quinta-feira, dezembro 02, 2021

Nesses dois anos formou-se uma casta que, por razões diversas, tem tirado vasto proveito da covid

Publicado em 2 de dezembro de 2021 por Tribuna da Internet

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Charge do Laerte (Folha)

J.R. Guzzo
Estadão

Nada como uma boa cepa nova, sobretudo se ela vem de algum fundão perdido deste mundo, para encher de esperanças, mais uma vez, todos os que criaram nestes dois últimos anos um estado de dependência em relação à covid. Uma parte da sociedade, de fato, não sabe mais viver sem o vírus.

Quem está nela inventou um universo particular, o “novo normal”, viciou-se em seu estilo e agora não quer voltar à vida de antes. A epidemia está cedendo? Então é preciso que ela volte com tudo.

DE BAIXO IMPACTO – Essa variante sul-africana, a “ômicron” que está triunfando nas manchetes, no horário nobre e nos comissariados de médicos-burocratas que se encantaram com a tarefa de dar ordens a todos, é um clássico. Até agora, a nova cepa revelou-se de baixo impacto; espalha-se muito rapidamente, mas agride pouco o organismo. Ou seja: o sujeito pega a covid, mas não vai para a UTI. Na verdade, até agora, não está indo nem para o pronto-socorro.

Mas e daí? Uma bela cepa vinda da África, onde reinam o ebola, a mosca tsé-tsé e outras coisas horrorosas, resolve qualquer síndrome de abstinência causada por notícias positivas sobre a covid.     

Foi o que aconteceu. O Japão fechou o seu território, e até o espaço aéreo nacional, para se defender da nova variante. São Paulo, que vinha pensando em suspender a obrigação de usar máscaras em público, resolveu “repensar”.

NOVAS ESPERANÇAS –  A mídia, desprovida de mortos em escala suficiente para dramatizar o noticiário, recuperou as esperanças. Pegaram três infeccionados em São Paulo, anuncia-se com entusiasmo. Parece que há um em Brasília. Interceptou-se um viajante que passou pela Etiópia. O Marrocos não permite mais a entrada de brasileiros. Estão fazendo isso na Holanda. Estão fazendo aquilo na Mongólia Exterior – e etc. etc. etc.

É fato inegável que o Brasil já teve 22 milhões de infeccionados pela covid, e mais de 615 mil pessoas morreram em consequência da epidemia. Está igualmente fora de discussão a necessidade de dar todo o combate à essa praga – como, por exemplo, mantendo o avanço da vacinação, área em que o Brasil obteve um notável sucesso com a aplicação, até agora, de mais de 300 milhões de doses. Não se pode, em suma, subestimar nada.

CASTA DA COVID – Mas é igualmente verdade que nesses dois anos de covid formou-se uma casta que, por razões diversas, tem tirado vasto proveito da epidemia – e está duramente empenhada em manter as vantagens que obteve. É toda essa gente que ganhou o direito de mandar na vida dos outros – a classe social que permite, proíbe ou exige, dá licenças, fornece certificados, faz as pessoas responderem a questionários.

É o mundo do “home office” e das escolas fechadas. É a multidão de “autoridades locais” que receberam verbas de “emergência”, de cujo uso não precisam prestar contas. São todos os militantes da ideia de fazer a revolução mundial com o vírus e sem a necessidade das massas operárias.

É mais do que compreensível que todo mundo, nesse bonde, esteja torcendo pela nova cepa.

Somente um presidente teve indicação para ministro do Supremo rejeitada pelo Senado

Publicado em 2 de dezembro de 2021 por Tribuna da Internet

Barata Ribeiro – Wikipédia, a enciclopédia livre

Barata Ribeiro assumiu, mas depois foi afastado

Tayguara Ribeiro
Folha

Indicado por Jair Bolsonaro para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal), a aprovação de André Mendonça confirmou o histórico dessas votações. Há 127 anos que o Brasil não vê o Senado recusar uma indicação ao Supremo.

O Marechal Floriano Peixoto (1891-1894) foi o único presidente que passou por essa situação. O seu governo teve cinco indicações ao STF recusadas pelos senadores, o que ocorreu em grande parte por questões políticas ligadas ao relacionamento do mandatário com os outros Poderes.

NO MESMO ANO – As rejeições das cinco indicações para ministro do Supremo Tribunal Federal ocorreram todas em 1894. Os indicados recusados foram: Barata Ribeiro, Innocêncio Galvão de Queiroz, Ewerton Quadros, Antônio Sève Navarro e Demosthenes da Silveira Lobo.

A justificativa encontrada nos arquivos do Senado foi dada na época pelos legisladores apenas em relação a indicação do médico Barata Ribeiro. Neste caso, o Senado entendeu que o candidato não tinha notável saber jurídico.

