terça-feira, janeiro 30, 2024

CGU diz que índice de percepção da corrupção deve ser visto com cautela

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CGU diz que índice de percepção da corrupção deve ser visto com cautela30 de janeiro de 2024 | 09:23

CGU diz que índice de percepção da corrupção deve ser visto com cautela

BRASIL

Após a divulgação do ranking IPC (Índice de Percepção da Corrupção) de 2023, no qual o Brasil caiu dez posições e ficou em 104º lugar entre 180 países, a CGU (Controladoria-Geral da União) afirmou em nota publicada nesta terça-feira (30) que os resultados de levantamentos do tipo devem ser vistos com cautela.

Segundo a CGU, estudos internacionais discutem as limitações metodológicas de índices baseados em percepção. “Diversos organismos internacionais —entre eles ONU, G20 e OCDE— têm discutido a elaboração de novas medidas sobre o tema. A corrupção é um fenômeno complexo e nenhum indicador consegue medir todos os seus aspectos”, diz trecho do comunicado.

O órgão afirma que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vem restabelecendo a estrutura dos conselhos de políticas públicas para a prevenção e o controle da corrupção e destaca que o IPC reconheceu avanços nos âmbitos do controle social, da transparência e do acesso à informação.

A CGU diz trabalhar para identificar e corrigir riscos de corrupção em políticas públicas, contratações e outras ações do Estado. “Também estamos fortalecendo a integridade dos órgãos federais e colaborando para a implementação de programas de integridade pública, fomentando a adoção de mecanismos de prevenção à corrupção por empresas e aprimorando mecanismos de detecção e sanção de corrupção.”

O IPC de 2023 foi divulgado nesta terça pela ONG Transparência Internacional. Enquanto a média mundial ficou estagnada em 43 pontos pelo 12º ano consecutivo —o índice vai de 0, que caracteriza o cenário mais corrupto, a 100, para o mais íntegro—, a pontuação brasileira caiu de 38 para 36 pontos no primeiro ano do terceiro mandato do presidente Lula.

Segundo o relatório, a responsabilidade pelo desmonte de marcos institucionais contra a corrupção que levaram décadas para ser erguidos é da gestão de Jair Bolsonaro (2019-2022). Ao mesmo tempo, porém, o governo Lula vem falhando na reconstrução de mecanismos similares.

Os fatores negativos que contribuem para o resultado envolvem o Executivo, Legislativo e Judiciário. O relatório lista entre os pontos negativos do governo Lula 3 a indicação de Cristiano Zanin, amigo pessoal do presidente, ao STF (Supremo Tribunal Federal); a manutenção, ainda que com uso limitado, das chamadas emendas do relator; e o aumento do fundo eleitoral para as eleições de 2024.

Embora o Brasil tenha caído posições no ranking, o relatório também menciona eventos que facilitaram o combate à corrupção ocorridos no Brasil no ano passado. São exemplos indicações para postos-chaves na Polícia Federal baseados em competências técnicas e a aprovação da reforma tributária, cuja simplificação pode dificultar práticas corruptas.

FolhapressPolítica Livre

PF mira ‘núcleo político’ no caso Abin em nova frente contra a família Bolsonaro

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PF mira 'núcleo político' no caso Abin em nova frente contra a família Bolsonaro30 de janeiro de 2024 | 06:37


BRASIL

A Polícia Federal cumpriu nesta segunda-feira (29) mandados de busca e apreensão tendo como alvo o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos), na terceira operação da investigação sobre a chamada “Abin Paralela” no governo de Jair Bolsonaro (PL).

Agentes da PF vasculharam endereços ligados a Carlos na cidade do Rio de Janeiro —uma casa, seu gabinete na Câmara de Vereadores e seu escritório político—, além da residência de veraneio da família, na Vila Histórica de Mambucaba, em Angra dos Reis.

Na decisão em que autorizou as buscas nesta segunda-feira, o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), relata que o objetivo da PF foi “avançar no núcleo político, identificando os principais destinatários e beneficiários das informações produzidas ilegalmente no âmbito da Abin [Agência Brasileira de Inteligência]”.

