terça-feira, janeiro 30, 2024

Brasil cai para 104ª posição no ranking internacional de combate da corrupção


charge-corrupção-política.jpg :: Charges e Livros

Charge do Tiago Recchia (Charge Online)

Marlen Couto
O Globo

Pelo segundo ano consecutivo, o Brasil registrou piora na percepção de corrupção e caiu dez posições no ranking anual elaborado pela Transparência Internacional, movimento global com foco no tema. A nota brasileira ficou em 36 pontos, dois a menos que o contabilizado em 2022, e o país ficou na 104ª colocação entre 180 nações avaliadas. Os dados foram divulgados nesta terça-feira.

Com o resultado, o Brasil ficou abaixo da média global (43 pontos), das Américas (43) e de países com democracias consideradas “falhas”. Também atingiu índice semelhante aos da Ucrânia, Argélia e Sérvia e inferior aos da Etiópia, Bielorrússia, Marrocos, Índia, Vietnã e Cazaquistão.

DINAMARCA É EXEMPLO – A pontuação considera uma escala que vai de 0 a 100. O indicador agrega dados de diferentes fontes e traduz as percepções de empresários e especialistas sobre o setor público dos países. O ranking é liderado pela segunda vez seguida pela Dinamarca, que atingiu 90 pontos.

Gerente da Transparência Internacional Brasil, Guilherme France afirma que os fatores negativos que contribuem para o resultado abaixo da média não ficam restritos apenas a um Poder, mas envolvem tanto o governo federal quanto o Legislativo e Judiciário do país.

O resultado também não sofre influência apenas de acontecimentos de 2023, mas é “reflexo de um processo histórico mais amplo” de desestruturação de marcos legais e institucionais de combate à corrupção no período recente.

DESDE A LAVA JATO – O Brasil registrou piora no combate à corrupção nos últimos anos frente a 2012 e 2014, com a Lava Jato, quando atingiu seus melhores desempenhos no índice, segundo a série histórica do levantamento. A nota brasileira é hoje sete pontos menor, na comparação com o pico alcançado pelo país nos dois anos.

— O processo de reestruturação e reconstrução não acontece do dia para a noite, mas demanda tempo e a atuação proativa das instituições — pontua France.

Em relação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o relatório da organização defende que “o país vem falhando” na reconstrução dos mecanismos de controle jurídico e político, após desmontes no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ao mesmo tempo que “vem demonstrando avanços na recuperação do controle social da corrupção”.

ZANIN E GONET – Como pontos negativos, a Transparência Internacional lista a nomeação de Cristiano Zanin, advogado pessoal de Lula, para a primeira vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) e a opção do presidente por ignorar a lista tríplice da categoria na escolha de Paulo Gonet como novo procurador-geral da República.

O movimento afirma que Lula “preferiu repetir o método de escolha política de Bolsonaro, cujos efeitos desastrosos ainda são sentidos no país”. Também critica a pressão do governo pelo afrouxamento da Lei das Estatais.

“Os efeitos já começaram a ser sentidos na principal empresa brasileira e foco de macro esquemas de corrupção, a Petrobras, com afrouxamento de regras de blindagem política no estatuto da companhia e nomeações de gestores atropelando vetos do departamento de compliance, inclusive indivíduos investigados por corrupção”, diz o documento.

LIÇÕES NÃO APRENDIDAS – Na avaliação de France, problemas evidenciados pela Lava-Jato, que tem sofrido reveses e críticas por parcialidade, não foram endereçados de forma sistêmica e há reversão de reformas que haviam sido implementadas.

