quinta-feira, novembro 03, 2022

Bolsonarista, Cássia Kis ajoelha e reza em frente a Comando Militar no Rio





A atriz Cássia Kis, apoiadora do presidente Jair Bolsonaro (PL), participou do ato antidemocrático de bolsonaristas em frente ao Comando Militar do Leste no centro do Rio de Janeiro, na tarde desta quarta-feira, 2, contra a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais. A artista foi criticada recentemente por discurso homofóbico.

Dois vídeos que circulam entre os apoiadores de Bolsonaro mostram Cássia no ato. No primeiro, ela chega ao local da manifestação e é ovacionada pelos militantes. Em um segundo vídeo, ela aparece ajoelhada na Avenida Presidente Vargas rezando a oração Ave Maria com um terço católico na mão.

A atriz acumula uma série de polêmicas. Márcia Verçosa de Sá Mercury, filha de Daniela Mercury e Malu Verçosa entrou com uma representação criminal no Ministério Público contra Cassia Kis, por conta de seus comentários homofóbicos feitos durante live com a jornalista Leda Nagle na última sexta-feira, 21.

"Não existe mais o homem e a mulher, mas a mulher com mulher e homem com homem, essa ideologia de gênero que já está nas escolas. Eu recebo as imagens inacreditáveis de crianças de 6, 7 anos se beijando", disse Kis.

Estadão / Dinheiro Rural

Militares não agem para impedir bloqueio do QG do Exército; veja imagens




Manifestante pede "1964 de novo" (referência ao ano do golpe militar no Brasil), no ato realizado no QG do Exército nesta quarta-feira (2), dia de Finados — Foto: Gabriela Oliva/O Tempo

Manifestantes fazem discursos e exibem faixas pedindo fechamento do STF e intervenção militar. Eles fecharam parte da principal avenida com caminhões

Por Gabriela Oliva e Renato Alves 

Militares do Exército circulam em meio a manifestantes que pedem intervenção das Forças Armadas, no QG do Exército

Militares não estão agindo para impedir o cerco ao Quartel General (QG) do Exército, em Brasília. Os manifestantes começaram a chegar ao Setor Militar Urbano (SMU), bairro do Plano Piloto onde ficam as principais instalações da corporação na capital federal, ainda na noite de terça-feira (1º), para participar de ato que pede intervenção federal, por meio das Forças Armadas, marcado para começar às 9h desta quarta-feira (2). Ao longo da manhã, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) têm ocupado os gramados, as calçadas e a via principal, em frente aos prédios onde ficam os órgãos administrativos e operacionais da instituição.

Apesar do movimento ilegal, militares uniformizados, a maioria da Polícia do Exército, estão transitando normalmente no ato e não reagindo aos discursos contra o Poder Judiciário, em especial a Justiça eleitoral. Muitas faixas pedem intervenção de militares, saída e até prisão de ministros do Supremo Tribunal Federal (TSE) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Algumas são exibidas em carretas e caminhonetes, paradas irregularmente ao longo da Avenida do Exército. 

Há inclusive um caminhão de som. Em determinado momento, o locutor anunciou que o general Augusto Heleno, que é general da reserva do Exército e ministro-chefe de Segurança Institucional do governo Bolsonaro, havia mandado mensagem de apoio aos manifestantes. Com camisetas nas cores verde e amarela, em sua maioria, eles também questionam o resultado das urnas, que ratificou Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como o presidente eleito no segundo turno das eleições, no domingo (30). 

Como apurou a reportagem de O TEMPO, por meio de acesso às redes bolsonaristas no Telegram e no Instagram, essa manifestação é uma “última cartada” dos eleitores de Bolsonaro, que acreditam em um apoio das Forças Armadas para anular as eleições presidenciais e manter o atual chefe do Executivo no Palácio do Planalto. Caso não surta o efeito esperado, os bloqueios nas estradas, que começaram na noite de domingo, logo após o TSE confirmar a vitória de Lula, devem ser intensificados.

Bolsonaristas viram pronunciamento de Bolsonaro como incentivo

Bolsonaro falou sobre o resultado das eleições pela primeira vez apenas no fim da tarde de terça, quase 40 horas após a consagração de Lula pelas urnas. Bolsonaro agradeceu os mais de 58 milhões de votos que recebeu, mas não parabenizou o adversário. Também não pediu explicitamente a desmobilização de bloqueios de rodovias. Ao contrário. Disse que as manifestações são “pacíficas”.

O chefe do Planalto justificou que o movimento ao afirmar que é “fruto de indignação e sentimento de injustiça de como se deu o processo eleitoral”, respaldando o movimento. Em seguida, disse, porém, que os métodos de seus apoiadores “não podem ser os da esquerda” e nem incluir o cerceamento do direito de ir e vir. Nos grupos bolsonaristas nas redes sociais, o discurso soou como aval para uma resistência. 

No caso dos apoiadores do chefe do Executivo que moram no Distrito Federal, eles sentiram-se insuflados e divulgaram um ato na Praça dos Cristais, localizada em frente ao QG do Exército. No Telegram, os bolsonaristas elogiaram o tom da fala do chefe do Executivo e convidaram os membros do canal para o ato, deixando claro que vão pedir intervenção das Forças Armadas.