“A organização criminosa infiltrada na Abin também se valeu de métodos ilegais para a realização de ações clandestinas direcionadas contra pessoas ideologicamente qualificadas como opositoras, com objetivo de ‘obter ganho de ordem política posto que criavam narrativas para envolver autoridades públicas de extrato politico oposicionista da então situação'”, escreveu Moraes.

A ação desta segunda-feira é uma nova frente investigativa mirando a família Bolsonaro, que nos últimos anos esteve no centro de apurações envolvendo, por exemplo, a prática de “rachadinha” e a articulação de milícias digitais.

Carlos Bolsonaro, que foi o principal responsável pela estratégia de campanha online na eleição presidencial, em 2018, já tinha sido incluído em inquérito sobre disseminação de fake news, ainda durante o mandato do pai. Ele não se manifestou sobre as buscas desta segunda-feira.

A autorização para as buscas —que foram solicitadas pela PF e tiveram parecer parcialmente favorável da PGR (Procuradoria-Geral da República)— tem como base uma mensagem de 2020 em que uma assessora de Carlos pede, por meio de uma auxiliar de Alexandre Ramagem, então chefe da Abin, que levante informações sobre investigações contra o então presidente da República e seus filhos.

Na mensagem, a assessora Luciana Almeida diz: “Bom diaaaa Tudo bem? Estou precisando muito de uma ajuda”. Depois, ela envia outro texto com referência a inquéritos. “Delegada PF. Dra. Isabella Muniz Ferreira – Delegacia da PF Inquéritos Especiais Inquéritos: 73.630 / 73.637 (Envolvendo PR e 3 filhos).”

Ramagem, que é próximo da família Bolsonaro e hoje é deputado federal, foi o principal alvo da operação anterior, realizada na última quinta-feira (25). A primeira operação foi realizada em outubro passado.

De acordo com a PF, os achados indicam que a família presidencial usava Ramagem para obter informações sigilosas.

Em fevereiro de 2020, por exemplo, o então diretor da Abin teria imprimido um relatório com “informações de inquéritos eleitorais em curso na Polícia Federal que listavam políticos do Rio de Janeiro”.

Em trecho da representação citado na decisão, a PF diz que informações sigilosas impressas por Ramagem eram “possivelmente para entregar aos destinatários do núcleo político”.

“A solicitação da ‘ajuda’ se referia a investigações que envolveriam filhos do então presidente da República e deste mesmo. A autoridade representante enxerga no episódio o recurso do que chama de núcleo político do grupo do dr. Ramagem, para obtenção de informações sigilosas e/ou ações ainda não totalmente esclarecidas”, diz trecho da manifestação da PGR sobre o pedido de busca da PF.

Os policiais foram a Angra em um helicóptero da Polícia Rodoviária Federal, mas não encontraram ninguém da família Bolsonaro a princípio. O ex-presidente, Carlos e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) haviam saído de lancha para pescar, segundo aliados e a defesa do ex-presidente.

O local entrou na lista de buscas da PF após a descoberta de que Carlos estava na casa, de onde transmitiu uma live com o pai neste domingo (28), ao lado também de Eduardo Bolsonaro.

Desde março, a PF investiga a suspeita de que a gestão Bolsonaro tenha usado o software israelense FirstMile com o objetivo de espionar adversários políticos, além de a Abin ter abrigado ações de interesse privado da família presidencial.

No gabinete e no escritório político de Carlos, a PF apreendeu dez computadores, um aparelho celular e diversos documentos. Da casa na Barra da Tijuca, no mesmo condomínio em que o pai tem residência, foram levados dois computadores, dois aparelhos celulares, pendrives, uma caneta espiã e outros documentos.

Da residência da família em Mambucaba, a PF levou um aparelho celular e três laptops.

Como mostrou a coluna Mônica Bergamo, da Folha, a casa estava vazia na manhã desta segunda quando a PF chegou ao local. Bolsonaro e seus filhos haviam saído para pescar e ainda não haviam retornado.

Imagens divulgadas pela GloboNews no final da manhã mostraram Bolsonaro e seus filhos do lado de fora da casa acompanhando a saída de agentes da PF que cumpriram as buscas.

Também foram alvos da operação endereços da assessora Luciana Almeida, da ex-assessora de Alexandre Ramagem Priscila Pereira e Silva, e do militar Giancarlo Gomes Rodrigues, que foi cedido à Abin durante a gestão de Ramagem.

