domingo, abril 26, 2026

Na sucessão presidencial, a direita contra si mesma e o impasse de 2026

Publicado em 26 de abril de 2026 por Tribuna da Internet

Disputa revela um campo político incapaz de se estruturar

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Enquanto o confronto entre governo e oposição organiza o debate público, uma dinâmica paralela ganha densidade no campo conservador: a disputa interna sobre direção, limites e identidade política. Não se trata apenas de candidaturas em formação, mas de um processo mais profundo de definição — ou, mais precisamente, de indefinição — sobre o que a direita brasileira pretende ser no próximo ciclo eleitoral. O que se desenha não é um ajuste pontual, mas um movimento de fundo que expõe a ausência de um princípio organizador capaz de conferir coerência ao conjunto.

A presença de nomes competitivos no cenário não resolve essa equação; ao contrário, torna-a mais visível. A tentativa de projetar Flávio Bolsonaro como vetor de continuidade não produziu alinhamento nem reorganizou o espaço conservador. Funcionou, antes, como um ponto de tensão que escancarou a falta de um critério comum capaz de ordenar interesses, discursos e estratégias. Em vez de unificar, revelou os limites de um arranjo sustentado mais por circunstâncias do que por bases estáveis.

MÚLTIPLAS CANDIDATURAS – Nesse contexto, a multiplicidade de candidaturas deixa de ser sinal automático de vitalidade e passa a indicar superposição de iniciativas. Diferentes atores avançam sobre o mesmo eleitorado, mobilizam repertórios semelhantes e disputam um território que não se expande na mesma proporção em que se fragmenta. O resultado não é diversificação estratégica, mas concorrência direta por um espaço restrito, o que intensifica tensões e enfraquece a articulação interna.

A posição de Romeu Zema ajuda a delimitar esse cenário com precisão. Ao sinalizar que não aceita compor como vice em uma eventual chapa e ao afirmar que seguirá na disputa pelo Planalto, ele não rompe com o campo conservador, mas também não se submete a uma lógica de hierarquia automática. Seu movimento explicita uma linha de atuação mais autônoma e se insere em uma tendência mais ampla, na qual diferentes atores passam a reivindicar protagonismo simultaneamente, sem que exista um mecanismo capaz de ordenar essas pretensões concorrentes.

É nesse mesmo espaço que Ronaldo Caiado atua de forma direta, aprofundando a disputa interna ao avançar sobre o mesmo segmento eleitoral. A consequência não é apenas o aumento da concorrência, mas a consolidação de um conflito que deixa de ser episódico e passa a afetar o funcionamento do conjunto. A disputa não fragmenta apenas candidaturas — compromete a própria capacidade de ação política desse campo.

SEM REFERÊNCIA – O efeito acumulado desse processo é a formação de um ambiente que opera sem referência estável. Há aproximações pontuais e entendimentos circunstanciais, mas não uma base consistente capaz de sustentar unidade ao longo do tempo. A recomposição no segundo turno, embora provável, não elimina esse problema de origem. Disputas prolongadas geram custo, e rivalidades construídas ao longo da campanha não desaparecem por necessidade eleitoral; tendem a ser administradas de forma incompleta, produzindo resistências e limitando a eficácia da convergência posterior.

Ainda assim, persiste o esforço de preservar uma aparência de coesão. Encontros públicos, agendas compartilhadas e declarações calibradas sustentam a imagem de um campo que ainda dialoga internamente. Essa imagem, no entanto, não altera o movimento real. A cooperação, quando ocorre, é episódica; a competição, por sua vez, é contínua e estruturante, moldando o comportamento dos principais atores.

No centro desse processo está uma questão que permanece em aberto: qual é, hoje, o elemento capaz de organizar a direita brasileira. O legado recente deixou marcas profundas, mas não produziu uma síntese apta a orientar o campo no presente. Sem um ponto de referência claro, o que se observa é uma disputa pelo significado desse legado — e, sobretudo, pelo seu uso político em um cenário de competição ampliada.

INSTABILIDADE –  Flávio Bolsonaro representa uma tentativa de continuidade, ainda que ajustada às novas condições. Romeu Zema opera por meio de uma reinterpretação pragmática, deslocando o foco para gestão e eficiência. Ronaldo Caiado aposta em uma reafirmação mais direta e tradicional. Nenhuma dessas estratégias, até o momento, conseguiu se consolidar como referência capaz de dar forma estável ao conjunto.

Essa ausência de síntese também se reflete no conteúdo das propostas. Há pontos de contato em críticas ao governo e na defesa de pautas conservadoras, mas falta um eixo estruturado que articule essas posições em uma agenda coerente e compartilhada. O que predomina é a coexistência de discursos paralelos, e não a construção de um projeto comum com capacidade de agregação duradoura.

Durante anos, a polarização funcionou como elemento de organização. A existência de um adversário claro era suficiente para alinhar o campo e reduzir divergências internas. Esse mecanismo, no entanto, perde eficácia quando a disputa se desloca para dentro. Nesse cenário, a coesão deixa de ser automática e passa a depender de definição interna — algo que, no momento, ainda não se completou.

INDEFINIÇÃO POLÍTICA – O problema, portanto, não está na ausência de competitividade eleitoral, mas no excesso de indefinição política. A direita brasileira entra no ciclo com presença e capilaridade, mas sem direção clara. Isso altera a natureza da disputa: antes mesmo do confronto externo, suas próprias tensões passam a operar como fator de limitação, condicionando o alcance de sua atuação.

A eleição de 2026, nesse contexto, começa antes do calendário formal e se apresenta, desde já, como um teste interno de viabilidade política. Sem articulação consistente, sem projeto unificado e com múltiplas candidaturas concorrentes, o risco não é apenas perder a disputa externa, mas chegar a ela já condicionado por divisões que dificultam a construção de uma estratégia eficaz.

No fim, a questão deixa de ser quem lidera e passa a ser outra, mais estrutural: sob quais bases essa liderança poderia se sustentar. Sem um elemento comum, a liderança deixa de ser ponto de partida e passa a ser consequência de um processo que ainda não encontrou resolução. Até aqui, o cenário permanece aberto, mas um dado já se impõe: a principal dificuldade da direita brasileira, neste momento, não está no adversário — está na incapacidade de se definir como campo político.

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