domingo, abril 26, 2020

Memórias de um tempo em que Brasília ainda era apenas um sonho de JK


Construção de Brasília custou US$ 1,5 bilhão em valor de 1960 ...
Kubitschek  e Lúcio Costa, o urbanista que projetou a nova capital
Sebastião Nery
No dia 18 de abril de 1956, um ano depois do comício de Jataí, em Goiás, em que prometeu fazer Brasília e transferir a capital para o centro do país, Juscelino, presidente, ia para Manaus com mais de 70 pessoas em dois aviões. Estavam o presidente, o marechal Lott ministro da Guerra, e outros ministros. Ele anunciou que ia descer em Goiânia para assinar a mensagem ao Congresso propondo a construção da capital.
No aeroporto, o governador Juca Ludovico e uma multidão. O avião não conseguiu descer. Rodou uma hora e não desceu. Contou nas memórias: “De repente apareceu uma nuvem branca, densa,com cara de ameaça”.
ASSINOU NO BOTEQUIM – Desceram em Anápolis, ali perto. A única coisa aberta era um botequim. E às 4h30 da madrugada, no botequim, presentes 25 pessoas, Juscelino assinou a mensagem propondo a criação de Brasília.
Diz-se por aí, inclusive na TV Senado, que a aprovação foi unânime. Nada disso. Uma pauleira. De 5 de abril a 16 de setembro de 56 – cinco meses – a imprensa do Rio fez uma campanha brutal contra. O “Globo”, o “Correio da Manhã”, o “Diário de Notícias”, até o “Jornal do Brasil”, que a apoiou na constituinte de 1891, e o “Estado de S. Paulo”, combateram muito. E a Light, o “polvo canadense”, financiando a campanha.
A votação no Congresso foi dura. Nas comissões da Câmara, nunca houve mais de três votos de diferença. No plenário, quem desempatou a favor de Brasília foi o PSP de Adhemar de Barros, graças ao trabalho de seu líder, o bravo e universal deputado Neiva Moreira, depois do PDT do Maranhão.
ENCHEU DOIS AVIÕES – Aprovada a construção no Congresso em 19 de setembro de 56, JK não perdeu tempo. No dia 2 de outubro, encheu dois aviões da FAB com Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro, o ministro da Guerra marechal Lott, o chefe da Casa Militar Nelson de Mello, o ministro de Obras Públicas Lúcio Meira, outros, desceram no aeroporto improvisado do marechal José Pessoa, onde hoje é a rodoferroviária.
E Juscelino fez o histórico discurso, escrito pelo poeta Augusto Frederico Schmidt, cujo começo está gravado em mármore na praça dos Três Poderes:
– “Deste Planalto Central, nesta solidão que em breve será o cérebro das decisões nacionais … Estamos aqui para construir a capital administrativa do país e o novo pólo de desenvolvimento do Planalto Central e do Centro-Oeste”.
EM CIMA DO NADA – Perdi a cena. O “Jornal do Povo”, por pobreza, não me mandou. Mas, duas semanas depois, no dia 18, fui com outros jornalistas em um aviãozinho do governo de Minas. Juscelino começava a plantar Brasília em cima do nada. Apenas o cerrado verde sem fim e o horizonte infinito. O marechal Lott ficava de braços cruzados olhando o planalto imenso:
– Como é que vai ser, general?
– Não sei.
Juscelino, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Israel Pinheiro, sabiam.
Nos meses de outubro, novembro, dezembro, no mínimo cinquenta voos saíram do Rio ou de Belo Horizonte levando senadores, deputados, jornalistas, empresários. Queriam ver para crer. A maioria, para não crer.
UISQUE NA CABANA – Quando cheguei no dia 18, Niemeyer estava lá. Tinha ido no dia 2, cheio de medo. Não gostava de avião. Trabalhavam como mouros. À noite bebiam uísque numa cabana do Núcleo Bandeirantes, que depois virou o Hotel Rio de Janeiro, onde tantas vezes nos hospedávamos.
Niemeyer e Juca Chaves, dono do lendário Juca’s Bar, no hotel Ambassador, no centro do Rio, do pai do saudoso Márcio Moreira Alves, fizeram um empréstimo de 500 contos no Banco Minas Gerais, com Maurício Chagas Bicalho, e construíram o Catetinho, para hospedar JK.
Em novembro, Juscelino voava com um grupo de jornalistas e falava sobre o lago Paranoá, a ser represado. Um jornalista mineiro não acreditou:
– Presidente, não há água para encher esse lago de que o senhor fala.
– Não tem importância. Se não houver água, encheremos com cuspe.
FRASE DE BALBINO – Alguns iam, se empolgavam. O governador da Bahia Antonio Balbino foi nos primeiros dias e fez uma frase manchete da “Última Hora”:
– “Brasília vai ser construída porque Juscelino quer e porque o povo brasileiro quer, apesar dos que não querem”.
Outros não iam, não viam e não gostavam. O “Jornal do Brasil” dizia que não ia acontecer nada, que era “uma paranóia de Juscelino”. Roberto Campos deu entrevista ao “Globo” dizendo que era uma irresponsabilidade e que os americanos eram contra.
O RICO CERRADO – O resto a nação sabe. Brasília está aí e o Brasil Central, o Brasil do Norte-Centro-Oeste, conquistado e unificado por Brasília, é o responsável hoje pela produção e exportação agro pecuária nacional. E Juscelino está lá, de pé, mão direita para o infinito, vendo a capital que há 60 anos nasceu de seu sonho e da utopia e grandeza de tantos. 
A Historia é isso. Quem abre caminhos corre o risco das cobras, mas é aos pés dos que vão na frente que as borboletas se levantam. 