Na casa de Rodrigues, em Salvador, a PF encontrou um computador do patrimônio da Abin.

Bernardo Fenelon, que é advogado de associação de profissionais da Abin e disse representar a esposa de Giancarlo, afirmou, em nota, “que o computador apreendido na casa [da] servidora pública federal da ABIN era, em verdade, o seu aparelho funcional”.

A defesa afirma ainda que ela não era alvo do mandado e que a apreensão de seus bens foi ilegal.

Em live neste domingo, ao lado dos filhos Flávio, Carlos e Eduardo, Bolsonaro negou que tenha criado uma “Abin paralela” para espionar adversários. Já nesta segunda o ex-presidente disse à coluna Mônica Bergamo, da Folha, que a intenção da operação é a de “esculachar” com ele e sua família.

“A defesa entende que houve um excesso no cumprimento da busca e apreensão, ao passo que foram apreendidos objetos pessoais de cidadãos diversos do vereador Carlos Bolsonaro, apenas pelo fato de estarem no endereço em que a busca foi realizada”, diz nota assinada pelos advogados Paulo Amador da Cunha Bueno, Daniel Bettamio Tesser e Fábio Wajngarten.

Flávio e Eduardo também reagiram à operação, argumentando que a ação foi ilegal e cinematográfica.

Um assessor de Bolsonaro, Tercio Arnaud Tomaz, afirmou ter tido bens pessoais seus apreendidos indevidamente na operação.

A defesa do assessor encaminhou petição a Moraes pedindo a imediata devolução de um tablet e um laptop do seu cliente —que teriam sido levados pelos policiais mesmo havendo esclarecimento de que eles não pertenciam a Carlos, alvo da operação.

Os advogados de Tércio afirmaram, também em nota, ser “inaceitável e inconcebível que terceiros, sem absolutamente qualquer tipo de relação com os fatos apurados, tenham seus bens apreendidos com base em maldosa e indecorosa interpretação de determinada ordem judicial específica”.

Tércio Arnaud estava na residência de praia da família Bolsonaro, durante a operação.

Eduardo Bolsonaro também se manifestou sobre o assunto em suas redes sociais.

“O mandando era tão genérico que foi cogitado apreender o celular deste deputado federal e das demais pessoas que por ventura estivessem na residência”, escreveu.

A Folha procurou a assessoria da Polícia Federal na noite desta segunda, mas não houve resposta até a publicação da reportagem.

Relatórios produzidos pela agência sob Bolsonaro e o uso do software espião FirstMile estão no centro da investigação da PF.

Os investigadores afirmam que oficiais da Abin e policiais federais lotados na agência monitoraram os passos de adversários políticos de Bolsonaro e produziram relatórios de informações “por meio de ações clandestinas” sem “qualquer controle judicial ou do Ministério Público”.

O programa espião investigado pela PF tem capacidade de obter informações sobre a localização aproximada das pessoas. Ele não grava conversas ou trocas de mensagens.

Além de Carlos, os policiais também investigam suposto uso da agência para favorecer Flávio e Jair Renan.

A PF afirma que a Abin sob Ramagem também se valeu do software FirstMile para monitorar o então presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e a ex-deputada Joice Hasselmann, ambos desafetos políticos de Bolsonaro.

Fabio Serapião , Ranier Bragon , Camila Zarur e Camila Mattoso/FolhapressPolítica livre

Especialistas alertam que regulamentação da IA é necessária, mas deve ser feita com responsabilidade


Por Thiago Teixeira

Especialistas alertam que regulamentação da IA é necessária, mas deve ser feita com responsabilidade
Foto: Rawpick / Freepick

Transparência, segurança, confiabilidade, proteção da privacidade, dos dados pessoais e do direito autoral. Tudo isso deve ser abordado juntamente com o respeito à ética, aos direitos humanos e aos valores democráticos, no PL 2.338/2023 que trata da regulamentação da Inteligência Artificial (IA) no Brasil. Especialistas procurados pelo Bahia Notícias se mostraram favoráveis à regulamentação, sobretudo por conta da necessidade de trazer segurança e responsabilidade ao uso da ferramenta no Brasil.

