental. O segundo é focado na educação superior.

A co-fundadora e presidente-executiva da organização não-governamental Todos Pela Educação, Priscila Cruz, diz que é preciso diminuir as taxas de evasão escolar, melhorar a qualidade da aprendizagem e aumentar o engajamento do aluno com a escola.

"Os dados indicam que houve um aumento da evasão escolar durante a pandemia. Isso é ruim porque nós já tínhamos índices altos. Trazer o aluno de volta pra sala de aula e tirar esse atraso causado pela pandemia é um dos desafios mais urgentes", explica Priscila.

A melhoria da qualidade também apontado por ela como um problema urgente para quem assumir o comando do país.

"A qualidade do ensino é um gargalo conhecido na educação brasileira e melhorar isso é fundamental se a gente quiser dar um salto nesse quesito. Felizmente, hoje há soluções que já foram testadas em vários lugares do Brasil e que a gente sabe que funciona. Basta dar escala a elas", diz Priscila.

Em relação ao ensino superior, o sociólogo Marcelo Medeiros afirma que o grande desafio do próximo governo será ampliar a oferta de cursos superiores de qualidade numa proporção que acompanhe o crescimento da população que completa o ensino médio.

"Nos últimos anos, a gente viu um aumento dos jovens que completam o ensino médio e querem ingressar no ensino superior. Até agora, essa demanda foi absorvida, na sua maioria, por cursos privados de baixíssima qualidade. Isso gera problemas no mercado de trabalho. O desafio é absorver esses jovens e oferecer educação superior de qualidade", defende Medeiros.

O economista Marcelo Neri diz ainda é que preciso aproximar a educação no Brasil das demandas do mercado de trabalho.

"A gente conseguiu muitos avanços na educação nos últimos anos, mas sem consequências econômicas significativas. Agora, o desafio é potencializar esses ganhos educacionais e encontrar formas de aproximar esse jovem do mercado de trabalho. Precisamos recuperar o atraso", diz o economista.

Meio Ambiente: desmatamento, quadrilhas e mudanças climáticas

'Cerrado é um dos biomas mais ameaçados do Brasil'

Poucas áreas do governo brasileiro chamam tanto atenção da comunidade internacional quanto a ambiental. Nos últimos anos, o avanço do desmatamento no Brasil fez com que personalidades nacionais e estrangeiras se manifestassem sobre o assunto.

Os dados mostram que o cenário a ser encontrado pelo próximo presidente (ou por Bolsonaro caso ele seja reeleito) é complexo. As taxas de desmatamento na Amazônia vêm se mantendo altas ao longo dos últimos anos.

Desde 2019, a taxa anual de desmatamento se manteve acima dos 10 mil quilômetros quadrados, algo que não acontecia desde a primeira década dos anos 2000. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), houve um crescimento de 22% no desmatamento entre 2020 e 2021 (dado mais recente). No ano passado, foram desmatados 13 mil quilômetros quadrados de floresta amazônica.

O problema, porém, não se concentrou apenas no bioma amazônico. O desmatamento também cresceu no Cerrado.

Junto com ele, o Brasil também vem observando o avanço de garimpeiros ilegais em áreas protegidas como nas terras indígenas Yanomami (em Roraima e no Amazonas) e Munduruku, no Pará.

Para a pesquisadora sênior do Observatório do Clima Suely Araújo, os principais desafios do Brasil na área ambiental serão: reduzir as taxas de desmatamento ilegal em todos os biomas, fortalecer e reestruturar os órgãos de proteção ambiental e acelerar o processo de transição para uma nova matriz energética mais limpa e menos dependente dos combustíveis fósseis.

"Não vamos conseguir reduzir as taxas de desmatamento sem fortalecer os órgãos de controle. Hoje, nós temos verdadeiras quadrilhas operando nos garimpos, na extração de madeira ilegal e na grilagem de terras públicas. Isso vai requerer um esforço muito grande do próximo governo, se isso for uma prioridade para ele", afirma Suely.

A pesquisadora afirma que é preciso que a questão ambiental faça parte de todas as agendas do governo e não fique restrita apenas a um ministério. Segundo ela, também é urgente que o governo reveja sua política energética. Segundo ela, o Brasil está indo na contramão do mundo ao abrir mais áreas de exploração de petróleo em vez de passar a investir, cada vez, em fontes de energia renováveis e limpas.

"O Brasil parece querer se tornar o último vendedor de petróleo do mundo. Nós temos que acelerar o processo de descarbonificação da nossa economia e diminuir nossa dependência do petróleo como fonte de energia. Esse é um desafio urgente", explica. 

BBC Brasil

Pela democracia




Por Carlos Alberto Sardenberg (foto)

Pouco antes da invasão à Ucrânia, com o ambiente geopolítico já bastante tenso, setores da esquerda e da direita sustentavam que era tudo culpa dos Estados Unidos. A tese: como líder da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), os EUA levaram essa aliança militar a avançar sobre o Leste Europeu, como que ocupando países que haviam estado na órbita soviética. Esse movimento ameaça a integridade territorial da Rússia, aqui vista como a sucessora da União Soviética.

Lula partilha essa tese, como deixou claro na entrevista à revista Time. Para ele, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, também é responsável pela guerra por não ter adiado a discussão sobre a entrada na Otan. Ou seja, Putin é responsável pela invasão, mas... e cabe um monte de coisa nessa adversativa, cujo fim é jogar a culpa nos EUA, na União Europeia e em Zelensky.

