
Fachin e Cármen Lúcia não encontram respaldo no tribunal
Dora Kramer
Folha
Na última semana, Edson Fachin e Cármen Lúcia respiraram fundo e foram ao cerne da questão: a crise de confiança que assola o Judiciário, em particular o Supremo Tribunal Federal, é grave e precisa ser enfrentada pelos próprios juízes.
O presidente e a ministra vocalizaram o que diz a população nas pesquisas que registram o alto grau de desconfiança na corte. Minados internamente, partiram para o desabafo externo na tentativa de mostrar aos colegas a necessidade de reconhecer o óbvio e virar essa página nefasta na história do STF.
ALERTA – A situação atual é uma temeridade em matéria de firmeza institucional. Foi o que ambos disseram nas entrelinhas sem ceder a arroubos de acusações, mas deram o alerta para quem, como afirmou Fachin, tem “olhos de ver e ouvidos de ouvir”.
Viemos parar nesse ponto com a ofensiva do bolsonarismo, mas não só. Antes disso tivemos atos arbitrários e ações nem sempre justificadas no desmonte de investigações. Agora vemos o Supremo ser atraído para o poço ainda sem fundo do caso Master por condutas inadequadas de ministros e falta de reação adequada do colegiado.
Onde vai dar isso, qual o caminho para o restauro da confiança no último bastião, não sabemos. A ala ativista do tribunal parece apostar em resistir e guerrear até que tudo se ajeite no aconchego do esquecimento.
SEM RESPALDO – Difícil de acontecer, pois a confrontação alimenta a percepção da falta do equilíbrio esperado em magistrados. Fachin e Cármen Lúcia não encontram respaldo no tribunal; são relatados como isolados pelos pares mais vocais na circulação de versões junto aos meios de comunicação.
Daqueles que não costumam ter esse tipo de interlocução, não se sabe o que pensam. O ideal seria se manifestarem para que a sociedade saiba como o conjunto dos magistrados avalia o declínio de reputação.
Cabe ao STF decidir se insiste em negar as evidências ou se salva a instituição mediante a autocrítica, a transparência e a autocontenção no uso do poder de dar a palavra final.