“Amanhã (quarta) só temos até meio dia para pedir intervenção federal. Partiu QG de Brasília”, disse um apoiador. Outro publicou: “Nosso presidente é top. Não reconheceu as eleições. Vamos liberar as rodovias e nos concentrar nos unir nos quartéis generais para pedir a intervenção federal”.

Desde então, bolsonaristas de todo o país têm convocado militantes para atos em frente a quartéis do Exército com o mesmo intuito, enquanto continuam os bloqueios em rodovias, mesmo após o STF mandar as polícias militares agirem, diante da inércia da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que tem o diretor sob suspeita de conivência com o movimento.

Pedido de intervenção é ilegal e pode render processo criminal 

A declaração de manifestantes que fecham rodovias pelo país sobre a existência de uma fraude nas eleições deste ano não encontra amparo legal. A Justiça Eleitoral, além de entidades nacionais e internacionais que participaram da fiscalização do pleito, confirmaram a lisura do processo. 

Da mesma forma, a possibilidade de uma “intervenção militar” com base no artigo 142 da Constituição, pedida por grupos de manifestantes, não tem respaldo na lei brasileira e pode resultar em processo judicial para quem fizer esse pedido.

O que é e como funciona o Setor Militar Urbano

O SMU abriga a maior parte dos quartéis do Exército Brasileiro em Brasília. Em destaque, os edifícios-sede do Quartel General, do Comando Militar do Planalto (CMP), da 11° Região Militar, da Organizações Militares Operacionais e da Prefeitura Militar de Brasília (PMB). 

Também há 685 casas, onde moram militares e familiares – cerca de 2,5 mil pessoas. Entre as moradias e os quartéis há praças com nomes de personalidades nacionais, como Tom Jobim, Cora Coralina e Ayrton Senna, além de fontes, parques infantis e clubes esportivos.

Ainda há o Hospital Militar de Área de Brasília (HMAB), que atende os militares e seus dependentes que residem no Distrito Federal, duas escolas, uma creche e dois hotéis de trânsito.

O Tempo

Reforma que unifica impostos sai na frente em novo governo Lula

 




A discussão de uma proposta de reforma tributária sobre bens e serviços avançou durante a campanha do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e é a que está mais madura para aprovação pelo Congresso no início do próximo governo.

Com apoio direto do vice eleito Geraldo Alckmin, que se engajou na defesa da proposta nas reuniões com empresários durante a corrida presidencial, essa reforma pode sair na frente em relação à proposta de mudanças do Imposto de Renda (IR), apesar de complementares. A reforma cria o Imposto sobre Valor Agregado (IVA), reunindo Cofins, PIS, ICMS e ISS.

Alckmin foi designado coordenador do governo de transição e tem como uma das prioridades para a agenda econômica abrir as negociações em torno da mudança na tributação sobre o consumo, considerada essencial para a retomada do crescimento e da produtividade.

Segundo apurou o Estadão, alguns caminhos estão sendo discutidos para a tramitação no Congresso. Uma das possibilidades em análise é retomar a tramitação pela Câmara, por meio da Proposta de Emenda de Constitucional (PEC) 45, ou buscar a aprovação de parecer do senador Roberto Rocha (PTB-MA) da PEC 110 na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.

Há uma preferência pela retomada via Câmara com o relatório do deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), relator da comissão mista do Congresso formada para buscar uma convergência entre as duas propostas.

O relatório não foi votado por conta do boicote direto do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Os negociadores técnicos, então, fizeram modificações na PEC 110, que encontrou resistências e não foi aprovada, apesar de o relator Roberto Rocha ter acatado diversas emendas que abriram concessões ao setor de serviços. A crítica maior é centrada no fato de que a PEC 110 remete a maior parte das decisões para regulamentação complementar, sem detalhá-las. O setor de serviços considera isso uma carta branca, e trabalhou para que o parecer não fosse votado.

Desoneração da folha

Já as discussões da reforma do IR não estão tão avançadas, embora seguidas reuniões técnicas tenham sido feitas pela equipe de Lula. Um dos caminhos é incluir na reforma o início da desoneração da folha (na prática, cortar encargos sobre os salários), medida cobrada pelas empresas de serviços para apoiar a reforma.

Uma das dificuldades é descascar o "abacaxi" de incluir a promessa de isentar do IR as pessoas físicas que ganham até R$ 5 mil - medida que os tributaristas do partido consideram mais regressiva, ou seja, que prejudica os mais pobres.

A reforma do IR é mais difícil de consenso porque o projeto do governo Bolsonaro, elaborado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, foi aprovado na Câmara por ampla maioria com apoio irrestrito de Lira, contendo distorções. A maior delas é isentar os acionistas das empresas com faturamento de até R$ 4,8 milhões (Simples e lucro presumido) do pagamento de impostos sobre lucros e dividendos.

Ao menos três alternativas de modelo estão sendo desenhadas para apresentação ao futuro ministro da área econômica, ainda não escolhido por Lula.