Um festival de equívocos. Começa que a Rússia não é a sucessora da União Soviética. Esta tinha uma doutrina, partilhada por partidos comunistas de muitos países. Deu errado, é verdade, mas o regime funcionou por quase 50 anos.

A Rússia de hoje é o quê? Uma ditadura, como na era soviética, mas sem nenhuma doutrina a não ser a reverência a Putin e o assalto ao Estado promovido por ele e por seus aliados. Putin fala nos valores da Grande Rússia, em oposição aos “valores decadentes” do Ocidente.

Os valores do Ocidente são a democracia, a liberdade individual, a liberdade de imprensa e o capitalismo com predominância do empreendedor privado. Não estão decadentes, como se viu com a formidável reação ocidental à invasão e às barbaridades praticadas por Putin.

A população da Ucrânia praticou esses valores com a eleição de Zelensky e a decisão, também tomada no voto, de entrar na União Europeia e na Otan. Exatamente como fizeram outros países do Leste. Não foi a aliança militar que avançou sobre o Leste. Os países que escaparam da órbita soviética tomaram decisões soberanas de se juntar ao lado ocidental. Reparem: a Otan não deu um tiro sequer quando caiu o Muro de Berlim. E não fez nenhuma ameaça aos países ex-soviéticos.

Essas nações fizeram aquele movimento por dois motivos principais. Primeiro, partilhar o progresso e o desenvolvimento econômico e social da União Europeia. Segundo, obter a proteção da Otan justamente contra as ameaças do imperialismo russo.

Como se vê agora, tinham razão. A Ucrânia deu azar. Levou tempo para se livrar de uma ditadura, de modo que o governo democrático de Zelensky não teve prazo para consolidar a aliança com o Ocidente. Putin antecipou a invasão.

Hoje, quem está ao lado de Putin? Ditadores já estabelecidos no poder e aspirantes a ditador, como o presidente Bolsonaro.

Por que a esquerda, se não apoia Putin, é tão tolerante com ele, a ponto de achar que a vítima, a Ucrânia, também é responsável pela guerra? Trata-se de uma posição infantil anti-EUA e anti-Europa Ocidental, como se ainda fosse tempo da Guerra Fria. Cobram de Zelensky que abra mão da União Europeia e da Otan — que derrube decisões soberanas tomadas pela população. Cobram de Zelensky uma abertura às negociações. Mas quem não negocia é Putin, cuja exigência é transformar a Ucrânia em satélite russo. A resistência das tropas e da população ucranianas mostra bem que essa não é uma opção.

Não se sabe como terminará a guerra. A Rússia limitou suas operações, e a Ucrânia, ao contrário, reforçou sua capacidade de resistência com armas recebidas de países da Otan. Já não se considera impossível que as tropas ucranianas ponham as russas em retirada.

De todo modo, não se trata de uma disputa entre capitalismo e socialismo. Nem se trata de uma guerra por petróleo. São valores que estão em jogo. Ditaduras de um lado, democracias de outro.

O Globo

Limpar a Justiça deve ser prioridade em um país tomado pela corrupção, diz professor de Harvard




A prioridade número um deve ser limpar o sistema de Justiça, retirando da função juízes, promotores e investigadores que promovam a impunidade, afirmou Mattthew Stephenson (foto) em Curitiba. 

Por Renan Ramalho 

Um dos maiores especialistas do mundo na agenda anticorrupção, o professor de Direito da Universidade de Harvard Matthew Stephenson afirmou nesta sexta-feira (6), durante palestra para procuradores em Curitiba, que, num país em que a maioria das instituições esteja contaminada pela corrupção, a prioridade número um deve ser limpar o sistema de Justiça, retirando da função juízes, promotores e investigadores que promovam a impunidade.

“Se em um país onde você tem uma corrupção sistêmica, onde muitas ou todas as instituições são corruptas, e você então não pode fazer tudo de uma vez, por onde você deveria começar? Qual a mais importante instituição a limpar primeiro? Eu não sei, pode variar de país para país. Mas minha resposta padrão a essa questão é: as instituições de Justiça. Cortes, procuradores e investigadores”, disse Stephenson, durante uma roda de conversa na Associação Paranaense do Ministério Público (APMP).

“Porque se eles [juízes, promotores e investigadores] forem capturados ou corrompidos, fica muito difícil solucionar problemas de corrupção em qualquer outro lugar. Porque lutar contra a corrupção geralmente requer, como parte da estratégia, manter agentes corruptos legalmente responsabilizados por suas más condutas. Mas se os tribunais, procuradores e investigadores, que considero coletivamente como instituições de justiça, são capturados, corrompidos ou politicamente enviesados, então fica muito, muito difícil”, afirmou.

Para ele, quando existem tribunais superiores “hostis” à agenda anticorrupção, no qual magistrados se deixam capturar ou enviesar politicamente ou mesmo se corrompem, existe um problema político, contra o qual a expertise técnica dos procuradores pouco pode fazer.

“Se sua Suprema Corte é politicamente capturada ou enviesada, ou corrompida, fica muito difícil. Então, você precisa pressionar por mudanças de pessoas na Corte, reformas fundamentalmente estruturais na Corte em si. E talvez você tenha de ter a esperança de que mesmo uma Suprema Corte politicamente enviesada politicamente não seja tão corrupta, ou tão covarde, de modo que você precisasse tirar todos seus integrantes”, disse.

