sexta-feira, novembro 14, 2025

Por que ainda não temos justiça 1 ano depois do caso Thainara?

 

Um ano após a morte de Thainara, MP livra PMs e culpa equipe médica; Família recorre e implora por justiça


Apesar de a perícia ter atestado morte por asfixia em abordagem da PM de MG, o Ministério Público isentou os policiais e pediu punição para os profissionais de saúde que atenderam Thainara.

Um ano após Thainara Vitória Francisco Santos, de 18 anos, entrar viva em uma viatura e morrer minutos depois, durante uma abordagem da Polícia Militar em Governador Valadares, Minas Gerais, nenhum policial foi punido nem sequer denunciado à justiça.

Intercept Brasil acompanha o caso desde o início e foi o primeiro veículo a noticiar que o laudo indicava que Thainara foi asfixiada, o que contradiz a versão dada pelos policiais militares. Desde então, já publicamos seis reportagens e seguimos acompanhando para que esse não seja mais um caso esquecido pela justiça brasileira.


Apesar de a perícia ter apontado asfixia como causa da morte da jovem, que estava sob custódia da PM-MG, o Ministério Público livrou os policiais de qualquer culpa.


Em vez disso, denunciou à justiça os cinco integrantes da equipe médica que atenderam Thainara, na noite de 14 de novembro de 2024, por entender que eles têm responsabilidade no que ocorreu.

A família discorda totalmente — e, agora, contesta de forma oficial a decisão dos promotores. Um pedido de revisão foi enviado pelos advogados dos pais de Thainara ao Conselho Superior do Ministério Público, que é presidido pelo procurador-geral de justiça de MG, Paulo de Tarso Morais Filho.

No documento, obtido com exclusividade pelo Intercept Brasil, a família afirma que o promotor “ignorou” as provas coletadas na investigação, principalmente o laudo de necropsia feito pelo Instituto Médico Legal, IML, atestando que a causa da morte de Thainara foi “asfixia por constrição extrínseca do pescoço”.

Outro ponto central do pedido é o tempo em que Thainara ficou dentro da viatura antes de ser levada para atendimento.

Imagens indicam que ela foi imobilizada pela polícia e colocada no compartimento de presos por volta das 20h43 – e a viatura só saiu em direção à UPA às 20h52. As câmeras de segurança da unidade de saúde registraram que ela foi colocada na maca para ser atendida às 21h11. 

A defesa da família de Thainara pontua que, neste período, “a vítima permaneceu sozinha, sem ventilação e sem assistência médica no cofre da viatura”, o que teria agravado o seu quadro de saúde. “Houve perda de tempo útil e omissão evidente na prestação de socorro”, alega.

A Polícia Civil também registrou em sua investigação esse intervalo como “tempo perdido” e mencionou a possibilidade de crime pelos policiais, mas não indiciou nenhum deles pela morte.

O MP entendeu que não houve qualquer erro ou omissão para denunciá-los.

O pai de Thainara, Reginaldo Francisco disse em entrevista ao Intercept ter ficado inconformado com a conclusão do MP. “A minha filha chegou lá sem sinais vitais, foi tirada da viatura já em óbito. Os laudos são claros. O IML apontou asfixia. Mesmo assim, o promotor quis culpar quem não fez nada de errado. A UPA é para salvar vidas, não para ressuscitar quem já está morto”, desabafou.

Ele ainda pontuou que, na chegada à UPA, os policiais sequer deram detalhes do que havia ocorrido na abordagem. “O médico perguntou o que aconteceu e eles disseram que nunca tinham visto ela, que acharam caída na rua por causa de briga. Isso está no depoimento. Eles sabiam o que tinha acontecido e tentaram simular um socorro”, ressaltou.

Um ano depois de perder a filha, Reginaldo acredita que a condução do caso reforça a sensação de que a vida de Thainara vale menos.

“Pobre, periférico, negro não tem privilégio. Se fosse alguém de nome, outra família, outra cor de pele, outra classe social, isso não estaria acontecendo”, destacou.

A família espera que o Conselho Superior do Ministério Público reverta a decisão dos promotores. “O Ministério Público existe para proteger quem não tem voz. O que a gente vê aqui é o contrário. Todo mundo viu o que aconteceu, menos as autoridades”, enfatizou Reginaldo.

O Intercept procurou o Ministério Público, pediu entrevista com os promotores responsáveis pelo caso e enviou questionamentos sobre a decisão de não denunciar os policiais militares.

O MP informou, por meio da assessoria de imprensa, que o promotor responsável pelo caso, Guilherme Heringer, está em férias. Perguntamos quando ele retornaria, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.

Também contatamos o Conselho Superior do Ministério Público, responsável por analisar o pedido de revisão apresentado pela família de Thainara.

Não houve resposta sobre o andamento do processo nem foi informado se há um prazo de análise do recurso.

Perguntado sobre o risco de impunidade do caso, o pai de Thainara reiterou que não vai parar de lutar por justiça, mesmo que o caso seja arquivado.

