quinta-feira, fevereiro 05, 2026

Mensagem de Lula ao Congresso e o novo tabuleiro da política em 2026

 


Charge do Aroeira (Diário do Centro do Mundo)

Pedro do Coutto

A política brasileira entra em um ano decisivo, não apenas por marcar o início de um novo ciclo legislativo, mas por revelar de forma explícita como o governo federal e os principais protagonistas da oposição estão reposicionando suas estratégias diante das eleições presidenciais de 2026.

Nesta semana, o presidente Lula da Silva entregou ao Congresso Nacional uma longa mensagem — com cerca de 600 páginas segundo colunistas — que, na análise de Elio Gaspari, no O Globo e na Folha, acabou assumindo mais o tom de um palanque político do que de um discurso técnico de governo.

NÚMEROS POSITIVOS – No texto, que percorre dados econômicos, sociais e prioridades legislativas, Lula se empenha em destacar os números positivos de 2025 — redução da taxa de desemprego, crescimento do Produto Interno Bruto e avanços em programas sociais — e aponta diretrizes para 2026, como a pauta trabalhista e a segurança pública. Essas escolhas têm uma leitura clara para muitos analistas: ao comunicar avanços concretos e metas a serem alcançadas, o presidente constrói uma narrativa de continuidade que dialoga diretamente com o eleitorado em ano eleitoral.

Para além do conteúdo, a forma e o timing dessa mensagem reacendem o debate sobre o papel do Executivo ao usar ocasiões institucionais para reforçar sua imagem pública. Gaspari — em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo — criticou essa prolixidade e o caráter quase eleitoral do discurso, apontando que uma mensagem de tamanho e foco assim “pedia palanque” mais do que explicou planos de governo.

No cenário oposicionista, a sucessão presidencial toma contornos cada vez mais complexos. Com a inelegibilidade do ex-presidente Jair Bolsonaro confirmada até 2030, seu grupo político passou a articular alternativas, das quais Flávio Bolsonaro, seu filho e senador, surge como nome competitivo. Ao mesmo tempo, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, anunciou que deixará o comando do estado — previsto para 22 de março — para dedicar-se integralmente à campanha presidencial. Zema mantém sua pré-candidatura pelo Partido Novo, rejeitando a ideia de compor chapa com Flávio Bolsonaro e buscando espaço próprio no tabuleiro político.

NOVA DINÂMICA – Esse movimento confirma uma nova dinâmica dentro do eleitorado de direita ou de centro-direita: a presença de múltiplos nomes disputando espaço no mesmo campo ideológico, o que pode fragmentar votos que, em outras circunstâncias, convergiriam para um único candidato mais consolidado. Além de Zema e Flávio, outros governadores e líderes regionais, como Ronaldo Caiado e Ratinho Júnior, têm aparecido como potenciais concorrentes ou figuras influentes nas discussões de alianças, ampliando a diversidade de opções no centro e na direita do espectro político.

Essa fragmentação da oposição pode representar, a princípio, uma vantagem estrutural para Lula, cuja candidatura tende a se beneficiar de um bloco menos coeso de adversários. Em termos práticos, quando uma força política dominante enfrenta adversários dispersos, a possibilidade de vitória no primeiro ou segundo turno aumenta, especialmente se o candidato governista conseguir manter sua base e ampliar apoio entre independentes, como sugerem algumas análises do processo eleitoral brasileiro de 2026.

GOVERNO E CAMPANHA – Por outro lado, o uso do discurso institucional como estratégia de campanha — como criticado por Gaspari — levanta questões importantes sobre o equilíbrio entre governar e fazer campanha. Em sociedades democráticas, a linha entre prestar contas de gestão e promover candidaturas é delicada, exigindo cuidado institucional para não diluir as funções do Estado com interesses eleitorais. A mensagem de Lula ao Congresso se insere exatamente nessa tensão, espelhando um momento em que governar, comunicar e disputar votos se sobrepõem de maneira cada vez mais explícita no debate público brasileiro.

Em suma, o início de 2026 revela um xadrez político vibrante e incerto, no qual incumbentes e desafiantes moldam estratégias, articulam alianças e tentam se destacar em meio a uma sociedade polarizada e exigente. As próximas semanas — com renúncias, definições de candidaturas e debates sobre políticas públicas — prometem consolidar as peças desse jogo que, certamente, decidirá o futuro político do Brasil.

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