Publicado em 9 de novembro de 2025 por Tribuna da Internet

Castro tenta que CV seja considerado organização terrorista
Caio Sartori,
Vera Araújo e
Eliane Oliveira
O Globo
Depois do tarifaço dos Estados Unidos, considerado tiro no pé do bolsonarismo que ajudou a reabilitar a popularidade do governo Lula, parte da direita brasileira tenta agora uma adesão de Donald Trump à pauta da segurança pública, após megaoperação da polícia fluminense que resultou em 121 mortes.
O movimento para “virar a página” do desgaste anterior inclui sinalizações públicas da família Bolsonaro e a busca do governo Cláudio Castro (PL) para que o Comando Vermelho seja considerado uma organização terrorista pelos americanos. A equiparação das facções a terrorismo vem sendo a principal bandeira da oposição, embora especialistas apontem riscos como inibir investimentos, expôr vítimas a sanções, além de brechas para intervenção estrangeira no país, ideia refutada pela maioria da população segundo a última pesquisa Genial/Quaest.
APOIO – A principal sinalização por parte dos americanos até agora se deu na última quarta-feira, com comunicado assinado por James Sparks, da Divisão Antidrogas dos Estados Unidos (DEA), endereçado ao secretário de Segurança do Rio, Victor Santos. No texto, o representante do governo Trump lamenta a morte dos quatro policiais na operação nos complexos da Penha e do Alemão e oferece às autoridades brasileiras “qualquer apoio que se faça necessário”.
A mensagem foi explorada politicamente por nomes da direita, como o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que disse que o país vive “uma guerra do bem contra o mal”, enquanto Lula “se posiciona em defesa de bandidos”.
No Itamaraty, a carta foi vista como “protocolar”. Diplomatas ressaltam que o documento não partiu de instâncias de alto nível do governo americano, mas de um agente da DEA lotado no consulado-geral dos EUA no Rio. A avaliação é de que se trata de uma manifestação sem caráter político. Mesmo a embaixada dos EUA em Brasília manteve silêncio sobre o episódio, o que, na avaliação de integrantes do governo brasileiro, reforça o entendimento de que o caso não tem peso diplomático e que as tensões recentes entre os dois países arrefeceram.
VIRADA NO DISCURSO – Na família Bolsonaro, o teor das publicações nas redes sociais evidencia a tentativa de deixar para trás a defesa de sanções contra o Brasil e se associar ao combate ao tráfico de drogas promovido pelo governo Trump. Nos últimos meses, o americano fez ameaças e bombardeios a barcos no Caribe, perto da Venezuela e da Colômbia, sob a justificativa de combater “narcoterroristas” — o termo tem sido usado por Castro e demais governadores da direita para se referir aos mortos na operação.
Documento do governo do Rio ao americano encaminhado em maio, a que O Globo teve acesso, justifica o pedido para classificar o Comando Vermelho como terrorista citando a “crescente sofisticação, transnacionalidade e brutalidade” como critérios para a imposição de sanções econômicas e bloqueios de ativos. Ao serem incluídos na relação da OFAC — agência do Departamento do Tesouro responsável por impor punições —, integrantes e empresas ligadas às organizações criminosas passam a ter o acesso restrito aos sistemas bancários internacionais que operam em dólar, por exemplo.
Segundo Victor Santos, o objetivo é buscar alinhar a atuação brasileira às políticas contraterrorismo global, mais cooperação e facilitar extradição de membros de facções. Para o governo brasileiro, tal classificação não se aplicaria à facção, além de representar uma ameaça à soberania nacional.
EQUIPARAÇÃO – Projeto em tramitação na Câmara também busca a equiparação, ampliando o tempo de prisão, além de transferir a apuração de crimes para a esfera federal. Como mostrou O Globo, na quinta-feira, a iniciativa tem o potencial de abrir brechas para sanções econômicas ao Brasil ou ações americanas mais invasivas sob o pretexto de guerra ao terror. Pesquisadores da área apontam ainda para o risco de afastar investimentos, já que multinacionais e instituições financeiras costumam adotar parâmetros mais restritos de atuação em locais onde há a presença de grupos terroristas.
Outro efeito colateral seria deixar ainda mais vulneráveis pessoas que são vítimas da atuação do tráfico. Isso porque o pagamento da chamada “taxa de proteção”, método de extorsão de grupos criminosos em áreas sob seu domínio — poderia ser enquadrada como “financiamento ao terrorismo”, o que coloca indivíduos e empresas na mira de sanções de países como os Estados Unidos.
ALINHAMENTO – Antes mesmo da operação no Rio, a mais letal da história do país, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou ter “inveja” do que os Estados Unidos estão fazendo na região do Caribe. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro compartilhou uma publicação do secretário de Defesa de Trump, Pete Hegseth, e o convidou para aplicar no Brasil o mesmo método de bombardeio que colocou Venezuela e Colômbia no alvo.
“Ouvi dizer que há barcos como esse aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”, publicou Flávio.
Na pesquisa Genial/Quaest realizada no Rio após a operação, uma pergunta mostra como a população, que já rejeitava outros tipos de ação dos EUA no país, repele também a ideia de contar com eles para combater o tráfico. Perguntados sobre a sugestão de Flávio, 62% a rechaçam, contra 36% que a encaram de forma positiva. Em outros levantamentos do instituto, feitos em todo o território nacional, os brasileiros criticam as tarifas impostas ao país e o fato de Trump associá-las ao julgamento de Bolsonaro no caso da trama golpista.
COMPARAÇÃO – Já Eduardo postou mais de uma vez sobre segurança nos últimos dias. Em uma das publicações, comparou a carta americana enviada ao secretário de Segurança do Rio ao que chamou de “defesa dos bandidos” por parte do presidente brasileiro. Em outro post, afirmou que os EUA vão “comprar a briga” contra os “narcoterroristas” no Brasil. “Gov. Donald Trump não brinca quando o assunto é narcoterroristas — (Nicolás) Maduro e (Gustavo) Petro que o digam!”, escreveu. “Lula se posicionou ao lado dos narcos e EUA vai comprar esta briga.”
O apelo dos Bolsonaro é lido na própria direita como uma forma de tentar pautar o debate novamente. Antes da operação no Rio entregar para os governadores de oposição a Lula uma bandeira que não depende do ex-presidente para mobilizar eleitores, o campo político estava pouco unificado e se sentia obrigado a abraçar pautas impopulares, mas que são caras a Bolsonaro, sobretudo a anistia.