quarta-feira, agosto 04, 2010

O vencedor do debate

Carlos Chagas

Impressionar-se com o último livro que leu acontece com muita gente, em especial os jovens. O tempo, depois, se as leituras continuam, encarrega-se de ir deixando marcas e lembranças capazes de formar um conjunto ordenado, racional e menos influenciável.

Assim deveria acontecer na campanha presidencial, diante da rotina dos candidatos, mas, pelo jeito, eles, seus assessores e até os jornalistas voltam-se para os acontecimentos de ontem como se caracterizassem definitivamente a sorte da eleição. Sejam pesquisas, declarações infelizes, denúncias, sucesso em algum comício, reuniões proveitosas ou debates, os fatos da véspera fazem as cabeças.

Vale apostar que na sexta-feira, pela manhã, muita gente estará considerando eleito o candidato que tiver se saído melhor no debate da noite de quinta-feira, na TV-Bandeirantes. Tanto faz se tiver sido Dilma ou Serra, ainda que Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio possam ter superado os demais. É bom ir com calma, não só porque outros debates virão. A continuidade da campanha é que levará o eleitor à decisão final.

Assim, parece precipitado apregoar que o vencedor do debate já ganhou a eleição, como certamente se ouvirá nas esquinas e se lerá nas colunas. Precipitação, paixões e interesses variados costumam induzir as pessoas a erro.

Tiraram o tapete

Deve o Lula estar irritado com a resposta seca e mal-educada do ministério de Relações Exteriores do Irã diante da proposta de ser enviada para o Brasil e não apedrejada em Teerã a mulher lá condenada à morte por adultério. Porque além de haver demonstrado humanidade, nosso presidente moveu mais uma peça no xadrez da política internacional. Parece que perdeu uma torre ou um bispo. Aceitar a sugestão brasileira teria sido, para os aiatolás, uma prova de boa vontade. Uma evidência de que não são assim tão radicais nem medievais.

Ao contrário, o porta-voz da chancelaria iraniana chamou o Lula de desinformado, sem conhecer suficientemente o caso envolvendo a infeliz Sakinah Ashtiani. Ora, que “caso” levaria o governo daquele país a matar uma mulher a pedradas em pleno Século XXI? Se agem dessa forma num episódio que nem geraria processo criminal no resto do mundo, como agirão quando tiverem dominado a tecnologia nuclear capaz de levá-los a possuir a bomba? Ao primeiro sinal de crise vão jogá-la em cima de alguma cidade.

Em termos de Irã, deve o Brasil fechar a janela e nem olhar mais para aquelas bandas.

Cadeia neles…

O caos nos aeroportos aconteceu agora por conta da empresa Gol, responsável por cancelar num único dia trezentos vôos marcados e pagos pelos indigitados passageiros. Para eles, intermináveis horas de espera, obrigados a dormir no chão e a receber maus-tratos de funcionários desqualificados, que nem informar sabiam.

Tem solução? Tem. Primeiro, multar a Gol e intimá-la a indenizar a multidão de prejudicados. Em seguida, cassar-lhe a concessão, levando seus proprietários à barra dos tribunais. Cadeia neles, pelo descumprimento dos contratos.

E depois? - perguntarão os cultores da prevalência do mercado e do neoliberalismo. Depois, que o poder público avoque a função de administrar o transporte aéreo, porque pior do que a iniciativa privada vem fazendo não é possível. Ou a Força Aérea Brasileira, estatal, não funciona exemplarmente, apesar da falta de recursos?

Os candidatos e os partidos

Se o PT aumentar suas bancadas no Congresso, terá sido mais pela presença do Lula do que de Dilma Rousseff na campanha. Aliás, a eleição da candidata está na razão direta da popularidade do presidente.

No reverso da medalha, se o PSDB perder deputados e senadores, a queda será debitada a José Serra. Pelo menos, é como raciocinam alguns dirigentes do partido.

Lá e cá, erros há. Porque a diminuição ou ampliação das bancadas depende muito mais da performance dos diretórios estaduais. Companheiros e tucanos votarão nacionalmente nos estados para escolher o próximo inquilino do palácio do Planalto, mas para seus representantes no Congresso, pesarão muito mais os fatores locais. Até porque, poderá acontecer a ironia: Dilma eleita e o PT menor. Ou Serra vencedor e o PSDB minguado. Sem candidato presidencial, não é por aí que o PMDB pretende continuar mandando no Legislativo?

Fonte: Tribuna da Imprensa

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