sexta-feira, fevereiro 13, 2026

No fio da legitimidade, o Supremo depende do conteúdo do celular de Vorcaro


Caso Master leva Toffoli ao centro da crise

Marcelo Copelli
Revista Fórum

O Supremo Tribunal Federal entrou em uma zona de desconforto institucional que não pode ser tratada como detalhe. O Caso Master, iniciado como investigação sobre a liquidação de um banco, passou a envolver diretamente o ministro Dias Toffoli, após a Polícia Federal identificar menções ao seu nome em mensagens extraídas do celular do controlador da instituição, Daniel Vorcaro. A partir daí, o que era um processo financeiro tornou-se um teste de credibilidade para a mais alta Corte do país.

Os fatos conhecidos são objetivos. A empresa da qual Toffoli é sócio — a Maridt Participações — recebeu valores decorrentes da venda de participação no resort Tayayá, no Paraná, operação que envolveu fundos ligados ao grupo empresarial de Vorcaro.

O ministro confirmou a transação e afirmou que os valores foram recebidos de forma regular, negando qualquer favorecimento ou vínculo que comprometesse sua atuação. No plano formal, a operação foi apresentada como legítima. No plano político, porém, a coincidência entre a transação empresarial e a relatoria do caso abriu um campo inevitável de questionamentos.

RELAÇÕES EMPRESARIAIS – A tensão não reside na existência da venda, mas na sobreposição entre relações empresariais e função jurisdicional. Em democracias constitucionais maduras, imparcialidade não se resume à ausência de ilegalidade.

Exige também distância inequívoca de qualquer circunstância que possa comprometer a aparência de neutralidade. Quando o nome do ministro surge em comunicações apreendidas de um investigado — ainda que em contexto negocial — a discussão sobre eventual suspeição deixa o terreno abstrato e passa ao centro do debate institucional.

O impacto extrapolou o Supremo quase imediatamente. Em Brasília, o avanço das investigações passou a ser acompanhado com atenção redobrada por setores políticos que mantiveram interlocução institucional com o Banco Master antes de sua liquidação.

LIGAÇÕES PERIGOSAS – A instituição operava com entes públicos e mantinha relações com bancos regionais, inserindo seu controlador em ambientes de influência relevantes.

No Distrito Federal, operações envolvendo o Banco Master e o BRB, banco estatal vinculado ao governo local, acrescentaram sensibilidade ao cenário. O governador Ibaneis Rocha, cuja administração mantém relação institucional com o banco regional, observa o desdobramento dos fatos sob pressão ampliada.

Não há, até o momento, imputação formal contra o governador no âmbito do inquérito. Ainda assim, a possibilidade de que a análise de dados telemáticos amplie o mapa de conexões institucionais já é suficiente para tensionar o ambiente político.

REDES DE CONTATO  – Entre as lideranças do Centrão, a leitura é pragmática. O bloco consolidou influência a partir de presença estratégica em estruturas administrativas, instituições financeiras públicas e articulações parlamentares. Investigações que tangenciam agentes com trânsito político raramente permanecem circunscritas ao ponto de origem. A experiência recente mostra que a exposição de comunicações digitais tende a revelar redes de contato que, mesmo quando institucionais, tornam-se politicamente sensíveis sob escrutínio público.

Nesse contexto, o Caso Master deixa de ser apenas um inquérito financeiro e passa a representar um foco potencial de instabilidade. A previsibilidade institucional é elemento central para a sustentação das coalizões no Congresso. Qualquer tensão envolvendo o Supremo — sobretudo quando cruza interesses do sistema financeiro e atores políticos — repercute imediatamente na arena legislativa.

Para o STF, contudo, o desafio é mais profundo. A Corte não enfrenta apenas uma questão processual, mas uma decisão de natureza simbólica. A permanência de Toffoli na relatoria poderia encontrar amparo nas regras formais. A discussão sobre o seu afastamento, entretanto, transcende a literalidade da norma. Ela alcança o campo mais sensível das instituições: a confiança pública.

ISENÇÃO – A autoridade de uma Corte constitucional não se sustenta apenas na validade técnica de seus atos, mas na convicção coletiva de que seus julgadores atuam sem qualquer sombra capaz de comprometer sua isenção. Em momentos críticos, instituições sólidas costumam optar por medidas que preservem sua integridade estrutural, mesmo quando a estrita legalidade não as impõe.

É nesse ponto que o afastamento de Tofffli deixa de ser percebido como gesto individual e passa a assumir natureza institucional. O instituto da suspeição não existe apenas para sancionar desvios, mas para resguardar a autoridade do julgamento. Quando circunstâncias externas produzem questionamentos consistentes — mesmo que não configurem irregularidade — o afastamento pode funcionar como instrumento de proteção da própria decisão futura.

A manutenção da relatoria prolongava o debate sobre isenção. O afastamento, por sua vez, não encerra a controvérsia no plano simbólico nem reforça a autoridade do desfecho que vier a ser proferido.

