
Governo tenta segurar preços para conter desgaste
Pedro do Coutto
Em ano eleitoral, a política brasileira abandona qualquer tentativa de disfarce técnico e assume sua natureza mais direta: governar também é disputar. É nesse contexto que o governo de Lula da Silva se move com intensidade, articulando medidas para conter a inflação dos combustíveis ao mesmo tempo em que reorganiza sua base política e consolida sua estratégia de reeleição.
A preocupação central está no impacto do diesel, do gás de cozinha e do querosene de aviação sobre o custo de vida e sobre a engrenagem econômica do país, especialmente porque o diesel sustenta o transporte de alimentos, a logística e a circulação urbana. Em um país que, na prática, “se move a diesel”, qualquer alta no preço rapidamente chega ao bolso do consumidor — e, consequentemente, ao humor do eleitor.
CONTENÇÃO – Diante disso, o governo aposta em uma combinação de subsídios e ajustes tributários para evitar oscilações bruscas. Trata-se de uma escolha política clara: segurar preços para conter desgaste. Estados são chamados a participar dessa equação, já que parte relevante da carga tributária sobre combustíveis está sob sua responsabilidade, o que exige coordenação e negociação. No fundo, o que está em jogo é mais do que economia — é percepção. Inflação alta corrói apoio, enquanto estabilidade de preços pode preservar capital político em um momento decisivo.
Essa movimentação revela o uso estratégico dos instrumentos de governo. A chamada “caneta” presidencial continua sendo uma ferramenta poderosa, capaz de alterar políticas, reduzir impostos e direcionar incentivos. Não há ingenuidade nesse processo. Em Brasília, decisões econômicas e cálculos eleitorais caminham juntos, e a ofensiva sobre os combustíveis mostra um Executivo disposto a agir para evitar turbulências que possam comprometer seu projeto político.
VICE – No campo eleitoral, a confirmação de Geraldo Alckmin como vice na chapa de Lula reforça a busca por estabilidade. Ao manter Alckmin, o presidente sinaliza continuidade e evita riscos desnecessários.
O vice, que deve deixar o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio para cumprir a legislação eleitoral, representa uma ponte com setores moderados e empresariais, ampliando o alcance político da chapa. A decisão encerra especulações sobre mudanças e indica que, diante de um cenário sensível, o governo prefere apostar no equilíbrio a promover rupturas.
Ao mesmo tempo, Lula intensifica um movimento estratégico menos visível, mas crucial: a construção de maioria no Senado. A lógica é conhecida no núcleo do poder. Sem uma base sólida na Casa, o governo fica vulnerável em temas centrais, como indicações ao Judiciário e votações de alto impacto institucional.
ALIANÇAS – Por isso, o presidente admite a necessidade de ampliar alianças e dividir espaços, reconhecendo que o PT não pode concentrar todas as posições. Compartilhar poder, nesse caso, não é concessão ideológica, mas uma exigência prática da governabilidade.
Enquanto o Executivo se articula, o Judiciário também se movimenta. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, defende a criação de um código de ética mais claro para a magistratura, em resposta a pressões e questionamentos recentes. A proposta busca reforçar mecanismos internos de controle e preservar a credibilidade da Corte em um ambiente cada vez mais tensionado, onde temas como desinformação e fake news colocam o tribunal no centro do debate político.
O cenário, portanto, é de múltiplas frentes em movimento. O governo atua para conter a inflação e proteger o consumo, reorganiza alianças para garantir sustentação política e acompanha, com atenção, o comportamento das instituições. Tudo isso ocorre sob a sombra do calendário eleitoral, que amplifica o peso de cada decisão. No fim, o que se vê é uma engrenagem complexa em funcionamento, onde economia e política se entrelaçam de forma inseparável. Em Brasília, especialmente em tempos de eleição, governar nunca é apenas administrar — é, acima de tudo, calcular.