quarta-feira, dezembro 08, 2021

4 dados que mostram por que Brasil é um dos países mais desiguais do mundo, segundo relatório




A metade mais pobres do Brasil ganha 29 vezes menos do que os 10% mais ricos

Por  Daniela Fernandes

O Brasil permanece um dos países com maior desigualdade social e de renda do mundo, segundo o novo estudo lançado mundialmente nesta terça-feira (7/12) pelo World Inequality Lab (Laboratório das Desigualdades Mundiais), que integra a Escola de Economia de Paris e é codirigido pelo economista francês Thomas Piketty, autor do bestseller O Capital no Século 21, entre outros livros sobre o tema.

O novo Relatório sobre as Desigualdades Mundiais é o segundo realizado desde 2018 e teve a colaboração de cerca de uma centena de pesquisadores internacionais.

O documento de mais de 200 páginas inclui análise sobre o impacto da pandemia de covid-19, que exacerbou o aumento da fatia dos bilionários no total da riqueza global. Pela primeira vez o estudo inclui dados sobre as desigualdades de gênero e ecológicas (a pegada de carbono entre países ricos e pobres, mas também entre as categorias de renda).

O estudo se refere ao Brasil como "um dos países mais desiguais do mundo" e diz que a discrepância de renda no país "é marcada por níveis extremos há muito tempo".

O texto afirma que as diferenças salariais no país foram reduzidas desde 2000, graças sobretudo à política de transferência de renda do Bolsa Família e ao aumento do salário mínimo. Ao mesmo tempo, os níveis extremos de desigualdade patrimonial no país continuaram aumentando desde meados dos anos 90.

"Entre os mais de 100 países analisados no relatório, o Brasil é um dos mais desiguais. Após a África do Sul, é o segundo com maiores desigualdades entre os membros do G20", disse à BBC News Brasil Lucas Chancel, principal autor do relatório e codiretor do Laboratório das Desigualdades Mundiais.

A seguir, quatro dados do novo relatório que mostram por que a desigualdade de renda e de patrimônio no Brasil é uma das maiores do mundo:

1. Os 10% mais ricos no Brasil ganham quase 59% da renda nacional total

No Brasil, a renda média nacional da população adulta, em termos de paridade de poder de compra (PPP, na sigla em inglês), é de 14 mil euros, o equivalente a R$ 43,7 mil, nos cálculos dos autores do estudo. Os 10% mais ricos no Brasil, com renda de 81,9 mil euros (R$ 253,9 mil em PPP), representam 58,6% da renda total do país. O estudo afirma que as estatísticas disponíveis indicam que os 10% mais ricos no Brasil sempre ganharam mais da metade da renda nacional.

'No Brasil, 10% mais ricos concentram quase 60% da renda nacional'

O Chile, que não integra o G20, tem números equivalentes (58,9%) ao Brasil em relação à fatia de renda dos mais ricos. O país sofreu nos dois últimos anos uma onda de violentos protestos por melhores condições de vida. Nos Estados Unidos, país com fortes desigualdades sociais, os 10% mais ricos ganham 45% da renda geral do país, ressalta Chancel. Na China, esse índice é de 42%. Na Europa, ele se situa entre 30% e 35%, completa o economista.

Já o 1% mais rico no Brasil, com uma média de renda de 372 mil euros (quase R$ 1,2 milhão), em paridade de poder de compra, leva mais de um quarto (26,6%) dos ganhos nacionais.

2. Os 50% mais pobres ganham 29 vezes menos do que os 10% mais ricos

A metade da população brasileira mais pobre só ganha 10% do total da renda nacional. Na prática, isso significa que os 50% mais pobres ganham 29 vezes menos do que recebem os 10% mais ricos no Brasil. Na França, essa proporção é de apenas 7 vezes.

"O Bolsa Família conseguiu reduzir uma parte das desigualdades nas camadas mais pobres da população", diz Chancel. Mas em razão da falta de uma reforma tributária aprofundada, além da agrária, a desigualdade de renda no Brasil "permaneceu virtualmente inalterada", já que a discrepância se mantém em patamares muito elevados, aponta o estudo.

3. A metade mais pobre no Brasil possui menos de 1% da riqueza do país

As desigualdades patrimoniais são ainda maiores do que as de renda no Brasil e são uma das mais altas do mundo. Em 2021, os 50% mais pobres possuem apenas 0,4% da riqueza brasileira (ativos financeiros e não financeiros, como propriedades imobiliárias). Na Argentina, essa fatia da população possui 5,7% da fortuna do país.

4. O 1% mais rico possui quase a metade da fortuna patrimonial brasileira

Os 10% mais ricos no Brasil possuem quase 80% do patrimônio privado do país. A concentração de capital é ainda maior na faixa dos ultra-ricos, o 1% mais abastado da população, que possui, em 2021, praticamente a metade (48,9%) da riqueza nacional. Nos Estados Unidos, o 1% mais rico detém 35% da fortuna americana.

O relatório afirma que a desigualdade de riqueza cresceu no Brasil desde meados dos anos 90, em um contexto de desregulação financeira e falta de uma reforma fiscal mais ampla.

'Metade mais pobre dos brasileiros possui menos de 1% da riqueza total do país'

De acordo com o estudo, o patrimônio do 1% da população mais rica do planeta vem crescendo entre 6% e 9% ao ano desde 1995, enquanto, na média, o crescimento de toda a riqueza gerada no mundo foi de 3,2% ao ano. Esse aumento global, diz o relatório, foi exacerbado durante a pandemia de Covid-19. O Brasil seguiu essa tendência: o patrimônio do 1% mais rico no Brasil passou de 48,5% em 2019 para 48,9% do patrimônio total em 2021, afirma Chancel, que considera a progressão "significativa".