— A Lei das Estatais vem em resposta à Lava-Jato, colocando restrições à indicação de políticos para altos cargos. A gente viu no último ano uma decisão liminar monocrática que suspendeu a aplicação dessas restrições, reintroduzindo a estatais no jogo político de disputa por apoio político no Congresso. É como se a gente não tivesse aprendido as lições que os grandes casos de corrupção evidenciam. — afirma o gerente da Transparência Internacional Brasil, que acrescenta:

— Criou-se uma estigmatizarão da discussão sobre a luta contra a corrupção como se fosse algo pertencente a um determinado lado do espectro político, quando deveria ser uma missão e um propósito de todos os atores do espectro político e política de Estado.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Detalhe importante: o levantamento do ranking foi feito antes de Lula tentar impor a escolha de Guido Mantega para presidir a Vale, uma empresa privada. Recorde-se que Mantega foi condenado pelo Tribunal de Contas da União e não pode ter cargo público até 1930. Se pudesse, teria sido nomeado por Lula desde o início do governo. (C.N.)


Discípulo do clã, Zé Trovão assume em áudio que Bolsonaro é “maior mau exemplo pra política”

Discípulo do clã, Zé Trovão assume em áudio que Bolsonaro é “maior mau exemplo pra política”: Sem saber que estava sendo gravado, Zé Trovão, da 'ala ideológica', não poupa críticas a Bolsonaro, atribuindo-lhe a entrega da Presidência para Lula em 2022

Abin paralela: criminosa, inaceitável, resquicio ditadorial


Charge do Miguel Paiva (Brasil247)

Marcelo Copelli

Cada vez mais os fatos apontam que aliados do ex-mandatário derrotado nas urnas de 2022, infiltrados na Agência Brasileira de Inteligência, integravam um amplo grupo cuja responsabilidade era a de manter um serviço clandestino de “contrainteligência”.  De acordo com a Polícia Federal , indícios ratificam que além da espionagem ilegal de desafetos e adversários políticos, os sistemas de inteligência do Estado podem ter sido usados para conseguir informações sobre investigações sigilosas da própria PF.

Uma conversa recuperada no celular de Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência, mostra que uma assessora do vereador Carluxo pediu informações sobre inquéritos de interesse da família Bolsonaro. A servidora diz a uma auxiliar de Ramagem que precisa “muito de uma ajuda”, informa o número das investigações e acrescenta que elas envolveriam o presidente da República e três filhos.

INFORMAÇÕES SIGILOSAS – Por mais que meia dúzia de fanáticos seguidores do ex-presidente ainda tentem justificar sem argumentos comprovações de que a última gestão alinhava-se pelos tortuosos caminhos da ilegalidade, utilizando-se de práticas da época da ditadura, as provas cada vez mais contundentes  confirmam que aliados de Bolsonaro tinham acesso direito ao ex-diretor da Abin e usavam o canal para conseguir informações sigilosas e sobre “ações não totalmente esclarecidas”.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) sinalizou que outros episódios de interferência na Abin ocorreram enquanto Alexandre Ramagem esteve à frente da agência. Em fevereiro de 2020, por exemplo,um dossiê com dados de inquéritos eleitorais em tramitação na PF no Rio teria sido impresso por Ramagem; outro indício mencionado pela Polícia Federal ao pedir autorização do STF para deflagrar a nova fase ostensiva da investigação.

CONDUTAS ILEGAIS – Não trata-se apenas de ideologias políticas ou disputas polarizadas no cenário em debate, mas de, comprovadas as condutas ilegais, apurar de forma ágil e transparente todas as ações que atentaram contra a democracia, utilizando-se do aparato governamental.

A existência de uma organização criminosa cujos efeitos podem ter sido muito maiores que as provas iniciais demonstram, requerem uma profunda apuração e responsabilização dos envolvidos. Não há democracia quando o próprio agente público, representantes eleitos e servidores manipulam opositores através de práticas que deveriam ter sido abolidas e nunca mais repetidas.


Estudo sugere que forma muito rara de Alzheimer pode ser transmissível




Estudo sugere que pode existir uma forma rara de o Alzheimer ser adquirido clinicamente

Descoberta foi feita em pacientes que passaram por tratamento hormonal específico na infância, entre 1959 e 1985

Por Gabriela Maraccini

Cinco pessoas que receberam um tratamento com hormônio de crescimento derivado da hipófise – uma glândula localizada no cérebro – proveniente de cadáveres, desenvolveram problemas de cognição que preenchiam os critérios para o diagnóstico de Alzheimer. Os achados são de um estudo publicado na Nature Medicine nesta segunda (29). Os pacientes receberam o tratamento durante a infância, entre os anos de 1959 e 1985.

