terça-feira, fevereiro 24, 2026

O mundo já devia ter entrado na fase de mais humildade e menos vaidade


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Reprodução do Arquivo Google

Luiz Felipe Pondé
Folha

Segundo o escritor americano Thomas Sowell, os pensadores estão divididos em dois tipos básicos. Há aqueles que têm uma antropologia filosófica que vê o ser humano como um ente sem limites em seus recursos cognitivos, morais e políticos, portanto, com recursos irrestritos — visão irrestrita — e outros que veem o ser humano como um ente com os mesmos recursos, mas limitados — visão restrita.

Visão irrestrita: iluministas franceses em geral, Rousseau, utilitaristas, Marx, liberais. Visão restrita: Agostinho, Pascal, Edmund Burke, Freud.

USO DA RAZÃO – Aqueles que defendem a visão irrestrita entendem que a natureza humana é capaz de se autorreformar a partir da vontade livre e do uso da razão. Ajustes políticos e cognitivos dão conta.

Aqueles que defendem a visão restrita entendem que a natureza humana não tem recursos suficientes — daí relacioná-los facilmente à afirmação da insuficiência estrutural do ser humano — para se autorreformar a partir da vontade livre e do uso da razão.

Outra forma de compreender esse conflito de visões com relação à natureza humana é compreendê-lo como um conflito entre uma visão da natureza humana passível de perfectibilidade incremental, em oposição a uma outra visão segundo a qual a natureza humana é imperfeita estruturalmente e passível apenas de pequenas correções de percurso, precárias, incertas e improváveis.

NATUREZA HUMANA – Diria àqueles que negam a existência de um padrão de comportamento no ser humano, que se repete dadas certas condições prévias semelhantes — o que acima chamo de “natureza humana”—, que cabe a eles o ônus de negar esse padrão de respostas.

O fato é que, dadas certas condições concretas na vida, o comportamento humano decorrente se repete. Honra ferida continua gerando resposta de graus variáveis de violência. Assim como inventário, disputa pelo poder, eleições, pobreza extrema, orgulho ferido, ciúmes, medo, sexo. Não me venha dizer que um aborígene não está nem aí para um inventário — é ironia, ok?

A história parece comprovar a tese de que a natureza humana se repete no tempo. Aliás, o próprio conceito parece ser parte da nossa capacidade de entender e interpretar a própria história.

ROUSSEAU ULTRAPASSADO? – Mais Agostinho, menos Rousseau. Isso quer dizer que talvez já tenhamos saturado o ensino com a visão de ser humano do Rousseau e sua crença de que a natureza humana é boa na sua essência “natural” e que, mudando as condições políticas e sociais, a natureza humana corrompida seria restaurada ao bem inicial, pelo menos em grande parte.

A história dos séculos 19, 20 e 21, até agora, parece negar essa hipótese à exaustão. Quem persiste crendo nessa visão de Rousseau — e de Marx & cia. — prova a tese contrária: o ser humano não aprende com a experiência histórica e chafurda continuamente nas suas obsessões idealizadas. Entendeu?

E não esqueçamos de um detalhe fundamental: afirmar a bondade essencial da natureza humana, uma vez dadas as condições ideais para ela se manifestar, é falar da sua própria bondade. Por isso, a moçada do Rousseau & cia. se considera superior moralmente. Daí, Edmund Burke, no final do século 18, descrever Rousseau como o filósofo da vaidade.

VISÃO NEGATIVA – Já a posição agostiniana é mais sofrida. Reafirmar a visão agostiniana é reconhecer uma visão negativa de si mesmo. Isso é insuportável para o orgulho estruturante da natureza humana, tal como pensava o filósofo de Hipona.

E a modernidade não suporta tanta realidade. porque ela é o período histórico por excelência mais orgulhoso que a humanidade já conheceu.

Para Agostinho, herdamos uma espécie de maldição de Adão e Eva, a saber, o orgulho de querer negar nossa insuficiência e nossa dependência estrutural de Deus. Mas se deixarmos de lado sua fé cristã da época no pecado, com o que ficamos?

PECADO ORIGINAL – Posso recusar o pecado original como fato. Mas a natureza humana permanece submetida a um orgulho desmedido que a faz mentir e buscar o poder, mesmo em dimensões miseravelmente pequenas. Dominada pela cobiça, amedrontada pelo medo da morte e da dor, vocacionada à inveja, ela possui uma frágil racionalidade que luta para não ser engolfada por este abismo de paixões negativas.

A condição humana é atroz. Mas, a verdade é que a visão irrestrita — de Rousseau, Marx & cia.— é um excelente negócio, como sempre foi quando vendemos vaidade. Dizer que somos ótimos cai bem, não?

Mais Agostinho e menos Rousseau, isso não implica em discurso destrutivo do ser humano, como pensa nossa vã filosofia progressista. Implica, apenas, em mais humildade e menos vaidade.