Segundo ele, os ultra-ricos no mundo aumentaram suas fortunas porque há uma desconexão entre a economia real, duramente afetada pela crise sanitária, e as bolsas de valores.

Sistema tributário

O estudo sobre a Desigualdade Mundial sugere opções de políticas para redistribuir renda e riqueza, como a taxação progressiva de multimilionários, o que permitiria investimentos em educação, saúde e transição ecológica. O texto defende que o surgimento de Estados de bem-estar social no século 20 estava ligado ao aumento de impostos progressivos.

O principal autor do estudo à BBC News Brasil defende que a falta de uma reforma fiscal ambiciosa no Brasil, que tornasse o sistema tributário mais progressivo, dificulta a redução das desigualdades.

O Brasil é um dos poucos países no mundo que não cobra imposto sobre dividendos (uma parcela do lucro das empresas distribuído aos acionistas), por exemplo.

Para Lucas Chancel, a criação de um imposto sobre dividendos, paralisada no Congresso, é uma boa iniciativa, mas é necessário ir além. Ele sugere o aumento da tributação sobre a herança no Brasil (na França, a alíquota pode chegar a 60%) e a taxação progressiva do estoque de capital, o que poderia incluir um imposto sobre a fortuna.

'Ausência de reforma fiscal ambiciosa no Brasil, que tornasse o sistema tributário mais progressivo, dificulta a redução das desigualdades, ressalta pesquisador'

Ele diz que o Bolsa Família, uma iniciativa positiva que contribuiu na redução de parte das desigualdades, acabou sendo pago, em parte, pela classe média e camadas populares. Isso porque o programa de transferência de renda não foi acompanhado de uma reforma fiscal que aumentasse a contribuição da elite econômica de acordo com suas capacidades.

O país, diz ele, acaba sendo "um exemplo infeliz da adoção de um programa de redistribuição de renda sem modificar estruturalmente, ao mesmo tempo, quem vai pagar o imposto" que financia a medida, ressalta. O mesmo ocorre agora em relação ao novo Auxílio Brasil.

Dados globais do estudo

Na Argentina, que vem enfrentando graves crises econômicas, as desigualdades se situam um pouco abaixo da média na América Latina, embora permaneçam elevadas, ressalta do estudo. Os 10% mais ricos do país ganham quase 43% da renda nacional e possuem 58,2% da fortuna (no Brasil esse número é de 79,8%).

As regiões com maiores desigualdades sociais no mundo são a África e o Oriente Médio. Na Europa, a renda dos 10% mais ricos representa cerca de 36%% do total, enquanto no Oriente Médio e Norte da África, ela atinge 58%, número similar ao do Brasil.

Os 10% mais ricos do mundo ganham 52% da renda mundial, enquanto os 50% mais pobres recebe apenas 8,5% do total. As diferenças são ainda maiores em relação ao patrimônio: a metade mais pobre possui apenas 2% da riqueza mundial (no Brasil é menos de 1%), enquanto os 10% mais abastados possuem 76% da fortuna global.

Desde 1995, o 1% mais rico do mundo levou 38% do aumento da riqueza global, enquanto os 50% mais pobres ficaram com apenas 2% da fortuna adicional acumulada no mundo nesse período.

A pandemia de covid-19 exacerbou as disparidades. O ano passado marcou o maior aumento na fortuna dos bilionários, que cresceu US$ 3,7 trilhões, o equivalente aos orçamentos de saúde do mundo todo, segundo o relatório.

O estudo afirma que após três décadas de globalização comercial e financeira, as desigualdades globais permanecem extremamente significativas. Em 2021, elas estão no mesmo nível do que eram no início do século 20, época do chamado imperialismo moderno ocidental, com colônias e territórios que criaram disparidades econômicas entre os países. Além disso, a renda dos 50% mais pobres no mundo hoje é a metade do que era em 1820.

O relatório também leva em conta a desigualdade de renda relacionada ao gênero. No mundo, as mulheres ganham, em geral, um terço dos homens. O Brasil tem desempenho igual à média dos países ricos da Europa: os salários da população feminina brasileira representam 38% da renda total do país. 

BBC Brasil

Líder de fancaria




Por Merval Pereira (foto)

O presidente Jair Bolsonaro empenha-se diariamente em desmontar a frágil institucionalidade brasileira, por palavras e atos. Muitas dessas atitudes são pura falta de educação, mas a maioria delas reflete uma necessidade de controle autoritário dos órgãos públicos com fins pessoais, sejam eleitorais ou simplesmente em defesa de interesses próprios.

Uma visão da máquina estatal amesquinhada pelos muitos anos de vida parlamentar à sombra de pequenos desvios, como as “rachadinhas” nos gabinetes próprios e dos filhos, que o seguiram na carreira parlamentar, herdeiros de um império eleitoral montado em bases frágeis, do ponto de vista democrático, e conspurcado por relações promíscuas.

A intervenção na Receita Federal é a mais recente decisão nesse sentido, com a saída do secretário José Tostes devido a uma divergência com a família Bolsonaro, que tem candidato para o cargo de corregedor do órgão, vago desde julho. Por que a família presidencial tem interesses desse tipo em diversos órgãos fiscalizadores, como a Receita, o Coaf, a Polícia Federal?

Não é difícil entender, ainda mais depois da revelação daquela reunião ministerial em que Bolsonaro deixou explícito que precisava controlar as informações dentro do governo para não deixar que os parentes e amigos fossem prejudicados: “Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira”.

Muitas vezes essa intervenção ostensiva não dá certo, como no caso da Petrobras. Bolsonaro forçou a saída de Roberto Castello Branco, colocou em seu lugar um general seu amigo, Joaquim Silva e Luna, e não conseguiu impedir que a estatal aumentasse o preço dos combustíveis de acordo com a variação internacional. Mas tenta, a todo custo, usá-la para fins eleitoreiros. A irresponsabilidade é tamanha que o presidente acabou sendo investigado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por uma declaração que indicava que tinha uma inside information preciosa: ele anunciou que a Petrobras começaria a reduzir o preço dos combustíveis nos próximos dias. A estatal teve de publicar um “fato relevante” negando que já tivesse se decidido por essa redução.

