Há verdades que, mesmo soterradas por décadas de versões repetidas, cedo ou tarde encontram o caminho da luz. Assim ocorre agora com a revelação documentada da verdadeira data de nascimento de Maria Bonita, figura icônica do cangaço e personagem de valor inestimável para a história nordestina.
Não é de hoje que Jeremoabo convive com oportunistas que, ao menor sinal de descoberta, surgem como “autores” ou “detentores do saber”. Mas, diante de fatos sustentados por provas, não há espaço para especulação. Este editorial reafirma um princípio fundamental: a verdade não se constrói em opinião — constrói-se em documentos.
E foram justamente os documentos preservados durante mais de um século que confirmaram aquilo que poucos ousaram questionar. Graças à dedicação incansável do sociólogo e escritor Voldir de Moura Ribeiro, falecido em 20 de janeiro, descobriu-se que Maria Bonita nasceu em 17 de janeiro de 1910, e não em 8 de março de 1911, data que se consagrou equivocadamente na literatura do cangaço.
Voldir não se contentou com narrativas prontas. Ele rastreou arquivos, examinou manuscritos originais, percorreu fontes primárias e encontrou, na Paróquia de São João Batista de Jeremoabo, registros capazes de desmontar décadas de versões frágeis. A força dessa descoberta não reside apenas na data corrigida, mas no exemplo de rigor que sua pesquisa representa — um legado de honestidade intelectual que honra a memória do estudioso.
Somando-se a isso, este editorial incorpora uma relíquia histórica enviada pela Dra. Camila Maria Beder Ribeiro Girishi Panjwani, filha do saudoso pesquisador: uma fotografia de 1919, assinada pelo vigário Padre Euthymio José de Carvalho, então titular da paróquia. O documento fortalece ainda mais a credibilidade da pesquisa realizada por Voldir e ilumina fatos até então obscurecidos.
É importante recordar que essa investigação começou muito antes de qualquer rumor recente. Na década de 1970, Voldir encontrou uma carta mencionando a existência de um documento em Paulo Afonso que contrariava a versão oficial sobre o nascimento de Maria Bonita. A partir daí, dedicou-se — com paciência, persistência e método — a montar um quebra-cabeça histórico que só agora se mostra completo graças ao trabalho de preservação de sua filha.
A verdade demorou, como tantas vezes acontece no Brasil, mas chegou. E chega não apenas para satisfazer a busca de historiadores, mas para corrigir livros, orientar pesquisas futuras e honrar a memória de uma das mais importantes figuras do Nordeste.
Como registro final e gesto de respeito à memória de Voldir, publicamos sua dedicatória enviada ao estimado jurista Dr. Fernando Montalvão, no ano de 2020:
Que este editorial sirva de reafirmação de um princípio que Jeremoabo — e o Nordeste — não podem esquecer: a história merece ser contada com rigor, coragem e responsabilidade. Porque a verdade pode tardar, mas nunca falha.
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