O consenso na equipe de Lula é de que, sem derrubar essa isenção para Simples e lucro presumido, não haverá espaço fiscal nem para corrigir a tabela nem para desonerar a folha, além de agravar distorções do sistema tributário, como fragmentação de empresas e pejotização.

Estadão / Dinheiro Rural

Ao vencedor, a armadilha fiscal - Editorial




O presidente eleito e sua equipe terão de trabalhar rapidamente para atenuar o risco real de graves problemas nas contas públicas logo no primeiro ano de mandato

Encerrada a comemoração, o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, tem menos de dois meses para preparar um início de governo com alguma segurança, sem risco de afundar num enorme buraco orçamentário. Um dos alertas aponta um desarranjo fiscal de R$ 280,3 bilhões, em 2023, se a nova administração tentar cumprir todas as promessas penduradas nas contas públicas. Essa estimativa é da consultoria Tendências. Projeções diferentes podem ser apresentadas por outras fontes, mas nenhuma é tranquilizadora. As bondades incluem a manutenção do Auxílio Brasil em R$ 600, reajuste para os servidores e correção da tabela do Imposto de Renda, entre outros compromissos. Em busca de popularidade, o presidente Jair Bolsonaro multiplicou, neste semestre, os gastos sociais e os cortes de impostos, para proporcionar, por exemplo, combustíveis mais baratos. A desoneração de combustíveis deve custar ao Tesouro, no ano inicial do novo governo, R$ 52,9 bilhões, segundo o levantamento da consultoria.

As bondades nem sequer cabem no Orçamento já esboçado. No projeto enviado pelo Executivo ao Congresso está previsto Auxílio Brasil de R$ 405. Mas os dois candidatos em confronto no segundo turno prometeram preservar o valor de R$ 600. Não se espera um recuo do presidente eleito. Além disso, o custo ainda aumentará, se o número de beneficiários for ampliado. Qualquer corte de benefícios terá algum custo político. A mudança menos custosa, por ser a mais fácil de justificar, talvez seja a eliminação ou redução do benefício aos consumidores de combustíveis. Pelo menos parte dessa desoneração favorece os proprietários de automóveis, em vez de se concentrar nas pessoas mais necessitadas.

Além de estourar o Orçamento projetado, as despesas e renúncias fiscais classificáveis como bondades são incompatíveis com o respeito ao teto de gastos. O presidente eleito já havia indicado, durante a campanha, a intenção de abandonar ou reformular o teto constitucional, mas sem dizer com clareza como seria a nova âncora fiscal. Com esse ou com outro nome, algum dispositivo é indispensável, no Brasil, para dar previsibilidade e confiabilidade à gestão orçamentária.

Neste ano, nem sequer se respeitaram normas básicas e de importância evidente, como a proibição de certas iniciativas em semestre de eleição. Benefícios foram concedidos amplamente e usados, sem disfarce, como jogadas eleitorais. Um retorno às normas elementares da responsabilidade fiscal já será um ganho importante para a política brasileira e para as condições de manejo das contas públicas.

O presidente eleito e seus auxiliares podem iniciar seu trabalho acompanhando a tramitação do projeto de lei orçamentária no Congresso e tentando negociar condições mais seguras para atuação do novo governo em 2023. O esforço também poderá ser mais amplo e isso dependerá das decisões estratégicas dos futuros gestores. Enfim, o trabalho de transição, previsto em lei, poderá contribuir para a nova equipe de governo planejar sua atuação a partir de janeiro.

O quadro de referências para o projeto de Orçamento inclui previsões de crescimento econômico de 2,5%, inflação de 4,5% e taxa básica de juros de 12,5% em 2023. No mercado há muito menos otimismo quanto à expansão da economia. No último boletim Focus, a mediana das projeções aponta crescimento de 0,64% para o Produto Interno Bruto (PIB) no próximo ano. Se esse for o avanço do PIB, a receita tributária poderá aumentar menos do que estimam os técnicos do Ministério da Economia.

As condições externas, com tensões inflacionárias e alta de juros no mundo rico, também podem atrapalhar o desempenho do Brasil. Menor dinamismo dos negócios prejudicará a receita, será inevitável, e a gestão fiscal ficará muito complicada, especialmente por causa dos benefícios prometidos na campanha eleitoral. A equipe do presidente eleito terá de ser rápida e eficiente para garantir um início de mandato com entraves fiscais menores que aqueles previsíveis neste momento.

O Estado de São Paulo

Governo Bolsonaro acaba com ato de covardia institucional




Isolado, presidente imita Trump e entrega os pontos, sem reconhecer vitória de Lula

Por Igor Gielow (foto)

O presidente Jair Bolsonaro (PL) encerrou seu governo na prática nesta tarde de terça (1º) com um ato de covardia institucional, para ficar próximo da pior sigla da ditadura que enalteceu de várias formas ao longo de sua gestão.

Convocou sem ênfase o fim de protestos em rodovias por parte de uma franja de seus apoiadores que acredita que coisas como intervenção militar para negar a derrota por margem mínima sofrida para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Agradeceu os mais de 58 milhões de votos que teve, mas não reconheceu a vitória do adversário. Deixou para um encabulado, se a palavra se aplica, Ciro Nogueira (Casa Civil) o papel de dizer que irá começar a transição de governo com o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB).