Bolsonaro gosta de fingir-se de militar, mas a condição básica dessa profissão, a hierarquia, ele não respeita. Nem na sua relação pessoal com a instituição, veja-se a maneira nada republicana com que foi tratada sua filha, que entrou num Colégio Militar sem se submeter às normas legais, nem na profissional. É exemplar desse comportamento abusivo o caso da intervenção branca que fez no Alto-Comando do Exército, impedindo que o então ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, fosse punido por ter subido num palanque para participar de uma manifestação política.

O convite para o palanque foi feito pelo próprio presidente da República, o que agravou a situação, colocando o Alto-Comando em constrangimento, pois a punição ao general teria de ser também a do presidente. A falta de modos, o linguajar chulo que utiliza em público, tudo indica que ele não sabe diferenciar sua participação na política partidária no baixo clero parlamentar de seu papel atual na Presidência da República.

Assim como o ex-deputado Severino Cavalcanti, que subiu à presidência da Câmara, mas continuou com o mesmo espírito, extorquindo dinheiro do concessionário do restaurante, também Bolsonaro chegou à Presidência da República pensando como integrante do baixo clero. Reduz o país a uma republiqueta de bananas, digna de um líder de fancaria.

O Globo

8 Cúpula da Democracia e boicote à Olimpíada aprofundam crise entre EUA e China




Em um novo ato na escalada de tensões entre Estados Unidos e China, os americanos anunciaram nesta segunda-feira, (6/12) que farão um boicote diplomático aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno em Pequim, em 2022.

Por Mariana Sanches, em Washington

A medida significa que os EUA não enviarão uma representação diplomática ao país especialmente para a competição e que nem o presidente americano Joe Biden, ou qualquer outra alta autoridade americana, irá à capital chinesa em fevereiro.

Mas a delegação de atletas americanos deverá se apresentar completa e disputar medalhas normalmente.

Como os EUA já possuem forte presença diplomática no país, em termos práticos, caberá aos funcionários em postos locais de consulados e embaixadas lidar com assuntos relacionados aos esportistas durante os Jogos.

"Da nossa parte, o que anunciamos é que não enviaremos qualquer diplomata ou representação oficial devido ao genocídio e crimes contra a humanidade cometidos em Xinjiang pela República Popular da China. Em face das atrocidades em curso, não mandaremos representantes que sinalizem que esses jogos são apenas 'uma ocorrência normal'", afirmou Ned Price, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, o ministério das relações exteriores de Washington.

Embora houvesse pressão de parte dos congressistas por medidas mais duras - que incluíssem até mesmo a exclusão dos atletas americanos das disputas por medalhas,- a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, destacou que a adoção de "um boicote diplomático permitirá aos EUA apoiar os atletas olímpicos que trabalharam duro para competir nos jogos internacionais, mas não mostrar apoio político em contenciosos com a China. O time americano terá nosso integral apoio".

Em resposta, a China prometeu "firmes contramedidas". "Quero enfatizar que as Olimpíadas de Inverno não são um palco para posicionamentos ou manipulações políticas", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian.

Especialistas em relações EUA e China tentam agora entender qual pode ser o impacto dos movimentos recentes dos dois países no relacionamento das duas nações no futuro.

"Não acho que isso vá alterar significativamente o relacionamento porque a essa altura ele já está muito ruim. É o pior que já vi desde que fui à China pela primeira vez, em 1989. Naquele momento, a relação não era muito boa. Mas acho que está pior agora, em parte porque há mais em jogo", afirmou a cientista política Mary Gallagher, especialista em política chinesa da Universidade de Michigan.

Segundo ela, embora em 1989 tenha havido o icônico massacre da Praça da Paz Celestial, quando o governo comunista chinês reprimiu duramente protestos pela abertura política, o que levou a embargos de armas e manutenção de restrições ao comércio por parte dos EUA, as economias dos dois países não estavam tão intrinsecamente ligadas - como concorrentes e codependentes - como agora.

Boicote com apoio bipartidário

'A China vem sendo alvo de protestos de grupos muçulmanos em defesa dos uigures de Xinjiang'

A possibilidade de algum tipo de boicote às Olimpíadas vinha sendo discutida ao longo de todo ano de 2021 nos EUA. No último dia do governo republicano de Donald Trump, o então secretário de Estado, Mike Pompeo, declarou que a China cometia genocídio e crimes contra a humanidade contra os Uigures, um grupo étnico muçulmano que habita a região chinesa de Xinjiang.

Ao dar esse passo, o governo americano se tornou o primeiro Estado a usar tais termos para descrever as ações tomadas pelo governo chinês contra a etnia nos últimos anos, e que incluem detenção arbitrária e em massa de milhões de pessoas na região, esterilizações forçadas e repressão à liberdade religiosa do grupo.

A China reagiu, qualificando como "ações loucas" as palavras de Pompeo e dizendo que elas "perturbavam seriamente as relações EUA-China".

Em um raro ato de continuidade entre as duas gestões americanas, no entanto, o recém-empossado presidente democrata Joe Biden falou sobre o tema com seu colega chinês Xi Jinping na primeira conversa telefônica de ambos e o novo secretário de Estado, Anthony Blinken, endossou as palavras do antecessor menos de dois meses após chegar a Washington.