Na biografia de Barata Ribeiro no site do Supremo Tribunal Federal consta que “em decreto de 23 de outubro de 1893, foi nomeado Ministro do Supremo Tribunal Federal, preenchendo a vaga ocorrida com o falecimento do Barão de Sobral; tomou posse em 25 de novembro seguinte”.

SEM NOTÓRIO SABER – O texto complementa entretanto que “submetida a nomeação ao Senado da República, este, em sessão secreta de 24 de setembro de 1894, negou a aprovação, com base em Parecer da Comissão de Justiça e Legislação, que considerou desatendido o requisito de “notável saber jurídico”.

Em consequência, Barata Ribeiro deixou o exercício do cargo de Ministro em 24 do referido mês de setembro. Na época, o escolhido podia assumir as funções antes de o Senado votar a indicação.

Além de Barata Ribeiro, outros dois rejeitados no governo Peixoto também não tinham formação em direito: Ewerton Quadros, general que atuou contra a Revolução Federalista, e Demóstenes Lobo, diretor-geral dos Correios. Os outros recusados eram graduados em direito, mas não chegavam a ser expoentes do mundo jurídico: o general Galvão de Queiroz e o subprocurador da República Antônio Seve Navarro.

EPISÓDIOS ATÍPICOS – Segundo o Senado, não se sabe os motivos exatos que levaram os senadores da época a recusar as indicações já que as sessões eram secretas, e as atas se perderam. A divulgação do parecer sobre Barata Ribeiro foi uma exceção.

“Esses episódios [de recusa dos indicados] do Floriano Peixoto são muito atípicos. O governo Floriano Peixoto foi muito conturbado, marcado por um conflito muito grande com o próprio Supremo Tribunal Federal e com o Congresso”, afirma Daniel Damásio Borges, professor do departamento de Direito Público da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo).

Segundo o jurista, Peixoto “era do Exército, tinha uma personalidade muito autoritária que não aceitava o sistema de freios e contrapesos. Ele convivia muito mal com o estado democrático de direito” o que gerava atritos políticos.

OUTRAS INDICAÇÕES – Damásio lembra que já ocorreram episódios com “uma certa resistência do Senado” como no caso da indicação do Dias Toffoli e o caso da indicação de Edson Fachin “que havia lido aquele manifesto durante a campanha eleitoral em favor da então candidata Dilma Rousseff (PT) e quando ele foi indicado por ela ocorreu uma certa polêmica e um medo de que ele fosse submisso”. Entretanto, nos dois casos os senadores acabaram aprovando as indicações.

Atualmente, estão aptos a receberem a indicação do presidente da República para o Supremo cidadãos brasileiros com mais de 35 anos e menos de 66 anos, que tenham notável saber jurídico e reputação ilibada, explica a professora de direito da USP (Universidade de São Paulo) Eliana Franco Neme.

MODELO AMERICANO – “Essa é uma regra que a gente importou do modelo americano com o estabelecimento da república”, explica a jurista. “Depois que o presidente indica essa pessoa, ela precisa passar por uma sabatina no Senado federal e o indicado precisa ser aprovado com a maioria absoluta dos 81 senadores”. São 41 votos.

Ao todo, o STF é composto por 11 membros. Uma eventual recusa na indicação de Mendonça poderia levar o colegiado a continuar com votações com dez membros, correndo o risco de um empate nas decisões.


Dados do Caged também eram ‘fakes’




Por Gilberto Menezes Cortes

Desde o 2º semestre de 2020, quando a economia voltou, lentamente, a retomar as atividades, embora retardada justamente no setor de serviços e no comércio, que são os maiores empregadores, o ministro da Economia, Paulo Guedes, se valia das estatísticas do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), então subordinadas à sua pasta, para destacar que o mercado de trabalho estava melhorando fortemente e que os dados da PNAD Contínua do IBGE, que guardavam defasagem de dois meses (um a mais que o Caged) não expressavam a realidade, criticando fortemente o IBGE, também da sua pasta.

O tempo passou. Desde o 2º semestre deste ano, as estatísticas do Caged passaram à pasta do Ministério do Trabalho e Previdência (MTP), recriado pelo presidente Bolsonaro para abrigar o ministro Onyx Lorenzoni, que saiu da Casa Civil, entregue ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), um dos líderes do Centrão. E, coincidentemente, enquanto o IBGE retomava, em maio, as pesquisas de campo (trocadas na pandemia pelas consultas telefônicas), o Caged passou a receber informações atualizadas da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de muitas empresas que tinham paralisado atividades durante o auge da pandemia, sobretudo nas áreas de turismo e lazer, bares e restaurantes.

