Os motivos para Doctorow apostar no Brasil como um dos candidatos a puxar o movimento são estruturais: uma base forte de desenvolvedores, tradição em software livre, mercado interno robusto e um histórico de políticas digitais que, em outros momentos, buscaram autonomia.
“O Brasil tem muitos ativistas comprometidos com software livre. Tem muitos tecnólogos, porém seu setor de tecnologia hoje funciona como uma espécie de filial irrelevante de empresas americanas”, afirmou.
“Mas é um país que tem capital, tem uma população enorme, tem um forte desejo de desenvolvimento econômico que não passe pela destruição da floresta amazônica. Isso poderia ser uma oportunidade incrível para o Brasil”, disse Doctorow.
Tirar essa proposta do papel no Brasil exigiria coordenação entre Executivo, Legislativo e Judiciário, já que passa pela revisão de leis como a de software e a de direitos autorais. Não é uma mudança pontual, mas uma decisão política de alto impacto — com potencial de colocar o país em confronto com as big techs.
Mas, na visão de Doctorow, o cenário pode mudar rapidamente e dar frutos ao Brasil muito rapidamente. Países que desafiarem as regras atuais — especialmente as que restringem a modificação de sistemas — podem atrair talento global e criar novos polos tecnológicos.
Ele compara esse processo ao surgimento de paraísos fiscais, dizendo que ambientes regulatórios específicos podem concentrar capital e conhecimento em pouco tempo.
Doctorow usa o caso de Tonga, país no Pacífico, como metáfora de como decisões regulatórias podem reposicionar países inteiros na economia digital. “Nós vimos isso com Tonga nos anos 2000”, disse.
A referência é baseada em um caso real: ainda nos anos 1990 e 2000, Tonga percebeu que podia explorar brechas nas regras para uso de satélites e frequências de rádio que quase ninguém utilizava — e, como empresas tinham dificuldade de obter esse tipo de autorização em outros países, passaram a recorrer ao pequeno arquipélago do Pacífico.
Com isso, o país transformou uma política pública em negócio e atraiu dinheiro, empresas e profissionais qualificados que estavam com a inovação travada por regulações mais rígidas em outros lugares.
“Eles decidiram se tornar um polo de espectro de rádio — e, de repente, gente do mundo inteiro foi para lá fazer experimentos que não podiam fazer em nenhum outro lugar”.
A proposta de Doctorow é essa: quando um país afrouxa regras em um ponto estratégico — seja espectro, software ou propriedade intelectual —, ele pode atrair talentos e capital quase instantaneamente. “Um ambiente regulatório diferente pode puxar gente do mundo inteiro”, afirmou.