Em em julho, uma comissão bipartidária de congressistas enviou uma carta ao Comitê Olímpico Internacional (COI) para dizer que que nenhuma Olimpíada deveria ser realizada em um país "cujo governo está cometendo genocídio e crimes contra a humanidade" e que "não temos visto evidências de que o COI tenha tomado quaisquer medidas para pressionar o governo chinês a mudar seu comportamento" em relação aos Uigures e outras minorias. Nesta segunda, o COI afirmou que "respeita" a decisão americana.

"É importante entender o que nos trouxe a este ponto. A decisão de Biden pelo boicote diplomático foi o resultado de duas coisas. Primeiro, a sua posição muito precoce e bastante agressiva em relação à questão dos direitos humanos na China, que estabeleceu um limite elevado de ações sobre o tema. O segundo é uma pressão política bastante substancial. Deve-se notar que, se a Casa Branca não tivesse tomado essa iniciativa, os membros do Congresso poderiam empurrar a situação para um resultado semelhante", explica Clayton Allen, diretor de Estados Unidos da consultoria política Eurasia Group.

Em agosto, uma pesquisa publicada pelo site americano Axios mostrou que metade dos americanos gostaria que a Olimpíada não acontecesse na China.

'A tenista e medalhista Peng Shuai desapareceu depois de denunciar abuso sexual de ex-integrante do Politburo'

No início de novembro, um episódio aparentemente individual e isolado adicionou ao cenário geopolítico um elemento que parece ter desequilibrado a opinião pública americana contra a China e ter sido decisivo para a decisão de Biden agora.

A estrela do tênis e medalhista olímpica chinesa Peng Shuai afirmou em seu perfil de rede social chinesa Weibo que foi abusada sexualmente pelo ex-vice premiê Zhang Gaoli, ex-integrante do comitê permanente do Politburo, a cúpula de poder do Partido Comunista Chinês.

Depois de Shuai fazer a denúncia, a postagem desapareceu, seus perfis silenciaram e ela deixou de ser vista publicamente por semanas. Desde então, Peng Shuai reapareceu pontualmente em interações consideradas controladas por organismos como a Associação Feminina de Tênis (WTA, na sigla em inglês), que na semana passada anunciou a suspensão de seus torneios na China, decisão que poderá acarretar em perdas milionárias para o grupo.

"Embora nós agora saibamos onde Peng está, eu tenho sérias dúvidas se ela está livre, em segurança e não sendo submetida à censura, coerção e intimidação", afirmou em comunicado o CEO da WTA, Steven Simon.

"Até recentemente, não havia muito apetite nem mesmo para um boicote diplomático. Mas acho que o tratamento dispensado à Peng Shuai teve um efeito galvanizador na opinião pública fora da China, em parte porque acho que as pessoas nos EUA prestaram mais atenção a essa questão. O público em geral pode não se importar muito com as notícias relacionadas à detenção em massa em Xinjiang e também à repressão em Hong Kong"diz Gallagher.

A especialista nota, porém, que a ação de Biden não deve ter surpreendido Pequim, que já tinha de alguma forma precificado o boicote.

"Um boicote diplomático é provavelmente politicamente mais aceitável porque o governo chinês entende que isso é realmente feito para a opinião pública doméstica", diz Gallagher.

O convite dos EUA à Taiwan que irritou a China

Um complicador para as análises sobre como o boicote assentará no comando do Partido Comunista Chinês é o fato de que o anúncio da medida acontece na mesma semana em que Biden fará sua Cúpula da Democracia - evento para o qual convidou 110 líderes mundiais para discutir como reforçar estruturas democráticas e defender direitos humanos e liberdades individuais. Entre os convidados, Biden chamou lideranças políticas de Taiwan, que a China não considera como uma nação independente e sim como parte do país.

"Até certo ponto, a cúpula é uma forma de falar (mal) sobre a China e a Rússia. Mas também reconhece que vivemos em um ambiente global no qual o poder está mais disperso e no qual as potências globais emergentes têm diferentes maneiras de administrar sua vida política . E a preocupação do governo Biden é que a democracia, para ser forma dominante de governança, tem que mostrar que pode se defender globalmente", afirmou à BBC News Brasil o ex-subsecretário do Departamento de Estado para o Hemisfério Ocidental Thomas Shannon.

O movimento de Biden irritou Pequim. "O conluio entre as autoridades americanas e taiwanesas para fazer provocações e brincar com fogo é extremamente perigoso. Esforços para apoiar e encorajar as forças de "independência de Taiwan" e desafiar o princípio da China única é como tentar conter a maré com uma vassoura", afirmou Zhao, o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores chinês.

Por via diplomática, a China fez circular um documento cujo título era: "China, uma democracia que funciona". No texto, os chineses tentavam mostrar que são mais democráticos que os americanos porque são mais eficientes do que os EUA para satisfazer as necessidades da população.

"O convite à Taiwan é arriscado e provocativo. A pressão sobre Taiwan só vai aumentar e, de certa forma, os EUA provavelmente estão tornando a situação ali ainda mais difícil. Os chineses têm muitas alavancas econômicas que podem acionar para demonstrar seu descontentamento, e também podem fazer mais algumas ações militares, como os voos sobre Taiwan. Há muito espaço para erros de cálculo e um acidente que pode se transformar em algo muito, muito pior. Acho que essa é uma área em que os Estados Unidos e a China, mesmo sem intenção, podem acabar em algum tipo de conflito militar", afirma Gallagher.

A resposta chinesa

'Jogos Olímpicos voltam ser palco de disputa política com a decisão de boicote diplomático por parte dos EUA'

Para Allen, é difícil separar o impacto causado, por um lado, pelo boicote e, por outro, pelo convite a Taiwan. "A decisão americana de seguir adiante com isso deve reverter os esforços estabilizadores da retomada do diálogo entre Biden e a China", diz Allen.

