
Juros do rotativo ultrapassaram 400% ao ano
Pedro do Coutto
O avanço das negociações entre governo e bancos para reestruturar dívidas de cartão de crédito é, antes de tudo, um reconhecimento tardio de uma distorção que há anos penaliza o cidadão comum. Em um país onde os juros do rotativo ultrapassaram a casa dos 400% ao ano — chegando a cerca de 438% em 2025 — a dívida deixa de ser um instrumento financeiro e passa a operar como mecanismo de aprisionamento econômico. Não por acaso, a inadimplência atingiu níveis recordes, refletindo não apenas descontrole individual, mas um modelo de crédito estruturalmente disfuncional.
Nesse contexto, a possibilidade de renegociação com descontos expressivos — que podem chegar a 50% em alguns casos — surge como uma válvula de escape necessária. A experiência recente do programa de renegociação do governo federal, que movimentou dezenas de bilhões de reais e beneficiou milhões de brasileiros, mostra que há espaço para acordos mais equilibrados entre credores e devedores.
REINSERÇÃO – Mais do que limpar nomes, essas iniciativas buscam reinserir o consumidor no circuito econômico formal, restaurando sua capacidade de consumo e, por consequência, estimulando a atividade econômica. Mas o ponto central vai além da renegociação em si.
O problema não é apenas o estoque da dívida — é o seu custo. O próprio governo tem sinalizado que políticas de alívio perdem eficácia se não vierem acompanhadas de mudanças estruturais nas taxas cobradas. Medidas recentes, como a criação de tetos para o crescimento da dívida do cartão e maior transparência nas faturas, caminham nessa direção, ao limitar o efeito exponencial dos juros e impor algum grau de racionalidade ao sistema.
Ainda assim, há um delicado equilíbrio político e econômico em jogo. O Banco Central resiste a intervenções mais duras, como o controle direto das taxas, sob o argumento de que isso pode restringir o crédito e excluir justamente os mais vulneráveis. Trata-se de um debate clássico: até que ponto o Estado deve intervir em um mercado que, embora formalmente livre, produz resultados socialmente insustentáveis?
EXTENSÃO DA RENDA – O fato é que o cartão de crédito, que deveria funcionar como instrumento de conveniência, transformou-se em extensão precária da renda de milhões de brasileiros. Com o custo de vida pressionando orçamentos e o crédito fácil ampliando limites, muitas famílias passaram a usar o cartão como complemento salarial — um comportamento que, sob juros abusivos, inevitavelmente desemboca no endividamento crônico.
A renegociação em curso, portanto, é menos uma solução definitiva e mais um ajuste emergencial. Ela corrige distorções acumuladas, mas não elimina suas causas. Sem uma reconfiguração mais profunda do mercado de crédito — que envolva concorrência, educação financeira e, sobretudo, redução consistente das taxas — o país corre o risco de institucionalizar ciclos periódicos de perdão parcial de dívidas, seguidos por novas ondas de inadimplência. No curto prazo, negociar é necessário. No longo, é insuficiente. O verdadeiro desafio não está em aliviar o passado, mas em impedir que ele se repita.