Apesar de o resultado ser raro, já que esse tratamento hormonal é proibido atualmente, a descoberta sugere que o Alzheimer pode ser adquirido clinicamente, por meio iatrogênico (ou seja, como consequência ou efeito colateral de algum procedimento médico).  No entanto, não há evidências de que a doença pode ser transmitida em outras situações.

Para entender os resultados desse estudo, é preciso voltar alguns anos: entre 1959 e 1985, cerca de 1.848 pacientes foram tratados com hormônio de crescimento humano extraído de glândulas pituitárias de cadáveres (c-hGH), no Reino Unido. Essa prática foi proibida mundialmente depois que algumas dessas pessoas receberam hormônio contaminado por príon – um tipo de agente infeccioso composto por proteínas – e desenvolveram, posteriormente, a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ).

Pesquisas anteriores, realizadas após a morte dos pacientes, mostraram que algumas dessas pessoas contaminadas tinham uma grande quantidade da proteína beta-amiloide no cérebro, um biomarcador para o Alzheimer. Porém, ainda não havia evidências de que essas pessoas apresentavam sintomas da doença antes de sua morte, já que teriam sido mascaradas pelos sintomas da DCJ.

Quais foram os resultados do estudo?

O estudo recente analisou oito pessoas do Reino Unido que receberam c-hGH na infância, mas que não desenvolveram DCJ. Cinco desses pacientes apresentavam sintomas de demência de início precoce (entre 38 e 55 anos de idade) e que preenchiam os critérios de diagnóstico para doença de Alzheimer. Era o caso de comprometimento progressivo da cognição, grave o suficiente para afetar suas atividades cotidianas.

Entre as três pessoas restantes que foram analisadas pelo estudo atual, uma apresentava sintomas leves de comprometimento cognitivo, outra apresentava apenas sintomas cognitivos subjetivos – que não se enquadravam no critério para Alzheimer – e a terceira era assintomática.

A análise de biomarcadores, como a presenta de proteínas beta-amiloide no cérebro, apoiaram o diagnóstico de Alzheimer em duas das pessoas com sintomas da doença e formaram suspeitas em outro paciente. Também foram analisadas amostras de tecido cerebral em dois pacientes que morreram durante o período do atual estudo – um desses pacientes também foi diagnosticado com Alzheimer.

Por fim, testes genéticos para genes causadores da doença apresentaram resultados negativos nos cinco pacientes para os quais as amostras estavam disponíveis.

Segundo os autores, esses resultados sugerem que o Alzheimer é potencialmente transmissível e propõem que, tal como a DCJ, a patologia pode ter formas hereditárias, esporádicas e raras de ser adquirida. Porém, os pesquisadores indicam que a transmissão iatrogênica é rara, principalmente porque o tratamento hormonal com c-hGH não é mais utilizado no mundo e os pacientes descritos no estudo desenvolveram os sintomas de Alzheimer depois de serem expostos ao hormônio repetidas vezes ao longo de vários anos.

CNN

Postado há  por  

Carlos Bolsonaro vai depor sobre publicação considerada ofensiva a diretor da PF




Postagem nas redes sociais em agosto sugeria crítica ao equilíbrio da Polícia Federal

Por Pedro Duran e Raquel Landim

Um dia depois de ter sido alvo de mandados de busca e apreensão, o vereador Carlos Bolsonaro estará na sede da Polícia Federal no Rio de Janeiro nesta terça-feira (30) às 9h da manhã para prestar depoimento. Muito embora o inquérito sobre qual ele falará não tenha relação com a Operação Vigilância Aproximada, o foco também é a cúpula da segurança nacional.

