Publicado em 15 de outubro de 2026 por Tribuna da Internet
Flávio faz promessas sem fundamento para iludir eleitores
Pedro do Coutto
Na reta final da campanha, a guerra de versões se intensifica. Cada candidato procura apresentar-se como o intérprete mais confiável das expectativas do eleitor, mas também tenta explorar as fragilidades que identifica no adversário. O resultado é uma eleição em que propostas, promessas e ataques se misturam na tentativa de definir não apenas quem deve governar o país, mas qual narrativa prevalecerá sobre o futuro do Brasil.
A promessa de prosperidade feita por Flávio Bolsonaro é um exemplo dessa disputa. O candidato anunciou a criação de um Ministério da Prosperidade, destinado a oferecer, segundo sua campanha, oportunidades de estudo, qualificação, crédito e empreendedorismo. A proposta procura associar proteção social a uma trajetória de autonomia econômica: o cidadão receberia apoio para se qualificar, abrir um negócio, obter crédito e, progressivamente, depender menos de políticas de transferência de renda.
APELO ELEITORAL – A ideia tem um apelo eleitoral evidente. Empreendedorismo, acesso ao crédito e possibilidade de melhorar de vida são aspirações concretas para milhões de brasileiros. O problema começa quando uma questão complexa é apresentada como se pudesse ser resolvida pela simples criação de uma estrutura administrativa. Prosperidade não é uma política pública isolada, muito menos o resultado automático da existência de um ministério.
Uma economia próspera depende de uma combinação de fatores que se constroem ao longo do tempo: crescimento consistente, investimento, produtividade, educação, infraestrutura, segurança jurídica, estabilidade fiscal, crédito acessível e capacidade de geração de empregos e negócios. Um governo pode criar condições para que esses fatores se desenvolvam, mas não pode decretar o resultado. É justamente nessa diferença entre criar instrumentos e produzir resultados que as promessas eleitorais precisam ser examinadas.
Há, inclusive, uma contradição que merece atenção. O próprio plano de governo de Flávio Bolsonaro defende a redução da estrutura administrativa e prevê o corte de pelo menos dez ministérios, ao mesmo tempo em que a campanha passou a defender a criação do Ministério da Prosperidade. O plano também atribui à Caixa Econômica Federal um papel ampliado no crédito, na orientação financeira e no apoio ao empreendedorismo.
EXPLICAÇÕES – Isso não torna necessariamente a proposta inviável, mas exige explicações mais precisas. Se a intenção é reorganizar estruturas existentes, transferir atribuições ou concentrar políticas dispersas, a discussão é uma. Se a solução apresentada é simplesmente acrescentar uma nova pasta, a pergunta passa a ser outra: por que um novo ministério seria mais eficiente do que utilizar as estruturas que já existem?
Do outro lado, Lula procura transformar essa mesma disputa em uma escolha entre continuidade e risco. O presidente acusa o adversário de prometer manter programas sociais que, durante a campanha, Flávio passou a defender explicitamente. O candidato do PL afirma que pretende preservar e reajustar o Bolsa Família e manter programas como Minha Casa, Minha Vida e Farmácia Popular.
A estratégia de Lula consiste em levantar uma dúvida: como conciliar a promessa de manutenção dos benefícios com o discurso de redução de impostos, corte de despesas e diminuição da máquina pública? A questão é legítima, mas também não deve ser transformada automaticamente em conclusão. O eleitor precisa saber quais despesas seriam reduzidas, quais receitas sustentariam os programas e quais mudanças seriam feitas na política social. Sem essas respostas, tanto a promessa de manter benefícios quanto o alerta sobre eventuais cortes permanecem, em alguma medida, no terreno da disputa eleitoral.
PERSUASÃO – É significativo, portanto, que os dois candidatos estejam tentando ocupar espaços que tradicionalmente pertenciam ao adversário. Flávio procura apresentar-se não apenas como candidato da mudança, mas como alguém disposto a preservar programas populares e oferecer mecanismos de ascensão econômica. Lula, por sua vez, amplia o discurso em direção ao empreendedorismo e às dificuldades concretas de quem trabalha por conta própria. A disputa deixou de ser apenas sobre esquerda e direita e passou a envolver quem consegue convencer o eleitor de que compreende melhor suas necessidades materiais.
Essa mudança é importante porque revela o que está em jogo na eleição. O eleitor não vota apenas em programas de governo; vota também em expectativas. Quer saber se terá emprego, renda, crédito, casa, segurança e condições para melhorar de vida. É justamente por isso que palavras como prosperidade, mudança e continuidade ganham tanta força na reta final.
POLÍTICAS PÚBLICAS – Mas palavras não substituem políticas públicas. Prosperidade pode ser um objetivo legítimo de governo; não pode ser apresentada como consequência automática de um ministério. Da mesma forma, a manutenção de programas sociais é importante para milhões de famílias, mas sua sustentabilidade depende de orçamento, prioridades e capacidade de financiamento do Estado.
No fim, a questão mais relevante não é qual candidato consegue formular a promessa mais atraente. É qual deles consegue explicar com maior clareza como pretende transformar a promessa em resultado. A campanha pode produzir ministérios no papel, slogans, anúncios e compromissos eleitorais. A prosperidade, porém, exige algo menos imediato e muito mais difícil: uma sequência de decisões capazes de produzir crescimento, oportunidades e melhoria real das condições de vida. É aí que termina a propaganda e começa a responsabilidade de governar.