PF aponta que ex-presidente do INSS recebia propina mensal de R$ 250 mil em esquema
Por Constança Rezende, Folhapress
13/11/2025 às 18:17
Foto: Lula Marques/ Agência Braasil/Arquivo
O presidente afastado do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), Alessandro Stefanutto
A Polícia Federal apontou que o ex-presidente do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) Alessandro Stefanutto recebia R$ 250 mil mensais, quando comandava o órgão, no esquema de descontos ilegais de aposentadorias.
Segundo a decisão sigilosa do André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), que determinou a sua prisão nesta quinta-feira (13), há indícios de que Stefanutto exerceu papel de facilitador institucional do grupo criminoso dentro do INSS, primeiro como procurador-chefe, depois, como presidente do órgão.
"Ele utilizou sua influência na alta administração pública para garantir a continuidade da fraude em massa, que gerou R$ 708 milhões em receita ilícita, confirmando sua posição como uma das principais engrenagens da organização criminosa", disse a PF.
Segundo as investigações, o pagamento de valores indevidos aos altos gestores do INSS era necessário porque, sem o apoio deles, seria impossível continuar com uma fraude de tamanha magnitude, que envolvia mais de 600 mil vítimas e gerava milhares de reclamações judiciais e administrativas
"Em síntese, sua conduta viabilizou juridicamente o esquema fraudulento, conferindo aparência de legalidade a operações ilícitas, mediante o uso da posição pública de destaque que ocupava no INSS", diz a decisão.
Desses repasses, segundo a polícia, quase a totalidade dos valores foram pagos entre junho de 2023 e setembro de 2024 (à exceção de um pagamento de R$ 250 mil realizado em outubro de 2022).
As investigações da PF também apontaram que Stefanutto avaliava e aprovava a manutenção dos convênios entre o INSS e da Conafer (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares), mesmo após alertas técnicos sobre inconsistências nas listas de filiados e indícios de falsificação de autorizações de desconto.
Além disso, autorizava o processamento de cadastros de filiação encaminhados pela Conafer sem observância dos critérios legais e sem checagem da manifestação de vontade dos beneficiários.
Ainda de acordo com as investigações, Stefanutto recebia pagamentos mensais provenientes de empresas vinculadas ao operador financeiro Cícero Marcelino de Souza Santos, disfarçados como honorários de consultoria ou assessoria técnica e utilizava influência institucional para manter a execução dos atos criminosos.
Stefanutto foi preso nesta quinta-feira (13), na nova fase da Operação Sem Desconto, que apura um esquema nacional de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões, em conjunto com a CGU (Controladoria-Geral da União).
Procurada, a defesa de Stefanutto afirmou que não teve acesso ao teor da decisão que decretou a prisão dele e que trata-se de uma detenção "completamente ilegal, uma vez que Stefanutto não tem causado nenhum tipo de embaraço à apuração, colaborando desde o início com o trabalho de investigação".
A defesa também disse que irá buscar as informações que fundamentaram a decisão para tomar as providências necessárias e que segue confiante, diante dos fatos, de que comprovará a inocência dele ao final dos procedimentos relacionados ao caso.
Politica Livre
Nota da Redação deste Blog -
INSS: Um Campo Fértil Para Improbidades Desde o Funrural até os Escândalos Atuais
O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), órgão essencial para garantir direitos previdenciários a milhões de brasileiros, infelizmente carrega uma longa história marcada por improbidades e corrupção. Essa chaga não nasceu agora — ela tem raízes profundas, que remontam aos tempos do antigo Funrural.
Foi justamente ali que se abriu a primeira brecha: os cargos eram ocupados por indicações políticas, transformando postos estratégicos em verdadeiros “cabides de emprego” para cabos eleitorais. O mérito ficava em segundo plano, enquanto interesses particulares se sobrepunham ao interesse público.
Com o passar dos governos, essa prática foi se aprofundando. O que era um desvio pontual se tornou um vício administrativo, alimentando um ecossistema perfeito para fraudes, manipulações de processos, vendas de facilidades e toda sorte de aventuras criminosas envolvendo recursos previdenciários.
O ápice desse desequilíbrio moral ocorreu no governo Collor, quando as portas das nomeações políticas se escancararam de vez. O INSS, em vez de ser um órgão técnico e blindado, se converteu em terreno fértil para agentes inescrupulosos que viram na vulnerabilidade administrativa a chance de enriquecer às custas de um sistema criado para proteger o povo.
Não surpreende que, ao longo dos anos, o país tenha assistido a:
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Superintendentes presos,
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Ministros algemados e adornados com tornozeleiras,
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Operações da Polícia Federal revelando esquemas que se estendiam por diversos estados,
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E um rastro de prejuízo bilionário que acaba recaindo sobre o contribuinte honesto.
Hoje, quando a Polícia Federal decide aprofundar investigações, o que se descobre não é novidade para quem acompanha a realidade da máquina pública: a lista de corruptos cresce e quase sempre envolve agentes políticos. Porque, onde há aparelhamento, há influência indevida. E onde há influência indevida, há risco de fraude.
O que deveria ser um órgão técnico, responsável e respeitado, tornou-se — em muitos períodos — um laboratório de escândalos, sustentado por indicações políticas que deveriam ter ficado no passado.
O Brasil só terá um INSS forte, confiável e eficiente quando o critério único para nomeações for técnica, competência e moralidade, e não acordos partidários ou favores eleitorais. A Previdência Social precisa deixar de ser moeda política e voltar a ser o que sempre deveria ter sido: um patrimônio do povo brasileiro.(José Montalvão)