Publicado em 8 de novembro de 2025 por Tribuna da Internet

Lula articula alianças e pressiona as grandes economias
Pedro do Coutto
A reunião preparatória para a COP30, em Belém do Pará, recolocou o Brasil no centro das negociações climáticas internacionais. Ao propor a criação de um fundo florestal global, o presidente Lula da Silva buscou não apenas sinalizar um compromisso com a preservação ambiental, mas também reposicionar o país como articulador capaz de mediar interesses entre o Sul Global e as potências industrializadas.
Trata-se de uma tentativa de reequilibrar a narrativa: se a Amazônia é vista como pulmão do mundo, a responsabilidade pela sua preservação deve ser coletiva — especialmente entre aqueles historicamente responsáveis pela maior parte das emissões globais.
CONTRIBUIÇÃO – O aporte inicial de recursos ilustra esse desafio. Embora o Brasil tenha anunciado sua contribuição de US$ 1 bilhão, o maior valor veio da Noruega, cerca de US$ 2,9 bilhões, continuidade de uma política norueguesa de financiamento climático que já se estende há mais de uma década e que se insere em sua própria vulnerabilidade às mudanças climáticas — sobretudo o derretimento das calotas polares e o impacto sobre sua infraestrutura costeira.
França, Indonésia, Holanda e Portugal também aderiram ao fundo, com valores distintos e, em alguns casos, modestos diante da escala do problema. A lista reforça que há vontade política em parte da comunidade internacional, mas ainda insuficiente em termos financeiros para transformar intenção em capacidade de ação.
A ausência dos Estados Unidos na reunião — e a sinalização de que o país pode manter uma posição lateral na COP30 — expõe um impasse que há anos trava a governança climática global. Mesmo com avanços recentes na legislação ambiental interna, como o Inflation Reduction Act, os EUA continuam entre os maiores emissores históricos de CO₂ e têm responsabilidade central na transição energética mundial.
REDUÇÃO DE EMISSÕES – A China, por sua vez, mantém forte dependência do carvão, ainda que seja líder global em energia solar e eólica. Ambas as potências possuem capacidade financeira e tecnológica para acelerar a redução de emissões, mas preferem negociar em termos geopolíticos — e não climáticos. Sem elas, nenhum plano global será realmente global.
O fundo apresentado por Lula representa um passo importante porque sugere uma inflexão: o debate sobre clima precisa sair da ordem moral — “quem deve fazer mais” — para entrar na ordem pragmática — “quem está disposto a agir agora”. Como observam organizações como o Instituto Clima e Sociedade e o Greenpeace, o verdadeiro teste não está na criação de um mecanismo financeiro, mas na sua continuidade, transparência e operacionalização.
Quantos hectares serão efetivamente preservados? Como os recursos serão distribuídos entre comunidades tradicionais, fiscalização territorial e projetos de desenvolvimento sustentável? Quais serão os mecanismos de controle para impedir que o fundo se transforme em retórica vazia ou moeda diplomática? Esse é o ponto nevrálgico: no papel, o planeta já foi salvo inúmeras vezes. O desafio é converter compromissos em políticas permanentes e monitoráveis.
LIDERANÇA – O Brasil tem condições estratégicas para liderar esse processo. Detém a maior floresta tropical do mundo, experiência acumulada de redução de desmatamento (como o que ocorreu entre 2005 e 2012) e uma matriz energética relativamente limpa. Mas nenhum protagonismo é sustentável sem estabilidade política interna, fiscalização efetiva e pactos federativos consistentes. Também será preciso enfrentar interesses econômicos que lucram com desmatamento ilegal, mineração predatória e grilagem de terras públicas — setores historicamente protegidos por redes de poder.
Ao sair da reunião de Belém com um fundo anunciado, mas ainda pequeno, Lula marca ponto simbólico: recoloca o tema na agenda, articula alianças e pressiona as grandes economias. Mas a ambição só se consolidará quando o debate migrar da diplomacia para a implementação.