Em meados de novembro, os dois presidentes tiveram um encontro virtual por quase 3 horas. Acertaram uma cooperação para reduzir a pressão sobre o preço do petróleo e iniciaram conversas sobre não-proliferação de armas.

Na COP-26, os dois países também demonstraram disposição de trabalhar juntos para combater o aquecimento global ao lançar um comunicado conjunto. Agora, dizem os analistas, todas essas iniciativas estão a perigo. E algum tipo de entendimento ou acordo sobre barreiras tarifárias se tornou mais improvável.

Pontualmente, os chineses podem ainda lançar mão de sanções simbólicas contra políticos ou ativistas americanos e, indiretamente, incentivar boicotes comerciais a alguma marca dos EUA.

Mas a força e o tipo de retaliação que os chineses devem produzir vai depender também dos movimentos de aliados americanos.

Os EUA esperam que ao menos o Canadá, a Austrália e o Reino Unido anunciem que se juntarão ao boicote diplomático lançado por eles. Se isso não acontecer, a posição americana frente à China ficará fragilizada. Mas, se além desses aliados, os americanos conseguirem trazer Japão ou Coreia para a ação - o que parece mais improvável - o impacto sobre os chineses seria significativamente maior. E sua resposta, talvez, mais inflamada.

Nesta segunda, o relatório da Eurasia Group feito pouco após o anúncio do boicote nota, no entanto, que a situação em que China e EUA estão inclui elementos que escapam ao controle dos dois governos.

Durante os jogos olímpicos, algum atleta do Ocidente pode tentar fazer um desagravo a Peng Shuai ou uma crítica à China. Uma fagulha que poderia levar a desconhecidos desfechos com impactos globais. 

BBC Brasil

8 Com ajuda de governos, setor de armas resiste à crise e fatura mais de R$ 3 trilhões em 2020




Indústria do armamento aumento vendas em 2020 apesar da crise gerada pela pandemia e chegou a faturar US$531 bilhões

Enquanto o mundo vive os efeitos da crise econômica gerada pela pandemia da Covid-19, o setor do armamento vai muito bem. As 100 maiores empresas do setor até aumentaram suas vendas em 1,3%, em 2020, chegando a faturar US$ 531 bilhões (cerca de R$ 3 trilhões), de acordo com informações do Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI), publicadas nesta segunda-feira (6).

A resiliência das grandes empresas é explicada pelas políticas de apoio dos governos diante da pandemia. A cifra significa um aumento de 17% em relação a 2015, o primeiro ano em que o SIPRI incluiu dados sobre empresas chinesas.

Este é o sexto ano consecutivo de crescimento na venda de armas mundial, mostrando que o ramo resiste bem à pandemia e à recessão econômica. Empresas norte-americanas continuam a dominar o ranking, representando 54% do total, com 41 empresas cuja soma dos lucros no ano passado alcança US$ 285 bilhões (R$ 1,6 trilhão).

A indústria de armas norte-americana está passando por uma onda de fusões e aquisições, como forma de ampliar seus portfolios e obter uma vantagem competitiva nas licitações por contratos. A China representa 13% do total das vendas, a segunda maior parcela do ranking.

As vendas de armas das cinco principais empresas chinesas somaram um total estimado de US$ 66,8 bilhões de dólares em 2020, um aumento de 1,5% comparado com 2019. A parte da China é menor que a dos Estados Unidos, mas maior que a do Reino Unido, que fica com o terceiro lugar.

“Nos últimos anos, as empresas chinesas se beneficiaram dos programas de modernização militar do país e do foco na fusão entre o campo militar e o civil”, analisa Nan Tian, pesquisador sênior do SIPRI. “Essas empresas se tornaram algumas das mais importantes produtoras de tecnologia militar avançada do mundo”.

As vendas de armas das 26 principais empresas europeias, somaram em conjunto US$ 109 bilhões, ou 21% do total. As vendas de armas da BAE Systems – a única empresa europeia no top 10 – aumentaram em 6.6%, alcançando o valor de US$ 24 bilhões.

Ajudas dos governos

“Os gigantes da indústria foram protegidos em grande medida por uma contínua demanda governamental por bens e serviços militares”, diz Alexandra Marksteiner, pesquisadora do Programa de gastos militares e produção de armamentos do SIPRI. Segundo os especialistas do instituto, o impacto da crise foi diminuído devido aos investimentos do governo no setor. “Em grande parte do mundo, os gastos militares cresceram e alguns governos aceleraram os pagamentos à indústria de armas como forma de mitigar o impacto da crise do Covid-19”.

Impacto da pandemia

Mas ainda assim, algumas empresas sentiram o choque da pandemia. A venda de armas francesas registrou queda de 7,7%. Isto seria resultado, em grande parte, da diminuição abrupta nas entregas da aeronave de combate Rafale produzida pela Dassault.

A empresa de armamentos Thales, por exemplo, atribuiu a queda de 5,8 % nas suas vendas de armas ao lockdown imposto pelo governo na primavera de 2020.

Algumas empresas também reportaram interrupções na cadeia de produção e atrasos nas entregas. A venda de armas da Rússia também caíram pelo terceiro ano consecutivo. No último ano registraram uma queda de 6,5%.

O decréscimo recente continua uma tendência observada desde 2017, quando as vendas de armas de empresas russas alcançaram seu ápice. Isso coincidiu com o fim do Programa estatal de armamento (2011-2020) e com atrasos nas entregas de armas

RFI / DefesaNet

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Vendas das 100 maiores empresas de armas crescem apesar da pandemia

Fabricantes dos EUA mantêm sua hegemonia global com mais da metade das vendas, de acordo com relatório do SIPRI

Por Carlos Torralba

Madri - Os principais fabricantes de armas aumentaram suas vendas em meio a uma recessão global. As 100 maiores empresas globais de equipamentos militares aumentaram seu faturamento em 1,3% em termos reais em 2020 em relação ao ano anterior, apesar da pandemia do coronavírus, segundo relatório divulgado nesta segunda-feira pelo Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo (SIPRI). O valor total das vendas foi de 531 bilhões de dólares (3 trilhões de reais), após seis anos consecutivos de aumentos. O volume comercial dos cem maiores fabricantes de armas cresceu mais de 15% nos últimos cinco anos.

