domingo, março 12, 2023

Nova revolução no campo será preservar as florestas e incentivar a agroindústria

Publicado em 11 de março de 2023 por Tribuna da Internet

Ciência mostrou ser possível aumentar produção agrícola sem aumentar o desmatamento

Brasil pode aumentar a produção sem haver desmatamento

João Gabriel de Lima
Estadão

A primeira fake news produzida no Brasil foi, provavelmente, o trecho da carta de Pero Vaz de Caminha do qual se extraiu a máxima “em se plantando tudo dá”. Na verdade, um estudo do economista Eliseu Alves mostrou, no fim da década de 1960, que o principal problema da agricultura brasileira era a ausência de técnicas adaptadas às nossas condições: na maior parte do território brasileiro a terra é ruim, e o clima tropical não ajuda.

A solução encontrada foi enviar nossos agrônomos às principais universidades do mundo para “inventar” um jeito de plantar em solo ruim e clima tropical. “Formar técnicos é como dar tiros de cartucheira, um grão de chumbo vai atingir a caça”, costumava dizer Alves, citado num artigo do economista Marcos Lisboa.

AMPLIAR AGROINDÚSTRIA – Alves participou da criação da Embrapa e de todas as etapas que transformaram o Brasil – graças a pesquisa e conhecimento – em potência agrícola.

No momento em que o planeta vive a revolução da economia verde, precisamos novamente reinventar nossa agricultura. “Não há nada errado em ser produtor de commodities, mas poderíamos dar um grande salto se exportássemos mais produtos agrícolas industrializados”, diz Marcello Brito, um dos principais líderes do agronegócio brasileiro.

“Dizer que o mundo não quer comprar nossos produtos industrializados, porque querem industrializar lá fora, é uma meia-verdade”, afirma Brito. Para ele, precisamos de mais acordos internacionais para ter acesso aos mercados – e tal acesso está condicionado a nos tornarmos também uma potência ambiental.

FALTA PRESERVAR – “Cuidar da Amazônia é fundamental para isso”, diz Brito. “Nosso trabalho na área ambiental tem sido pífio e ruim.”

A solução, novamente, está no mundo do conhecimento. A ciência já demonstrou que podemos aumentar nossa produção agrícola sem cortar uma única árvore a mais, e ainda reflorestando área vastíssimas na Amazônia.

Poderemos igualmente cumprir nossa obrigação ética – que o mundo cobra com razão – de proteger os territórios dos povos originários.


MP do TCU recorre e pede que Bolsonaro devolver joias e armas que diz serem suas

Publicado em 11 de março de 2023 por Tribuna da Internet

Procurador do MP junto ao TCU recebeu auxílio-moradia mesmo com mansão em  Brasília - JuriNews

Procurador Lucas Furtado faz carga contra Bolsonaro

Giovana Teles e Pedro Alves Neto
TV Globo e g1

O Ministério Público Junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) recorreu, nesta sexta-feira (10), da decisão que permitiu que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) permaneça como fiel depositário de presentes recebidos da Arábia Saudita. O órgão pede que Bolsonaro seja obrigado a devolver os objetos em até cinco dias.

Na quinta-feira (9), o ministro do TCU Augusto Nardes permitiu que as joias que estão na posse do ex-presidente permaneçam com ele. No entanto, a decisão cautelar proíbe que Bolsonaro use, disponha ou venda os itens. O recurso é endereçado ao próprio ministro Augusto Nardes e pede que ele reconsidere a determinação anterior.

FUZIL E PISTOLA – No documento, o subprocurador-geral junto ao TCU, Lucas Furtado, pede ainda que armas recebidas por Bolsonaro como presente dos sauditas sejam incluídas no processo da Corte que apura irregularidades no recebimento de presentes pelo ex-mandatário.

Segundo revelado pelo site “Metrópoles” e confirmado pelo colunista do g1 Octavio Guedes, a comitiva de Bolsonaro declarou um fuzil e uma pistola recebidos em viagem ao país, em 2019.