E a realidade mostrou-se completamente diversa da narrativa do ministro da Economia. Em vez dos celebrados 142.690 empregos criados em pleno ano da pandemia de 2020, quando nenhum brasileiro tinha sido vacinado e a volta ao trabalho presencial era incerta, em outubro deste ano houve a 1ª retificação nos dados do Caged de 2020. E a tal criação de empregos foi reduzida a 75,8 mil vagas. Agora em novembro, quando os dados da PNAD Contínua referentes ao trimestre julho-agosto-setembro, foram divulgadas de manhã, pelo IBGE, e os do Caged, à tarde pelo MTP, houve uma reviravolta completa.

Ao contrário dos comunicados otimistas, não houve recuperação de empregos no mercado de trabalho brasileiro (como indicavam todas as pesquisas do IBGE, com redução dos trabalhadores com carteira assinada e aumento da informalidade e das taxas de desocupação, de subutilização da mão de obra e do desalento - a desistência de busca de emprego num mercado retraído e cada vez mais exigente de qualificação). Os dados do Caged, atualizados, indicaram a perda de 191.502 empregos ao longo de 2020.
 
Os números na berlinda

Entretanto, ainda será preciso o Caged fazer uma clivagem completa em seus números (dependentes das informações da RAIS, sempre defasadas, mas que se avolumaram em atrasos no ano passado pelo fechamento ou hibernação de muitas empresas nos setores de serviços - bares, restaurantes, atividades ligadas ao turismo e lazer), para poder ser feito o balanço fiel do impacto da Covid-19 no mercado de trabalho do Brasil.

É que em janeiro e fevereiro (antes da pandemia) houve a criação de 652 mil.934 vagas, que começaram a encolher em março (ainda positivo), com demissões em massa em abril, maio e junho. Se no total de 2020, o Caged encontrou a perda de 191.502 vagas líquidas (demissões X admissões), teriam ocorrido a perda de 844.430 empregos com carteira assinada em 2020 sob o impacto da pandemia (metade de março em diante). Seria um número bem menor que as vagas perdidas na recessão de 2015 (1.542.371 vagas perdidas com carteira) e de 2016 (mais 1.321.904 demissões), somando 2,87 milhões de empregos perdidos.

Este ano, até outubro, o país teria recriado 2.645.974 vagas com carteira assinada, segundo o Caged. Parece um salto muito grande na gangorra. Como em dezembro ocorrem muitos desligamentos após o Natal e a chegada do ano novo, é preciso esperar um pouco mais para que as estatísticas do IBGE e do Caged ofereçam (mesmo mantendo um mês de defasagem entre elas), um retrato mais preciso do mercado de trabalho.

A gangorra dos números

Na PNAD Contínua do trimestre encerrado em setembro, houve ajuste no número médio da população ocupada em 2020, com avanço de 900 mil pessoas. Até setembro de 2021, o número de pessoas trabalhando no Brasil era de 93,0 milhões enquanto o número de pessoas desempregadas atingiu 13,5 milhões. A renda real habitual do trabalho registrou queda de 11,1% em relação ao mesmo período do ano passado (indicando que a recomposição do emprego está sendo feita com salários mais baixos), dado o excesso de oferta de mão-de-obra, além da escalada da inflação.

Já o Novo CAGED indicou a criação de 253,1 mil empregos formais em outubro. Em termos dessazonalizados, esse resultado representa uma desaceleração de 169 mil para 138 mil empregos.

Para a LCA Consultores, a hipótese de que mais pessoas viriam a procurar emprego com o intuito de recomposição de renda e consequentemente passassem a compor a Força de Trabalho continua sendo observada e deve persistir. Os dados de População Ocupada por setor mostram crescimento na variação mensal dessazonalizada da maioria dos setores, com destaque para Alojamento e alimentação (2,2%) – um dos subsetores de Serviços mais prejudicados pela crise provocada pela Covid-19.

Quando olhamos os dados de População Ocupada por tipo de ocupação, o destaque fica para as posições informais, sobretudo os por conta-própria, apesar de que continuamos a observar uma recuperação mais tímida do setor privado com carteira de trabalho.

O cenário do mercado de trabalho brasileiro continua em elevada ociosidade. Um dos indícios é quando olhamos para algumas taxas alternativas de desemprego. Por exemplo, se adicionarmos os subocupados, aqueles que têm uma jornada de trabalho inferior a 40 horas semanais, mas gostariam de trabalhar por um período maior, aos desocupados e aos desalentados (aqueles que não procuraram trabalho pois não acham que conseguiriam) temos uma taxa composta de subutilização, que em setembro alcançou 26,5% da força de trabalho potencial.