Os Estados Unidos mantiveram a sua hegemonia global: as 41 empresas deste país incluídas entre as 100 maiores do mundo representaram 54% das vendas totais no ano passado, com 285 bilhões de dólares (1,6 trilhão milhões de reais), um alta de 1,9%. Como tem acontecido desde 2018, as cinco maiores empresas são norte-americanas: Lockheed Martin, Raytheon, Boeing, Northrop Grumman e General Dynamics, em ordem decrescente. A indústria de armamentos dos Estados Unidos passa por uma onda de fusões e aquisições, principalmente no setor espacial, destaca o SIPRI, citando o exemplo da Northrop e da KBR.

A pesquisadora do SIPRI Alexandra Marksteiner observa no relatório que “os gigantes da indústria foram amplamente protegidos pela demanda sustentada dos governos por bens e serviços militares”. O especialista acrescenta que “em muitas partes do mundo, os gastos militares cresceram e alguns governos aceleraram os pagamentos à indústria para mitigar o impacto da crise”.

Apesar do aumento generalizado, a pandemia fez com que algumas empresas experimentassem interrupções na cadeia de suprimentos e atrasos na entrega. Outras, como a francesa Thales, especializada em sistemas eletrônicos, sofreram quedas nas vendas por conta dos confinamentos decretados em dezenas de países.

As cinco empresas chinesas incluídas no ranking venderam 66,8 bilhões de dólares, o que representa 13% do total e 1,5% a mais no comparativo anual. O pesquisador Nan Tian explica no relatório do think tank sueco que “as empresas chinesas se beneficiaram dos programas de modernização promovidos por Pequim e do foco na fusão civil-militar”, tornando-se “um dos mais avançados produtores de tecnologia militar do mundo”. As vendas dos fabricantes chineses não param de crescer desde que o SIPRI passou a incluir dados sobre empresas do gigante asiático em seu relatório anual de 2015.

A venda conjunta das nove empresas russas entre as 100 maiores caiu 6,5% ao ano, para 28,2 bilhões de dólares, seguindo a tendência de queda iniciada em 2017, principalmente devido ao fim do programa de armas do Estado. Outros países cujas empresas de armamento têm posição de destaque são: Japão, Coreia do Sul, Índia e Israel.

Vinte e seis empresas europeias —sem incluir as russas— figuram no ranking, com vendas totais de 109 bilhões de dólares, 21% do total mundial. Destes, a britânica BAE Systems é a única entre os 10 primeiros, na sexta posição. Os países da UE com mais empresas no ranking são: França (6), Alemanha (4) e Itália (2).

A Navantia continua a ser a única empresa espanhola entre as 100 maiores, caindo da 78ª para a 84ª posição e com vendas de 1,18 bilhões de dólares, 10% menos que no ano anterior. Suécia, Polônia, Ucrânia e Noruega também têm ao menos uma empresa de armas entre as 100 melhores do mundo.

El País

'Melhor perder a vida do que a liberdade', diz Queiroga após recusa ao passaporte vacinal

por Folhapress

'Melhor perder a vida do que a liberdade', diz Queiroga após recusa ao passaporte vacinal
Foto: Walterson Rosa/MS

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse, nesta terça-feira (7), que é "melhor perder a vida do que perder a liberdade" ao justificar medidas tomadas pelo governo Jair Bolsonaro (PL) de combate à pandemia da Covid-19.
 

A declaração de Queiroga, reproduzida de uma fala já feita pelo presidente, em março, ocorreu durante coletiva de imprensa realizada em Brasília.
 

"Nós queremos ser, sim, o paraíso do turismo mundial. E vamos controlar a Saúde, fazer com que a nossa economia volte a gerar emprego e renda. Essa questão da vacinação, como realcei, tem dado certo porque nós respeitamos as liberdades individuais. O presidente falou agora há pouco: 'às vezes, é melhor perder a vida do que perder a liberdade'", disse Queiroga.
 

A frase foi usada por Queiroga para justificar a não adoção do governo brasileiro ao passaporte da vacina, uma das recomendações feitas em novembro pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para conter a chegada de novas variantes do coronavírus e eventuais ondas da doença ao país.
 

O passaporte sanitário já é adotado em algumas cidades como forma de permitir a reabertura de bares, restaurantes, cinemas e outros estabelecimentos de forma segura. Recentemente, devido à preocupação com a variante ômicron do coronavírus, a Anvisa recomendou que o governo federal exija a vacinação contra a Covid-19 para entrada no Brasil, como já fazem muitos países.
 

Apesar de ignorar o passaporte, o governo brasileiro anunciou que irá impor a quarentena de cinco dias e teste RT-PCR a viajantes não vacinados que queiram entrar no país. As autoridades, no entanto, não explicaram como será feito o processo de isolamento dessas pessoas.
 

"Não se pode discriminar as pessoas entre vacinadas e não vacinadas e, a partir daí, impor restrições. Até porque a ciência já sabe que a vacina não impede totalmente a transmissão do vírus", afirmou Queiroga.
 

"Então, nós, depois de fazermos uma análise detida de toda a documentação com grupo técnico, decidimos que o RT-PCR seria utilizado [como já vem sendo utilizado desde o início da pandemia, com 72 horas antes do embarque] e requerer que os indivíduos não vacinados cumpram uma quarentena de cinco dias e, após essa quarentena, eles realizariam o novo teste", completou o ministro da Saúde.
 