O documento solicita que, caso o ex-presidente não devolva os presentes no prazo estipulado, a Casa Civil “adote as providências necessárias à retenção da remuneração a que faz jus o Sr. Jair Messias Bolsonaro a título de ex-presidente da República”.

PERTENCEM À UNIÃO – Para o subprocurador Lucas Furtado, por conta do valor dos presentes, que segundo o MPTCU podem se aproximar de meio milhão de reais, os itens devem ser incorporados ao patrimônio da União, e não podem permanecer com Bolsonaro.

“Avalio que permitir que o ex-presidente seja o guardião desse valioso acervo, ainda que como fiel depositário, com todo respeito, configura uma opção temerária e que não resguarda adequadamente o interesse público e o patrimônio da União”, afirma.

Ainda de acordo com Furtado, os itens “podem ser objeto material de possíveis crimes” e, por isso, precisam passar por perícia. “Sendo, pois, prova material de supostos crimes, é imprescindível que estejam sob o escrutínio da autoridade policial, para fins periciais, e não na posse do investigado”, diz.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Ainda há muito a investigar. O próprio Bolsonaro listou em seu “acervo pessoal” 44 relógios, sendo 8 de parede, 74 facas e 54 colares. E praticamente todos são peças de alto valor. É evidente que ninguém iria presentear o presidente da República com relógios populares, facas de cozinha ou colares comprados no camelódromo. (C.N.)

Nova política energética definirá o modelo econômico que Lula pretende adotar

Publicado em 11 de março de 2023 por Tribuna da Internet

Petrobras (PETR4) se torna a maior pagadora de dividendos do mundo

Como sempre, a Petrobras estará à frente do sistema

Luiz Carlos Azedo

A clássica disputa entre o Ministério das Minas e Energia e a Petrobras se repete mais uma vez. Agora, opõe o ministro Alexandre da Silveira (PSD-MG) e o presidente da empresa, ex-senador Jean Paul Prates (PT- RN). É um choque que tem a cara do governo Lula, porque opõe um liberal e um social-democrata, respectivamente, com esquemas diferentes de raciocínio econômico. Uma questão-chave para o futuro do país é a política energética; ela determinará nosso desenvolvimento.

Como em outras áreas do governo, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, vem tendo grande protagonismo na defesa da agenda desenvolvimentista do PT, que levou o partido ao segundo turno. Chegou a dizer que se a Petrobras não seguir a orientação que vem sendo dada pelo presidente Lula, estará se fazendo um “estelionato eleitoral”.

FRENTE AMPLA – Ocorre que Lula somente venceu as eleições porque obteve apoio de partidos de centro e da chamada terceira via, com uma agenda social-liberal. Prates representa a agenda raiz, Silveira a da frente ampla, que obviamente é mais feijão com arroz.

Os fantasmas que rondam a queda de braço entre Prates e Silveira, como na disputa pelas indicações dos membros do Conselho de Administração da empresa, são o fracasso da “nova matriz energética” do governo Dilma Rousseff, que apostou no velho “capitalismo de Estado” como via de desenvolvimento; e os escândalos de corrupção na Petrobras, o chamado “petrolão”, combustível da Lava-Jato e da crise ética que atingiu o nosso sistema partidário.

O “capitalismo de Estado” foi uma via de industrialização das ditaduras fascistas e do “socialismo real”. No Brasil, durante o Estado Novo e no regime militar pós-1964, sobretudo no governo Geisel, também.

PARCERIA NECESSÁRIA – Há liberais que consideram o “capitalismo monopolista de Estado” uma parceria necessária entre o governo e as grandes empresas, com objetivo de fortalecê-las. Nesse caso, o Estado representa os interesses do grande capital em detrimento dos consumidores. Um modelo bem-sucedido com esse viés é o da Coreia do Sul.

A experiência dos “campeões nacionais” seguiu a fórmula coreana; durante o governo Dilma Rousseff, obteve alguns sucessos e colecionou fracassos. A participação no sistema de financiamento eleitoral, que permitia doações dessas empresas, envenenou o sistema político brasileiro, sendo substituído pelo financiamento público.