Stephenson não se referiu diretamente às ações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que teve as condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), inicialmente por considerar que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para o caso. Mas disse que, “às vezes, a questão da competência pode ser apenas um pretexto, pois é uma questão que talvez não seja tão complicada”.

“Podem ser as cortes hostis [à agenda anticorrupção] que estão criando novas regras de competência para matar as ações. Se esse é o real problema, ele é político e não técnico, então não haverá uma solução técnica, você não vai poder ajustar as regras processuais para fazer o problema ir embora, porque os tribunais vão poder usar essa mesma desculpa ou arrumar outra [para eliminar os processos]”, disse o professor aos procuradores.

“Essa ideia de apenas descobrir seis anos depois que todo o caso estava na vara errada... Eu não consigo pensar num lugar nos Estados Unidos onde isso tenha ocorrido”, disse, em outra referência ao caso Lula.

Momento de pessimismo

Matthew Stephenson visita Curitiba pela segunda vez. Ele esteve na capital paranaense quatro anos atrás, a convite de Deltan Dallagnol, então chefe da força-tarefa da Lava Jato, época em que a operação gozava de enorme prestígio no combate ao crime de colarinho branco. Ele contou que começou a observar de perto o Brasil, que mal conhecia, por causa das investigações sobre o esquema de corrupção na Petrobras.

“Naquele tempo, como vocês devem saber, o que estava acontecendo não era importante apenas no Brasil, mas o Brasil se tornou um modelo, um exemplo, para onde muitas pessoas e países começaram a olhar, como uma demonstração da possibilidade de fazer avanços substanciais na luta contra a corrupção. E isso foi significativo, porque a corrupção é um problema muito importante em muitos países do mundo. É um problema muito difícil de resolver”, disse, no início da conversa.

Hoje, após “muitos reveses” na operação, e num tempo de pessimismo, ele disse que veio ao Brasil conversar com os procuradores sobre como preservar bons aprendizados obtidos nesse campo, de modo a reconstruir essa agenda para o futuro sem incorrer em erros que também contribuíram para os retrocessos.

“Parece muito provável que o próximo presidente não será muito simpático à agenda anticorrupção”, disse, em referência a Lula e ao presidente Jair Bolsonaro, que lideram as pesquisas de intenção de voto. “E os mais altos níveis do Poder Judiciário federal também têm parecido muito mais hostis à Lava Jato, particularmente, e à agenda anticorrupção em geral. E tem havido muita preocupação, ao menos em relação à esfera federal – não sei tanto quanto à esfera estadual – não apenas sobre a hostilidade contra a Lava Jato, mas com a erosão de algumas leis e instituições que são importantes na luta contra a corrupção”, acrescentou.

Dificuldades técnicas

Durante a conversa, o procurador André Tiago Pasternak Glitz, presidente da APMP, disse que as dificuldades enfrentadas pela Lava Jato, tocada no Ministério Público Federal, também atingem as promotorias estaduais. Relatou obstáculos estruturais e institucionais para combater grandes casos de corrupção – “estamos muito mais acostumados a lidar com pequenos casos, mais simples, de menor complexidade” – e também de ordem técnica.

“Quando você lida com determinado tipo de criminalidade no Brasil, principalmente criminalidade econômica poderosa, ou politicamente poderosa, acaba trabalhando numa zona cinzenta, ou num campo de incerteza muito grande em relação a quais são as regras do jogo que vão ser jogadas”, disse Glitz.

“E os problemas depois começam a se multiplicar do ponto de vista processual, e as defesas e tribunais acabam anulando investigações, processos, muito tempo depois de esse trabalho ser iniciado, por conta de questões de regras que não eram claras no momento em que o trabalho começou a ser feito. E essas regras parece que acabam sendo interpretadas de forma diferente para esse tipo de criminalidade”, completou.

Questionado se nos Estados Unidos existem essas mesmas dificuldades, Stephenson respondeu que, assim como outros países mais ricos, há um investimento maior em unidades especializadas com expertise diferenciada na área, que envolvem técnicas sofisticadas de rastreamento financeiro e contábil.

E que, em geral, crimes complexos, por envolverem uma dimensão nacional ou mesmo internacional, acabam sendo processados nos tribunais federais, mais preparados e historicamente menos suscetíveis a corrupção.

“No Brasil, e adorei ouvir isso de vocês, o que me parece impressionante é que na investigação da Lava Jato, uma das coisas que as forças-tarefas fizeram foi adquirir essa expertise para fazer esse tipo de trabalho. O que provavelmente foi além do que existia nessas unidades, e que presumo que foi um aprendizado enquanto se fazia o trabalho, fazendo e aprendendo. E espero que a despeito dos reveses da Lava Jato, e o encerramento da operação, alguma parte dessa expertise tenha sido preservada e transferida para outros órgãos. O conhecimento adquirido nessas investigações pode ser compartilhado e tornar mais fácil a investigação sobre crimes complexos de colarinho branco no futuro”, afirmou o professor.

Tribunais anticorrupção especializados

No momento final de sua apresentação, ainda abordando a dificuldade de lidar com tribunais superiores hostis à agenda anticorrupção, Stephenson chamou a atenção para o exemplo de países como a Indonésia e a Ucrânia, que criaram cortes especializadas para julgar esses crimes, apartadas do restante do Judiciário.