 

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De autoria do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e relatado pelo senador Eduardo Gomes (PL-TO), o Projeto de Lei reacende um debate que começou em 2019, e ganhou força com a abertura de uma Comissão Temporária sobre Inteligência Artificial no Brasil (CTIA), na Casa, em meados do ano passado. A discussão também se estende pela Europa e Estados Unidos. Por aqui, uma das principais preocupações é para que não haja conflitos com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e para que exista também uma conformidade com a Lei das Eleições, tema já abordado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

 

A advogada especialista em Direito Digital e Privacidade de Proteção de Dados, Cristina Rios, pontua que ter uma lei específica para a Inteligência Artificial no Brasil é importante para a transparência e a responsabilidade no desenvolvimento e aplicação dos algoritmos. “Eu vejo com bons olhos a iniciativa de regulamentar a Inteligência Artificial no Brasil. Que, se for bem elaborada, pode trazer benefícios substanciais ao garantir o uso ético e responsável da tecnologia, ao mesmo tempo em que ela vai proteger os direitos individuais”, destacou a advogada.

 

No entanto, na opinião de Cristina, a regulamentação deve oferecer diretrizes éticas que assegurem a equidade e que andem lado a lado com a LGPD. “A compatibilização do projeto de lei com a Lei Geral de Proteção de Dados é uma preocupação central, considerando que ambas as legislações tratam de aspectos relacionados à privacidade e ao uso de dados pessoais. A LGPD estabelece princípios, direitos e deveres para o tratamento de informações pessoais, enquanto o projeto de lei sobre a IA busca regulamentar o uso dessa tecnologia, que muitas vezes envolve o processamento de dados pessoais. Uma das preocupações que devemos ter é garantir que as disposições da lei estejam alinhadas e não entrem em conflito com os princípios estabelecidos pela LGPD. Ambas as legislações devem coexistir de maneira a assegurar a proteção de dados e a privacidade dos indivíduos”, pontuou a especialista.

 

De maneira resumida, a IA é um campo da Ciência da Computação que se dedica ao estudo e ao desenvolvimento de máquinas e programas computacionais capazes de reproduzir o comportamento humano na tomada de decisões e na realização de tarefas, desde as mais simples até as mais complexas, a exemplo do famoso ChatGPT. Em geral, ferramentas como essa possuem uma vastidão de dados - sobre os mais diversos assuntos - que são analisados e trabalhados de maneira digital, a fim de extrair conhecimento útil à humanidade a partir de um conjunto de informações. 

 

A presidente da Comissão Especial em Inteligência Artificial da Sociedade Brasileira de Computação (SBC) e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Tatiane Nogueira, afirmou que a regulamentação é importante e não é um debate exclusivo do Brasil. “Estamos indo para uma corrida pela liderança em IA no mundo. Aquele país que tiver uma regulamentação apropriada com relação ao desenvolvimento da IA, vai sair na frente. A gente precisa ter aspectos de responsabilização, então se eu faço um sistema que usa IA para extrair conhecimento dos dados, eu posso ter, por exemplo Fake News. Se os dados são ruins, a extração vai ser ruim. A gente brinca que não existe resultado bom com dados ruins. Por isso a regulamentação é importante para responsabilizar aqueles que desenvolvem IA sem cuidado que deveriam ter”, afirmou a doutora em Inteligência Artificial.

 

A especialista destaca que a regulamentação ainda está em fase de desenvolvimento e que, por isso, ainda existem algumas questões que precisam ser bem avaliadas, uma vez que ela interfere no setor jurídico e tecnológico que, teoricamente, são distintos. “Por exemplo, se você faz um Projeto de Lei só com o aspecto jurídico, você perde um pouco do aspecto tecnológico. Se você faz uma regulamentação só com aspecto tecnológico, você perde um pouco do aspecto jurídico. Então, por isso que nesse processo a gente tem muitas comunidades, comissões e associações envolvidas para que a gente possa evitar danos futuros ocasionados pela regulamentação”, pontuou a presidente da Comissão Especial em IA da SBC.