Grandes empresas, a JBS e a Ambev, se transformaram em multinacionais; estatal, a Petrobras foi “canibalizada”. O resultado do fracasso desse modelo foi o tsunami eleitoral de 2018, que elegeu Jair Bolsonaro à Presidência.

ESTRATÉGIA FRACASSADA – A Petrobras não esteve apenas no epicentro dos escândalos de corrupção, a empresa foi protagonista do fracasso da estratégia de adensamento das cadeias produtivas nacionais por não se integrar de forma competitiva às cadeias globais de valor.

Por exemplo, desperdiçou o boom do pré-sal: ao mesmo tempo em que o Brasil criava uma empresa a fórceps para produzir sondas de petróleo, a Sete Brasil, que se tornou um foco de corrupção, o governo suspendeu por vários anos os leilões de poços do pré-sal, porque a petroleira brasileira não tinha recursos para participar das disputas.

Isso desorganizou todo o “cluster” de exploração de petróleo, que envolve milhares de empresas, especialistas e técnicos de várias nacionalidades, que se deslocam entre as bacias petrolíferas dos países produtores a cada etapa da exploração. O Rio de Janeiro foi do céu ao inferno nesse processo.

NÃO DEU CERTO – A recidiva do “capitalismo de Estado” no Brasil chegou a ser saudada como um modelo à brasileira, no momento em que diversos países tentavam reinventar o Estado, com regimes iliberais, para se modernizar e acompanhar a globalização. Foi mais um voo de galinha. Parceiros comerciais mais competitivos, principalmente a China, dominaram o nosso mercado e deslocaram a produção brasileira de mercados tradicionais de nossas exportações industriais, como a América Latina.

China, Índia, México, Polônia, Indonésia, Vietnã e Tailândia se beneficiaram mais do que os outros países da fragmentação da produção e da expansão das cadeias globais de valor. Entretanto, com 50 milhões de jovens, o Brasil desperdiçou o chamado “bônus demográfico”, quando há, proporcionalmente, um maior número de pessoas em idade ativa aptas a trabalha. O aumento da população nessa faixa etária começou no início da década de 2010 e vive o seu auge, mas essa geração foi desperdiçada.

Também desperdiçamos o ciclo de commodities, ao aumentar o consumo sem ampliar os investimentos na infraestrutura e na educação. Na vanguarda da inteligência artificial e da internet das coisas, os Estados Unidos agora protagonizam um rearranjo de suas cadeias globais, para reduzir a dependência à importação de componentes eletrônicos, principalmente da China. Quem mais se beneficiou disso até agora foi o Vietnã.

A nova teoria da conspiração de Bolsonaro sobre as joias inclui boicote a ele e Michelle

Publicado em 11 de março de 2023 por Tribuna da Internet

Bolsonaro nos EUA: ex-presidente começa a palestrar em eventos da direita  americana | Exame

Bolsonaro se considera o mais novo perseguido político

Laryssa Borges
Veja

Em autoexílio nos Estados Unidos desde o ano passado, quando perdeu as eleições, o ex-presidente Jair Bolsonaro está convencido de que as revelações de que ele e a então primeira-dama Michelle foram presenteados com joias milionárias pelo governo da Arábia Saudita e não incorporaram os bens no acervo da Presidência da República fazem parte de um plano de petistas para ofuscar eventos que supostamente confeririam dividendos políticos ao ex-casal presidencial.

A divulgação de que um estojo com joias avaliadas em mais de 16 milhões de reais foi apreendido pela Receita Federal na mochila do assessor do ex-ministro de Minas e Energia Bento Albuquerque teria por objetivo, segundo o capitão disse a interlocutores, tirar os holofotes de sua participação na Conferência de Ação Política Conservadora (Cpac), prevista para o sábado 3.

DIA DA MULHER – No caso da ex-primeira-dama, dragada para o escândalo depois de Albuquerque apontá-la como provável destinatária do mimo dos árabes, a trama teria como meta minar atos políticos que ela pretendia realizar em razão do Dia Internacional da Mulher.

