Por: José Montalvão
💬 “Enquanto discutem datas, Jeremoabo segue perdendo sua história e seus espaços públicos.”
Por mais que eu queira, não posso ficar calado quando percebo que estão zombando da inteligência do povo de Jeremoabo — minha terra natal, onde meu avô teve a honra de ser o primeiro prefeito eleito.
Vamos, portanto, recorrer ao raciocínio lógico: qual é a vantagem e qual o benefício concreto de mudar a data da emancipação política de Jeremoabo apenas para que o município pareça ter mais anos de existência?
A resposta é direta e incontestável: nenhum benefício real para a população, especialmente a mais carente.
A falácia da “nova data”
Alguns tentam defender a mudança como uma forma de valorizar a história. Em tese, quanto mais antiga uma cidade, maior seu prestígio e identidade cultural. No entanto, isso só faria sentido se Jeremoabo tivesse preservado e valorizado sua própria história — o que, infelizmente, não aconteceu.
Identidade Cultural e Histórica em ruínas
Pasmem os senhores: a primeira residência construída em Jeremoabo, marco da fundação da cidade, hoje é apenas um amontoado de tijolos.
A casa onde nasceu o Barão de Jeremoabo, figura ilustre do Império e defensor da independência da Bahia e do Brasil, encontra-se em ruínas.
O casarão do Coronel João Sá, símbolo político e histórico, está irrecuperável.
E o “presente” que deram a esse importante vulto histórico foi retirar seu nome de uma das primeiras escolas do município — uma afronta à memória e à tradição.
Até mesmo a Pedra Furada, um dos nossos pontos turísticos mais conhecidos, virou lembrança.
E é diante desse cenário de destruição da memória que querem “recontar a história” mudando uma data?
Mudar a data não resgata o passado — é apenas maquiagem para enganar o presente.
Infraestrutura: o retrato do abandono
Cidades com longa história costumam ter infraestrutura sólida: saneamento, transporte, estradas, escolas e hospitais em bom funcionamento.
Mas em Jeremoabo, a realidade é o oposto: escolas caindo aos pedaços, estradas intrafegáveis, saneamento precário e um hospital que por anos esteve em estado de abandono, começando a sair da UTI apenas agora, sob a gestão do prefeito Tista de Deda.
E, para piorar, o descaso com o patrimônio público segue enraizado.
Um terreno que deveria servir para a construção de uma área de lazer e uma praça pública foi indevidamente apropriado por um servidor municipal, que ergueu uma pousada particular.
Até o momento, os vereadores não prestaram contas à população, não informaram se fiscalizaram, denunciaram ou simplesmente entregaram o caso “ao Deus-dará”, como se o bem público fosse terra sem dono.
Outro episódio vergonhoso: o terreno em frente ao cemitério, que poderia ser utilizado para ampliar a área destinada aos sepultamentos, foi indevidamente doado para a construção de uma igreja.
E, como de costume, os vereadores fecharam os olhos.
Hoje, os defuntos praticamente precisam disputar espaço para descansar em paz, tamanha é a falta de planejamento e de respeito com o povo — vivo ou morto.
Autonomia e experiência administrativa
Se o tempo de emancipação garantisse maturidade política, Jeremoabo seria exemplo de boa governança.
Mas o que vimos — especialmente na administração passada — foi um espetáculo de improbidades e desmandos, tanto no Executivo quanto no Legislativo.
E se o Legislativo falhou, foi porque se omitiu na função mais nobre que tem: fiscalizar o Executivo e defender o patrimônio público.
Relações políticas e busca de recursos
Ao longo dos anos, municípios que se destacam aprendem a dialogar com os governos estadual e federal para trazer investimentos.
Em Jeremoabo, no entanto, somente o prefeito Tista de Deda tem demonstrado esse compromisso, viajando a Salvador e Brasília para captar recursos e projetos que estão ajudando a reconstruir uma cidade deixada em ruínas.
Desenvolvimento econômico: dependência e atraso
Depois de tantos anos de emancipação, Jeremoabo ainda sobrevive à base de empregos públicos, aposentadorias rurais e benefícios sociais.
A economia é frágil, dependente e pouco diversificada.
Somente agora, sob nova administração, começam a surgir sinais de progresso, como a instalação de um frigorífico particular..
Mas ainda é pouco para um município com tanto potencial agrícola e pecuário, e que há décadas poderia ter dado um salto no desenvolvimento.
Até mesmo o primeiro ginásio escolar chegou com atraso, e a faculdade criada no governo Anabel foi desativada por falta de incentivo e continuidade.
Conclusão: trocar a data não muda a realidade
Insisto na pergunta que muitos evitam responder: qual o ganho concreto para o povo de Jeremoabo em mudar a data da emancipação política?
A resposta é clara: nenhum.
Jeremoabo não precisa de uma “nova data” — precisa de novas atitudes.
Precisa de gestão séria, vereadores atuantes, preservação da história e respeito pelo patrimônio público.
Enquanto isso não acontecer, trocar datas será apenas uma cortina de fumaça para esconder o que realmente importa: o abandono, a omissão e o desrespeito com a cidade e com seu povo.