Ou seja, admitiu a derrota sem ter a hombridade de fazê-lo. Novamente, seguiu a cartilha deixada por seu modelo político, o ex-presidente americano Donald Trump. Em novembro de 2020, o republicano demorou uma semana após a proclamação do resultado da eleição para, a seu estilo, postar no Twitter que Joe Biden havia ganho a eleição.

Só para dizer, na sequência, que o rival democrata havia roubado o resultado, iniciando uma fracassada batalha legal que só acabou com a apoplexia da invasão do Capitólio americano em 6 de janeiro e o fim do sonho trumpista.

O silêncio adotado por Bolsonaro desde a derrota acaba por minar a legitimidade de sua expressiva votação. Ele inovou: em vez de comandar uma jornada golpista que acabasse num "Capitólio caipira", o presidente deixou que seus apoiadores atrapalhassem a vida de milhares de brasileiros nas estradas só para dizer que isso era um método da esquerda.

Se achava que esse golpismo por procuração ia funcionar, pelo visto calculou mal.

A covardia institucional se ampliou na tentativa de cooptar o Supremo Tribunal Federal para a farsa, algo esgrimido com tenacidade pelas sucessivas decisões de Alexandre de Moraes, secundadas pela maioria da corte, ao lidar com os arreganhos autoritários do que se desenrolava nas ruas com apoio da Polícia Rodoviária Federal.

O convite para um convescote privado no Palácio da Alvorada, prontamente negado por quem não foi indicado por ele para a corte, selou o destino de qualquer ideia de armistício com a montanha de problemas legais que esperam Bolsonaro sem foro.

A escalada golpista associada ao presidente ficou, de todo modo, em aberto com seu não reconhecimento da vitória de Lula. O petista, aliás, até aqui teve comportamento elogiável de não cair na esparrela de que poderia haver um terceiro turno nas estradas bloqueadas do país.

Isso, aliado ao esvaziamento da tática colegial do bolsonarismo, efetivamente coloca um fim ao governo de Jair Messias Bolsonaro dois meses antes do prazo legal.

Claro, temas como o do relatório que o presidente quer extrair da Defesa contras as urnas eletrônicas quase com certeza surgirão, mas os dentes do Cérbero que o presidente sempre apresentou ao establishment se mostraram de açúcar.

O paralelo histórico possível, sem a dramaticidade obviamente, é com Jânio Quadros e sua tentativa de autogolpe em 1961. Abandonado de A de Arthur Lira a Z de Zambelli (a Carla, a deputada pistoleira), resta agora a Ciro tocar a transição de um país sem comando, dando uma dimensão nova à expressão americana "pato manco", que designa presidentes sem poder no fim do mandato.

Bolsonaro ainda vai querer causar estragos, claro, está em sua natureza. Sua origem militar, contudo, deveria lembrá-lo do que significa um chefe sem tropa após uma derrota de grande magnitude. Admitir que perdeu dizendo que vai "cumprir a Constituição" não lhe deixa exatamente muita pólvora no paiol da contestação.

Folha de São Paulo

"Congresso não irá abrir mão do orçamento secreto"




Cientista político avalia que Lula não deverá conseguir reverter mecanismo de distribuição de verbas criado no governo Bolsonaro e que transição de governos será conturbada.

Por João Pedro Soares

Após derrotar Jair Bolsonaro (PL) por margem apertada, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem como tarefa principal a ampliação da base de apoio que o levou à vitória no segundo turno. Pela sua coligação, o presidente eleito tem ao seu lado apenas 122 dos 513 deputados na Câmara.

O número deve aumentar à medida que avançam as negociações com os partidos que não apoiaram Lula, sobretudo aqueles reunidos no bloco conhecido como Centrão. No entanto, o petista irá enfrentar um cenário delicado na relação com o Congresso.

Na avaliação do cientista político Cláudio Couto, Lula terá dificuldades para repactuar a relação do Executivo com o Legislativo. O professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) afirma que o Congresso irá impor resistência caso o novo governo tente rever a utilização do chamado orçamento secreto, instituído no governo Bolsonaro.

"Colocar o gênio de volta na lâmpada é uma tarefa hercúlea", comenta. "Duvido que o Congresso empoderado vá abrir mão disso. Se o Congresso não quiser, não tem milagre que se faça."

O pesquisador avalia que o instrumento criado por Bolsonaro para garantir maioria no Parlamento rompeu um pilar importante do presidencialismo de coalizão brasileiro.

"A gente tinha um Executivo forte, que tinha como um dos seus elementos de força exatamente essa capacidade de barganhar com o Legislativo, a partir do controle do orçamento como um instrumento de obtenção de apoio, comenta.

Em entrevista à DW, Couto diz acreditar que a transição de poderes será conturbada – um cenário bem diferente de 2002, quando Lula venceu e cooperou estreitamente com Fernando Henrique Cardoso.

"Ali, havia civilidade. Aqui não há civilidade alguma, a gente está falando em um governo de barbárie", diz. "Acho que a gente vai ter sabotagem, sonegação de informação, dificuldades para que se realizem reuniões de trabalho entre o governo que entra e o governo que sai."