A análise é compartilhada também por próceres do PL, que veem o presidente Lula colher importantes tentos políticos com episódios para além do caso das joias, como os atos golpistas de 8 de janeiro e a crise humanitária dos ianomâmis, sem qualquer tipo de contraponto porque o principal adversário político está fora do Brasil.

Bolsonaro participou da Cpac ao lado do ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que chamou o brasileiro de um “homem muito popular na América do Sul” e que “conquistou todos esses políticos americanos”, mas o noticiário brasileiro de fato já estava tomado pelas revelações, feitas um dia antes de que representantes do governo do capitão haviam tentado burlar o Fisco e trazer ilegalmente ao país joias destinadas a Michelle.

EVENTOS CANCELADOS – A ex-primeira-dama, que havia se reunido dias antes do escândalo das joias com a cúpula do PL para definir as atividades que marcariam sua estreia como dirigente do PL Mulher, cancelou todos os eventos e foi aconselhada a submergir. Só deve voltar a aparecer em público no próximo dia 21, véspera de seu aniversário, para um ato político do partido.

Bolsonaro traçou o próprio diagnóstico sobre os impactos político-eleitorais do episódio, considerado de fácil assimilação para o eleitor comum ainda disposto a empenhar votos no espólio bolsonarista.

Com a escalada de suspeitas, potencializada pela recente confirmação de que o almirante, um dos dez militares que compuseram o primeiro escalão presidencial, trazia consigo outro presente dos árabes destinado ao próprio mandatário, o ex-presidente deu ordens expressas para isolar ainda mais o antigo auxiliar. O temor imediato é que qualquer passo em falso possa ser interpretado como uma combinação de versões a ser apresentadas à Justiça.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –
 Em matéria de versões, estamos de prato cheio, porque o almirante das arábias já deu três delas e Bolsonaro já deu duas. Nenhuma delas, porém, corresponde à realidade dos fatos. (C.N.)

Pode demorar, mas um dia renunciaremos ao desejo de censurar e punir os adversários

Publicado em 11 de março de 2023 por Tribuna da Internet

10 Melhores charges sobre censura de livros em 2019

Charge do Junião (Arquivo Google)

Fernando Schüler
Veja

É um “psicopata”, disse Lula, em sua entrevista para a Band, na outra semana. O presidente já havia chamado seu adversário de nazista, fascista, genocida, mas agora lhe atribuía um transtorno mental. Minutos depois, na mesma entrevista, pregou o “amor”, e disse que é preciso “superar o ódio neste país”. Bolsonaro não ficou longe. Desde o seu discurso de posse, há quatro anos, chamou seus adversários de bandidos, comunistas, “nove dedos” e uma fila enorme de xingamentos.

Não me recordo de ouvi-lo pregando o amor. Até procurei, mas não encontrei. Se alguém achar, posso retificar aqui. Apoiadores de ambos os lados de nossa rinha de galo política não gostam muito de ler coisas assim, mas a verdade é que nenhum de nossos dois maiores líderes tem o mais remoto interesse em pacificar o país, nem combater o “ódio”, seja isto o que for.

FALTA SERENIDADE – De minha parte, não gostaria que fosse assim. Quem me lê aqui sabe de minha insistência em temas como o pluralismo, a tolerância, a “mitezza”, palavra usada pelo grande Norberto Bobbio para se referir à virtude da serenidade, na política. O fato é que minha opinião conta muito pouco, se é que conta. Quem de fato dá as cartas, no jogo político brasileiro, está interessado na guerra.

Tivessem poder para isso, não duvido que nossas duas grandes tribos políticas mandariam calar, prender (se não coisas piores) seus respectivos inimigos. Como sair dessa enrascada? Por ora, não vejo muita luz no fim do túnel, mas chegará o tempo em que descobriremos.

O que acho mais curioso, nisso tudo, é o duplo padrão. O sujeito acha um completo horror quando o seu presidente-inimigo diz uma fake news. Mas quando o presidente-amigo diz uma mentira chapada, do tipo “a economia não cresceu no ano passado”, ele acha legal. E que se alguém desmentir é porque “está do outro lado”.