Se esse teste der negativo para Covid-19, o viajante então será liberado.
 

No dia 26 de novembro, a OMS (Organização Mundial de Saúde) anunciou a descoberta de uma nova cepa do SARS-CoV-2, batizada de ômicron, variante de preocupação (VOCs), a quinta classificada dessa forma.
 

Mas essa nova variante surpreendeu os cientistas pelo número oito vezes maior de mutações de outras cepas já classificadas como de preocupação, além da velocidade de contágio.
 

Horas depois, o ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, informou que o Brasil fecharia as fronteiras aéreas para seis países da África por causa da ômicron. A restrição afeta os passageiros oriundos de África do Sul, Botsuana, Eswatini, Lesoto, Namíbia e Zimbábue.
 

A Anvisa, no entanto, recomendou que a restrição fosse feita a mais quatro países: Angola, Malawi, Moçambique e Zâmbia.

Bahia Notícias

Pacheco fala em esforço para cumprir ordem do STF sobre emendas, mas deixa brecha

por Renato Machado | Folhapress

Pacheco fala em esforço para cumprir ordem do STF sobre emendas, mas deixa brecha
Foto: Roque de Sá/Agência Senado

O presidente do Congresso Nacional, senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), afirmou nesta terça-feira (7) que vai "envidar todos os esforços" para cumprir a decisão da ministra do STF (Supremo Tribunal Federal) Rosa Weber e, assim, divulgar a lista de parlamentares que indicaram as polêmicas emendas de relator.
 

Pacheco, no entanto, deixou claro que a prioridade inicial será para divulgar apenas as informações referentes ao Orçamento de 2021. Não garantiu que sejam publicizadas as mesmas informações referentes à peça de 2020 —embora também sejam alvo da decisão da ministra da corte.
 

Nesta segunda-feira (6), Rosa Weber liberou os pagamentos das chamadas emendas de relator que haviam sido suspensos pela corte e se tornado motivo de embate entre os Poderes Judiciário e Legislativo.
 

A magistrada também ampliou de 30 para 90 dias o prazo para que o Congresso informe o nome de todos os parlamentares beneficiados em 2020 e 2021 por essas verbas, utilizadas como moeda de negociação política do governo Jair Bolsonaro.
 

A decisão veio na sequência de um recuo da cúpula do Congresso. Inicialmente, Pacheco havia dito que era "inexequível" detalhar as informações de Orçamentos passados referentes aos pedidos que fundamentaram as emendas de relator —por exemplo, quais parlamentares as indicaram.
 

Em manifestação anterior ao Supremo, assinada também pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), o Congresso pediu o "reconhecimento da impossibilidade fática e jurídica de cumprimento dos itens" da decisão que dizem respeito à retroatividade da transparência a ser dada para a destinação das emendas.
 

Na sexta-feira (3), no entanto, Pacheco enviou uma manifestação para o Supremo Tribunal Federal na qual reconhece ser possível dar publicidade a essas informações.
 

Pacheco afirma que deu um prazo de 180 dias para que o relator-geral do Orçamento 2021, o senador Márcio Bittar (PSL-AC), adote as providências necessárias para o "cumprimento das citadas deliberações do Congresso Nacional e da mencionada decisão do Supremo Tribunal Federal".
 

A manifestação argumenta que vai cumprir a decisão, apesar da inexistência de obrigação legal anterior de registro dos pedidos formulados ao relator-geral por senadores, deputados federais, ministros de Estado, governadores, prefeitos e associações da sociedade civil.
 

Também argumenta que não há "cadastramento prévio dos mesmos" em um setor específico do Congresso Nacional.
 

Mesmo assim, continua, pediu ao relator que sejam "adotadas as providências possíveis e necessárias para individualizar e detalhar as indicações das emendas de sua autoria e declinar as respectivas movimentações, apresentando, caso detenha, registros formais, informações pretéritas ou atuais sobre essas indicações, ou justifique a impossibilidade de fazê-lo".
 

Após ter as emendas liberadas, Pacheco afirmou que o prazo de 180 dias dado a Bittar era uma estimativa e que muito possivelmente os dados das emendas de relator serão divulgados antes.
 

"Quando me refiro a esse prazo no encaminhamento ao relator-geral do orçamento, senador Márcio Bittar, digo a respeito da disponibilização de servidores, de estrutura do Congresso Nacional, para que o relator possa fazer a individualização dessas emendas e externar a motivação dessas emendas de responsabilidade do relator, não necessariamente no prazo de 180 dias. Pode usar um prazo menor e a decisão acabou vindo ontem com prazo de 90 dias", afirmou Pacheco, em entrevista no Senado.
 

"Obviamente que queremos a transparência, que haja o emprego devido desses recursos e criar os mecanismos próprios para isso. Nós vamos envidar todos os esforços para poder ter esse alinhamento e e dar toda essa transparência exigida pela decisão e agora também pela resolução que foi apresentada, apreciada e aprovada pelo Congresso Nacional", completou.
 

O presidente do Senado foi então questionado especificamente se o Congresso Nacional vai cumprir a decisão e divulgar as informações no prazo dado pela ministra do Supremo. Disse que vai "buscar cumprir o prazo", mas que terá "muita clareza" se não for possível, por causa de algum obstáculo.
 

"Vamos buscar cumprir o prazo. Evidentemente, se houver algum dificultador, evidentemente, vamos ter muita clareza, como eu sempre tive até aqui. Acho que essa compreensão é importante", afirmou o presidente do Senado.
 

Pacheco então afirmou que "jamais vai defender orçamento secreto ou a não transparência" para qualquer tipo de emprego de recurso público.
 

Ele, no entanto, apenas se comprometeu com o cumprimento dos termos da decisão referente ao Orçamento de 2021. Afirmou apenas que "nada impede" que a mesma ação aconteça em relação ao Orçamento de 2020.
 