DW: Quais são os primeiros desafios de Lula como presidente eleito?

Cláudio Couto: Ele precisa já pensar em um governo, então o primeiro ponto é montar uma coalizão. Evidentemente, é preciso atrair mais do que aqueles líderes e grupos políticos que estiveram com ele no primeiro ou mesmo no segundo turno, quando a base de apoio se ampliou. É preciso conversar com partidos do chamado Centrão e também do campo da direita pragmática, da centro-direita – se não partidos, pelo menos lideranças dentro desses partidos. Por exemplo, atrair gente que está dentro do PP, do Republicanos e do PL, inclusive. Ou seja, os partidos que constituíram a base de Bolsonaro. Sendo partidos e políticos de adesão, eles têm uma tendência a correr para o lado do governo, seja ele qual for, desde que obtenha alguma coisa em recompensa.

A senadora Simone Tebet (MDB) teve uma atuação importante no segundo turno da campanha de Lula. Que papel ela terá na construção do novo governo?

Um papel absolutamente crucial. Ela pode realmente auxiliar o próximo governo a construir sua base, pela influência que tem em setores do MDB e mesmo do PSDB, que participou da aliança dela, além do setor do agronegócio, no qual ela tem ótimo diálogo. Por essa razão, inclusive, é cogitada para o Ministério da Agricultura, embora demonstre maior interesse pela pasta da Educação. Ela certamente deve integrar o próximo governo, seria muito surpreendente se isso não ocorresse. Tanto ela quanto o Geraldo Alckmin (PSB) podem ser articuladores importantes dessa ampliação de apoio, algo absolutamente indispensável na construção da coalizão.

Em entrevista recente à DW, Gilberto Kassab (PSD) afirmou que Lula teria maioria confortável no Congresso. Você concorda?

Não sei quão confortável será essa maioria que o Lula poderá construir. O Kassab tem toda a razão quando diz que, para ampliar apoio no Congresso, Lula vai ter que falar com parte do Centrão. Sinceramente, eu ainda não saberia avaliar com muita exatidão o tamanho que o bolsonarismo raiz alcançou dentro dos partidos do bloco. Ele é maior do que já foi em outros momentos, e é claro que essa corrente vai ser estridente. Há um problema de saber como esses partidos vão funcionar, vão se "coesionar", tendo eventualmente uma ala muito radicalizada à direita no seu interior e, de outro lado, políticos dispostos a aderir ao novo governo, negociar algo com o novo governo, aderir a ele, apoiá-lo em muitas dessas pautas. Essa incógnita é o que torna tudo ainda muito complicado, sendo difícil saber o que exatamente vem pela frente.

Lula será capaz de repactuar a relação com o Congresso após a consolidação do orçamento secreto no governo Bolsonaro?

Eu não creio que ele vá conseguir reverter o orçamento secreto. Colocar o gênio de volta na lâmpada é uma tarefa hercúlea. Talvez, ele consiga torná-lo não secreto, mas tirar do controle do Congresso eu acho muito pouco provável. Será preciso tentar um entendimento com o Parlamento, no sentido de ver como o próximo governo vai fazer política orçamentária com o Legislativo, que vai ter um controle muito maior. Caiu um pilar central do que foram as relações Executivo-Legislativo no Brasil no presidencialismo de coalizão pós-1988. A gente tinha um Executivo forte, que tinha como um dos seus elementos de força exatamente essa capacidade de barganhar com o Legislativo, a partir do controle do orçamento como um instrumento de obtenção de apoio.

Isso caiu, e duvido que o Congresso empoderado vá abrir mão disso. Se o Congresso não quiser, não tem milagre que se faça. O Supremo Tribunal Federal (STF) pode agir de alguma forma, mas eu também sou muito cético quanto à capacidade ou à disposição do STF de reverter essa força, esse poder que foi lançado nas mãos do Congresso. O que o STF pode fazer é simplesmente interditar o caráter secreto desse instrumento, obrigar que haja transparência. Pode ser que o Congresso aceite esses termos.

Quais deverão ser os eixos principais da agenda que o governo irá apresentar ao Congresso?

É uma agenda sobretudo de reconstrução nacional. O país foi destruído nos quatro anos de Bolsonaro. A burocracia pública foi destruída e várias políticas públicas foram descontinuadas. Isso tudo vai ter que ser refeito. Sem a aprovação de uma certa pauta legislativa no Congresso, vai ser difícil. Não é só reorganizar a administração pública no âmbito interno do Executivo, é também criar uma agenda legislativa que permita que essa reconstrução aconteça.

Eu aposto que isso vai ser um dos pontos centrais do início do governo Lula, para além da tentativa de fazer algum tipo de arranjo fiscal. Eu não faço a menor ideia de qual será, porque a gente nem sabe qual vai ser a equipe econômica do Lula ainda. Mas ele deverá buscar garantir um mínimo de equilíbrio nas contas públicas, sobretudo depois dessa orgia fiscal dos últimos meses. Depois disso, vai ter que ter algum tipo de saneamento dessas contas, senão a situação vai ficar ingovernável, com reações do mercado que tornariam a situação pior ainda.

