Publicado em 6 de outubro de 2025 por Tribuna da Internet

Charge do J. Bosco (jboscocartuns.blogspot.com)
Maria Hermínia Tavares
Folha
Muita coisa mudou no Brasil em pouco mais de 20 anos. Todo mundo tem opiniões fortes – mas nem sempre fundamentadas – sobre o que ocorreu aqui nas primeiras décadas do século.
Para avaliar com rigor e método como se alteraram as formas de pensar e os valores dos compatriotas entre 2002 e 2202, o cientista político Alberto Carlos Almeida replicou a sua alentada pesquisa no ano em que o PSDB perdeu o Palácio do Planalto para o PT.
TEMAS – Os resultados estão no livro recém-publicado “A cabeça dos brasileiros, vinte anos depois: o que mudou”. Além da introdução e da conclusão assinadas por Almeida, a obra contém capítulos escritos por colaboradores do projeto. Aos entrevistados se perguntou sobre temas sempre presentes na discussão pública: religião, cor e raça; respeito à lei; relações de gênero; política; liberalismo econômico e segurança pública. Destaco algumas conclusões especialmente importantes para o debate político.
Desde logo, quase todos os brasileiros continuam acreditando, como há 20 anos, que Deus guia seus passos. Hoje, como no passado, religião é uma dimensão fundamental de suas vidas.
Por outro lado, diminuiu o contingente de cidadãos aptos a se situar no espectro político. No grupo que o conseguiu, foi significativa a redução dos que se colocaram ao centro; cresceram os que se localizaram à esquerda e à direita. Os autoproclamados esquerdistas são hoje 29% da população e os direitistas 43%; os centristas minguaram de 39% para 28%.
PEQUENAS DIFERENÇAS – Entretanto, o aumento dos que se enxergam como esquerdistas ou direitistas não ampliou a distância entre eles no que diz respeito a questões substantivas. Com pequenas diferenças, uns e outros, além dos centristas, são favoráveis a que o Estado se responsabilize por serviços públicos e regule a economia; e todos são moderadamente liberais quando se trata de abrir o mercado interno a produtos estrangeiros.
No terreno político, os três grupos diferem no que respeita à liberdade de manifestação, embora todos tenham caminhado na direção de posições mais restritivas. Os brasileiros são também lenientes com o patrimonialismo e igualmente desconfiados das pessoas e das instituições – ou seja, de tudo!
Para surpresa de ninguém, a sondagem indicou que as posições punitivistas na segurança pública cresceram por toda parte. No entanto, a discriminação racial e o preconceito diminuíram nos três grupos. Só um par de questões opuseram de forma crescente esquerda e direita: a liberdade sexual e
o direito ao aborto.
POSIÇÕES POLARES – No conjunto, o estudo descreve uma quase ausência de posições polares entre pessoas que se alinham à esquerda ou à direita. Há significativa convergência em torno de posições comumente classificadas como conservadoras, apesar de avanços importantes na redução do preconceito racial, do machismo, e na aceitação da diversidade de gênero.
A radicalização alimentada por Bolsonaro e seus seguidores não parece ser explicada por mudanças significativas nas atitudes dos brasileiros: vem de cima, intencionalmente promovida por lideranças políticas de extrema-direita. Não está na cabeça dos brasileiros.