DISCURSO DO ÓDIO – A última onda do duplo padrão brasileiro parece ser o do “combate ao discurso de ódio”. Ainda agora o governo federal instalou sua comissão para tratar do tema, que deve ser tornar uma “política de Estado”, segundo o ministro dos Direitos Humanos. Nenhuma crítica aos integrantes da comissão, não é esse o ponto.

Ela por óbvio tem um viés, como teria se o governo anterior fizesse algo nessa linha. E é por aí que se iniciam os problemas. Se poderia pensar em um grande entendimento nacional, com gente expressando divergências reais de opinião, promovendo valores como a tolerância? É evidente que sim, mas não é do que se trata.

A primeira pergunta embaraçosa: quem tem o poder de dizer o que é ou não um discurso de ódio? Susan Benesch, que dirige o Dangerous Speech Project, em Harvard, define alguns traços comuns do discurso de ódio. Um deles é a “desumanização”. “Referir-se às pessoas como insetos ou animais”, diz ela. Os nazistas costumavam chamar judeus de “ratos”, e os hutus, no genocídio de Ruanda, chamavam seus inimigos de “baratas”. No Brasil recente, virou arroz com feijão chamar seus inimigos de “gado” ou “jumentos”. Tempos atrás testei essas definições em grupos com distintas visões. Cada qual foi seletivo, achando que seu animal favorito para associar os outros nada tinha a ver com o ódio.

IMPOR LIMITES – É perfeitamente possível impor limites à liberdade de expressão. O Brasil, por exemplo, em 1989, criminalizou a injúria racial e o uso da suástica como propaganda nazista. O ponto é que isso deve ser feito com parcimônia, no Congresso, com uma clara tipificação legal. E sua aplicação deve ser objetiva, válida para todos, vedada a censura prévia.

No Brasil atual cometemos todos os pecados: censuramos previamente, dispensamos solenemente o devido processo, inventamos crimes a partir de decisões idiossincráticas do Judiciário, com base em teses vagas sobre “não dizer a verdade” ou “ameaçar a democracia”. E mais: abrindo sempre mais o leque interpretativo e relativizando mandamentos constitucionais, como a inviolabilidade de parlamentares em suas “opiniões, palavras e votos”.

Tudo isso sob o transe político que invadiu um universo em que jamais poderia ter ingressado: o mundo das leis e das instituições de Estado, como é o Judiciário.

TOLERÂNCIA REPRESSIVA – Todos esses erros são antigos. Eles atendem à velha sedução do que Herbert Marcuse definiu, nos anos 60, como a “tolerância repressiva”. Em nome da “democracia real”, era preciso ser intolerante com quem “impede uma existência sem medo ou miséria”. O argumento sugere um sujeito demiúrgico da verdade. Só eu defino os limites da tolerância, e partir daí disponho não só do direito de calar, mas de fazê-lo com um estranho senso de virtude.

George Orwell decifrou o grande truque: faça as piores coisas, mas convença as pessoas de que você está agindo pelas melhores razões. Era assim que, em sua distopia, o ministério da paz fazia a guerra, e O’Brien torturava Winston Smith para salvá-lo de um mundo em extinção.

Se alguém realmente quiser combater o discurso de ódio, algumas sugestões. A primeira: dê o exemplo. Comece arrumando a própria cama, como diria Jordan Peterson. Pare você mesmo de dar discurso de ódio e fazer de conta que está pregando o amor e a pacificação. A segunda é: aprenda a escutar as pessoas e ideias que você realmente odeia, e tente agir com empatia. Há uma penca de pesquisadores tratando da “teoria do contato”.

DENTRO DA SOCIEDADE – A tese de que é preciso conviver, olhar a face do rosto, como dizia Emmanuel Levinas, com seu jeito poético, para que se gere a empatia (contra a qual conspira a frieza do mundo digital).

Por fim, isso deve ser feito no âmbito da sociedade, não do Estado. E muito menos pelo Poder Executivo, transitoriamente conduzido por um grupo político, que deve atender a regras objetivas de impessoalidade e jamais arbitrar sobre direitos individuais.