"Eu encaminhei [a solicitação] ao relator-geral de 2021, que é o senador Márcio Bittar, em razão dessas circunstâncias, nós estamos chegando no fim do ano, o orçamento paralisado, é preciso dar andamento aos empenhos desses recursos para ter as finalidades alcançadas", afirmou.
 

"Então a preocupação imediata é com 2021, mas nada impede que esse trabalho seja feito em relação a 2020, a cargo do relator de 2020", completou.
 

As emendas de relator se tornaram alvo de polêmica por configurarem um esquema de negociação de verbas públicas sem transparência. Ela tem sido a principal moeda de troca, distribuída por governistas, em votações importantes no Congresso.
 

Pacheco e Lira vêm trabalhando para tentar destravar a execução das emendas, congeladas desde a decisão da ministra Rosa Weber —depois confirmada no plenário da Casa.
 

Há quase um mês, a corte decidiu suspender, por 8 votos a 2, "integral e imediatamente" o pagamento das verbas a deputados e senadores, além de determinar que o Congresso dê "ampla publicidade, em plataforma centralizada de acesso públicos", a todos os documentos relacionados à distribuição dessas verbas em 2020 e 2021.
 

Para tentar destravar os recursos, a cúpula do Congresso inicialmente publicou um ato conjunto da Câmara e do Senado, que estabelece regras de transparência, mas apenas a partir de agora. Recusa-se, portanto, a divulgar as polêmicas informações sobre os Orçamentos de 2020-21.
 

Além disso, no dia 29 de novembro, o Congresso aprovou um projeto de resolução regulamentando as emendas de relator. O texto colocou um teto para as emendas de relator, que será o total das emendas de bancada e individuais impositivas.
 

A proposta orçamentária encaminhada ao Congresso prevê R$ 5,7 bilhões para as emendas de bancada e R$ 10,5 bilhões para as emendas individuais.
 

O texto, porém, ainda manteve o controle da distribuição das emendas na cúpula do Congresso e reforçou que as medidas de transparência valem apenas daqui para frente. Ou seja, ele mantém secretos os parlamentares que indicaram as chamadas emendas RP9 em 2020 e 2021.

Bahia Notícias

Processo de Helio Fernandes durou 41 anos, porque o advogado Sérgio Bermudes desprezou a causa

Publicado em 8 de dezembro de 2021 por Tribuna da Internet

Helio Fernandes - Página inicial | Facebook

Helio Fernandes esperou 41 anos por sua indenização

Carlos Newton

No domingo passado, dia 5, publicamos artigo sobre a saga do jornalista Helio Fernandes, que aguardou 41 anos pelo pagamento da indenização devido pela União à “Tribuna da Imprensa”, mas morreu antes do final do processo e seus herdeiros nada receberão, porque o dinheiro (cerca de R$ 39 milhões) foi inteiramente destinado a pagamento de impostos federais, credores da empresas e dívidas trabalhistas.

No artigo, julgamos ter deixado claro que o escritório de advocacia que conduziu a causa (Sérgio Bermudes & Associados) atuou de forma leniente e jamais se interessou realmente em levar ao final essa causa.  No entanto, muitos leitores entenderam o contrário e alguns até julgaram que eu estaria elogiando a atuação de Bermudes, o que jamais me passou pela cabeça. Pensei ter exercitado bem a arte da ironia, deixando as coisas subentendidas, mas parece que errei na dose.

BERMUDES FALHOU – Aproveito para me desculpar junto aos filhos do grande jornalista, Luciana, Bruno e Ana Carolina, porque, ao contrário do que ficou parecendo no artigo que escrevi domingo, o respeitadíssimo advogado Sérgio Bermudes e seu principal associado, Alexandre Sigmaringa Seixas, falharam absurdamente ao defender Helio Fernandes.

É o mais importante escritório de advocacia do país, porém jamais usou sua força e seu prestígio para pressionar a Justiça Federal a tocar o processo com a mesma velocidade conseguida por outros veículos da grande imprensa, como Jornal do Brasil e Diários Associados, que receberam milionárias indenizações sem que tivessem sofrido perseguição equivalente à da Tribuna da Imprensa, único jornal que ficou sob censura por 10 anos seguidos, de 1968 até 1978, e teve suas oficinas destruídas em atentado a bomba em março de 1981,após ter sido aprovada a Lei da Anistia no governo João Figueiredo.

CULPA DA JUSTIÇA? – Em carta a Helio Fernandes, o advogado Sérgio Bermudes tentou se esquivar da responsabilidade pela demora do processo e culpou “a caótica Justiça Federal”.

Bem, se houve falhas, jamais se poderia atribui-las apenas à Justiça Federal. Nenhum escritório de advocacia pode sair enaltecido num processo que demorou mais de 40 anos, o autor não recebeu um só centavo, mas o caixa do escritório foi engordado em R$ 3,9 milhões.

Na minha concepção, a explicação é simples. Quem defende Petrobrás, Ike Batista, grandes bancos e corporações, dificilmente não vai pôr a mão no fogo por um cliente que a todos criticava em nome da liberdade de imprensa. Essa é a grande verdade. O escritório Bermudes se omitiu claramente e não teve remorsos ao embolsar E$ 3,9 milhões e deixar a família de Helio Fernandes a ver navios, como se dizia antigamente.

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P.S.  –
 Vou voltar ao assunto, quantas vezes quiser, em nome de minha grande amizade a Helio e aos dois filhos que partiram antes dele, Helinho e Rodolfo Fernandes. Estou aguardando autorização da família para divulgar as cartas que Helio Fernandes me mostrou, endereçadas ao advogado Sérgio Bermudes, e que jamais tiveram resposta. O texto vai emocionar ou revoltar a todos. (C.N.)  

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