sexta-feira, abril 03, 2026

Moraes voou em avião da empresa de Vorcaro na véspera de reunião com banqueiro, indicam documentos

 

Moraes voou em avião da empresa de Vorcaro na véspera de reunião com banqueiro, indicam documentos

Por Vinícius Valfré, Aguirre Talento, Weslley Galzo e Gustavo Côrtes/Estadão Conteúdo

03/04/2026 às 08:54

Foto: Luiz Silveira/Arquivo/STF

Imagem de Moraes voou em avião da empresa de Vorcaro na véspera de reunião com banqueiro, indicam documentos

Alexandre de Moraes

Documentos da CPI do Crime Organizado, da Aeronáutica e de empresas de táxi aéreo indicam que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), viajou de Brasília para São Paulo em agosto de 2025 em um avião de empresa da qual o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, era sócio. No dia seguinte à viagem, ele teria se reunido com o banqueiro, segundo mensagem de Vorcaro enviada à ex-mulher na ocasião.

Moraes acessou o terminal de aviação executiva do aeroporto de Brasília às 19 horas do dia 7 de agosto de 2025, segundo dados enviados à CPI pela Inframérica, administradora do aeroporto da capital federal. Era uma quinta-feira, após sessão plenária do STF.

A reportagem analisou os registros de partidas e chegadas de Brasília naquela data mantidos pela Aeronáutica. Após a chegada de Moraes, três aeronaves voaram para Congonhas, em São Paulo.

Às 19h16, decolou um avião da empresa FSW PSE, que tem Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro entre os sócios. A reportagem teve acesso a um documento ao qual o piloto que conduziu a aeronave Falcon 2000, da FSW, neste dia afirma categoricamente que o ministro Alexandre de Moraes não esteve a bordo.

Em seguida, um voo da Prime, empresa que teve participação de Vorcaro até setembro de 2025, partiu de Brasília para o Aeroporto de Congonhas. O Phenom 300, de prefixo PR-SAD, decolou às 20h05 e aterrissou às 21h33.

O terceiro voo com destino a Congonhas realizado pela aviação privada em Brasília, no dia 7 de agosto, partiu às 20h29. Era uma aeronave da Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso.

Um dia após embarcar em Brasília, o ministro teve uma reunião com Daniel Vorcaro. Ao menos foi o que o banqueiro relatou em conversa com a ex-mulher Martha Graeff, encontrada no celular dele e obtida pela CPI do INSS.

Às 18h39 de 8 de agosto de 2025, o banqueiro escreveu para Martha Graeff, em duas mensagens de texto: “Tô com Alexandre e tenho reunião depois com Ciro”. Essas seriam referências ao ministro do STF e ao senador Ciro Nogueira (PP-PI).

No dia 11 de agosto, segunda-feira, o ministro fez palestra em programação jurídica do Tribunal de Contas de São Paulo.

Outras viagens de Moraes

Em 16 de maio, os registros apresentam nova vinculação entre a presença de Moraes no terminal executivo e avião ligado a Vorcaro. Naquela data, a entrada do ministro no terminal foi registrada às 9h30. O PR-SAD decolou para Congonhas às 9h37, segundo a Aeronáutica. Um outro voo para São Paulo só decolaria às 21h51.

Uma dinâmica semelhante ocorreu em 1º de agosto. Moraes e a mulher dele, a advogada Viviane Barci, além de um policial da equipe do ministro, chegaram ao terminal às 12h40, conforme o registro da Inframérica. O único voo que partiu para Congonhas foi o PR-SAD, às 12h44.

Em nota divulgada na terça-feira, 31, o escritório de Viviane Barci afirmou que “contrata diversos serviços de taxi aéreo, e que entre os que já foram em algum momento contratados está o da empresa Prime Aviation”.

Disse também que “todos os valores eram pagos compensando os honorários advocatícios nos termos contratuais”.

A reportagem perguntou ao escritório, ainda na quarta-feira, 1º., se Viviane e Moraes usaram o voo das 20h05, da Prime. Não houve nova manifestação.

O Master, de Vorcaro, firmou contrato com o escritório de Viviane Barci em fevereiro de 2024 por um total de R$ 129 milhões em três anos, cerca de R$ 3,6 milhões mensais em honorários. As informações foram divulgadas pelo jornal O Globo. O contrato foi encerrado em novembro, após a liquidação do Master pelo Banco Central.

A reportagem também procurou a equipe do ministro Alexandre de Moraes, que não se manifestou. Na terça-feira, o ministro divulgou nota na qual afirmou que “as ilações da fantasiosa matéria são absolutamente falsas”. As informações foram publicadas inicialmente pela Folha de S.Paulo.

“O ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de Fabiano Zettel, a quem nem conhece”, destacou o gabinete do magistrado. A nota, contudo, não fez comentários sobre voos em aeronaves que pertencem à empresa que era de Vorcaro.

Politica Livre

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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