No caso da Ucrânia, o tribunal anticorrupção foi formado por candidatos filtrados por um painel de especialistas estrangeiros, que vetavam interessados que tivessem qualquer suspeita sobre sua integridade.

“Isso foi algo pelo qual a sociedade ucraniana pressionou muito, porque eles acreditavam que se o processo político ucraniano tivesse controle sobre a escolha dos juízes para a corte anticorrupção, ela não funcionaria”, afirmou o professor.

Ao concluir sua fala inicial, disse que, em países onde isso não existe, como no Brasil, talvez os procuradores tenham de “escolher estrategicamente as batalhas, na extensão que puderem”.

“Isso não ajuda quando uma Corte, de forma inesperada, num caso em que a condenação já tem cinco anos, de repente muda de ideia. Mas, às vezes, você pode pensar estrategicamente, no sentido de ‘se eu tocar esse caso, eu teria uma chance razoável de ganhar? E se eu não ganhar, minha ação vai trazer retrocessos, porque a Corte vai inventar novas regras que vão tornar ainda mais difícil de levar adiante outros casos?’ Então, acho que procuradores em muitos países têm que tomar decisões muito duras sobre quando podem pressionar ou quando têm de recuar para salvar a munição, se quiserem lutar de forma mais efetiva no futuro.”

Gazeta do Povo (PR)

Reescrevendo a história: a Lava Jato quebrou o Brasil e a Ucrânia é responsável pela guerra




A reescrita da história da Lava Jato criou um Brasil onde há corrupção, mas não existem corruptores e corruptos. 

Por Leonardo Coutinho 

Apenas para demarcar um lugar e tempo, podemos dizer que a história começou assim e pelo Brasil: os bandidos são os mocinhos e os mocinhos são os bandidos. Para tirar o ex-presidente Lula da cadeia e devolver a ele a chance de voltar a fazer o que sempre fez, seus advogados resgataram uma tese acadêmica segundo a qual o sistema judicial pode ser usado como arma para perseguir inimigos, opositores e até países. Como parte dos esforços, até fundaram uma ONG para dar nobreza à missão nada nobre. Suas tentativas originais de reescrita da história quase sempre caiam no ridículo. Mas tudo mudou depois da espionagem contra a Lava Jato. Os desdobramentos já são conhecidos e não precisam ser repetidos.

A reescrita da história da Lava Jato criou um Brasil onde há corrupção, mas não existem corruptores e corruptos. Na história que está prevalecendo, não são os criminosos e seus crimes que ancoraram o Brasil no atraso, impedindo o país de aproveitar alguns dos momentos mais auspiciosos de crescimento global. Para a narrativa que substitui os fatos, o que quase quebrou o Brasil foi o combate à corrupção. Uma lógica segundo a qual quem mata o paciente de câncer é a quimioterapia, não a patologia.

A revista Time desta semana deu palanque para o ex-presidente Lula colocar um pouco mais de tinta no conto sobre sua versão esquizofrênica e oportunista. Além, obviamente, de se colocar no altar da política, Lula mostrou que, quando o deixam falar, suas idiossincrasias são tão portentosas que não há caneta amiga capaz de neutralizá-las.

Sabe aquele sujeito que justifica assédio sexual ou até mesmo estupro dizendo “mas quem mandou ela se vestir assim?”. Então, do alto do altar que a Time montou para Lula, ele não se avexou em dizer que ninguém faz guerra sozinho e que a Ucrânia é tão responsável quanto Putin. Mais especificamente, atribuiu a Volodymyr Zelenskyy a culpa pelo conflito.

A invasão russa na Ucrânia, por sinal, tem servido de pretexto para uma série de barbaridades: Hitler era judeu. Putin é um conservador. O Ocidente está infestado de autocracias globalistas querendo dominar o Brasil. Os judeus são nazistas. A lista anterior jorrou da fonte de propaganda e desinformação russa e por mais que há quem tente explicar – como aqui nesta coluna –, não há quem resolva.

Não faz muito tempo, os bolsonaristas se orgulhavam de exibir a bandeira da Ucrânia (que criminalizou o comunismo), a dos Estados Unidos e a de Israel como símbolos de suas convicções, que iam na linha “nossa bandeira jamais será vermelha” e “o Brasil não vai ser uma Venezuela”. As coisas mudaram tanto desde o início da guerra e da enxurrada de propaganda que absorveram que não seria absurdo se nas próximas passeatas aparecessem bandeiras da Rússia e até mesmo do Irã como símbolos da resistência antiglobalista.

Um giro pelas redes sociais dá pistas disso. A animosidade aos Estados Unidos parece ganhar corpo como resultado de uma reação irracional ao fim do governo Trump e ao desastre que são as relações entre Brasil e Estados Unidos na era Biden. Há absurdos como a afirmação de que o regime dos aiatolás é pacífico e que o Brasil mais cedo ou mais tarde precisa estar com eles para se proteger da influência maligna dos Estados Unidos.

Há uma enxurrada de sandices, por exemplo, dizendo que o Brasil é o próximo alvo da invasão dos Estados Unidos e da OTAN. Gente que se leva a sério, tem centenas de milhares de seguidores, reproduzindo para a base bolsonarista e para a base lulista a mesmíssima lorota. A prova seria a visita ao Brasil da subsecretária de Estado Victoria Nuland, para as reuniões de revisão da agenda bilateral Brasil-EUA, ocorrida no mês passado. Para os russos, Nuland é uma espécie de Thanos. Por onde ela passa, não resta governo de pé. A razão da campanha de difamação se deve ao fato de que ela era a subsecretária para a Europa quando, em 2014, os ucranianos colocaram para fora o então presidente Viktor Yanukovich – um boneco de ventríloquo de Vladimir Putin.