DIVISOR – O Caso Master tornou-se, assim, um divisor. Ele mede não apenas a capacidade investigativa do Estado, mas a maturidade institucional do Supremo. A Corte não está apenas julgando um processo. Está sendo avaliada quanto à sua habilidade de preservar a própria credibilidade em meio à turbulência.

Em um ambiente de polarização estrutural, não basta estar juridicamente correto. É necessário estar institucionalmente incontestável. A história das cortes constitucionais demonstra que momentos críticos não são lembrados pela minúcia técnica das decisões, mas pelo grau de prudência adotado diante da crise.

A questão que se impõe é objetiva. A resposta define se o Supremo atravessará este episódio apenas formalmente intacto — ou historicamente fortalecido. E, em tempos de tensão institucional, essa diferença não é detalhe. É destino.


Ministros do STF acreditam que foram gravados por Toffoli em sessão secreta

 

Ministros do STF acreditam que foram gravados por Toffoli em sessão secreta

Por Mônica Bergamo/Folhapress

13/02/2026 às 14:30

Foto: Rosinei Coutinho/Arquivo/STF

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Plenário do STF

Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) acreditam que foram gravados clandestinamente por Dias Toffoli na sessão secreta que, na quinta (12), decidiu pela saída dele da relatoria do processo do Banco Master.

Os diálogos vieram à tona em reportagem do site Poder360. O texto reproduz as palavras dos ministros de forma literal e precisa.

Magistrados já enviaram inclusive a reportagem a Toffoli mostrando que a gravação ocorreu.

O magistrado negou à coluna ter feito qualquer registro. "Não gravei e não relatei nada para ninguém", afirma ele.

Magistrados afirmaram à coluna que a situação é de perplexidade e desconforto.

A reportagem começa dizendo que a reunião "teve um forte tom político e uma busca de autopreservação por parte de todos os ministros".

Diz ainda que muitos magistrados apoiavam Toffoli.

E publica falas literais dos ministros.

Gilmar Mendes, por exemplo, disse na reunião, segundo a reportagem: "Eu acho que o que está por trás disso é que o ministro Toffoli tomou algumas decisões ao longo do seu tempo nesse caso Master aqui no STF que contrariaram a Polícia Federal. E a Polícia Federal quis revidar".

Em seguida, coloca uma fala de Cármen Lúcia que mostraria que ela estava na reunião com a intenção de sacrificar Toffoli para recuperar a imagem do STF. A fala é a seguinte: "Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo". Disse ainda que, apesar de ter "confiança" em Toffoli, era necessário "pensar na institucionalidade".

Luiz Fux, de acordo com a reportagem, disse: "O ministro Toffoli para mim tem fé pública. Meu voto é a favor dele. Acabou. Eu não sei o que vocês estão discutindo".

Moraes não teve falas literais publicadas, mas aparece como um duro crítico da Polícia Federal, que entregou ao presidente da Corte, Edson Fachin, o relatório que culminou na saída de Toffoli do cargo.

Nunes Marques aparece dizendo: "Para mim, isso é um nada jurídico". Em seguida, critica Fachin por querer votar a suspeição de Toffoli. Sua frase, publicada de forma literal, é a seguinte: "Isso é um absurdo: o juiz lá da comarca do interior passará a ser comandado pelo delegado local se aceitarmos esse tipo de situação. Acabou o Poder Judiciário do Brasil. O sr. [Fachin] não pode colocar em votação a arguição. Minha sugestão é que o ministro relator do processo faça uma proposição dizendo que não é impedido nem suspeito e coloque os argumentos dele diante do que foi apresentado e a gente vota. E pelo que vi aqui, ele vai ter maioria. O ideal seria unanimidade, presidente. Mas estou falando mais sobre encaminhamento, pois do mérito eu não tenho dúvida".

André Mendonça aparece afirmando: "Tem uma questão sobre o que é descrito como relação íntima do ministro Toffoli". Em seguida: "Isso não existe. Está aqui claro que não existe: relação íntima em 6 anos só com 6 minutos de conversa? Como disse o ministro Fux, a palavra do ministro Toffoli tem fé pública. Então, isso está descartado".

O ministro Cristiano Zanin afirma: "Sou há 1 ano e meio relator de um caso que envolve 3 ministros do STJ (Superior Tribunal de Justiça) e a Polícia Federal até hoje mandou para mim muito menos informação do que essas 200 páginas, com fotos de satélite, cruzamento de celulares? Isso aqui tudo é nulo".

Flávio Dino também critica a PF: "Essas 200 páginas [de relatório da PF] para mim são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico. A crise hoje é política, presidente [Fachin]. Em 2035, se Deus me der saúde, eu quero estar nesta cadeira. E esta cadeira tem bônus e ônus. Eu acho que não adianta pensar nesta cadeira só nos bônus. Eu acho, sr. presidente, que o sr. deveria ter resolvido isso dentro da institucionalidade da presidência".

Apesar de todas essas falas, os magistrados concluíram que o melhor para o STF era o afastamento de Toffoli.

A suspeita de que ele gravou os próprios colegas tem o condão de isolar o magistrado na Corte, segundo um de seus integrantes, já que houve uma quebra de confiança.