BC põe criptomoeda no radar remoto

O Banco Central debateu ontem as possibilidades de criação de um Real digital, a criptmoeda do BC. Mas as apreciações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto indicam que a ideia é sedutora, mas está no radar para eventual aplicação a longo prazo.

Campos disse que o BC vem observando “as plataformas de serviços oferecidos com base em “stablecoins”; e o que vem se multiplicando nos ambientes de finanças descentralizadas, acrescentando que “as ferramentas desses ambientes são promissoras e os bancos centrais têm de se preparar para incorporá-las a seu perímetro regulatório para fomentar a inovação enquanto preservam a estabilidade financeira e monetária”.

Mas, ponderou, “esse é um processo evolutivo, onde riscos e oportunidades devem ser avaliados constantemente. Temos ainda um longo caminho a percorrer e, sempre abertos ao diálogo, tenho certeza de que chegaremos a uma solução que beneficie toda nossa sociedade”. O mandato de Campos no BC vai até 31 de dezembro de 2024, qualquer que seja o novo governo.

Golpe duro no Biodiesel

As associações que representam o setor de biocombustíveis no Brasil criticaram, em nota conjunta, a decisão do governo federal, por meio do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), de manter em 10% a mistura do biodiesel ao diesel durante todo o ano que vem. O Ministério das Minas e Energia (MME) justificou a medida como forma de proteger os interesses do consumidor, pois tal decisão "confere previsibilidade, transparência, segurança jurídica e regulatória ao setor".

O biodiesel, usado há 15 anos como mistura, é formado, predominantemente, por óleo de soja (84%), gordura animal (sebo bovino, suíno e gordura de aves) e óleo alternativos (exceto mamona, levantado no 1º governo Lula e abandonado por oxidar rapidamente e não ter produção em escala comercial), chegou a ser misturado em até 15% no diesel, depois caiu para 12% e 10%, com a disparada do preço do óleo de soja no ano passado.

Uma das maiores críticas à decisão deve-se ao fato de que reflete "uma posição de defesa do diesel fóssil importado [como o transporte no Brasil é dependente do caminhão e trens a diesel, a estrutura de consumo do diesel no país supera a natural fatia do diesel no refino de cada barril de petróleo] e reverbera os interesses do setor petrolífero, de distribuição e do setor automotivo, que destoam das sinalizações de empresas e governos de muitos países durante a COP-26 em favor da sustentabilidade".

Para as entidades, o CNPE "dá um sinal contrário aos compromissos estabelecidos na COP-26 (a Conferência do Clima, que se encerrou há poucos dias, em Glasgow, Escócia)".

Só para inglês ver

Assim como a redução de 5% no desmatamento da Amazônia era só de fachada, como constatou o embaixador alemão no Brasil, estarrecido com as estatísticas oficiais, só divulgadas após a COP-26, de que houve aumento de 22% na área desmatada, o Renovabio (programa de uso de biocombustíveis para reduzir as emissões de CO2) foi uma das "vitrines" sustentáveis que o Brasil mostrou durante a COP-26, na Escócia).

Jornal do Brasil

Rachadinha': denúncia contra Flávio Bolsonaro está parada há 500 dias




Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ)

A denúncia de junho de 2020 ainda não foi analisada pelo Tribunal do Rio de Janeiro; a demora é o dobro da média de nove meses de para outras ações penais

Investigações contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) estão paradas no Órgão Especial do Tribunal de Justiça há 524 dias

O tribunal escolhido como foro para acompanhar as investigações contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está sem analisar um caso de "rachadinha" contra um deputado estadual há 524 dias.

A denúncia foi oferecida em junho de 2020 e ainda não foi analisada pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, primeiro passo para instaurar a ação penal. A demora é o dobro da média de nove meses em outras ações penais, relatou a Folha.

Em razão da anulação das provas do caso do senador, a investigação terá de ser refeita.

O único acusado a partir das investigações do relatório do Coaf, sobre movimentações financeiras atípicas de assessores da Assembleia Legislativa fluminense, foi o deputado Márcio Pacheco (PSC-RJ).

Um dos passos avaliados é o pedido de novas quebras de sigilos bancário e fiscal com base no documento do Coaf. Ele deverá ser submetido ao Órgão Especial do TJ-RJ.

Correio Braziliense / Estado de Minas

"O PSDB foi devastado pelo bolsonarismo"




Por Malu Delgado

No Brasil do petismo e do bolsonarismo, legenda que nasceu com cara de centro-esquerda vive crise de identidade e caminha para ser um partido "pequeniníssimo", analisa cientista político (foto).