Repetindo sem trocar uma vírgula sequer a mensagem ditada pela propaganda russa, esquerda e direita papagaiavam a mesma tese de que Nuland veio ao Brasil ameaçar o presidente Jair Bolsonaro e interferir nas eleições. A maluquice ficou ainda mais robusta com uma matéria da Reuters, que cita fontes em off que teriam garantido que no ano passado, durante sua passagem pelo Brasil, o diretor da CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos, teria mandado um recado para que Bolsonaro não tentasse intervir nas eleições.

O governo brasileiro nega. O americano não fala sobre o assunto. Mas o negócio ganhou corpo e é tão esquisito que parece fazer parte do mesmo processo de corrosão da relação da direita brasileira com o Ocidente e que está empurrando o Brasil para um eixo formado por uma turma barra pesada.

Até os esquilos que saracoteiam pelos jardins da Casa Branca sabem que Biden não vai com a cara de Bolsonaro. O sentimento é recíproco. Também não é demais pensar que os democratas têm preferência por Lula, mesmo sabendo que ele não é a melhor opção para relações saudáveis entre os dois países e a região.

Mas acho que vale um adendo. Em vários aspectos nos Estados Unidos, e principalmente na política externa americana, não é possível falar que há “um governo Biden”. As rodas estão sendo giradas por grupos de interesse. E não necessariamente na mesma direção. O que se vê é um governo de agendas. Quem tem poder move suas peças conforme os interesses de cada um dos escaninhos da administração. No meio da bagunça, não falta quem aproveite para tirar vantagem.

E assim, a história vai sendo reescrita.

Gazeta do Povo (PR)

O Cafezinho



Lista para vaga no TSE tem nomes próximos a rivais de Bolsonaro

por Matheus Teixeira | Folhapress

Lista para vaga no TSE tem nomes próximos a rivais de Bolsonaro
Foto: Justiça Eleitoral / Senado / EBC

O presidente Jair Bolsonaro (PL) recebeu do STF (Supremo Tribunal Federal) uma lista para a vaga de ministro substituto do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com três nomes que têm histórico de relações próximas com adversários políticos do governo.
 

O chefe do Executivo é obrigado a respeitar a lista tríplice eleita na quarta-feira (4) pelo STF. Ela é composta pelos advogados André Ramos Tavares, Fabrício Medeiros e Vera Lúcia Santana, primeira mulher negra a entrar numa disputa dessa natureza.
 

O assento é destinado a um integrante da classe de juristas, não a um magistrado de carreira ou a integrante de tribunal superior, e ficou vago em março após Carlos Mário Velloso alegar problemas de saúde e deixar a corte antes do fim de seu mandato.
 

O mais recorrente nessa situação é o presidente nomear um dos eleitos pelo Supremo, mas o mandatário também pode devolver a lista, o que seria inédito, ou simplesmente ignorá-la e deixar o tribunal eleitoral com um membro substituto a menos.
 

Dos três candidatos, Tavares é considerado nos bastidores o favorito para o posto. Ele foi integrante da Comissão de Ética Pública da Presidência da República, e interlocutores de Bolsonaro afirmam que seu desempenho no colegiado foi visto com bons olhos pelo governo.
 

Pesa contra Tavares, porém, a relação histórica que construiu com o PT, principal adversário do chefe do Executivo na campanha pela reeleição. O advogado já assinou textos contrários ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e manteve proximidade com o Partido dos Trabalhadores até nos piores momentos da legenda.
 

Em 2018, posicionou-se a favor da participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da"‚Silva (PT) nas eleições daquele ano, quando o petista foi declarado inelegível pelo TSE porque tinha sido condenado em segunda instância no caso do tríplex, o que foi revertido pelo Supremo em 2021.
 

Na opinião do jurista, o petista estava apto a se candidatar porque a manifestação do Comitê de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) afastava sua inelegibilidade. Agora, na disputa para integrar a lista tríplice, foi apoiado nos bastidores pelo ministro Ricardo Lewandowski, outro que não tem uma boa imagem junto à base bolsonarista --ambos são professores da USP (Universidade de São Paulo).
 

Interlocutores do governo Bolsonaro lembram, no entanto, que a relação com o PT nem sempre é problema para um candidato a posições em tribunais. Para a última vaga de ministro substituto do TSE, por exemplo, Bolsonaro nomeou a advogada Maria Claudia Bucchianeri, que trabalhou na equipe de defesa de Lula em 2018.
 

Além disso, o próprio ministro Kassio Nunes Marques, que chegou ao Supremo pelas mãos do atual governo, tornou-se juiz federal em 2011 por nomeação de Dilma.
 

O advogado Fabrício Medeiros, por sua vez, teve o apoio do ministro Alexandre de Moraes, que foi escolhido por Bolsonaro como um dos principais inimigos do Palácio do Planalto. Além disso, foi advogado do DEM e é próximo do ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (PSDB-RJ), desafeto político do chefe do Executivo.
 

Entre os concorrentes, ele é o que tem uma atuação mais voltada ao direito eleitoral.
 

