
Terrorismo é um projeto político, crime organizado é uma indústria
Marcelo Copelli
Revista Fórum
A aposta deliberada de setores da direita brasileira de enquadrar o crime organizado como “terrorismo” não é um mero gesto retórico para endurecer o vocabulário da segurança pública ou demonstrar mão firme diante do medo coletivo. Trata-se de um movimento estratégico que atua em duas frentes simultâneas: reorganizar o debate político doméstico sob o eixo da exceção permanente e reposicionar o Brasil na rota da geopolítica militar norte-americana.
É preciso afirmar com clareza algo que se tenta deliberadamente distorcer: terrorismo e crime organizado não pertencem à mesma matriz de ação. O terrorismo, em sua definição central, é um projeto político — busca transformar regimes, instituições, modos de vida. O crime organizado, ao contrário, é uma indústria.
DISTORÇÃO – Seu objetivo não é derrubar o Estado, mas negociá-lo, capturá-lo, infiltrá-lo, suborná-lo ou contorná-lo para manter mercados altamente lucrativos em funcionamento. Confundir essas naturezas é mais do que um erro conceitual — é um convite à adoção de instrumentos de exceção que enfraquecem o próprio Estado democrático que se pretende salvar.
A confusão, portanto, não é desatenção: é método. Quando se declara guerra, suspende-se a política. E quando a política é suspensa, quem ganha é quem está armado — seja o Estado, seja o crime. A categoria “narcoterrorismo” não aparece aqui como diagnóstico, mas como senha diplomática: um código que permite solicitar, justificar e legitimar cooperação militar externa sob o argumento de uma guerra transnacional inevitável.
A operação é sofisticada na linguagem e rudimentar nas consequências. Ao deslocar o campo semântico — de economia criminal para ameaça existencial — altera-se também o regime de decisão: sai a política pública, entra a lógica de mobilização militar. A promessa é ação imediata e resolutiva. A história mostra o contrário.
EVIDÊNCIAS – A América Latina acumula décadas de evidências amargas. A militarização da Colômbia, sob tutela norte-americana, reduziu grupos armados, mas consolidou deslocamentos massivos, massacres e uma economia de guerra autoperpetuada. No México, a estratégia resultou em mais de 400 mil mortos, desaparecimentos em larga escala e fragmentação territorial. O narcotráfico não desapareceu; apenas se dispersou, tornou-se mais violento e se enraizou ainda mais na engrenagem estatal.
No Brasil, os efeitos tenderiam a ser ainda mais corrosivos. Aqui, o crime organizado se estrutura a partir da ausência e da cumplicidade do próprio Estado: ocupa territórios onde ele se retirou, governa prisões transformadas em centrais de comando, alimenta-se de desigualdades históricas e infiltra-se em instituições eletivas, forças policiais e segmentos do Judiciário. Declarar esse fenômeno como terrorismo não o enfrenta — apenas retira a política do centro da solução.
Por que, então, esse discurso avança? Porque ele rende politicamente. O medo mobiliza. A figura do inimigo interno é simples de explicar, fácil de replicar e altamente eficaz no curto prazo. Permite anunciar medidas espetaculares enquanto se esconde o essencial: reformar prisões, reconstruir presença pública em territórios vulneráveis, desmantelar cadeias de corrupção, reorganizar prioridades orçamentárias e desenvolver inteligência financeira de longo prazo.
BASES TEMPORÁRIAS – Há também o cálculo externo. Uma vez que o Brasil reconheça estar combatendo “terrorismo”, abrem-se portas para bases temporárias, operações conjuntas, compartilhamento de comando e protocolos de intervenção. O nome histórico disso não é cooperação. É tutela.
Estamos, portanto, diante de uma encruzilhada estratégica. De um lado, o atalho: militarizar favelas, internacionalizar decisões de segurança e delegar ao uso da força a tarefa que é, na origem, social e institucional.
Do outro, o caminho mais difícil — porém o único capaz de sustentar mudanças reais: reconstruir capacidade de governo onde ela foi perdida, reintegrar o Estado aos territórios, reformar o sistema prisional, cortar fluxos financeiros ilícitos e articular políticas de prevenção acima do calendário eleitoral.
FRAGILIDADE – A retórica do “narcoterrorismo” promete eficiência. O que ela entrega é fragilidade. A violência exercida como exceção tende a se tornar regra — e regimes governados pela exceção não são regimes governáveis.
O Brasil não precisa declarar guerra para enfrentar o crime. Precisa, simplesmente, governar onde não governa. Porque onde o Estado renuncia, alguém ocupa. E quando a política abdica, a violência legisla.