Fundado em 1988, a partir de dissidências com o antigo MDB, o PSDB nasceu com cara de centro-esquerda, reunindo social-democratas e liberais progressistas. Em pouco tempo o partido se tornou uma das âncoras da política partidária no Brasil, tendo elegido Fernando Henrique Cardoso presidente. Os últimos anos, no entanto, foram complexos para a legenda, que se misturou em 2018 ao bolsonarismo e se depara, agora, com um enorme desafio.

O governador de São Paulo, João Doria, derrotou o colega Eduardo Leite (RS) e foi o escolhido em prévias partidárias como o nome do PSDB para disputar a Presidência da República em 2022. O resultado, no entanto, mostra um partido dividido quase ao meio e lideranças históricas com bastante dificuldade em caminhar ao lado de Doria. O drama do PSDB reflete a conjuntura político-partidária do Brasil, analisa o cientista político Jairo Nicolau, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

"O PSDB vive uma crise de identidade muito grande, não consegue se encontrar neste cenário nacional. Aconteceu a mesma coisa com o [antigo] PFL, com o MDB também. Esses três partidos, que eram âncoras da política brasileira durante muito tempo, foram devastados pelo bolsonarismo. Uma parte deles aderiu ao bolsonarismo, outra parte rompeu com Bolsonaro, mas eles não têm mais lugar. Essas forças de centro, centro-direita, centro-esquerda, de 2018 para cá foram perdendo muito espaço na política brasileira com a ascensão do bolsonarismo", diagnostica o professor.

Doria não é um nome consensual no partido, mas não pode ser subestimado, diz Nicolau. "Ele foi se impondo a lideranças tradicionais e hoje controla o partido. Ele mostrou muita força. É uma pessoa muito determinada."

Para o cientista político, o ex-ministro e ex-juiz Sergio Moro se colocou no palco de 2022 há poucos dias e é em função dele que os outros partidos começaram a se movimentar. Sem uma liderança óbvia e carismática, os partidos que tentam ocupar o espaço do centro patinam, tentando emplacar um nome sem sucesso, enquanto Moro reaparece "e toma todo o espaço", analisa.

DW Brasil: Além da polêmica do processo das prévias em si, com problemas na votação pelo aplicativo e denúncias de fraudes, o resultado mostrou um PSDB bem dividido. Quais as consequências disso?

Jairo Nicolau: Uma consulta para escolha de candidato por intermédio de prévias sempre tem esse risco. Em geral, achamos simpático, porque é uma forma de consultar os filiados e dar voz às pessoas que participam da vida do partido. Mas muitas vezes há o risco de que esse processo seja tão polarizado e complexo que gere rusgas que depois transbordem para além das prévias. No caso do PSDB, sem as prévias o partido já estava dividido. Não sou especialista na vida interna do PSDB, mas o que vimos foi a formação de uma frente ampla contra o João Doria, e essa frente foi derrotada. Ela uniu políticos da primeira geração do PSDB, como é o caso de Tasso Jereissati, o PSDB de Minas, o PSDB do Rio Grande do Sul, com Eduardo Leite [derrotado por Doria nas prévias]. Mas não deu certo.

O Doria tem o controle do partido, já se supunha que isso aconteceria. Tentaram a candidatura do Tasso, que talvez tivesse mais envergadura para enfrentar o Doria, mas não deu certo. Claro que uma parte de governadores e políticos que apostaram no Eduardo Leite vão se recompor politicamente com Doria. Mas há outros segmentos. O [Geraldo] Alckmin foi derrotado, o Aécio [Neves] em Minas. E o próprio Eduardo Leite, que não deve participar da campanha [presidencial] ativamente. Ele não deve participar do comando da campanha do Doria.

O PSDB já estava numa situação difícil, o partido perdeu muito espaço na política nacional e tem uma divisão interna muito forte, com uma ala grande bolsonarista. Temos visto isso nas votações no Congresso, com o partido sempre acompanhando o governo. O partido perdeu muito, e Doria não é um nome consensual. Ele foi se impondo a lideranças tradicionais e hoje controla o partido. Ele mostrou muita força. É uma pessoa muito determinada. Mas o partido já vinha num processo de esvaziamento, perda de lideranças, foi mal em 2018, se recuperou um pouco em 2020.

Quais seriam, na sua avaliação, as causas desse esvaziamento do PSDB? Essa guinada à direita, certa adesão ao bolsonarismo, teria relação com isso, pelo paradoxo de o PSDB ter nascido como um partido social-democrata?