Se arquivar, eu vou lutar e tentar desarquivar. Se for preciso, vamos pedir a federalização do caso. Estamos nos apegando a Deus e às provas que temos”, afirmou Reginaldo.

Perícia que apontou asfixia é desconsiderada

A Polícia Civil e a Polícia Militar fizeram investigações sobre o caso. Ambas desconsideraram o laudo da perícia no corpo de Thainara e concluíram que, apesar da constatação de que a causa da morte foi asfixia no pescoço, nenhum dos 11 policiais envolvidos na abordagem – incluindo tenentes, sargentos e cabos da PM – tinha culpa pela morte.

Para o IML, não há dúvida de que Thainara morreu por “asfixia por constrição extrínseca do pescoço”. O laudo descreve marcas na região cervical, hematomas e sinais compatíveis com hipóxia — falta de oxigenação.

Também descarta uso de substâncias tóxicas e não identifica qualquer doença prévia que pudesse explicar uma morte súbita.

Na sua investigação, a Polícia Civil reconheceu que não é possível excluir a “relação direta” da conduta dos PMs com a morte, mas que havia “indícios de autoria e materialidade” de homicídio culposo. O inquérito policial, porém, não explicou nem detalhou como, então, a jovem morreu.

Assembleia Legislativa também pedirá revisão do caso

A luta da família por justiça após a decisão do Ministério Público de livrar os PMs recebeu o apoio, na quarta-feira, 12, da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de MG.

A presidente do colegiado, deputada Bella Gonçalves, do PSOL, disse que ações serão tomadas para evitar que a morte da jovem fique impune.

“A conclusão do Ministério Público é absolutamente atípica e, em alguns momentos, inacreditável. Como que uma investigação sobre violência policial que resultou na morte de uma jovem pode virar o indiciamento de profissionais de saúde em uma UPA?”, pontuou a parlamentar.

Bella Gonçalves ainda afirmou durante a reunião que a comissão pedirá providências para revisão do caso ao procurador-geral de justiça de Minas Gerais, Paulo de Tarso Morais Filho, ao Tribunal de Contas, TCE, ao Conselho Nacional de Direitos Humanos e ao Tribunal de Justiça.

“Também vamos entrar em breve com uma denúncia no Conselho Nacional do Ministério Público sobre a conduta desse promotor.

Porque ele antecipa o processo de argumentação da defesa, de provas e contraprovas, agindo ali quase como um juiz que desconsidera um laudo técnico da Polícia Civil para aceitar um laudo da defesa policial, que ignora completamente que houve fraude processual pela adulteração da cena do crime.

E ainda mais por uma conclusão de que a equipe médica fez uma negativa de prestação de socorro, quando, na verdade, é bastante inequívoco o fato de que ela chegou lá já sem vida”, destacou.

Família sofre com ausência, medo e dificuldades financeiras

Um ano depois da morte, a rotina nunca mais voltou ao normal na casa onde Thainara morava com os pais e a filha. “Parece que foi ontem que tudo aconteceu”, afirmou Reginaldo Francisco ao Intercept.

“Eu estava no cemitério domingo. Fiquei lá um bom tempo. Cada dia que passa é mais difícil. Às vezes, meus filhos postam foto dela, e aí começa tudo de novo”, contou o pai.

A ausência se materializa em detalhes. Reginaldo trabalhava no turno da manhã e dizia que Thainara pedia bênção todos os dias quando saía de casa e quando ele chegava do serviço. “É uma falta que nada substitui.”

A filha de Thainara, hoje com cinco anos, tem nanismo e precisa de acompanhamento contínuo. Segundo o avô, ela começou a verbalizar a falta da mãe sem que a família tocasse no assunto. 

“Às vezes a gente está na rua à noite e ela aponta pro céu: ‘vovô, a mamãe tá lá em cima’. Quando vê uma estrela, fala que é a mãe. Aí a gente se segura para não chorar”, ressaltou Reginaldo.

O trauma também se manifesta no medo. “Se ela vê uma viatura [da polícia], fica ansiosa, com receio. Não quer chegar perto”, disse ele.

A criança segue recebendo uma pensão do estado de Minas Gerais – resultado de uma pressão pública e de uma audiência na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

Segundo a família, a justiça assegurou o pagamento de um salário mínimo até ela completar 18 anos

Para Reginaldo, porém, isso não é suficiente. “Pela forma como aconteceu, a pensão tinha que ser vitalícia. Ela vai ter dificuldade para trabalhar no futuro. Então, mais cedo ou mais tarde, a gente vai ter que correr atrás disso”, pontuou.

O pai de Thainara também contou das dificuldades financeiras da família para arcar com consultas, exames e até uma cirurgia de adenóide da menina.

“Deixei o dinheiro da pensão para alimentação. O resto, eu faço minha parte. Quando posso, compro roupa, brinquedo, tênis. O que ela precisar, eu corro atrás”, destacou.

A família ainda se reorganizou neste um ano, segundo Reginaldo, para conseguir cuidar da mãe de Thainara — que faz hemodiálise — e do irmão mais novo dela, que tem autismo e deficiência intelectual.

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