O depoimento atende a uma intimação da Polícia Federal sobre uma postagem de Carlos Bolsonaro feita em 27 de agosto de 2023. A mensagem foi tida como ofensiva ao diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

O filho de Bolsonaro republica uma postagem do perfil “Dama de Ferro” que traz imagens de alusões ao pai morto em forma de sátira que afirma “zero busca e apreensão, zero inquérito, zero perfis bloqueados, zero reportagem em repúdio, pessoas presas: zero”. No título da postagem, a frase “tudo pela manutenção da democracia”.

Sobre esta imagem, Carlos Bolsonaro afirma “o seu guarda diretor aqui enxerga com outros olhos”, no que foi interpretado como alusão a investigações desequilibradas entre ameaças a Lula e a Bolsonaro.

“De acordo com o setor de inteligência da PF essa publicação do Carlos seria ofensiva ao atual Diretor da PF, que sequer tinha conhecimento do fato e foi instado a se manifestar e determinou a instauração do inquérito”, disse à CNN o advogado de Carlos Bolsonaro, Antônio Carlos Fonseca.

A expectativa é de que, justamente por se tratar de outro inquérito, Carlos Bolsonaro não seja ouvido e nem fale sobre a investigação de uma suposta Abin paralela, que está atrelada à Operação Vigilância Aproximada.

À CNN, o presidente Jair Bolsonaro e os advogados de Carlos confirmaram que o vereador prestará o depoimento agendado

CNN

Quais as principais alianças de poder entre países envolvidos nos conflitos do Oriente Médio




Irã e Arábia Saudita são as duas grandes potências atuais do mundo muçulmano

'Na política internacional, a dinastia Al Thani do Qatar segue uma estratégia clara para se estabelecer como ator importante de mediação em conflitos regionais'

Por José Carlos Cueto

A guerra entre Israel e o Hamas deu início a um dos tempos mais turbulentos da história recente do Oriente Médio.

Além do conflito, a região foi abalada nas últimas semanas por confrontos entre Israel e Hezbollah no Líbano; ataques entre forças ocidentais e rebeldes houthi no Iêmen; operações do Irã contra alvos no Iraque, na Síria e no Paquistão; e ataques de outras milícias pró-Irã contra alvos dos EUA, de Israel e dos seus aliados.

Essas múltiplas fontes de violência alimentam o receio de uma guerra maior no Oriente Médio e afetam as tradicionais alianças de poder regionais.

Existe uma rivalidade entre o Estado de Israel e o mundo árabe. Mas há também uma divisão religiosa entre os xiitas — tradicionalmente representados pelo Irã — e os sunitas — cuja potência maior é a Arábia Saudita.

Essas duas rivalidades são duas constantes no quebra-cabeça no Oriente Médio.

Especialistas consultados pela BBC News Mundo (serviço de notícias em espanhol da BBC) dizem que a região tem sido afetada menos por questões de diferenças de fé e mais por alianças políticas e militares temporárias.

Irã e grupos armados não-estatais

O Irã despertou preocupação na comunidade internacional quando, em apenas três dias, de 15 a 17 de janeiro, atacou alvos em três países diferentes: Iraque, Síria e Paquistão.

Embora as ações do Irã tenham sido contra alvos específicos, como uma suposta base de inteligência israelense no Iraque e grupos islâmicos rivais no caso da Síria e do Paquistão, os especialistas atribuíram os ataques ao interesse iraniano em mostrar força em tempos turbulentos.

Teerã repete que não quer se envolver em um grande conflito, embora nas últimas semanas o seu chamado "eixo de resistência" tenha sido bastante ativo.

O eixo é formado por grupos armados como o Hezbollah no Líbano; milícias xiitas no Iraque, Afeganistão e Paquistão; o Hamas e outros grupos militantes nos territórios palestinos e os rebeldes houthi no Iêmen.

O serviço persa da BBC descreve a ideologia como "notoriamente antiamericana e anti-Israel".