Acho que o partido ficou muito tempo fora do governo, durante a era petista. Foram quatro derrotas em sequência, no segundo turno. O partido foi perdendo força, e houve aposentadorias, esvaziamento da bancada, dificuldades estaduais. Exemplo: no Ceará tem o Tasso Jereissati [hoje senador], mas ele não criou uma liderança do partido para sucedê-lo. No Paraná, tinha o José Richa, fundador do PSDB. O Beto Richa [ex-governador] herdou, mas depois de escândalos também não tem liderança jovem e emergente no partido. As únicas exceções talvez fossem o Bruno Covas [ex-prefeito de São Paulo], que faleceu em São Paulo, e o próprio Eduardo Leite, que tem menos de 40 anos.

Depois de 2014, foi um momento de recuperação do PSDB, mas isso mudou de 2015 para frente, com o seu candidato a presidente [Aécio Neves] envolvido em escândalos de corrupção, e depois com o Doria se afastando de lideranças antigas do partido. Não vamos esquecer que a inflexão do PSDB forte para Bolsonaro aconteceu em 2018, quando Doria e Eduardo Leite o apoiaram no segundo turno.

Tem aí um componente de um partido que vive uma crise de identidade muito grande, não consegue se encontrar neste cenário nacional. Aconteceu a mesma coisa com o PFL, que sumiu também agora, virou outra coisa, outra força, essa União Brasil. Com o MDB também. Esses três partidos que eram âncoras da política brasileira durante muito tempo foram devastados pelo bolsonarismo. Uma parte deles aderiu ao bolsonarismo, outra parte rompeu, mas não tem mais lugar. Essas forças de centro, centro-direita, centro-esquerda, de 2018 para cá foram perdendo muito espaço na política brasileira com a ascensão do bolsonarismo.

Alguns políticos foram atraídos como ímã, não são social-democratas, nem social-liberais; são políticos pragmáticos que estão no PSDB e que poderiam estar em qualquer outra legenda. Eu não vou me assustar se uma parte do PSDB, em abril de 2022, muitos dirigentes e deputados, acabar indo para o campo do [Sergio] Moro, ou para o União Brasil, ou um campo bolsonarista. Não resta muito lugar no Brasil para a centro-esquerda.

Por quê?

O Brasil não tem mais centro, nem centro-esquerda. Virou um país do petismo e do bolsonarismo. Os outros são satélites destas duas forças e estão esperando os movimentos de cada um, as composições dos palanques estaduais. É realmente difícil a situação do PSDB. Tinham um candidato que poderia ajudar a renovar o partido, a direção e a linguagem [Eduardo Leite], mas ele foi derrotado. Não é que Doria não seja uma renovação. Também é. Mas ele divide muito o partido internamente, cria muitas arestas. Ainda não se sabe como Doria está compondo com esse campo de centro-direita. Parece que ele conversa, mas não vejo hoje um lugar muito especial para o PSDB no cenário político pós-2022. Acho que o PSDB vive muita dificuldade e caminha para ser um pequeniníssimo partido, com quem sobrar, algumas lideranças.

João Doria tem alguma condição de ser uma espécie de catalisador desta eventual terceira via?

É muito cedo. Eu diria que não, mas já errei duas vezes. Errei muitas vezes com o Doria. Achava que ele não ia conseguir indicação para ser candidato a prefeito. Depois ele ganhou no primeiro turno, em todas as favelas e bairros da periferia de São Paulo. Depois saiu para a eleição de governador, sem base, e ganhou. E agora esse movimento das prévias nacionais. Ele é um político muito ousado, rápido. É uma biografia relâmpago. Agora, não sei se podemos tirar o Doria [do páreo]. Ele pode fazer uma campanha bem feita, ganhar força a partir de São Paulo. A probabilidade de sucesso dele, para mim, é baixa, mas eu não diria que não existe. Ele é um sujeito obstinado, tem um papel importante no processo de vacinação no país, tem recursos para fazer campanha [pessoal e do PSDB]. Ele está mal nas pesquisas, pior do que se imaginava, mas vamos deixar o tempo decantar. Com o Doria eu aprendi que é necessário prudência. Em 2018, todo mundo apostava que o [Geraldo] Alckmin ia virar, ia subir com aquela aliança no horário eleitoral e aquela dinheirama, e não subiu. E pode ser que o Doria consiga. Eu não descartaria. Está muito cedo para descartes peremptórios.

Você citou que há pouco espaço entre petismo e bolsonarismo. Mas a avaliação positiva de Bolsonaro não está ultrapassando 20% nas pesquisas recentes. Ou seja, tem um universo aí no meio que não se organiza partidariamente pelo centro. É reflexo de um momento político?