O dilema dos militares com Bolsonaro: ou viram cúmplices ou rasgam a Constituição

Se continuarem apoiando o governo Bolsonaro, desequilibram ainda mais o pilar democrático das relações civis-militares e caem em descrédito por se tornarem cúmplices de uma presidência vil. Se desembarcarem do governo e apoiarem o afastamento do presidente, rompem com seu papel constitucional e reforçam o erro histórico de se intrometerem na política nacional.

Bolsonaro e Moro trocam farpas em rede social depois de ex-ministro expor conversa com presidente


Moro disse que preservar a PF não é “questão de relacionamento pessoal”
Deu no Correio Braziliense
O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça Sergio Moro continuaram a trocar farpas neste sábado, dia 25, um dia após o pedido de demissão de Moro, por meio das redes sociais.
O primeiro a se manifestar foi Bolsonaro, com um tuíte que parece ter a intenção de passar a imagem de Moro como um traidor ou que, ao menos, agiu de maneira ingrata. Na mensagem, o presidente postou uma foto em que aparece caminhando ao lado de Moro, com a mão no ombro do então ministro.
VAZA JATO – A imagem é acompanhada do seguinte texto: “A VazaJato começou em junho de 2019. Foram vazamentos sistemáticos de conversas de Sergio Moro com membros do MPF. Buscavam anular processos e acabar com a reputação do ex-juiz. Em julho, PT e PDT pediram prisão dele. Em setembro, cobravam o STF. Bolsonaro no desfile do dia 7 fez isso”.
A Vaza Jato foi uma série de matérias publicadas pelo site The Intercept e, mais tarde, vários outros veículos, sobre trocas de mensagens entre Moro e procuradores que colocaram sob suspeita a imparcialidade de Moro ao julgar os precessos relacionados à Vaza-Jato, que acabaram, entre outras consequências, levando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à prisão e o impedindo de concorrer nas eleições de 2018.
RESPOSTA DE MORO – Depois da postagem de Bolsonaro, Moro respondeu, usando a mesma rede social. “Sobre reclamação na rede social do Sr.Presidente quanto à suposta ingratidão: também apoiei o PR quando ele foi injustamente atacado. Mas preservar a PF de interferência política é uma questão institucional, de Estado de Direito, e não de relacionamento pessoal”, afirmou Moro.

À mensagem, Moro anexou uma matéria jornalística cujo título é “Moro pede que PGR e PF investiguem depoimento de porteiro”. Em seu discurso na sexta-feira, Bolsonaro se queixou de a Polícia Federal sob comando de Moro ter se empenhado mais em descobrir quem mandou matar a vereadora carioca Marielle Franco do que quem mandou matá-lo.
CASO DO PORTEIRO – Bolsonaro também se queixou de omissão de Moro no episódio em que o depoimento de um porteiro sugeria um encontro de Bolsonaro com um dos presos pelo assassinato da vereadora.
Antes, também neste sábado, Moro compartilhou uma campanha do Ministério da Justiça. “Faça a coisa certa, pelos motivos certos e do jeito certo” foi o lema de campanha de integridade que fizemos logo no início no MJSP”, afirmou.
ACUSAÇÕES – Ao anunciar a saída do cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública, Moro acusou o presidente de tentar interferir politicamente no comando da Polícia Federal para obter acesso a informações sigilosas e relatórios de inteligência. “O presidente me quer fora do cargo”, disse Moro, ao deixar claro que a saída foi motivada por decisão de Bolsonaro.
Em um pronunciamento de cerca de 40 minutos, o presidente Jair Bolsonaro rebateu o ex-ministro. Na fala, no entanto, Bolsonaro reconheceu que deseja um contato mais direto com o diretor-geral da instituição e evidenciou ter interesse pessoal em investigações da PF, como o caso da facada que sofreu em 2018. Bolsonaro disse que, se Moro queria independência para fazer nomeações, deveria ter disputado a eleição à Presidência.