Já a terceira candidata é próxima do presidente do TSE, ministro Edson Fachin, que também é alvo de críticas recorrentes de Bolsonaro. Primeira mulher negra a constar numa lista para o TSE, Santana integra os grupos de advogados Prerrogativas e Associação Brasileira de Juristas pela Democracia, ambos com perfil crítico ao governo.
 

Apesar da disputa acirrada que foi desencadeada nos bastidores dos tribunais superiores para a eleição da lista tríplice, o indicado ao cargo corre o risco de chegar à função com os poderes esvaziados.
 

Isso porque a principal atribuição do ministro substituto oriundo da advocacia é responder pelas ações que tratam das propagandas eleitorais. No entanto, o TSE avalia manter essa missão até agosto com a ministra Cármen Lúcia --ela foi designada para a função após a saída de Velloso.
 

A magistrada irá assumir em seguida como titular do tribunal e a corte eleitoral avalia manter a função com um magistrado oriundo do STF. A avaliação interna é que deixar esse desafio com um integrante do STF reduz o risco de haver decisões individuais polêmicas a respeito das propagandas eleitorais.
 

A responsabilidade pelos processos dessa natureza sempre foi dos dois ministros substitutos originários da advocacia e do magistrado substituto com origem no STJ (Superior Tribunal de Justiça).
 

Recentemente, por exemplo, uma decisão polêmica do ministro Raul Araújo, que também é do STJ, levou o TSE para o centro do debate político.
 

Ele proibiu manifestações políticas no Lollapallooza em ação apresentada pelo PL, partido de Bolsonaro, que acusou o festival de propaganda eleitoral antecipada. A decisão foi revogada posteriormente.
 

O TSE é composto por sete ministros: três oriundos do STF, dois do STJ e dois da advocacia. Além disso, há outros sete magistrados substitutos, de mesma origem dos titulares.
 

Do Supremo, os atuais são Fachin, Moraes e Lewandowski. Nas eleições, Fachin deixará o tribunal e Cármen Lúcia se tornará titular. A presidência da corte durante as eleições será exercida por Moraes.

Ministros do STF e STJ participam de Congresso de Magistrados na Bahia


Ministros do STF e STJ participam de Congresso de Magistrados na Bahia
Foto: STF

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) participarão do Congresso Brasileiro de Magistrados, realizado pela Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), em Salvador, entre os dias 12 e 14 de maio. As eleições de 2022 e a desinformação derivada da disseminação de notícias falsas serão abordadas em debate, bem como a liberdade de expressão.

 

O congresso é o maior evento do Poder Judiciário no país, que volta a acontecer após quatro anos, principalmente por conta da pandemia da Covid-19. O presidente do STF Luiz Fux e os ministros Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Carmem Lúcia estarão presentes – assim como os ministros do STJ Luis Felipe Salomão, Mauro Campbell Marques, Reynaldo Soares da Fonseca e Antonio Saldanha Palheiro.
 

Também participa do evento o famoso estudioso norte-americano Richard Susskind – autor de diversos livros sobre as transformações que a web e as tecnologias da comunicação e informação têm imposto ao Direito. Outro convidado é Lawrence Lessig, professor da Faculdade de Direito de Harvard, militante da liberdade da internet que ficou conhecido como um dos fundadores do Creative Commons. 

 

"Vamos tratar das questões fundamentais do Direito hoje, com foco nas demandas do Brasil, e, ao mesmo tempo, com um olhar global para os desafios que os novos tempos já colocam à nossa frente", afirmou Renata Gil, presidente da AMB. "Teremos mais de mil juízes, de todas as esferas do Judiciário. A partir dos painéis, criaremos estratégias e planos de ação para o fortalecimento do Sistema de Justiça e a melhoria dos serviços que oferecemos à população", complementou a magistrada. “Precisamos discutir os aspectos que impactaram a prestação jurisdicional nesse período e pensar soluções para os principais gargalos”, reforçou a juíza. 
 

Outros nomes estrangeiros a compor a programação são: o Diretor para América Latina e Caribe do Institute for Democracy and Electoral Assistance (IDEA), Daniel Zovatto, o presidente da União Internacional de Magistrados (UIM), José Igreja Matos, e a ex-presidente da International Association of Women Judges (IAWJ) Vanessa Ruiz. 
 

Entre os debatedores estão Alexandre Agra Belmonte, ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST); Maria Claudia Bucchianeri e Carlos Bastide Horbach, ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Elton Martinez Carvalho Leme, presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ); e Valter Shuenquener, secretário-geral do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Bahia Notícias

Bolsonaristas falam em 'Datapovo' e atacam institutos para desacreditar pesquisas

por Patrícia Campos Mello | Folhapress

Bolsonaristas falam em 'Datapovo' e atacam institutos para desacreditar pesquisas
Foto: Alan Santos / PR

Com o objetivo de deslegitimar pesquisas de opinião que mostram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na liderança, grupos bolsonaristas no WhatsApp, Telegram e canais no YouTube estão recorrendo a enquetes enviesadas, pseudopesquisas e ataques contra o Datafolha e o Ipespe.
 

Segundo levantamento do NetLab, laboratório de pesquisas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e da consultoria de análise de dados Novelo Data, políticos e canais bolsonaristas têm compartilhado resultados de enquetes pela internet como se fossem pesquisas de opinião fidedignas, deslegitimado institutos estabelecidos e promovido o chamado "Datapovo" -fotos e vídeos de aglomerações que comprovariam a popularidade do presidente Jair Bolsonaro (PL).
 

