terça-feira, abril 26, 2022

WhatsApp precisa resistir à investida de Jair Bolsonaro - Editorial

 




O presidente Jair Bolsonaro afirmou que procuraria representantes do WhatsApp no Brasil para tratar do acordo firmado entre a empresa e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Tal acordo adiou o lançamento, para depois das eleições de outubro, de uma função que permite ampliar o alcance das mensagens no aplicativo. “Se ele [o WhatsApp] pode fazer um acordo com o TSE, pode fazer comigo também. Por que não?”, disse Bolsonaro. O raciocínio do presidente não tem nexo. O Executivo é parte interessada no pleito de outubro, pois Bolsonaro busca a reeleição e deveria respeitar à risca todas as regras estabelecidas para o pleito — da vedação à campanha antecipada às medidas tomadas para coibir a desinformação.

Os bolsonaristas obviamente não inventaram a disseminação de mentiras, nem detêm monopólio sobre elas, mas a memória da campanha de 2018 está fresca demais para esquecer quem mais abusou desse instrumento de manipulação. Não se ouviu crítica ao acordo do TSE com o WhatsApp vinda da oposição. É papel da Corte tomar iniciativas para garantir uma campanha tranquila e uma votação justa — e isso significa conter a enxurrada de fake news que já circula nos aplicativos de mensagem, em especial nas redes bolsonaristas. Como é mera ilusão esperar comedimento do presidente, os executivos responsáveis pelo WhatsApp no Brasil terão de resistir à pressão.

Batizado “comunidades”, o novo recurso prevê a aglutinação de grupos, multiplicando a velocidade de difusão das mensagens. A novidade, segundo a empresa, foi pensada para facilitar a comunicação em locais como escolas. Um diretor conseguiria enviar a mesma mensagem a pais de alunos de todas as classes. A empresa também estuda permitir grupos com mais participantes (hoje eles são limitados a 256). Seria o sonho de consumo das milícias propagadoras de fake news, que migraram para o Telegram justamente em virtude dos grupos ilimitados.

O WhatsApp afirma que, como forma de compensação à ampliação dos grupos, limitará os destinatários das mensagens reencaminhadas (os atuais cinco cairiam para um único a cada reencaminhamento). Seria um avanço, mas tentativas desse tipo para mitigar o estrago são cosméticas e provavelmente se revelarão inócuas. O histórico do WhatsApp no controle dos excessos é vexaminoso. Em vez de um meio de comunicação privado individual como se autodefine, o “zap” se tornou uma ferramenta de propaganda.

A implantação das “comunidades” de tamanho ilimitado antes de outubro representaria nada menos que uma afronta à democracia. Mas, ainda que seja implementada depois das eleições, como prevê o acordo com o TSE, seria problemática porque não deixaria de favorecer os propagadores de desinformação. É escandaloso que, com tudo o que já se sabe sobre o assunto, o país ainda se veja refém dos humores das gigantes digitais para combater a desinformação. Esse tipo de regulação é dever do Estado, não deve caber à iniciativa das próprias empresas.

É justamente para evitar tais armadilhas que a Câmara deveria ter aprovado a urgência para a votação do Projeto de Lei das Fake News. Em razão da rejeição — com apoio da base governista —, provavelmente não haverá tempo para sua aprovação antes das eleições. Diante da omissão do Legislativo, o Judiciário mais uma vez se vê forçado a zelar pela paz nas eleições.

O Globo

Em destaque

Mulher está engasgada com osso de galinha há cerca de 24 horas no hospital do BTN

  Mulher está engasgada com osso de galinha há cerca de 24 horas no hospital do BTN Bob Charles DRT BA 3.913 Ilustração Uma dona de casa, de...

Mais visitadas