quarta-feira, novembro 05, 2025

A decisão do Banco Central e a urgência de frear as finanças do crime organizado

Publicado em 5 de novembro de 2025 por Tribuna da Internet

Novas normas obrigam encerramento de contas irregulares

Pedro do Coutto

Por muito tempo, o sistema financeiro brasileiro conviveu com uma contradição silenciosa: ao mesmo tempo em que avançava em modernização, digitalização e inclusão bancária por meio das fintechs, deixava brechas profundas que permitiam o uso de contas sem titular definido — as chamadas contas bolsão.

Essas estruturas, usadas para gerenciar grandes volumes de recursos sem vínculo transparente com pessoas físicas ou jurídicas, tornaram-se terreno fértil para a lavagem de dinheiro em larga escala. A reportagem de Thais Barcelos e Bruna Lessa, publicada em O Globo, mostrou que essas contas foram amplamente utilizadas por facções criminosas, especialmente em São Paulo, para movimentar valores de origem ilícita de forma discreta e eficiente, passando abaixo dos radares tradicionais de fiscalização financeira.

DONOS INDEFINIDOS – É difícil não se surpreender: como um sistema bancário que, nos últimos anos, se tornou referência mundial em pagamentos instantâneos e verificação digital permitiu a existência de contas sem dono definido? A resposta está na intersecção entre a inovação acelerada e a insuficiência regulatória. As fintechs, ao democratizarem o acesso ao sistema financeiro, criaram modelos mais flexíveis e rápidos — o que é positivo para o consumidor —, mas também abriram brechas para operações opacas.

Não se trata de acusar o setor como um todo, mas de reconhecer que a ausência de normas claras, unificada à sofisticação do crime organizado, resultou no que especialistas em segurança financeira chamam de “zona cinzenta operacional”: um espaço onde o Estado enxerga pouco, o banco controla parcialmente e o crime se organiza sistematicamente.

CONTAS BOLSÃO – A nova resolução do Banco Central, que acaba com as contas bolsão e reforça a exigência de identificação dos titulares, é um passo importante — ainda que tardio. Não basta fechar contas: é preciso criar mecanismos permanentes de monitoramento, integração entre órgãos de controle e responsabilização das instituições que, por omissão ou negligência, contribuam para alimentar estruturas paralelas de circulação financeira.

A experiência internacional mostra que o combate à lavagem de dinheiro só é eficiente quando há coordenação entre reguladores, agências de inteligência financeira e bancos — como ocorre nos modelos do Reino Unido, da União Europeia e das redes cooperativas coordenadas pelo Financial Action Task Force (FATF).

Mas é importante ir além da dimensão técnica. O que está em jogo não é apenas impedir transações ilegais: é impedir que o crime organizado se consolide como um poder econômico capaz de moldar territórios, cooptar jovens e se infiltrar no Estado.

INFLUÊNCIA – O dinheiro ilícito não circula sozinho; ele compra influência, votos, armas, proteção e silêncio. Ao fechar uma brecha financeira, o Banco Central não apenas aperta o cerco contábil — ele restringe a capacidade de expansão de uma estrutura que disputa, na prática, o monopólio da autoridade em certas regiões do país.

A decisão chega tarde, mas chega em um momento crucial: quando a presença do crime organizado no tecido social brasileiro deixou de ser um problema de segurança pública isolado e se tornou um desafio institucional. Agora, o que se espera é continuidade, fiscalização séria e coragem política — porque, no combate ao poder econômico do crime, a pior resposta é a que chega apenas pela metade.


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