"O objetivo é passar à base bolsonarista um cenário em que, ao contrário do apontado pelas principais pesquisas eleitorais, Bolsonaro está em larga vantagem à frente a Lula", diz Guilherme Felitti, sócio da Novelo Data.
 

Para Rose Marie Santini, professora da Escola de Comunicação da UFRJ e diretora do Netlab, "essas pseudopesquisas são ferramentas sofisticadas de propaganda: parecem ser pesquisas, mas são só propaganda".
 

"Há evidências sólidas de que as pesquisas de opinião influenciam a tomada de decisão de muitos eleitores; ao divulgar essas pseudopesquisas, o objetivo é levar os indecisos, os descrentes com a política e pessoas sem informação suficiente a decidir seguindo a maioria, no chamado movimento de manada."
 

O NetLab monitorou 566 grupos no WhatsApp e 1.100 grupos de Telegram entre 1º de dezembro de 2021 e 27 de abril deste ano.
 

As enquetes mais circuladas foram da Jovem Pan (2.433 mensagens em 127 grupos), com mensagens como: "Vota e manda pra todos os Bolsonaristas que vc conhece, família, etc. Peça que façam o mesmo (votar e repassar apenas pra Bolsonaristas). Essa é uma enquete da Jovem Pan e o resultado vai ser divulgado a segunda-feira. Fizeram uma primeira e deu 91% Bolsonaro e 9 Lula. Pessoas da esquerda reclamaram e a Jovem Pan resolveu fazer essa segunda. A esquerda se mobilizou, divulgaram e o Lula cresceu bastante. Nesse momento tá 64 Bolsonaro e 36 Lula. Vamos nos mobilizar também e golear de novo [sic]".
 

Depois vêm Eleições Ao Vivo (699 mensagens em 113 grupos), realidadedopovo.com.br (316 mensagens em 75 grupos) e strawpoll, site que permite aos usuários criarem suas próprias enquetes (308 mensagens em 88 grupos).
 

"Pesquisa SÉRIA! Apenas 01 (um) voto por IP. Nessa não tem FRAUDE!!! Favor VOTAR e COMPARTILHAR com todos, com os _PETÉBAS_ também! Vai, Brasil!!! *Parriba deles, Brasil!*Em uma Disputa entre Lula e Bolsonaro em 2022, qual será o seu voto? Atenção: Essa enquete só permite 1 voto por IP. Enquete Oficial Presidente 2022 (Janeiro), Bolsonaro ou Lula?", dizia uma das mensagens mais compartilhadas, com um link para a enquete.
 

Já a Novelo Data analisou o conteúdo de mais de 70 mil vídeos publicados pelos 450 maiores canais de extrema direita do YouTube Brasil entre 1º de janeiro e 26 de abril de 2022.
 

Segundo Felitti, sócio da Novelo Data, há três linhas de ataque à credibilidade das pesquisas. Há críticas contra os institutos de pesquisa tradicionais, como Datafolha e Ipespe, lembrando resultados de pesquisas de intenção de voto ou levantando suspeitas sobre a idoneidade dos institutos.
 

A segunda linha de ataques é a tentativa de deslegitimar os levantamentos, ao dizer que a pesquisa que vale de verdade é a "Datapovo", a aprovação do político na rua. Como disse o youtuber Fernando Lisboa em vídeo de 1º de janeiro, o presidente "consegue andar na rua, sendo abraçado. Lula não sai na rua. Bolsonaro vai na pastelaria".
 

São vídeos como o que diz: "Pesquisas dão ao Lula 45%, 48%. É uma grande mentira. Denúncia do Pleno.News que empresários tinham comprado pesquisas para ficar mentindo que Lula ganharia no primeiro turno".
 

Logo após o 1º de Maio deste ano, com manifestações esvaziadas tanto do lado bolsonarista como do petista, apoiadores de Bolsonaro voltaram à carga.
 

Usando fotos com ângulos que davam uma impressão de multidão na manifestação de apoio ao presidente e poucas pessoas no evento da oposição, a ex-ministra Damares Alves postou: "Vergonha alheia do ex-presidiário! O 'líder' das pe$qui$as parece que não é líder no mundo real".
 

Usando imagens semelhantes, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse: "Vendo a foto...quem você acha que está liderando as pesquisas?".
 

Há também a exploração de pesquisas que mostram Bolsonaro na frente ou enquetes online "para demonstrar que as pesquisas eleitorais são compradas", diz Felitti.
 

No levantamento da Novelo, a única pesquisa citada como reflexo da realidade é a da Brasmarket. Entre as enquetes, as duas preferidas são a EleiçõesAoVivo e as feitas pela Jovem Pan.
 

São vídeos com títulos como "Bolsonaro perdia para todos e em todos os cenários! Você ainda acredita em pesquisas? ASSISTA!!!!!", "AO VIVO! Quando a enquete é AO VIVO, não tem como manipular!" e "Pesquisa AO VIVO fica difícil para o ladrão de 9 dedos!", sobre enquete da Jovem Pan.
 

Segundo Felitti, a própria Jovem Pan e youtubers como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o Vida Gringa USA e Deycon Silva replicam vídeos mostrando os resultados das enquetes em seus canais.
 

