Publicado em 14 de novembro de 2025 por Tribuna da Internet

Charge do Cazo (Facebook)
Pedro do Coutto
O editorial de O Globo desta quinta-feira destacou um sintoma grave do sistema político brasileiro: a incapacidade de construir consensos mínimos diante de temas que deveriam ser tratados como questões de Estado, e não de governo. O debate em torno do chamado PL Antifacções, relatado pelo deputado federal Guilherme Derrite (PL-SP), é um retrato desse impasse.
O projeto, que visa endurecer o combate ao crime organizado e dar mais instrumentos legais ao poder público, acabou se transformando num campo de batalha ideológica, onde o cálculo eleitoral se sobrepõe à urgência da segurança nacional.
DIVISÃO – De um lado, os governadores, pressionados pela escalada da violência e pelo poder paralelo das facções, cobram medidas concretas e maior coordenação federal. De outro, o Congresso, dividido entre o centrão e as bancadas de oposição, vê no projeto uma oportunidade para marcar posição política.
Enquanto uns temem a criação de uma legislação que possa ampliar abusos policiais ou reforçar a militarização das políticas de segurança, outros preferem explorar o tema para desgastar o governo. No meio desse fogo cruzado, perde-se o essencial: a vida de milhões de brasileiros submetidos ao terror cotidiano do tráfico e das milícias.
O mais preocupante é que essa politização da segurança pública enfraquece a própria capacidade do Estado de agir. A ausência de um consenso mínimo sobre como enfrentar o crime organizado — que hoje atua com estrutura empresarial, controle territorial e poder econômico — é um convite ao avanço das facções.
VÁCUO DE AUTORIDADE – A falta de diálogo entre o Planalto, os governadores e o Congresso cria um vácuo de autoridade que as organizações criminosas rapidamente preenchem. O resultado é uma perigosa inversão de papéis: enquanto o Estado discute, o crime governa.
O Brasil precisa urgentemente de uma política nacional de segurança pública que supere divisões partidárias. Não se trata de criminalizar a pobreza ou militarizar a sociedade, mas de construir um pacto federativo eficaz, capaz de integrar inteligência policial, controle de fronteiras, investimento social e reforma carcerária.
O PL Antifacções, ainda que imperfeito, poderia ser o ponto de partida para esse debate. Mas, se continuar refém da guerra política, corre o risco de se transformar em mais uma oportunidade perdida — e o crime não costuma desperdiçar oportunidades.