Em 2002, Lula e Fernando Henrique Cardoso (FHC) trabalharam em estreita cooperação durante a transição de governos. Como deverá ser esse processo com Bolsonaro?

Esta transição vai ser completamente diferente daquela. Bolsonaro está a milhares de anos-luz do FHC, a gente está falando de água e vinho, não tem nem como comparar. Ali, havia civilidade. Aqui não há civilidade alguma, a gente está falando em um governo de barbárie. Todos os ataques às instituições, a boçalidade com que ele se comporta, a destruição que ele produziu na máquina administrativa do Executivo, tudo isso tende a fazer com que a transição seja tremendamente conturbada. Eu, sinceramente, não acredito em uma transição tranquila. Ao contrário disso, acho que a gente vai ter sabotagem, sonegação de informação, dificuldades para que se realizem reuniões de trabalho entre o governo que entra e o governo que sai. Sou muito pessimista quanto a isso, acho que vai ser um tanto quanto preocupante, um tanto quanto difícil.

Como interpretar o silêncio de quase 48 horas de Bolsonaro?

Expõe a dificuldade dele de aceitar o resultado, mostra mais uma vez essa boçalidade a que eu me referia, a impostura, a incapacidade de saber trabalhar institucionalmente, de ser um presidente, no fim das contas. Mesmo com esse comportamento, ele obteve o voto de praticamente metade da população brasileira. Isso mostra que muita gente não se incomoda com esse tipo de comportamento, que entende como normal, ou um mal menor. Essa postura não contribui em nada para a transição. Por outro lado, isola ainda mais o Bolsonaro, inclusive entre os seus aliados. Ele pode talvez não se dar conta disso. Agir dessa forma pode diminuir bastante a capacidade que ele tem de produzir dano, na medida em que, isolado, fica fragilizado.

Um sintoma disso foi o pronunciamento do Arthur Lira, logo após o resultado da eleição, ao lado do Ricardo Barros, líder do governo na Câmara. Ele reconheceu a vitória do Lula e mostrou disposição de estender a mão, conversar, abrir uma frente de diálogo, o que evidentemente é muito importante. O Tarcísio de Freitas também fez um discurso conciliador, outro sinal positivo. O isolamento do Bolsonaro tende a aumentar cada vez mais.

Que força terá o o bolsonarismo sem Bolsonaro presidente? Ele é o líder natural da oposição?

Tenho dúvidas quanto à capacidade do Bolsonaro de liderar uma oposição após a derrota. Sobretudo se ele tiver sérios problemas judiciais, o que acredito que terá. É possível que esse papel seja assumido por algum de seus herdeiros, como o Eduardo Bolsonaro. Mas, a ver. Temos também de ter cuidado em menosprezar a capacidade do Bolsonaro de atuar politicamente e atingir seus objetivos. Ele já nos mostrou nesses últimos anos que, embora pareça um pateta, acaba tendo sucesso em muitas das suas empreitadas.

O bloqueio de estradas sinaliza que o reconhecimento da derrota pelo bolsonarismo será custoso?

Há uma base bolsonarista importante entre caminhoneiros. Portanto, não é de se espantar que tenham ocorrido manifestações de inconformismo com o resultado das urnas. Eles não enxergam como democrático o resultado que saiu das urnas, porque não é do seu agrado. É esperado, portanto, que haja uma certa tendência a produzir confusão primeiro nesse momento. Mas, apesar de todo o transtorno que os caminhoneiros produziram em várias estradas do Brasil, foi um grupo pequeno, sem tanta capacidade de estender isso por muito tempo.

Surpreende que a PRF, tão diligente para atrapalhar eleitores no dia da eleição, desrespeitando inclusive determinação do TSE, logo em seguida se mostre incapaz de lidar com caminhoneiros golpistas, que estão questionando o resultado das urnas. É realmente algo muito sintomático, que mostra o aparelhamento das instituições de Estado por esse governo e a transformação da PRF em uma espécie de milícia oficial do bolsonarismo. Acho que isso é até mais preocupante do que a ação dos caminhoneiros, porque essa polícia continuará aí. O próximo governo vai ter que lidar com ela.

Como o reconhecimento da vitória de Lula pelos mais importantes líderes mundiais ajuda a conter o ímpeto golpista do bolsonarismo?

Isso é fundamental para evitar qualquer tentativa de golpe, afinal o Bolsonaro já é um líder isolado internacionalmente. O Brasil acabou se tornando um pária internacional. O entusiasmo e a rapidez com que vários governantes se manifestaram, felicitando o Lula pela vitória, mostra como há um alívio na comunidade internacional pela derrota do Bolsonaro: da China aos EUA, passando pelos países europeus e os países vizinhos aqui na América Latina. Esse reconhecimento amplo produz uma rede de segurança da comunidade internacional contra qualquer aventura golpista que Bolsonaro e os grupos armados com os quais ele se articulam possam tentar.

