Publicado em 13 de novembro de 2022 por Tribuna da Internet
Mantega agiu sem dispor de representatividade no episódio
Pedro do Coutto
O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, no momento um dos integrantes do grupo de transição do governo, dirigiu uma correspondência à secretaria do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, e paralelamente aos governos do Chile, Colômbia e Argentina, incrivelmente pedindo o adiamento da eleição marcada para o dia 20, quando será definido o novo presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Guido Mantega dirigiu-se em nome do presidente eleito, Lula da Silva, e revelou a posição contrária do novo governo quanto à indicação de Ilan Goldfajn para o comando do BID. Foi um desastre. Ontem, sábado, no jornal das 14h, a TV Globo noticiou a rejeição do pedido pela secretária do Tesouro dos Estados Unidos e o Brasil ficou mal no episódio por uma sequência de motivos.
INTERFERÊNCIA – Primeiro é que não se encontrando ainda em exercício, o presidente Lula não deveria intervir numa questão encaminhada pelo governo Bolsonaro que ainda não acabou. Segundo lugar, pela falta de representatividade de Mantega, integrante da equipe de transição que agiu sozinho em um assunto de tão grande importância e repercussão internacional.
Também o conteúdo não justifica a proposta e muito menos a forma. São duas atitudes profundamente negativas e despropositadas. Como é possível um integrante do grupo de transição dirigir uma correspondência dessa ordem, falando sobre o interesse do presidente eleito, Lula da Silva, que só assumirá em 1º de janeiro de 20223.
Manoel Ventura, Eliane Oliveira, Janaína Figueiredo, Gabriel Shinorrarara e Bruno Góes publicam ampla matéria no O Globo deste sábado sobre o episódio, incluindo entrevista de Guido Mantega à Globo News quando disse ter recebido telefonemas de integrantes da área econômica de países da América Latina queixando-se e dizendo-se insatisfeitos com a indicação de Ilan Goldfajn.
FORA DOS LIMITES – Neste ângulo, Mantega assume verdadeiramente, ou não, uma atitude diplomática, o que não lhe compete. A cada passo dessas questões, Mantega se afasta da realidade e dos limites que ela impõe. Na Folha de S.Paulo, o episódio é focalizado em reportagem de Fábio Puppo e Ricardo Della Coletta. No Estado de S. Paulo, por Aline Bronzati e André Borges.
A contribuição negativa de Guido Mantega prosseguiu e na edição deste sábado na Folha de S. Paulo, numa entrevista a Fábio Pupo, afirmou que se não atender de forma rápida a população, Lula vai por água abaixo. O tom usado pelo ex-ministro da Fazenda não é compatível com a posição que ocupa na equipe de transferência do poder e muito menos como um meio de comunicação com o presidente eleito, Lula da Silva.
Mantega disse: “Ele não quer começar o governo com as mãos amarradas. Porque, se não, ele não vai longe. Se ele não conseguir atender rapidamente os anseios dessa população, o governo vai por água abaixo. Se ele fizer um governo medíocre vai perder a força política”.
ADVERTÊNCIA – Como se entende numa interpretação mesmo superficial do texto, o tom das frases de Mantega pode ser visto como uma advertência descabida feita por um auxiliar de equipe ao presidente vitorioso nas urnas de outubro. Dá margem para que se possa pensar que a equipe montada pela presidente do PT, Gleisi Hoffmann, não está se entendendo.
A semana que se inicia, intercalada por um feriado, obrigará Lula a se manifestar principalmente acerca do BID que negou de plano o pedido de Guido Mantega feito no seu próprio nome.