Todos, em maior ou menor grau, atacaram alvos israelenses ou aliados desde o início da guerra em Gaza, em outubro.

Haizam Amirah-Fernández, especialista em Oriente Médio do Elcano Royal Institute, um think tank baseado na Espanha, disse à BBC Mundo que "as alianças do Irã com o seu 'eixo de resistência' são das mais estáveis e duradouras da região".

"As alianças entre o Irã e estes grupos são um produto da revolução iraniana de 1979 e funcionam como uma forma de exportar o seu modelo e promover seus propósitos políticos", diz Lina Khatib, diretora do SOAS Middle East Institute, com sede em Londres.

Segundo especialistas, estes grupos surgiram do descontentamento com a realidade política dos seus países — e o Irã aproveita esse sentimento para expandir a sua influência regional.

Em artigo publicado em 2020 pela BBC, Kayvan Hosseini, jornalista do serviço da BBC em persa, afirmou que todos estes grupos recebem "apoio logístico, econômico e ideológico” do Irã.

Michael Kugelman, diretor de Sul da Ásia no Wilson Center, diz que não se pode ignorar o papel do sectarismo religioso devido à "proximidade do Irã com os grupos xiitas e dos sauditas com os sunitas".

Mas, ao mesmo tempo, ele destaca que as rivalidades têm muito mais a ver com uma briga por poder do que com diferenças religiosas.

Isso explicaria, por exemplo, o apoio iraniano ao Hamas como contrapeso a Israel, apesar de este grupo militar provir do ramo sunita do Islã.

Ou explicaria, ainda, que dentro dos mesmos grupos há lados diferentes dependendo do conflito. O Hamas e o Hezbollah apoiaram diferentes frentes na guerra síria, mas ambos estão unidos no seu objetivo de acabar com Israel.

Quanto ao "isolamento" do Irã na região — uma referência à falta de alianças com atores estatais, com exceção do regime de Bashar al Assad na Síria —, os especialistas atribuem a dois fatores principais.

Primeiro, "porque o modelo de exportação da revolução islâmica foi visto como uma ameaça pelas dinastias petrolíferas do Golfo e de outros países da região e, segundo, porque o Irã se considera no direito de ser um ator hegemônico regional ao longo da história, com seu país, seus recursos, população e herança do império persa", diz Amirah-Fernández.

"E isso vai contra ambições de outros países, especialmente da Arábia Saudita", diz o analista.

O bloco de países árabes liderado pela Arábia Saudita

A Arábia Saudita realizou muitas ações nos últimos anos para se estabelecer como líder no mundo árabe.

Há algumas décadas, o centro do mundo árabe estava concentrado no Egito, país que tinha maior peso demográfico, político e cultural na região.

Mas o poder migrou para os países do Golfo e para a Península Arábica, onde a exploração de recursos energéticos gerou riqueza abundante que, pouco a pouco, virou influência política.

Primeiro, alguns países pequenos — como os Emirados Árabes Unidos ou o Catar — se destacaram. Mas em seguida, especialmente com a ascensão de facto ao poder do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman em 2017, "a Arábia Saudita mudou em grande escala dentro do país e globalmente".

'A transformação da Arábia Saudita acelerou com as ambições de Mohammed bin Salman'

"A sua ascensão também foi reforçada pela sua rica economia de hidrocarbonetos e pelo apoio prestado pelos Estados Unidos durante a presidência de Donald Trump como medida de pressão contra o Irã", afirma o analista Amirah-Fernández.

Especialistas concordam que a Arábia Saudita é o líder de facto da Liga Árabe, uma organização regional de 22 países.

"Em geral, embora cada país tenha as suas ambições, até o Egito e a Jordânia se posicionam e seguem as orientações estabelecidas pelos sauditas", afirma Khatib.

Durante cerca de 40 anos, a Arábia Saudita e o Irã mantiveram uma rivalidade aberta que alguns especialistas chegaram a descrever como "a nova Guerra Fria no Oriente Médio". Nos últimos anos, esta situação foi agravada por "guerras por procuração" em vários lugares da região.