Existe um espaço grande para o Brasil se reconectar à comunidade internacional, o que favorece muito o Lula na interação com esses outros países. Ele anunciou que pretende viajar até o fim do ano para reatar esses laços. É um caminho importante e profícuo, que ele pode percorrer justamente para restaurar a capacidade brasileira de ser uma voz ouvida e respeitada no exterior, inclusive se engajando em coisas importantes, como a agenda ambiental. O anúncio da Noruega, de que irá retomar o financiamento do Fundo Amazônia, é mais um sintoma dessa volta do Brasil ao convívio cooperativo com a comunidade internacional, saindo dessa condição de pária a que o bolsonarismo nos reduziu.

Deutsche Welle

Um sapo barbudo entalado na garganta de Bolsonaro




Por Luiz Carlos Azedo

Bolsonaro não fez nenhum questionamento ao resultado das eleições, mas também não o endossou publicamente, até agora. Entretanto, na prática, está digerindo a derrota, ou seja, o “sapo barbudo”

O título da coluna é inspirado na frase famosa do ex-governador fluminense Leonel Brizola, cujo sonho de chegar à Presidência foi frustrado em 1989, ao ficar em terceiro lugar na disputa presidencial, atrás de Fernando Collor de Mello e, para surpresa geral, do então estreante nas eleições Luiz Inácio Lula da Silva. Atropelado pelo líder metalúrgico, Brizola decidiu apoiá-lo no segundo turno e transferiu seus votos para o petista, principalmente no Rio de Janeiro e no Rio Grande Sul. O “sapo barbudo”, porém, somente viria a se eleger presidente da República em 2002, tendo que ser digerido pelo senador José Serra (SP), seu adversário tucano.

O presidente Jair Bolsonaro (PL) ainda não engoliu a vitória do “sapo barbudo”. Seu pronunciamento de ontem, depois de um adiamento de 48 horas após o encerramento da apuração, foi pautado pela ambiguidade política. Agradeceu aos seus eleitores, enalteceu a formação de uma direita ideológica no país, anunciou que sua luta continua, mas não reconheceu a derrota eleitoral nem cumprimentou Lula, o presidente eleito. Sua grande preocupação foi manter o apoio dos caminhoneiros e militantes bolsonaristas de raiz, que ainda não aceitaram o resultado da eleição e, ao mesmo tempo, orientá-los a não cometerem nenhum ato de violência nem impedirem o direito de ir e vir.

Foi um discurso lacônico, seguido de um pronunciamento minimalista do ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, que anunciou o início da transição de governo, que coordenará. O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin será o coordenador da equipe de Lula. Tudo de acordo com a legislação vigente sobre a troca de governos. Bolsonaro teve 58 milhões de votos, um resultado muito expressivo, que não deve ser subestimado. Entretanto, para o pronunciamento, ele precisou de duas noites de sono e muitas conversas. Seu posicionamento sinaliza a intenção de fazer uma posição dura, permanente, implacável.

O pronunciamento de Bolsonaro, porém, foi uma pá de cal em qualquer tentativa de impedir a posse do presidente eleito. Ao não reconhecer a vitória de Lula e se omitir em relação aos protestos de caminhoneiros, que realizaram centenas de bloqueios nas estradas do país, simultaneamente às manifestações bolsonaristas, algumas à porta de quarteis, acabou politicamente isolado. Além disso, a ação enérgica do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Alexandre de Moraes, proibindo interdições das estradas, obteve pronta resposta dos governadores, inclusive aliados de Bolsonaro, que acionaram as forças policiais para acabar com os bloqueios.

Contrariedade

Bolsonaro está muito contrariado com a derrota, sempre levantou suspeitas sobre as urnas eletrônicas e alimentou as desconfianças de seus apoiadores em relação a legitimidade do sistema de votação e idoneidade da apuração. Não fez nenhum questionamento ao resultado das eleições, mas também não o endossou publicamente, até agora. Entretanto, na prática, está digerindo a derrota, ou seja, vai acabar digerindo o “sapo barbudo”. É que teremos uma transição com certo nível de cooperação de três atores: o Centrão, representado por Ciro Nogueira, presidente do PP, e o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL; os generais de seu estado-maior, que sabem da inutilidade de qualquer reação golpista; e a alta burocracia federal, encastelada na cúpula dos ministérios e dos órgãos do governo.

Paralelamente à existência de políticos profissionais, acostumados a ganhar e a perder eleições, existe no governo Bolsonaro uma burocracia formada por funcionários e técnicos de carreira, encarregados de operar a máquina do Estado. Além dos objetivos programáticos, que pautaram as ações do governo, existe uma dinâmica de funcionamento da máquina pública que observa regras muito claras de conduta, não somente nas ações administrativas, mas também quanto à responsabilidade dos agentes públicos. No Estado Democrático de Direito, com administrações modernas, não existe queima de arquivos. Existe sigilo, que pode ser quebrado em caso de necessidade.

Nesse sentido, salta aos olhos a atuação da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no dia da eleição e durante os bloqueios dos caminhoneiros, que foge ao padrão dos órgãos de coerção federais. A omissão do procurador-geral da República, Augusto Aras, durante esses protestos também constrangeu sua própria instituição.