TSE, indicações políticas e o mito da “tensão jurídica” contra Lula


Pedro do Coutto

A recente leitura de que o Tribunal Superior Eleitoral ampliaria uma suposta “tensão jurídica” para o presidente Lula nas eleições deste ano, por estar sob comando de ministros indicados por Jair Bolsonaro, parece mais uma construção narrativa do que um diagnóstico institucional consistente.

A premissa parte de um raciocínio simplificado: a origem da indicação definiria o comportamento do magistrado. Na prática, a história do Judiciário brasileiro mostra exatamente o contrário. Ministros de cortes superiores, uma vez empossados, passam a responder muito mais à lógica da instituição, à preservação da própria biografia e ao escrutínio público do que a qualquer vínculo pretérito com quem os nomeou.

CONTROLE POLÍTICO – O Tribunal Superior Eleitoral, por sua própria configuração, dilui qualquer possibilidade de controle político direto. Trata-se de uma corte de composição híbrida, com membros do Supremo, do STJ e juristas, cujos mandatos são temporários e sujeitos a intensa vigilância institucional e social.

Em um ambiente de alta polarização, a última coisa que um ministro deseja é ser visto como extensão de um projeto político específico. Isso valeria, com ainda mais razão, para indicados associados a Jair Bolsonaro, cuja relação conflituosa com o sistema eleitoral marcou os últimos anos. O incentivo, portanto, é de distanciamento, não de alinhamento.

“TENSÃO JURÍDICA” – Além disso, a tese de “tensão jurídica” pressupõe a existência de fatos concretos capazes de atingir a candidatura de Lula. E é justamente aí que o argumento perde sustentação. Quais seriam, objetivamente, os elementos jurídicos capazes de comprometer sua elegibilidade ou alterar o equilíbrio da disputa?

Até o momento, não há decisões judiciais estruturais, condenações eleitorais relevantes ou irregularidades comprovadas que indiquem risco efetivo nesse sentido. A Justiça Eleitoral atua sobre condutas específicas — propaganda irregular, abuso de poder, financiamento ilícito — e não sobre hipóteses abstratas ou disputas políticas travestidas de controvérsia jurídica.

POSTURA – Outro aspecto ignorado nessa leitura é que ministros indicados por governos anteriores costumam adotar postura ainda mais cautelosa para evitar qualquer associação automática. A independência judicial não é apenas um valor constitucional; é um ativo reputacional.

Vincular-se a um ex-presidente em plena arena eleitoral significaria comprometer a imagem de imparcialidade e alimentar questionamentos sobre a legitimidade das decisões da corte. Em um tribunal que depende da confiança pública para arbitrar eleições polarizadas, esse custo seria alto demais.

LIMITES – A judicialização da política é uma realidade brasileira, mas não se deve confundir a aplicação geral das regras eleitorais com um suposto direcionamento contra um candidato específico. O TSE impõe limites e parâmetros que valem para todos os competidores, inclusive para o próprio campo bolsonarista. Reduzir essa atuação a uma ameaça particular a Lula é ignorar que o tribunal opera sob um sistema de precedentes, colegialidade e controle público permanente.

No fundo, a narrativa de que a presença de indicados de Bolsonaro no comando do TSE elevaria a pressão jurídica sobre Lula revela mais sobre o clima político do que sobre a realidade institucional. Ela antecipa conflitos, projeta desconfianças e alimenta a polarização antes mesmo de existirem fatos concretos que justifiquem tal apreensão. A dinâmica eleitoral brasileira seguirá sendo definida muito mais pelo comportamento das campanhas e pela observância das regras do jogo do que pela biografia de quem ocupa, circunstancialmente, a presidência da corte eleitoral.

Mendonça tenta evitar que o Planalto se intrometa na investigação do Master


Regulação das redes no STF: Mendonça retoma voto após defender “democracia  digital”

André Mendonça tomou uma decisão muito corajosa

Valdo Cruz
g1 e GloboNews

O ministro André Mendonça está dando um novo ritmo às investigações do Supremo no inquérito do banco Master, no que tem sido elogiado pela Polícia Federal (PF). Nesta segunda-feira (23), ele fez uma delicada e estratégica reunião com os delegados responsáveis pelo caso para definir os próximos passos, como as novas diligências.

Por outro lado, a cúpula da PF não gostou nem um pouco da recente decisão de Mendonça, quando proibiu os delegados do caso de compartilharem com seus superiores hierárquicos as novas informações que foram obtendo no inquérito do Master

DIRETOR ALIJADO – Até aqui, apesar dos atritos públicos com o ministro Dias Toffoli, o diretor-geral da PF, Andrei Passos Rodrigues, vinha acompanhando de perto as investigações.

A partir de agora, ele teria poder apenas administrativo sobre o caso, não podendo acessar a investigação. Segundo um investigador, é como se o STF proibisse o presidente da República de comandar seus ministros.