Um governo de mentira (por Mary Zaidan)

Um governo de mentira (por Mary Zaidan)
Sem o paladino Sérgio Moro e em negociação avançada com os velhacos de sempre, gente do naipe de Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson, o presidente Jair Bolsonaro perdeu sua força-motriz: o combate à corrupção e à “velha política” do toma-lá-dá-cá. Resta a ele insistir na mentira, instrumento sistêmico que adotou para governar.
O pronunciamento anti-Moro que fez cercado por ministros - alguns deles sem conseguir esconder o desconforto – é prova cabal disso. Bolsonaro falou demais, cuspiu besteiras, não explicou o que precisava explicar. E mentiu. Insistentemente.
Disse, sem lastro algum, que no início do governo tinha sido acusado de dificultar a Operação Lava-Jato. Afirmou estar lutando contra o establishment enquanto bate bola com o baixo clero do qual já fez parte. Que jamais deu carta branca a Moro – há entrevistas gravadas em voz e vídeo com a afirmação –, e que nunca se meteu em qualquer investigação. De novo, mentira pura.
Além de reclamar que não conseguia interagir com o diretor da Polícia Federal, confessou o pedido feito para que a PF interrogasse um ex-militar de Mossoró, dentro de um processo envolvendo seu filho Renan, que ele chama de 04. Intervenção na veia.
Embora tenha feito cara de indignado ao dizer que Moro o chamara de mentiroso, para Bolsonaro mentir é prática, método. Portanto, nem mesmo é novidade.
Já disse que a “Amazônia é úmida e não pega fogo”, que ONGs e Leonardo DiCaprio estavam por trás das queimadas, que “não existe fome no Brasil”. Que estava em Brasília quando foi multado por pescar na Estação Ecológica de Tamoios, em Angra, mesmo com fotos provando o contrário.
Adora bater no peito para dizer que não há denúncias de corrupção em seu governo, mas acoberta os ministros do Turismo e do Meio Ambiente, ambos enrolados com a Justiça. E, claro, o filho 01, suspeito por rachadinhas e envolvimento com milicianos.
Mente tanto que é o primeiro presidente na história a mentir contra ele próprio ao afirmar que as eleições que o levaram ao poder foram fraudadas. Diz que teria provas, nunca apresentadas, apontando ter sido vencedor no primeiro turno.
Listar mentiras de Bolsonaro é quase tão infinito quanto contar grãos de areia. Levantamento do aosfatos.org aponta 926 declarações falsas ou distorcidas do presidente em 479 dias. Quase duas por dia.
Diante da pandemia, se negou a apresentar os resultados de seus testes que, disse ele, teriam sido negativos, e multiplicou seu estoque de mentiras.
Em rede de rádio e TV tratou o novo coronavírus como gripezinha ou resfriadinho. Antes, afirmara à claque diante ao Palácio da Alvorada que a Covid-19, hoje com quase 4 mil mortos no Brasil, seria menos grave do que a H1N1, que, no pior ano, 2009, registrou 820 óbitos. Apropriou-se da concessão dos R$ 600 para informais, quando tinha proposto apenas R$ 200, projeto reformado pela Câmara dos Deputados. Defendeu cegamente a controversa cloroquina como medicamento salvador, e garantiu que as mortes da Itália eram “invenção da mídia”.
Na sexta-feira, 24, o presidente falou por quase 50 minutos. Nem no improviso nem na leitura conseguiu explicar a urgência de trocar o diretor da Polícia Federal em meio à gravidade da pandemia. Não poderá, portanto, reclamar das análises de que sua pretensão é proteger seu clã de investigações em curso.
Criticou Moro por querer zelar por sua biografia, enquanto ele, Bolsonaro, teria “um Brasil a zelar”. Bela frase de efeito se o presidente enxergasse além de seu umbigo e de suas pretensões eleitorais. Se demonstrasse alguma preocupação pela enfermidade que devasta o país, se fosse capaz de fazer um único gesto aos profissionais de saúde, jamais citados por ele. Se falasse algumas poucas palavras de apoio aos familiares de doentes e de mortos.
A virulência da crise deflagrada com a saída de Moro está longe de chegar ao pico e tem chances remotíssimas de reduzir a curva de contágio. Ao contrário. Para manter-se de pé, o presidente decidiu contaminar ainda mais o seu governo e dar maior relevância à mentira. Expurgado o ex-juiz, pedra no sapato da bandidagem oficial, Bolsonaro repetirá a galhofa de que não negocia nada enquanto reparte cargos entre a banda podre da política.
Não bastasse a tendência de recrudescimento da Covid-19, tudo indica que também na política o pior ainda está por vir.
Mary Zaidan é jornalista

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