A transição será fácil? Não, porque haverá uma nova ruptura de políticas públicas. Entretanto, as atividades permanentes do Estado não sofrerão descontinuidade, principalmente nas áreas essenciais. Além disso, os novos integrantes do governo têm grande experiência administrativa, muitos deles na própria administração federal. O fato de o vice-presidente Geraldo Alckmin ser o coordenador da equipe de transição já revela a intenção de fazer com que essas fricções sejam mitigadas.

Ao nomear o vice, Lula sinaliza para as forças políticas e a sociedade uma postura de moderação e ampliação do diálogo, que será muito importante durante esse período de transição e pode resultar num governo de ampla coalizão democrática. Essa parece ser a intenção do presidente eleito, ao revelar a intenção de atrair para o seu governo todo o MDB, o PSD, o PSDB, o Podemos e o Cidadania, que não o apoiaram no primeiro turno. São forças políticas contingenciadas pela polarização eleitoral, mas que reúnem grande experiência e capacidade de articulação política no Congresso e na sociedade.

Correio Braziliense

O esperneio dos arruaceiros - Editorial




Bolsonaro enfim se pronuncia sobre a eleição – para se queixar de ‘injustiça’ e justificar a baderna de bolsonaristas; entrementes, Ciro Nogueira inicia transição com os petistas

O presidente Jair Bolsonaro afinal se pronunciou, ontem, sobre as eleições em que perdeu para o petista Lula da Silva, no domingo passado. Fiel a seu espírito antidemocrático, não cumprimentou o vencedor. Ao contrário, sugeriu que foi derrotado pelo que chamou de “sistema”, que teria reservado a ele um tratamento “injusto”. Em outras palavras, não reconheceu a lisura do processo eleitoral – como, aliás, fez durante toda a campanha, sem apresentar provas.

Pior: com isso, justificou a baderna dos bolsonaristas golpistas que resolveram trancar estradas desde domingo para protestar contra a vitória de Lula. Segundo Bolsonaro, esses arruaceiros estão movidos por um “sentimento de indignação” – e se limitou a dizer que “os nossos métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população”. Não houve nenhum apelo explícito para que a baderna cessasse.

Esse pronunciamento tardio nem era necessário, pois a legitimidade da vitória de Lula não dependia da aceitação formal do presidente. E, a bem da verdade, Bolsonaro já havia se pronunciado sobre o resultado da eleição – não por meio de palavras, mas por intermédio desses camisas pardas que, com a omissão da Polícia Rodoviária Federal (PRF), devidamente cooptada pelo bolsonarismo, resolveram infernizar a vida dos brasileiros para manifestar sua insatisfação com a derrota de seu líder. 

Essa crise foi diligentemente construída ao longo dos últimos quatro anos. Enquanto se dizia um herói da liberdade e da Constituição, farsa que só tapeou quem se deixou tapear, Bolsonaro disseminou um discurso golpista segundo o qual a sua derrota só poderia ter como causa um complô do tal “sistema” – isto é, as instituições que fizeram prevalecer a lei contra seu golpismo. Disso adveio a desqualificação da imprensa profissional e independente, das instituições republicanas e do sistema eleitoral. Aí estão as consequências.

Mas o País, a despeito de Bolsonaro, continua a ser um Estado Democrático de Direito, razão pela qual é absolutamente inaceitável que a PRF não tenha agido com o devido rigor para impedir que essa súcia de bolsonaristas bloqueasse estradas Brasil afora. Todos os responsáveis por esse levante contra a vontade da maioria dos eleitores declarada nas urnas devem ser severamente punidos na forma da lei, a começar pelo diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques, apoiador declarado do presidente da República e, no mínimo, negligente em relação aos delinquentes.

Eis o grau de absurdo da situação: o Supremo Tribunal Federal (STF) teve de ser acionado para autorizar que as Polícias Militares nos Estados cumprissem a lei e liberassem as estradas, diante do que o ministro Alexandre de Moraes classificou, corretamente, como “omissão e inércia” da PRF.

Os bolsonaristas vivem a se queixar do suposto “ativismo” do Poder Judiciário, mas o STF só foi chamado para intervir na questão dos caminhoneiros porque o Poder Executivo se omitiu e porque o diretor-geral da PRF se comporta como chefe de uma milícia a serviço de Bolsonaro, e não como chefe de uma instituição armada do Estado brasileiro.

Por fim, mas não menos importante, o procurador-geral da República, Augusto Aras, inerte diante das flagrantes violações da ordem jurídica e dos direitos e garantias fundamentais ao longo do trevoso período bolsonarista, só agiu contra os baderneiros depois de notificado pelo STF, comprovando sua inaceitável subserviência ao presidente. 

Felizmente, ao que parece, noves fora a pirraça de Bolsonaro e a baderna dos bolsonaristas, a transição seguirá seu curso. Logo depois do brevíssimo pronunciamento de Bolsonaro, o ministro-chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, anunciou aos jornalistas que já havia começado as tratativas com a equipe do “presidente” (palavras dele) Lula. Desde domingo, aliás, vários outros políticos ligados ao atual presidente já tratam explicitamente o futuro governo como uma realidade. Ou seja, enquanto Bolsonaro e seus camisas pardas esperneiam contra “injustiças” delirantes, a transferência de poder, para quem interessa, já começou.

O Estado de São Paulo

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