
Charge do Iotti (Zero Hora)
Fábio Zanini
Folha
Há dez anos, a votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT) pela Câmara dos Deputados produziu uma imagem palpável do que muitas vezes é o conceito abstrato da polarização.
Um muro formado por placas de metal, construído no gramado da Esplanada dos Ministérios, dividiu naquele dia multidões de camisetas amarelas, a favor do afastamento da então presidente, e vermelhas, resistindo ao que chamavam de “golpe”. Sem a divisória, sabe-se lá que tragédia poderia ocorrer.
LEGADO – Desde então, o país nunca mais conseguiu se encontrar no centro, no que talvez seja o legado mais duradouro daquele momento histórico. O impeachment de Dilma coroou o nascimento da chamada “nova direita”, que se assumiu como tal depois de ter passado décadas alojada de maneira desconfortável em partidos que representavam mais o antipetismo do que um genuíno conservadorismo.
A destituição da presidente foi também a semente que dois anos depois levaria Jair Bolsonaro ao poder e daria origem ao movimento formado por seu sobrenome. Naquele momento, no entanto, o então deputado federal e capitão reformado do Exército ainda era apenas um coadjuvante folclórico.
Sua participação no afastamento de Dilma se resumiu a elogiar um militar torturador na hora do voto (o coronel Carlos Brilhante Ustra) e ser alvejado por uma cusparada desferida pelo ex-BBB e deputado Jean Wyllys. É sintomático que a edição da Folha do dia posterior ao impeachment tenha dedicado duas linhas ao futuro presidente, resumindo-o a “polêmico deputado, ídolo da extrema direita”.
“GOLPE” – A polarização invadiu também o vocabulário para nunca mais sair. “Golpe” adquiriu um sentido novo, para englobar inclusive atitudes perfeitamente constitucionais, por mais discutíveis que sejam. Referir-se a Dilma como “presidenta” ou “presidente” já entregava de que lado a pessoa estava.
As redes sociais ainda não dominavam o ciclo político como hoje, nem tinham a carga tóxica que iriam adquirir antes do final daquela década. Mas já não eram irrelevantes para o debate público e ajudaram a popularizar apelidos como “Bessias”, alcunha que nunca mais desgrudou do hoje indicado ao STF Jorge Messias.
Já o “tchau, querida” de Lula para Dilma virou um slogan da oposição na hora da votação –há dez anos foi um telefonema interceptado, hoje provavelmente seria um áudio enviado por WhatsApp.
VICE DECORATIVO – Michel Temer, que assumiria a Presidência interinamente menos de um mês depois da sessão da Câmara (e definitivamente após a votação do Senado, em agosto), também marcou seu nome na posteridade com a carta em que lamentou ser “vice decorativo”, a predileção por expressões em latim (“verba volant, scripta manent”), as mesóclises e o curioso balé com as mãos durante falas e entrevistas.
E como esquecer de Eduardo Cunha e seu desejo de “que Deus tenha misericórdia dessa nação”, ao contemplar o desfecho do processo que deflagrou? O impeachment marcou o país de outras maneiras que se refletem até os dias de hoje. Foi um momento de afirmação do centrão, bloco de deputados de pouca ideologia que foi a base de sustentação do governo Temer. Seu poder nunca mais parou de crescer desde então, vitaminado pelas emendas impositivas que hoje engessam o Executivo.
Foi no impeachment que Gilberto Kassab consolidou sua fama de camaleão da política, ministro de Dilma até a véspera do afastamento e de Temer logo depois que ele assumiu. Também foi um dos últimos respiros de relevância para o PSDB, que emprestou quadros e prestígio para o novo presidente, indicando, por exemplo, o ministro das Relações Exteriores.
LAVA JATO – Não menos sintomático, a saga que destituiu a primeira chefe de Estado mulher da história republicana se deu sob a sombra das denúncias da Lava Jato, fator que pesou bem mais para o desfecho do processo que o pretexto formal das pedaladas fiscais.
Hoje, é o caso Master que assombra a classe política, já comparado em dimensão ao escândalo de dez anos atrás. A diferença é que seu impacto político ainda é imprevisível.