O levantamento da Novelo Data aponta que outra enquete explorada exaustivamente, até mesmo no canal de Flávio Bolsonaro, foi uma pesquisa feita pelo humorista Sérgio Mallandro em um dos seus shows no começo de março. Em 2018, Eduardo Bolsonaro havia publicado um vídeo de outra enquete presidencial conduzida por Sérgio Mallandro.
 

"A análise dos mais de 70 mil vídeos da extrema direita publicados em 2022 sugere uma clara coordenação de grandes canais para atacar e desacreditar as pesquisas eleitorais no Brasil", diz Felitti.
 

Com a melhora de Bolsonaro nas pesquisas tradicionais, a menção a termos relacionados caiu nos vídeos. A média diária de menções ao termo "pesquisas" entre os canais bolsonaristas em abril ficou em 483, contra 565 em fevereiro e 545 em março.
 

"Parece que existe um interesse e uma intensidade menores no assunto, mas é difícil cravar se é por causa da melhora nas pesquisas", afirma Felitti.
 

Santini, do NetLab, aponta para mais um objetivo da campanha de descredibilização de pesquisas. "A base bolsonarista é exposta frequentemente a pesquisas em que o Bolsonaro ganha. Isso constrói uma pseudoevidência para contestar resultado da urna e questionar os institutos que usam metodologia científica para fazer pesquisas de opinião."

Bahia Notícias

Documentos do TSE que serão divulgados eram considerados “sigilosos” pela própria Defesa…

Publicado em 7 de maio de 2022 por Tribuna da Internet

Fachin apontou a contradição do Ministério da Defesa

Weslley Galzo
Estadão

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Edson Fachin, autorizou as Forças Armadas a divulgar os documentos com questionamentos ao processo eleitoral. O ministro, em contrapartida, cobrou explicações do Ministério da Defesa sobre a movimentação dos militares nesse caso, pois a própria pasta classificou os ofícios como sigilosos, mas, na última quinta-feira, 5, cobrou da Justiça Eleitoral a ampla divulgação das informações.

Depois de o Estadão divulgar que, em oito meses, as Forças Armadas enviaram ao TSE 88 questionamentos que tentavam apontar vulnerabilidades no processo de votação e apuração das eleições, o Ministério da Defesa veio a público para pedir ao Tribunal que divulgasse suas perguntas.

COBRANDO EXPLICAÇÕES – No rol de indagações que enviaram à Corte Eleitoral, os militares cobraram explicações até mesmo sobre o motivo de haver acesso a pen drive em novos modelos de urna eletrônica.

As perguntas reforçam o discurso do presidente Jair Bolsonaro de pôr em suspeição o processo eleitoral. Apesar dos questionamentos, até o momento nenhuma apuração oficial constatou fraude nas eleições. Levantamento feito pela Polícia Federal em inquérito aberto desde 1996 não encontrou provas de irregularidades. As fraudes foram detectadas quando a eleição era feita em cédula de papel.

Sem fazer menção ao fato de as Forças Armadas terem solicitado o sigilo das informações, o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira De Oliveira, pediu ao TSE a divulgação dos questionamentos, tendo em vista “o amplo interesse público em tal questão”. No documento, o ministro-general afirmou que o compromisso dos militares está “em contribuir com o que for necessário para a paz e segurança” das eleições.

FORA DO PRAZO – Como mostrou o Estadão, as Forças Armadas encaminharam sete propostas ao TSE para que fossem analisadas e eventualmente incluídas no “Plano de Ação de Transparência das Eleições”, que definiu melhorias a serem feitas para aumentar a eficiência do processo eleitoral.

As sugestões dos militares, no entanto, ficaram de fora da versão final do Plano. A Corte informou ao jornal que o ofício foi encaminhado fora do prazo fixado para inclusão no programa, mas passava por análise e seria respondido em breve.

Além das sete propostas pendentes de análise, as Forças Armadas foram responsáveis por encaminhar 81 questionamentos ao TSE desde que a parceria foi firmada entre as instituições em setembro do ano passado. Parte dos ofícios encaminhados pelos militares à Justiça Eleitoral reproduziam o discurso do presidente Jair Bolsonaro (PL) de contestação à confiabilidade das urnas eletrônicas e do processo eleitoral brasileiro, conforme mostrou o Estadão.

BOLSONARO APROVEITA – O impasse em torno das propostas das Forças Armadas sem respostas do TSE foi capturado por Bolsonaro, que passou a acusar as autoridades da Justiça Eleitoral de ignorarem as recomendações dos militares. O presidente chegou a antecipar o que segundo ele seria o teor de uma das sugestões encaminhadas ao tribunal: a criação de um sistema de apuração paralela dos votos depositados nas urnas eletrônicas pelos quartéis.

As desconfianças foram levantadas apesar de os órgãos de investigação nunca terem detectado fraudes no sistema eletrônico de votação.

Ao contrário. No ano passado, a Polícia Federal vasculhou inquéritos abertos desde que as urnas eletrônicas passaram a ser usadas, na década de 1990, e não encontrou sinais de vulnerabilidade do equipamento. Os registros de irregularidades ocorreram, na realidade, quando a votação ainda era em cédula de papel.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Fachin pegou os militares no contrapé. Foram eles que classificaram os documentos de sigilosos e agora aparecem insinuando que o TSE estaria evitando divulgar. Ponto para a Fachin, que fica na presidência do TSE até agosto, quando será substituído pelo ministro Alexandre de Moraes, e seja o que Deus quiser(C.N.)

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