Por: José Montalvão
A situação política de Jeremoabo chega a um ponto em que, se Machado de Assis ainda estivesse entre nós, certamente convocaria o ilustre alienista Dr. Simão Bacamarte para instalar aqui uma sucursal da Casa Verde. E talvez fizesse fila.
Durante seis anos, a Câmara de Vereadores desempenhou um papel que, em tese, deveria ser exemplar: denúncias semanais, quase diárias, contra o então prefeito Deri do Paloma. Foram acusações envolvendo educação, saúde, infraestrutura e outras frentes onde o desgoverno se instalou. As denúncias ecoavam na tribuna, nas rádios locais, nas redes sociais, nos blogs, nos sites, no Instagram e no Facebook. Uma verdadeira sinfonia de moralidade — ao menos no discurso.
Até aí, nada de anormal. Fiscalizar é dever do vereador, e denunciar irregularidades deveria ser um ato digno de louvor, não de censura. O problema é que toda essa indignação parecia ser ensaiada para a plateia, não para a história.
Agora, com a proximidade das próximas eleições, um fenômeno digno de estudo psiquiátrico tomou conta de parte dos mesmos vereadores e figuras políticas: uma amnésia seletiva, conveniente e altamente oportuna. Esqueceram tudo. Absolutamente tudo.
Sumiram as denúncias outrora repetidas com empolgação. Desapareceram as certezas sobre atos de improbidade. Evaporou-se o zelo moral que, por anos, serviu como combustível político. O que antes era grave, agora virou tolerável. O que antes era inadmissível, agora é “normal”. E os mesmos que acusavam se unem, apoiam ou se calam diante de candidatos que praticaram atos iguais — ou ainda piores — do que os que eles mesmos denunciavam.
A memória curta, combinada com a moral elástica, transformou a velha política de Jeremoabo num teatro em que os personagens mudam, mas o roteiro continua pobre e previsível. As acusações perderam a validade, como se tivessem data de vencimento. E o que era pecado virou estratégia.
Por isso, talvez seja mesmo o caso de solicitar a cooperação técnica do alienista Dr. Simão Bacamarte. Porque o que está acontecendo não é apenas incoerência — é um surto coletivo de conveniência política, que desafia o bom senso e a paciência do eleitor.
Jeremoabo não precisa de loucos. Precisa de coerência. Precisa de memória. Precisa de representantes que saibam que a ética não pode ser usada como arma de ocasião, nem como moeda eleitoral.
E enquanto a Casa Verde não chega, resta ao povo observar, lembrar e decidir. Porque nas urnas, ao contrário da política, a amnésia costuma cobrar caro.
Nota da Redação Deste Blog - De que adianta tudo isso?
E assim, a cada eleição:
A política se deteriora não apenas pela ação dos maus, mas pela omissão dos bons e pela memória curta do eleitor.
Se, na hora de mudar, o próprio povo se recusa a virar a página?
O Brasil só terá um Congresso digno quando o eleitor tiver coragem de romper com os velhos vícios — e isso começa na urna, não no desabafo.