 

Presidente do TSE Alexandre de Moraes (à esquerda da foto) ao lado do presidente do Senado Rodrigo Pacheco | Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

 

IA NAS ELEIÇÕES

Na última sexta-feira (19), o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, afirmou que espera aprovar a regulamentação da IA até o meio do ano, ou seja, antes das eleições que começam em outubro. Especialistas brasileiros e estrangeiros temem que a tecnologia seja usada, em diferentes países, para forjar gravações e imagens que possam enganar o eleitorado. O tema, inclusive, foi um dos focos do encontro anual do Fórum Econômico Mundial encerrado também no dia 19. Na semana passada, o TSE realizou audiências públicas para discutir regras que valerão para as eleições municipais de outubro. Na opinião de Cristina, a implementação de uma legislação específica para o uso da IA no âmbito das eleições, com foco em evitar a desinformação, é fundamental para preservar a integridade do processo democrático. 

 

“Ao combater a desinformação, a legislação vai incentivar uma participação mais informada dos eleitores e isso é importante para que as escolhas sejam feitas nas urnas, elas reflitam verdadeiramente a vontade da população, além da redução de manipulação e influência indevida. Também deve haver uma proteção da reputação dos candidatos, já que haveria garantias de que informações falsas não seriam usadas para prejudicar candidatos. Também será possível fomentar a transparência, pois regras claras sobre a divulgação de informações e fontes podem aumentar a transparência durante o período eleitoral. E, por fim, eu acho que isso também ajuda a fortalecer a confiança na democracia, pois ao reduzir a desinformação, a legislação vai contribuir para o fortalecimento da confiança dos cidadãos no sistema democrático. No entanto, é importante mais uma vez encontrar o equilíbrio entre a regulamentação e a liberdade de expressão”, declarou a advogada.

 

Doutor em Ciências Sociais, especialista em Direito Eleitoral e professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Jaime Barreiros vê com bons olhos a regulamentação, principalmente na área eleitoral. Ele pontua que o Direito Eleitoral busca preservar a legitimidade da democracia e cita que a própria Lei das Eleições (n° 9.504/07) autoriza a Justiça Eleitoral a fazer essa regulamentação.

 

“A legitimidade passa pela possibilidade do eleitor formar suas convicções com liberdade. Então a partir do momento em que a inteligência artificial e as novas tecnologias podem ser utilizadas de forma a enganar um eleitor, levar à desinformação, fazer com que o eleitor não tenha condições de discernir sobre o que é verdade ou que é mentira, algum tipo de providência tem que ser tomada. Então, nesse sentido, é a própria lei 9.504, que é uma lei federal, autoriza a Justiça Eleitoral a fazer essa regulamentação”, afirma Jaime Barreiros.

 

RISCO À LIBERDADE DE EXPRESSÃO?

No entanto, o especialista pondera que apesar da regulamentação dar um parâmetro do que pode ou não ser feito, a própria evolução tecnológica torna imprevisível saber até que ponto exatamente a tecnologia pode atuar, uma vez que a regulamentação é aberta. “No que está se propondo, pode existir um espaço aí para interpretações indesejadas. Então isso pode ser ruim a partir, por exemplo, do momento em que a resolução diz que qualquer uso de Inteligência Artificial poderá ser objeto, eventualmente, de uma ação da Justiça Eleitoral, e poderá ser proibido ou combatido. Existe uma margem de interpretação que pode ser perigosa”, afirmou o professor da Ufba.

 

Jaime Barreiros ainda destacou acreditar que a existência de uma regulamentação prévia e objetiva não viola a liberdade de expressão, do contrário vem para garantir que ela exista. Na opinião dele, a verdadeira ameaça à liberdade de expressão é justamente quando não há lei alguma que aborde esse tema de maneira ao invés de transferir essa responsabilidade para a decisão de um juiz, por exemplo.

 

“A partir do momento em que você tem uma regulamentação prévia dizendo, exatamente, qual é o limite do uso dessa tecnologia, eu vejo como uma vantagem. É melhor que a gente já tenha uma previsibilidade do que tenha um poder amplo para decidir sobre qualquer coisa, sem que exista um parâmetro. Então a regulamentação não viola, ao meu ver, a liberdade de expressão. Até porque o parâmetro que está se buscando, não é para controlar conteúdo, por exemplo. O que está se buscando é justamente que essa ferramenta não seja utilizada de uma forma a desinformar, a manipular o processo de formação das opiniões do cidadão”, destacou o especialista em Direito Eleitoral, pontuando que, se não houvesse nenhuma regulamentação, abriria-se o precedente para que “um juiz eleitoral ou alguma autoridade pudesse tomar uma decisão que possa ameaçar a liberdade”.