Sim, o governo federal está tendo muitas dificuldades. Bolsonaro cometeu muitos erros de gestão de políticas públicas e de coordenação política, e está pagando por isso. Primeiro, não tem nenhuma liderança política óbvia neste campo alternativo. Veja o Sergio Moro [ex-juiz e ex-ministro da Justiça no governo Bolsonaro]. Ele se filiou ao Podemos há 20 dias e já está operando. E em função dele a política está se reorganizando. Pessoas estão se filiando ao Podemos, ele atraiu a cúpula dos militares, a turma da Lava Jato. Ou seja, isso é fazer política, no sentido de ocupar espaço.

Agora, a política brasileira depende muito de lideranças. Não somos como a política alemã, em que os partidos escolhem [nomes e candidatos]. Há países que têm força partidária, as pessoas têm vínculos com os partidos. Você sabe que tem uma parte conservadora e busca o candidato conservador, seja quem for. Veja aqui: se o PSDB tivesse um nome brilhante, jovem, popular, se o Moro estivesse no PSDB, nossa mãe... Seria o casamento de um partido que tem estrutura e tradição de disputar eleição presidencial com um nome.

Agora não tem esse casamento. Os nomes que vão aparecendo vão morrendo, inclusive nas pesquisas. Eles não convencem os colegas do mesmo campo político. O [Luiz Henrique] Mandetta não conseguiu, o [Luciano] Huck não conseguiu, o [Eduardo] Leite não conseguiu, o Tasso [Jereissati] desistiu, o Ciro [Gomes] está vivendo dificuldades. Não apareceu um nome óbvio, bom de palanque, carismático, com popularidade. Não apareceu. Aí os partidos ficam batendo cabeça, lançado nomes para ver se alguém pega. Ninguém pegou. Ninguém passou de 5 pontos nas pesquisas. Neste vazio, reapareceu o Moro. Na ideia de que a elite tradicional ia se acertar com o Mandetta, o Eduardo Leite, alguém do MDB, ou o Rodrigo Pacheco (PSD), quem tiver melhor fica, nisso apareceu o Moro e tomou todo espaço.

Deutsche Welle

O risco ômicron - Editorial




Nova cepa evidencia mais uma vez que as vacinas devem chegar a todo o mundo

A despeito do compreensível alvoroço provocado pela nova cepa do Sars-CoV-2, batizada de ômicron, são ainda numerosas as incógnitas que a cercam. As preocupações com a variante, com casos já registrados em cinco continentes e, desde esta terça-feira (20), também no Brasil, derivam de sua quantidade de mutações.

Teme-se, em particular, que as mais de 40 alterações detectadas em sua proteína S —espécie de chave que o patógeno utiliza para adentrar as células do corpo humano— faça com que os anticorpos gerados por infecções pretéritas ou pela vacinação não sejam eficientes para combatê-la.

Mas as respostas definitivas a respeito não só do nível de proteção conferido pelos imunizantes existentes como também da transmissibilidade da nova cepa e da gravidade da doença gerada por ela devem demorar dias ou semanas.

Os potenciais riscos apresentados pela ômicron, no entanto, foram suficientes para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) a classificasse como uma variante de preocupação, colocando-a, dessa maneira, na mesma prateleira ocupada pelas outras quatro cepas do coronavírus (alfa, beta, gama e delta) que provocaram estragos ao longo da pandemia.

Na segunda (29), um documento técnico da OMS avaliou como "muito alto" o risco global de novos surtos causados pela variante.

O clima de alerta foi compartilhado também pelos ministros da saúde do grupo de países ricos do G7. Numa reunião de emergência realizada na mesma segunda, eles afirmaram que a nova variante requer ações urgentes.

A mais importante delas talvez seja garantir que todas as populações tenham acesso às vacinas, que, além de proteger, evitam o surgimento de mais cepas perigosas. Diante disso, o G7 se comprometeu a fornecer assistência operacional às nações mais pobres e a cumprir os compromissos de doações de imunizantes.

Tais promessas, contudo, não só estão aquém do necessário para promover uma ampla imunização mundial como ainda estão longe de se materializar efetivamente.

Até o momento, segundo a OMS, mais de 80% das vacinas produzidas foram destinadas aos países do G20, enquanto as nações de baixa renda, muitas delas na África, receberam apenas 0,6%.

Reduzir essa desigualdade o quanto antes é, como se sabe, o meio mais eficiente para que todos, ricos e pobres, venham a estar realmente protegidos da Covid-19.

Folha de São Paulo

Explicar o que deu certo




Por Fernando Canzian (foto)

Com agenda ultraconservadora em um país macunaímico e discurso antipolítica que acabou no centrão, Jair Bolsonaro jamais unificou políticos e sociedade em torno de um projeto que oferecesse recompensa econômica para a maioria.

