quinta-feira, outubro 15, 2026

Empate técnico mantém eleição aberta e aumenta a importância dos indecisos


Migração da terceira via para Flávio não é automática

Paulo Assad
Bernardo Yoneshigue
Bruno Alfano
O Globo

A primeira pesquisa Quaest para o segundo turno da corrida presidencial, divulgada ontem, mostra que a disputa entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) continua acirrada mais de uma semana depois da primeira volta do pleito.

O levantamento contratado pelo O Globo e TV Globo aponta cenário de empate técnico, na margem de erro de dois pontos para mais ou menos, com o candidato do PL numericamente à frente, com 46% das intenções de voto, ante 44% do petista. Outros 9% dizem que vão votar em branco, anular ou não irão votar, enquanto 1% está indeciso.

TRANSFERÊNCIA AUTOMÁTICA – A distância, de dois pontos percentuais, é praticamente a mesma registrada no primeiro turno, em 4 de outubro, quando as urnas mostraram o senador fluminense com 47% dos votos válidos, contra 45% do petista. Os dados mostram, porém, que não há uma transferência automática dos eleitores dos candidatos da chamada terceira via a Flávio, embora o senador tenha vantagem, após o candidato do PL conseguir atrair o apoio de boa parte dos rivais, entre eles Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD).

Entre quem preferiu Cury, terceiro colocado no primeiro turno, por exemplo, 34% escolhem hoje o petista no segundo turno, e 30% migram para Flávio — outros 30% optam pelo “não voto”, ou seja, branco, nulo ou abstenção, e 6% se dizem indecisos. Entre quem votou em Caiado, um grupo maior prefere o senador (42%), mas 23% indicam a intenção de votar em Lula, e 33% preferem anular, votar em branco ou não votar no próximo dia 25.

Já entre os eleitores de Renan Santos (Missão), que se manteve neutro no segundo turno, 40% escolhem o candidato do PL, enquanto 14% declaram apoio a Lula e uma fatia maior (43%) opta pelo voto em branco e nulo ou diz que não vai votar.

MAIOR APOIO – O levantamento da Quaest também mostra que Lula atrai mais apoio que Flávio entre os eleitores que não compareceram no primeiro turno ou que apertaram branco e nulo nas urnas — fatia que representa pouco mais de 25% do eleitorado. Nesse segmento, o atual presidente tem 43% das intenções de voto, ante 38% de Flávio. O grupo que se absteve é tratado como estratégico pela campanha do PT e tem sido foco de propagandas e mobilizações de apoiadores.

De acordo com o diretor da Quaest, Felipe Nunes, o resultado mostra que reduzir a abstenção em relação ao primeiro turno não é suficiente, mas é essencial para Lula.

— Dos 7% de eleitores que acabaram votando em alternativas à polarização, a maior parte está optando por Flávio no segundo turno. A exceção é o eleitorado de Cury, que se divide. Mas o que está fazendo a diferença para essa disputa tão acirrada é o eleitor que disse que se absteve ou que votou branco/nulo no primeiro turno — disse Nunes à TV Globo.

DEBATES – Após a divulgação da pesquisa, a campanha de Lula avaliou que os debates da Band e Globo, no próximo domingo e no dia 23, respectivamente, serão decisivos para a definição do novo presidente. A campanha de Flávio ainda vê espaço para movimentar a disputa na reta final. O senador também aposta nos debates e no reforço da mobilização nas redes sociais.

A Quaest fez 2.154 entrevistas entre sábado e terça-feira, em meio a movimentações de ambas as campanhas para ampliar suas votações. Após Lula aparecer atrás de Flávio no primeiro turno, a campanha do petista promoveu uma revisão da estratégia de comunicação. As mudanças envolveram da gravação de vídeos em formato de selfie a mobilizações na Avenida Paulista e na Praia de Copacabana. Em ato realizado na capital paulista no domingo, Lula pediu para que seus eleitores convençam aqueles que não foram votar no primeiro turno a comparecerem às urnas.