No Iêmen, a Arábia Saudita tem apoiado as forças governamentais na sua guerra contra os rebeldes houthi desde 2015.

O Irã, acusado pelos seus rivais de apoiar os houthis, negou que envie armas a este grupo, responsável por orquestrar ataques de mísseis e drones contra cidades e infraestruturas sauditas.

A Arábia Saudita também acusa o Irã de interferir no Líbano e no Iraque, onde milícias xiitas acumularam vasta influência política e militar. Além disso, alguns destes grupos foram responsabilizados por ataques a instalações sauditas.

Em março de 2023, as relações entre a Arábia Saudita e o Irã entraram em uma nova era ao restabelecerem os laços diplomáticos e acordos de segurança, comerciais, econômicos e de investimento em uma negociação mediada pela China.

Isso seria mais um exemplo, como alertam os especialistas consultados pela BBC, da constante fluidez e complexidade das relações de poder no Oriente Médio.

Catar como mediador

'O ministro das Relações Exteriores do Irã, Hossein Amir-Abdoulahian, reuniu-se com o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, no Catar, no final de dezembro'

Khatib e Amirah-Fernández concordam que o Catar faz parte do lado do bloco liderado pelos sauditas, embora também destaquem o seu papel mediador que o torna um caso peculiar nos equilíbrios de poder regionais.

Atualmente, os negociadores do Catar desempenham um papel singular como mediadores entre Israel e o Hamas.

E, durante anos, este país bilionário do Golfo esteve envolvido na reaproximação de países como Israel ou Irã e grupos políticos muito diferentes daqueles apoiados pelo resto dos seus vizinhos — na sua maioria, grupos islâmicos como o próprio Hamas ou a Irmandade Muçulmana, estes últimos antigos rivais dos sauditas.

Estas abordagens nem sempre foram bem recebidas pelos seus vizinhos.

"Em 2017, o Catar sofreu um embargo de Arábia Saudita, Bahrein, Egito, Emirados Árabes Unidos, Iêmen e Líbia porque começou a ser visto como uma ameaça devido às suas ambições políticas", lembra Khatib.

O Catar é um país muito rico, mas pequeno, o que o coloca em uma situação vulnerável que o leva — como apontou o cientista político Mehran Kamrava no seu livro Qatar: Small State, Big Politics (Catar: Estado pequeno, grande política, em tradução livre) — a procurar alianças múltiplas e variadas como forma de preservar a sua segurança e "melhorar a sua estatura e posição diplomática".

O embargo ao Catar foi eliminado em 2021 e as suas relações com os seus vizinhos, especialmente a Arábia Saudita, parecem estar em uma boa fase.

É claro, reitera Khatib, que o Catar ainda quer "se estabelecer como um país mais mediador e conciliador dentro da sua estratégia geopolítica".

Como fica Israel?

Amirah-Fernández define o caso israelense como um exemplo "atípico" de suas alianças na região. Khatib diz que o país "age de forma independente, sem pertencer a nenhuma aliança de países".

Israel mantém uma guerra longa e não declarada contra o Irã e outras milícias. As hostilidades de baixa intensidade se repetem, mas não atingem o ponto de um conflito total e aberto.

Israel também tem uma relação difícil com seus vizinhos árabes.

Israel — juntamente com Turquia e Irã — é um dos únicos países não árabes no Oriente Médio, e seu reconhecimento como Estado é limitado na região.

'A guerra de Israel em Gaza aumentou a rejeição do Estado judeu entre os países árabes'

De todas as nações árabes, apenas o Egito desde 1979, a Jordânia desde 1994 e os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Marrocos e Sudão desde 2020 reconhecem o Estado israelense.

Segundo Amirah-Fernández, isso se deve principalmente ao fato de que "Israel continua sendo visto como ocupante e agressor diante da maioria absoluta das populações árabe-muçulmanas devido ao seu conflito com os palestinos, aprofundado pela guerra atual em Gaza".