Assim, grupos de interesse arraigados trataram de proteger o que é seu. Parlamentares e seus bilhões em emendas; funcionalismo com altos salários contra a reforma administrativa; empresas e setores em posse de R$ 300 bilhões anuais em subsídios tributários; entre outros.

A pandemia atrapalhou, mas a engrenagem ruim construída por Bolsonaro —com aparelhamento tosco e ideológico em educação, saúde e meio ambiente— dificilmente produziria um país melhor. Falta um tempo ainda, mas o pesadelo pode estar chegando ao fim.

A menos de um ano da eleição, as principais pré-candidaturas à Presidência estão na praça. Nela, apresenta-se também, nítida, a maior tarefa que o próximo mandatário terá de enfrentar para não incinerar rapidamente seu capital político: o equilíbrio fiscal.

O assunto não deveria ser maçante, mas prioritário na atenção dos eleitores. Pois do equilíbrio orçamentário vivenciado pelo país entre 1998 e 2013 derivaram os melhores anos para os brasileiros, no emprego e na renda, desde o Plano Real (1994).

No período, o Brasil produziu anualmente superávit entre o que arrecadou e gastou, sem contar juros da dívida pública —reduzida no processo. Menos endividado o país, os juros caíram, bilhões de dólares entraram com o "grau de investimento", distribuiu-se renda e o crescimento chegou a 7,5%, em 2010.

À época, a solução para o equilíbrio foi a de sempre: mais impostos, taxas e contribuições, como a CPMF, que vigorou entre 1997 e 2007. O arranjo, porém, foi passageiro, e a carga tributária maior só chancelou nova engorda do Estado.

A ponto de, em 2016, o governo Temer ter aprovado emenda à Constituição (o teto de gastos) para limitar o aumento da despesa à inflação, regra agora burlada pela PEC dos Precatórios. A esperteza sai pela culatra, com deterioração geral de indicadores macroeconômicos e populares, como os preços do dólar e da gasolina.

O momento definirá o Brasil: fazer um ajuste estrutural ou ficar atrás de salvadores da pátria para o que não tem salvação. O desafio é buscar um acordo político e social que convença a maioria de que, desta vez, grupos de interesse devem perder para o bem maior de todos.

É disso que se trata o palavrão consolidação fiscal e seu interessante paradoxo: algo aborrecido, mas uma potente plataforma de campanha e de unificação. Afinal, é bem mais fácil explicar o que já deu certo.

Folha de São Paulo

No altar com Valdemar

 



Por Bernardo Mello Franco (esq.)

Jair Bolsonaro consumou, enfim, o casamento com o PL. É seu nono partido em três décadas na política. O presidente subiu ao altar com o chefão da sigla, Valdemar Costa Neto. “Não seremos marido e mulher. Mas seremos uma família”, derramou-se.

O enlace foi celebrado por Marco Feliciano, dublê de deputado e pastor evangélico. Na oração de abertura, ele disse que o país “já sofreu muito e agora começa a sair do lamaçal”. Não se referia a Jacinto Lamas, o ex-tesoureiro do PL condenado no julgamento do mensalão.

Preso no mesmo escândalo, Valdemar cumpriu pena na Papuda. Ontem alugou um auditório a 20 quilômetros do presídio para trocar alianças com o capitão. Em eleições passadas, o mensaleiro investiu em personagens folclóricos como Clodovil e Tiririca. Agora aposta em Bolsonaro como puxador de votos em 2022.

Ao se unir ao dono do PL, o presidente selou o matrimônio com o Centrão, que já mandava na Casa Civil e na área social do governo. Na campanha de 2018, ele definiu o grupo como “a nata do que há de pior”. Três anos depois, disse sentir-se em casa com a turma. “Eu vim do meio de vocês”, cortejou. O general Augusto Heleno, que cantava “Se gritar pega Centrão”, desta vez poupou a voz. Participou da solenidade, mas dispensou o microfone.

Bolsonaro não pareceu preocupado em justificar a aliança para seus eleitores. Ao contrário: disse sentir “um orgulho muito grande” ao assinar a nova ficha de filiação. Ele tentou transmitir confiança na reeleição, mas deu sinais contraditórios sobre a estratégia de campanha.

Diante de um cartaz que o apresentava como “o presidente que faz o maior programa social do mundo”, o capitão não se arriscou a falar de fome e desemprego. Preferiu reciclar a ladainha sobre pátria, família e religião.

Flávio Bolsonaro, o senador da rachadinha, assumiu a tarefa de atacar os adversários do pai. Em tom agressivo, chamou Sergio Moro de “traidor” e Lula de “ladrão”. Ele ainda se referiu ao petista como “ex-presidiário”, sem notar a descortesia com Valdemar.

O Globo

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