Anteontem, o presidente também ampliou seu pacote de bondades às vésperas do pleito ao anunciar o perdão de débitos tributários de microempreendedores individuais (MEIs) e o pagamento de até R$ 5 mil via Pix para o segmento em 2027. Nas redes sociais, Lula também prometeu criar um programa Pé-de-meia para universitários, caso reeleito.

ARTICULAÇÃO – Já Flávio Bolsonaro tem concentrado esforços na articulação com os partidos, que, ao longo dos últimos dias, declararam apoio à sua campanha. Na lista estão Republicanos, Podemos, União Brasil, PP e Novo. Na terça-feira, 16 diretórios do MDB também declararam apoio ao senador, enquanto outros dez ficaram com Lula.

Flávio também fez novos anúncios de olho no eleitorado. Na semana passada, o senador afirmou, durante o horário eleitoral, que, caso eleito, manterá programas sociais e afirmou ter a intenção de criar um Ministério da Prosperidade, voltado para a qualificação profissional e empreendedorismo. Na terça-feira, mudou de posição e passou a afirmar que iria votar a favor da proposta para o fim da escala 6×1, defendida por Lula e votada no Senado.

Por enquanto, a pesquisa reforça padrões já conhecidos nas intenções de voto. Lula vai melhor no Nordeste (61% das intenções de voto), entre eleitores com renda de até dois salários mínimos (53%), entre beneficiários do Bolsa Família (60%), além de mulheres (49%) e católicos (49%). Já Flávio tem mais apoio no Sul (61%), entre evangélicos (60%), entre quem tem renda acima de 5 salários mínimos (53%) e entre homens (51%) e brancos (51%).

REJEIÇÃO –  Segundo a Quaest, na pesquisa espontânea, quando os nomes dos candidatos não são apresentados aos entrevistados, os indecisos são 7%, o que indica que há uma fatia, ainda que pequena, dos eleitores que não está tão convicta sobre sua escolha. Um fator de dificuldade para os dois candidatos é a alta rejeição. A análise mostra que mais da metade dos eleitores não votariam nem em Flávio (54%) nem em Lula (53%).

O instituto também questionou os entrevistados sobre o que causa mais medo: a reeleição de Lula ou a volta dos Bolsonaro. Os dois cenários voltaram a empatar numericamente, 43% de menções para ambos. No caso de Lula, o número representa estabilidade desde 21 de setembro. Em relação aos Bolsonaro, o índice avançou três pontos desde a última pesquisa, em 3 de outubro, resultado que, para Felipe Nunes, da Quaest, sinaliza relativa recuperação de Lula na comparação com a pesquisa de véspera do primeiro turno.

RECEIO – O temor com o retorno da família do ex-presidente ao poder subiu mais entre aqueles com renda familiar entre dois e cinco salários mínimos, atingindo a marca de 42%, percentual em empate técnico com o medo da reeleição de Lula (44%). Outro destaque está entre os jovens. Antes o medo de Lula era majoritário no segmento e agora há divisão — 45% têm mais medo da volta do Bolsonaro e 45% têm mais medo da continuidade de Lula.

Segundo a Quaest, quem tem medo da reeleição de Lula, ressalta mais corrupção, custo de vida e uma má administração como razões. Já quem tem medo da volta dos Bolsonaro, cita mais a rejeição pessoal à família, autoritarismo e tentativa de golpe, a lembrança de um governo ruim e a possibilidade do fim dos programas sociais.

A Quaest mediu o apoio junto aos eleitores de pautas que têm sido usadas pelas campanhas para acenar aos eleitores. A proibição das bets (72% de aprovação) e o fim da escala de trabalho 6×1 (68%), bandeiras do petista, têm amplo apoio.

IMPEACHMENT – Já abrir impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (63%) e reduzir a maioridade penal para 16 anos e para 14 em caso de estupro (80%), ideias defendidas pelo senador, também têm a aprovação da maior parte dos entrevistados, enquanto a anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e aos condenados do 8 de Janeiro é mais rejeitada que aprovada — 47% são contra, e 38% a favor.

O percentual de eleitores que desaprovam o governo Lula oscilou um ponto para baixo e soma 48%. O índice ainda supera a aprovação, que variou um ponto para cima e agora soma 45%.


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