EDITORIAL: A Memória Curta do Cinismo – Quem Realmente Entregou o Controle dos Combustíveis no Brasil?
O cenário político brasileiro, neste março de 2026, assiste a um espetáculo de cinismo que beira o deboche. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tenta, a todo custo, emplacar a narrativa de que a alta dos combustíveis é culpa exclusiva da gestão atual, ignorando as digitais que eles próprios deixaram na estrutura econômica do país durante o mandato do seu genitor, sob a batuta de Paulo Guedes.
É preciso refrescar a memória de quem tenta "zombar da cara do povo": a desestabilização da soberania energética brasileira começou com a entrega estratégica de ativos fundamentais, e o marco zero dessa confusão na bomba de combustível tem nome e data.
A Privatização da BR Distribuidora: O Estado de Mãos Atadas
Em 2019, o governo Bolsonaro e o então ministro Paulo Guedes finalizaram a venda do controle acionário da BR Distribuidora (hoje Vibra Energia). Na época, a empresa detinha 30% do mercado nacional. Ao privatizar a maior distribuidora do país, o governo abriu mão de uma ferramenta vital de regulação.
Perda de Controle: Sem uma distribuidora estatal forte, a Petrobras perdeu a capacidade de influenciar o preço final que chega ao consumidor.
Ditadura do Mercado: A empresa passou a operar focada exclusivamente no lucro dos acionistas privados, deixando o brasileiro à mercê das variações internacionais e das margens de lucro agressivas do setor privado.
A Herança de Guedes e o Preço da "Eficiência"
O argumento de Paulo Guedes era de que a privatização traria "eficiência e concorrência". Na prática, o que o povo viu foi a consolidação de um modelo que privilegia o dólar em detrimento do real. Enquanto Bolsonaro e seus aliados, como o senador Sérgio Moro, defendiam o desmonte do Estado, o custo de vida do trabalhador disparava.
Hoje, é fácil apontar o dedo para o governo Lula, mas é difícil explicar por que o governo anterior destruiu os mecanismos que permitiam ao Brasil amortecer os choques externos de petróleo. A mudança recente na política de preços da Petrobras (o fim da paridade de importação) e as isenções de impostos são tentativas de consertar um motor que foi propositalmente avariado entre 2019 e 2022.
Fatores Externos vs. Soberania Interna
É verdade que conflitos geopolíticos e a cotação internacional influenciam os preços. No entanto, um país que produz petróleo como o Brasil não deveria ser um refém tão frágil do mercado externo. O problema é que, ao vender a BR Distribuidora, Bolsonaro entregou a "logística" do país.
O combustível sai da refinaria com um preço, mas quem decide quanto você paga na bomba são as distribuidoras. E hoje, o Estado brasileiro não tem mais uma cadeira nessa mesa de decisão graças à política entreguista de Guedes.
Conclusão: Contra o Cinismo, os Fatos
Não se engane com postagens de redes sociais que tentam simplificar um problema estrutural. O aumento que dói no bolso do jeremoabense e de todo brasileiro hoje é fruto de uma escolha política feita no passado recente: a escolha de tratar o combustível como mercadoria de luxo internacional e não como item básico de soberania nacional.
O cinismo pode até ganhar curtidas, mas não enche o tanque de ninguém. A conta da privatização da BR Distribuidora chegou, e o boleto tem a assinatura de quem hoje tenta posar de salvador da pátria.
Blog de Dede Montalvão: Onde a memória não falha e a verdade não se esconde.
José Montalvão Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da ABI (C-002025)