Após polêmica nas redes sociais, Stanley confirma presença de chumbo em copos térmicos

 

Por Redação

Após polêmica nas redes sociais, Stanley confirma presença de chumbo em copos térmicos
Foto: Divulgação / Stanley

Os copos térmicos da Stanley caíram nas graças dos brasileiros nos últimos anos. Na semana passada, no entanto, a marca esteve no centro de uma polêmica nas redes sociais depois de uma "trend" ganhar espaço no TikTok. Influenciadores testaram a composição química do produto para a presença de chumbo e foi descoberto que a substância está presente no fundo do produto.

 

Em nota enviada à CNN Internacional, a empresa admitiu que seus copos contém chumbo, mas garantiu que o metal não entre em contato com o líquido. “O chumbo faz parte do processo de vedação, mas o copo é coberto por uma camada de aço inoxidável que o torna inacessível aos consumidores”, afirma o fabricante.

 

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O chumbo é um metal pesado e é tóxico para humanos até mesmo em pequenas doses. O metal não é processado pelo organismo e se aloja nos órgãos, especialmente no cérebro, fígado e rins. Ele afeta o sistema nervoso e pode gerar dores de cabeça e levar a alterações de personalidade.

 

USO DO STLANEY TRAZ RISCOS?
Especialistas ouvidos pela rede CNN apontam que, em perfeitas condições, a utilização do copo térmico não traz risco à saúde. Contudo, caso a embalagem seja violada, os consumidores podem ser contaminados.

 

A fabricante do copo Stanley garantiu que seus produtos têm garantia vitalícia e que se a base do copo se soltar e a vedação for exposta, os consumidores podem solicitar um novo produto. A empresa diz estar estudando o uso de outros metais para fazer o isolamento térmico dos copos.

A revelação perturbadora de Ramagem que passou em branco



O ex-diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) e delegado da Polícia Federal Alexandre Ramagem passou meses se esquivando de jornalistas em Brasília desde que tomou posse, em fevereiro de 2023, no cargo de deputado federal pelo PL do Rio de Janeiro - a Agência Pública, por exemplo, tentou ouvi-lo várias vezes, sem resposta.

Na semana passada, em meio às investigações da Polícia Federal sobre o uso do programa de computador First Mile, Ramagem apareceu ao vivo no canal de televisão a cabo GloboNews. Em uma entrevista de 15 minutos, defendeu-se das suspeitas e jurou inocência. No final, contudo, fez uma revelação perturbadora, que precisa ser investigada em todos os detalhes. Pela primeira vez desde a criação da Abin, em 1999, um alto dirigente da agência admitiu que ela faz, sim, “análise de inteligência de pessoa”, ou seja, a agência identifica, separa e produz documentos sobre cidadãos.

Por intuição e também a partir das diversas reportagens jornalísticas publicadas ao longo dos últimos anos, até as pedras portuguesas da Praça dos Três Poderes já sabiam. Mas ouvir isso da boca do próprio ex-diretor-geral da Abin coloca tudo em outra perspectiva. “Análises” sobre cidadãos remetem aos piores momentos do famigerado SNI (Serviço Nacional de Informações) da ditadura civil-militar. Quem foram as pessoas “analisadas” no governo Bolsonaro? O que foi escrito sobre elas? Onde estão os documentos?

Se um ocupante de cargo de chefia na Abin pode determinar um trabalho de inteligência sobre um cidadão, conforme explicado por Ramagem na entrevista, está aberta a porta para a pura perseguição ideológica. Relatórios ou “análises” produzidos pelos serviços de inteligência não se submetem ao acompanhamento do Poder Judiciário. O único “controle externo” ao qual a Abin aceita se sujeitar é fake (uma comissão inoperante e desinformada, comandada há anos pela direita no Senado Federal, conforme argumentei na newsletter de outubro de 2023).