André Mendonça adotou modelo semelhante no inquérito do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Ele decidiu restringir o compartilhamento de dados da investigação depois de circularem informações dentro do governo do presidente Lula da Silva (PT) sobre descobertas em relação às fraudes contra aposentados e pensionistas. Por suspeitar de vazamento de informações, o relator decidiu proibir que os delegados compartilhem dados do inquérito com seus superiores, o que inclui o diretor-geral da PF.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Uma decisão corajosa, necessária e histórica de André Mendonça. Em tradução simultânea, o ministro do Supremo está usando seus superpoderes para evitar que o presidente Lula siga tentando blindar Toffoli e outros envolvidos com o banco Master, como já vem fazendo na CPI do INSS, manobrando os parlamentares da base aliada para que  ajudem a blindar o filho Lulinha e o irmão Frei Chico, que estão envolvidos na exploração de aposentados e pensionistas, uma especialidade criada pelo PT quando Paulo Bernardo era ministro do Planejamento e marido de Gleisi Hoffmann. Por causa do escândalo, ele perdeu o ministério, o mandato de deputado e a mulher. Mas isso é outra história, que depois a gente conta, enquanto o circo do PT ameaça pegar fogo em pleno ano eleitoral. (C.N.)

Flávio Bolsonaro quer controlar o governador do Rio e ameaça apoiar a cassação dele


Valdemar Costa Neto desafia Gilberto Kassab e descarta terceira via em 2026


Valdemar diz que eleição será entre Flávio e Lula

Bruno Ribeiro
Folha

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, criticou Gilberto Kassab, presidente do PSD, em um jantar na noite desta segunda-feira (23), com empresários na região da Faria Lima, em São Paulo, e disse duvidar que o colega consiga lançar à Presidência algum dos três pré-candidatos da sigla.

“Não há possibilidade de ter dois candidatos no segundo turno que não sejam [o presidente] Lula [do PT] e o [senador] Flávio Bolsonaro [PL]”, disse Valdemar, ao lado do presidente do União Brasil, Antônio Rueda, no evento, promovido pelo grupo Esfera. “O ideal seria que nós nos uníssemos no primeiro turno para a gente poder matar esse assunto no primeiro turno”, acrescentou.

ELEITORADO – Valdemar disse que a possibilidade de o ex-juiz Sergio Moro (União Brasil) sair bem colocado na disputa pelo governo do Paraná impossibilitará que um dos candidatos do PSD, o governador Ratinho Jr, se lance à Presidência, uma vez que seu grupo político poderia sair derrotado no estado. Também afirmou que o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, não teria eleitorado forte fora de seu estado. Ele não citou o terceiro pré-candidato da sigla, Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul. “Acho que vão ter muita, muita dificuldade de lançar candidato pelo PSD”, disse o presidente do PL.

Valdemar afirmou também aos empresários presentes que Kassab errou, em 2022, ao não se lançar como vice de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o Governo de São Paulo. “Olha o erro que ele [Kassab] cometeu, pois não colocou o nome dele como vice [de Tarcísio] porque ele queria apoiar o Tarcísio para trabalhar contra o Rodrigo Garcia. E aí ele não pôs o nome dele de vice e, hoje, ele [Kassab] dá a vida para ser vice dele [Tarcísio]”, disse.

Após o evento, em entrevista a jornalistas, Valdemar disse ainda avaliar ser possível que Kassab apoie Lula em um eventual segundo turno contra Flávio. “É lógico [que é possível]. Eles têm três ministérios”, afirmou, referindo-se ao PSD.

DESGASTE – A avaliação entre políticos de São Paulo é que a relação entre Kassab e Tarcísio se desgastou diante da insistência do presidente do PSD em manter o cargo de vice na chapa de reeleição do governador, enquanto atuava para ampliar o número de políticos de seu partido e articular uma candidatura presidencial.

Valdemar, ainda durante entrevista aos jornalistas após o evento, defendeu que o posto de vice seja ocupado pelo PL, uma vez que a legenda tem maior bancada na Assembleia Legislativa. “Na outra eleição, eu cedi para o Kassab, que a vice era nossa, e agora é a nossa vez, que a gente tem a maior bancada. Agora, quem decide é ele [Kassab]”, disse.

Na semana passada, vieram à tona informações de que o vice-governador, Felício Ramuth (PSD), teve US$ 1,6 milhão bloqueado pela Justiça de Andorra sob suspeita de lavagem de dinheiro. O vice-governador nega ter cometido ilícitos e disse que o dinheiro no exterior havia sido declarado à Receita Federal. Valdemar disse lamentar a divulgação das informações e afirmou que elas podem enfraquecer a tentativa de Ramuth de se manter na chapa.

INVESTIDAS – Durante o evento, Valdemar também minimizou as investidas jurídicas da oposição por propaganda eleitoral antecipada, decorrentes do desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, do Rio de Janeiro, que homenageou o presidente Lula.

“Isso [elogiar o presidente] é um direito deles, e o processo aí é um processo absurdo, porque só dá multa”, disse. Valdemar, contudo, afirmou aos presentes que seu partido havia feito uma pesquisa interna, não registrada, após o Carnaval, no estado de São Paulo, que mostrou que o presidente teria perdido votos com o desfile.


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