Pouco antes do início da guerra contra o Hamas, em 7 de outubro de 2023, Israel estava em negociações para normalizar as relações com a Arábia Saudita, o que teria sido um grande avanço para o país.

No entanto, dias depois do ataque, foi noticiado que as autoridades sauditas pediram aos Estados Unidos que paralisassem as negociações.

Os especialistas consultados pela BBC News Mundo consideram difícil que Israel abandone essa condição "atípica" nas suas alianças e relações se não houver uma solução clara para o seu conflito com os palestinos.

BBC Brasil

Espionagem ilegal contra servidor do Ibama levou PF a núcleo político na ‘Abin paralela’

 Foto: Vinícius Mendonça/Ibama

Servidor do Ibama teria sido monitorado clandestinamente pela Abin29 de janeiro de 2024 | 22:00

Espionagem ilegal contra servidor do Ibama levou PF a núcleo político na ‘Abin paralela’

BRASIL

A suspeita de monitoramento ilegal de um servidor do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) foi uma das justificativas usadas pela Polícia Federal (PF) para pedir buscas em endereços ligados ao vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos) nesta segunda-feira, 29, na investigação sobre o aparelhamento da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Hugo Ferreira Netto Loss foi responsável pelo setor de Operações de Fiscalização do Ibama e comandou ações contra garimpeiros e madeireiras ilegais na Amazônia durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ele foi exonerado do cargo em abril de 2020.

Segundo a PF, o servidor foi monitorado clandestinamente por determinação do braço político do suposto esquema de espionagem ilegal que teria sido montado na Abin. Carlos Bolsonaro faria parte desse núcleo, de acordo com a investigação.

A Polícia Federal acredita que Loss tenha sido exonerado em represália às ações de combate a crimes ambientais que encabeçou enquanto esteve no cago. Ele coordenou operações que levaram à queima de maquinário ilegal apreendido pelo Ibama com garimpeiros em terras indígenas.

Embora prevista em lei, a prática era criticada com frequência por Bolsonaro. O ex-presidente chegou a afirmar, em novembro de 2019, que tomaria providências para impedir a destruição dos equipamentos. “Quem é o cara do Ibama que está fazendo isso no Estado lá? Se me derem as informações, eu tenho como…”.

Inicialmente, a PF havia identificado quatro núcleos do que já trata como uma “organização criminosa” montada na Abin:

  • Alta Gestão-PF: membros da cúpula da agência na gestão do então diretor Alexandre Ramagem;
  • Subordinados: policiais federais lotados na Abin e apadrinhados pelo ex-diretor-geral;
  • Projeto 157: servidores dedicados a uma operação clandestina para tentar associar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ao Primeiro Comando da Capital (PCC);
  • Tratamento Log: responsável pela inserção de números de telefone a serem monitorados em tempo real por meio do software First Mile.

O monitoramento do servidor do Ibama gerou as suspeitas sobre o novo braço, que teria a participação de políticos alinhados ao governo Bolsonaro.

Na decisão que autorizou as buscas contra o filho do ex-presidente, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, afirmou que a investigação ainda pode chegar a outros braços do esquema.

“Os significativos indícios colhidos pela Polícia Federal apontam a possibilidade de identificação de ainda mais núcleos de atuação da organização criminosa, com participação de outros agentes ainda não identificados, considerando que a estrutura paralela instalada na Abin executava tarefas clandestinas multifacetadas”, escreveu.

A Polícia Federal acredita que o aparato da Abin tenha sido usado para monitorar também parlamentares de oposição ao governo do ex-presidente e para auxiliar a defesa de filhos de Bolsonaro em investigações criminais. A agência teria sido usada ainda para atacar as urnas e para levantar informações sigilosas de inquéritos de interesse da família Bolsonaro.

Rayssa Motta/Fausto Macedo/EstadãoPolítica Livre

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