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Ministros do STF criticam Polícia Federal por investigar Toffoli sem autorização judicial

 Brasil

Ministros do STF criticam Polícia Federal por investigar Toffoli sem autorização judicial

Corporação foi duramente questionada na reunião que selou o afastamento do magistrado do caso Master

Por Redação

13/02/2026 às 08:00

Atualizado em 13/02/2026 às 10:51

Foto: Rosinei Coutinho/STF

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Plenário do STF (Supremo Tribunal Federal)

Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) criticaram a Polícia Federal (PF) por investigar o ministro Dias Toffoli sem autorização.

O resultado da apuração foi entregue no começo da semana ao presidente da Corte, Edson Fachin, e acabou resultando, na quinta (12), na saída de Toffoli da relatoria do processo que investiga as irregularidades do Banco Master e de seu dono, Daniel Vorcaro.

"Não acho que isso seja aceitável, eu não gostaria disso para ninguém", disse o ministro André Mendonça, segundo relatos, na reunião em que os magistrados decidiram pela saída de Toffoli da relatoria do caso Master.

Ele foi o que verbalizou a crítica mais contundente, mas a maioria dos magistrados concordou com suas observações.

Para investigar um integrante do Supremo, a PF precisa de autorização da própria Corte.

Segundo ministros do tribunal, o relatório entregue pela corporação a Fachin deixa evidente que os indícios apresentados pela PF contra Toffoli não foram encontrados por acaso pelos agentes.

Magistrados entendem que houve, na verdade, cruzamento de dados e pesquisas inclusive em juntas comerciais.

"Não foi acidental, um encontro fortuito com indícios. Fizeram uma investigação à revelia do STF, e não poderiam fazer isso", afirma um integrante do STF à coluna.

"Não entregaram um material bruto à Corte. Toffoli foi efetivamente investigado", segue o mesmo ministro.

Defensores do trabalho da corporação divergem dessa conclusão. Afirmam que os policiais seguiram a regra e, de fato, enviaram a Fachin exclusivamente o conteúdo de mensagens do celular de Vorcaro que citavam Toffoli, sem avançar em qualquer tipo de investigação.

Apesar disso, os magistrados consideraram que a melhor decisão a tomar era a saída de Toffoli do caso, numa tentativa de estancar o desgaste pelo qual o Supremo estava passando.

A situação do magistrado se agravou depois que a Polícia Federal (PF) entregou ao presidente da Corte um relatório mostrando uma troca de mensagens entre Vorcaro, dono do Master, e seu cunhado, Fabiano Zettel, em que ambos discutem pagamentos para a empresa Maridt, que tem o ministro entre seus sócios.

Casado com Natália Vorcaro, irmã do banqueiro, Zettel chegou a ser detido pela PF. Ele funcionava como uma espécie de gerente do caixa do cunhado.

Nas mensagens, Vorcaro e Zettel citam o nome do magistrado e combinam as transferências, que seriam pagamentos pela compra de um resort que tinha a Maridt como sócia. Há menções a pagamentos recentes, feitos em 2025, ano em que o negócio foi concluído.

Toffoli declarou aos colegas que não era suspeito e que gostaria de permanecer na relatoria. Ele, no entanto, foi pressionado pelos ministros para deixar o caso.

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André Mendonça vira novo relator do caso Master após Toffoli se afastar de investigação

 

André Mendonça vira novo relator do caso Master após Toffoli se afastar de investigação

STF fez novo sorteio nesta quinta-feira após reunião com todos os ministros

Por Julia Chaib/Folhapress

13/02/2026 às 07:00

Atualizado em 13/02/2026 às 10:15

Foto: Rosinei Coutinho/STF/Arquivo

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O ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal)

O ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), foi designado o novo relator do caso Master na corte.

A decisão de designar um novo ministro para cuidar do caso foi definida em reunião com todos os magistrados nesta quinta-feira (12), em que ficou acertado que Dias Toffoli deixaria a relatoria do caso.

Mendonça foi escolhido relator por sorteio, que deixou de fora apenas o próprio Toffoli e o presidente do tribunal, Edson Fachin.

Mendonça também é responsável por outro inquérito de grande repercussão e com impactos políticos diretos sobre o mundo político: a investigação sobre fraudes em descontos de aposentados e pensionistas do INSS.

A saída de Toffoli ocorreu após ele tomar uma série de decisões polêmicas na condução do caso, incluindo a imposição de sigilo severo sobre provas e a revelação de ligações do magistrado com pessoas interessadas no caso, como o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master.

Empresas ligadas a parentes de Toffoli tiveram como sócio um fundo de investimentos conectado à teia usada pelo Master em fraudes. Nesta quinta, o magistrado confirmou ser sócio de firma que foi dona de resort no Paraná e vendeu cotas do negócio a um fundo ligado às investigações sobre Vorcaro.

A saída de Toffoli do caso impede que a investigação em torno do banco volte à estaca zero. Se ele fosse considerado suspeito ou impedido, todas as decisões assinadas até aqui seriam automaticamente anuladas. Os depoimentos já colhidos, a acareação entre banqueiros e os mandados de busca cumpridos não teriam mais validade.

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