No rastro da explosão de ideias e dissenso produzida pela revolução de Gutenberg, no século XV, nossos antepassados europeus se dedicaram a mais de dois séculos de guerra, queima de livros, bruxas e hereges. Elas também lutavam pela verdade, e é possível pensar que suas divergências girassem em torno de temas mais graves do que os nossos.

EXEMPLO DE ERASMO – A duras penas, fomos aprendendo. Um dos primeiros foi Erasmo de Roterdam. Ele entendeu as coisas elementares: que a força era incapaz de mover a consciência, que era preciso reviver Sócrates e sua crença no diálogo. E que a censura e a perseguição eram apenas um tipo de tolice, própria daqueles que “cegos pelo amor-próprio, tomam para si, sem merecê-lo, todo o mérito que injustamente negam aos outros”.

Agora nos perdemos novamente, em meio à revolução tecnológica. Somos os tolos da história. Fica aqui o meu prognóstico: pode demorar algum tempo, mas aprenderemos.

Como nossos antepassados, em algum momento renunciaremos ao desejo de censurar e prender quem pensa diferente. Espero apenas que até lá nossos pequenos inquisidores não produzam grandes estragos, mesmo que, confesso, não seja tão otimista.

Estudos têm mostrado que populistas acumulam mais perdas do que ganhos


Os populistas amam tanto os pobres que os multiplicam” - Blog do Ari Cunha

Charge reproduzida do Arquivo Google

Maria Hermínia Tavares
Folha

A frase é célebre: “As notícias sobre minha morte foram muito exageradas”. Foi como o escritor americano Mark Twain (1835-1910) reagiu à infundada notícia de que havia morrido. O mesmo se aplica aos lúgubres vaticínios sobre o destino das democracias assediadas pela ascensão mundial de movimentos e governos populistas de direita ou de esquerda.

A mais conhecida das profecias do gênero consta do best-seller dos cientistas políticos Steve Levitsky e Daniel Ziblatt, “Como Morrem as Democracias”.

CRÍTICA OPORTUNA – Motivo de insônia dos democratas que levam à cabeceira as ameaças ao governo representativo, o livro foi criticado com propriedade na edição da última segunda-feira desta Folha por meu colega de coluna Marcus André Melo.

De fato, estudos abrangentes têm mostrado que os populistas antes acumulam perdas do que ganhos; outros levantamentos indicam que, em escala global, não houve aumento significativo dos regimes fechados. A derrota eleitoral de Donald Trump e, depois, de seu êmulo brasileiro são exemplos recentes da resiliência dos sistemas democráticos ameaçados por governantes ostensivamente hostis a seus valores e regras.

Ainda assim, seria errado supor que nada mudou desde o fim do século 20 e o começo deste —o decênio dourado da democracia representativa.

CHINA E RÚSSIA – Ao contrário do que muitos imaginavam à época, a expansão do capitalismo na China fez dela potência mundial, mas não lhe trouxe abertura política —e, sim, reafirmação do autoritarismo de partido único. Em igual medida, a Rússia capitalista tornou-se uma ditadura unipessoal violenta e belicosa.

Ao mesmo tempo, cresceram movimentos antissistema em países democráticos, com significativa força eleitoral. Genericamente chamados de populistas, simpatizam com o autoritarismo e nutrem repulsa pelos valores e regras que limitam a concentração de poder no Executivo e asseguram os direitos de minorias.

No poder, investem contra as instituições que garantem a lisura da competição eleitoral, a independência do Judiciário e a liberdade de imprensa.

ALGUNS EXEMPLOS – É o que há tempos se verifica na Venezuela, na Hungria, na Polônia e, intermitentemente, na Itália. É o que também se registra hoje em países tão diversos como Índia e Turquia, México e Israel. Sem falar no que assolou o Brasil de Bolsonaro e os Estados Unidos de Donald Trump.

A crescente envergadura do populismo autoritário até agora não alterou no mundo o balanço entre democracia e seu avesso.

Mas está mudando significativamente o jogo político e obriga um sistema cuja natureza requer negociações e formação de consensos a funcionar sob o espectro da radicalização política.

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