Na parte final da entrevista à Globonews, o jornalista Octavio Guedes indagou a Ramagem sobre a informação contida na decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes de que um currículo da promotora de Justiça que atua no caso Marielle Franco, Simone Sibílio, teria sido confeccionado pela Abin e encontrado pela PF durante as investigações.

Ramagem respondeu da seguinte forma: “A inteligência, ela é coleta de dados e de informações. Se tem no servidor [de dados de informática], e eu não sei quem acessou, tem que verificar [com] a Polícia Federal, quem alimentou e quem retirou, quem colocou, quem é a pessoa que botou o currículo da promotora e perguntar a essa pessoa o porquê. E como eu falei, tem que haver uma organização de procedimento. Se você vai fazer uma análise de inteligência sobre pessoa, tem que ter alguma provocação de uma chefia, de uma direção e a finalização e a conclusão. E é isso que nós estávamos levando e cobrando da Abin que não estava sendo feito”, disse Ramagem.

Infelizmente a entrevista acabou naquele exato momento sem maiores explicações do entrevistado. Restam muitas dúvidas. Quantas e quais pessoas passaram por “análise de inteligência” da Abin na gestão de Ramagem? Quais foram os chefes ou diretores que autorizaram tais trabalhos? Quais são os critérios utilizados pela Abin para escolher a pessoa a ser alvo de uma análise? Para onde ela é dirigida e quais seus efeitos?


 
A declaração de Ramagem também é impressionante porque há mais de duas décadas, desde a criação da Abin, em 1999, diferentes diretores-gerais bateram na tecla de que o órgão tratava de fatos e circunstâncias, mas nunca de pessoas.

Isso era repetido à exaustão porque a Abin procurava se livrar do grande fantasma do SNI. Há 16 anos, em 2008, escrevi que um estudo feito por especialistas do Arquivo Nacional de Brasília havia chegado ao número de 308 mil brasileiros fichados durante a ditadura. Era um “monstro”, no dizer do jornalista Edmundo Moniz, em artigo publicado em 1967 pelo “Correio da Manhã”. Agora cabe a pergunta: quantos foram “fichados” pelo monstro da Abin de Bolsonaro?

A fala de Ramagem se choca com pelo menos dois trechos do depoimento que ele próprio prestou ao Congresso Nacional em julho de 2021, dois anos depois de tomar posse na direção-geral da Abin. O delegado foi indagado pela então deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC), aliás de forma profética, se a Abin já estava “monitorando grupos que podem questionar, inclusive com violência, as eleições de 2022, para evitar uma tomada do Parlamento, como aconteceu no Capitólio americano”.

Ramagem disse que, a exemplo da “segurança pública e das forças de segurança pública”, a Abin fazia apenas “acompanhamento” de “manifestações” e difundia as informações “para os demais integrantes” do Sisbin, o Sistema Brasileiro de Inteligência. Afirmou que, quando era detectada alguma “possibilidade de notícia de crime”, o caso era encaminhado “aos setores responsáveis”. Sobre os cidadãos, contudo, Ramagem foi peremptório: “Não há esse monitoramento. Nós não fazemos monitoramento de pessoas, muito menos para esses fins de resultados de eleição”.

A deputada insistiu sobre os riscos que o questionamento das urnas eletrônicas representava à institucionalidade e à democracia: “Desculpe-me, diretor, mas isso pode botar a democracia do País em risco. Por isso, há preocupação. A Abin não está tendo esse olhar, esse cuidado?”

O então diretor-geral da Abin reiterou: “Eu quis referir que nós não fazemos análise de indivíduos. A potencialidade de crise institucional é verificada como algo de domínio público, entre todos os Poderes. A gente não faz questões opinativas nisso. Por isso, tudo passa por fatos concretos, pelo que está acontecendo”.

A comparação das declarações de Ramagem ao Congresso com a entrevista que ele deu à GloboNews causa perplexidade. O diretor-geral que disse expressamente aos parlamentares que “não fazemos análise de indivíduos” vem agora afirmar que uma “análise de inteligência sobre pessoa” pode ser feita a partir de uma provocação de um chefe ou diretor. É uma contradição fundamental que não pode ficar por isso mesmo.

 

Rubens Valente 
rubensvalente@apublica.org

Colunista da Agência Pública

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