domingo, junho 19, 2022

Por que há uma 'febre do ouro' dos combustíveis fósseis no mundo, apesar das mudanças climáticas




Gás natural liquefeito pode ser transportado em navio - e é uma das alternativas usadas pelos países europeus para substituir o gás russo

Por Ángel Bermúdez 

Alguns dos compromissos firmados por quase duzentos líderes durante a última Cúpula do Clima — a COP26, realizada em novembro de 2021 em Glasgow, na Escócia — para combater as mudanças climáticas estão em risco diante da guerra na Ucrânia.

Entre elas estão a atualização até 2022 das metas de redução de emissões de gases de efeito estufa e a eliminação gradual dos subsídios que reduzem artificialmente o custo de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás natural.

Um relatório publicado na última semana sobre o impacto do conflito causado pela invasão russa ao território ucraniano no combate às mudanças climáticas aponta a existência de uma espécie de "febre do ouro" global para a construção de infraestruturas de produção, transporte e processamento de combustíveis fósseis, em especial gás natural liquefeito (GNL).

O documento foi elaborado pelo Climate Action Tracker (CAT, na sigla em inglês), projeto independente que monitora as ações dos governos para enfrentar as mudanças climáticas e as contextualiza com o objetivo estabelecido pelo acordo de Paris de "manter o aquecimento bem abaixo de 2°C e fazer esforços para limitar o aquecimento a 1,5°C".

O relatório destaca, por exemplo, os planos de construção de novas usinas de GNL na Alemanha, na Itália, na Grécia e na Holanda, enquanto países como Estados Unidos, Canadá, Catar, Egito e Argélia planejam aumentar suas exportações do combustível.

Em paralelo, muitos países produtores de combustíveis fósseis incrementaram a produção e governos em mais de uma dezena de países desenvolvidos estão reduzindo impostos sobre o consumo de combustível ou de energia, incentivando, assim, o consumo.

A ideia de aumentar o consumo de combustíveis fósseis para responder à atual crise energética foi questionada na terça-feira (14/6) pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, que argumentou que investir recursos em carvão, petróleo ou gás para enfrentar as consequências da guerra na Ucrânia é "ilusório".

A BBC News Mundo (serviço em língua espanhola da BBC) conversou com Niklas Höhne, especialista do NewClimate Institute, organização sem fins lucrativos com sede em Berlim que é parte do consórcio que elabora o CAT, sobre os achados do estudo e sobre as necessidades que existem hoje no contexto do combate às mudanças climáticas.

'Alemanha, Itália e Grécia são alguns dos países que planejam novas instalações para produzir GNL

BBC News Mundo - O Climate Action Tracker elaborou um estudo sobre a resposta global à guerra da Ucrânia na perspectiva do combate às mudanças climáticas. Quais as conclusões?

Niklas Höhne - No momento há governos que estão tratando de fazer as coisas de maneira diferente por causa da crise energética. Têm que responder à atual situação em que não podem seguir importando combustíveis fósseis da Rússia.

E eles podem fazer duas coisas: tentar obter combustível de outro lugar ou trabalhar para aumentar a eficiência e aproveitar melhor a energia renovável.

Infelizmente, descobrimos que a maioria dos países está passando por uma espécie de "febre do ouro" em busca de novas infraestruturas em torno dos combustíveis fósseis, novos gasodutos de gás natural liquefeito (GNL), novos portos de GNL e novos campos de óleo e gás.

Isso é muito contraproducente para a política de combate à mudança climática porque, uma vez construída essa infraestrutura, ela será usada por várias décadas e nos prenderá a um futuro com muito carbono.

BBC News Mundo - Por que as novas infraestruturas seriam usadas por várias décadas?

Höhne - A questão sobre as novas infraestruturas é que é caro construir um gasoduto, por exemplo, e isso significa que, uma vez que você o constrói, os investidores vão querer usá-lo por décadas.

O problema é que queremos reduzir o consumo de gás para zero globalmente até meados do século — e se agora construirmos uma nova infraestrutura, essa redução será muito difícil. Esses investimentos nos vincularão a altas emissões de gases de efeito estufa ou acabarão como ativos ociosos.

'Para importar GNL, os países precisam de terminais portuários construídos especificamente para este fim'

BBC News Mundo - O senhor se mostra preocupado com a construção dessas novas infraestruturas. Mas de que outras maneiras os governos estão trabalhando contra as metas climáticas em meio à crise atual?

Höhne - O principal problema é a infraestrutura, mas há outra questão - quase todos os governos que avaliamos têm acenado aos consumidores com reduções de impostos sobre combustíveis fósseis. Isso não é uma boa ideia.

Entendo que os governos queiram ajudar os consumidores e a indústria, mas devem apoiar apenas aqueles que realmente necessitam, mais para a população pobre ou para a indústria que está realmente em perigo.

Mas o que estão fazendo é reduzir os impostos sobre os combustíveis fósseis [de maneira ampla], reduzindo assim os custos para todos os cidadãos e empresas petrolíferas, mesmo aqueles que podem pagar e que podem abandonar os combustíveis fósseis. Isso também não é uma boa ideia.

BBC News Mundo - Mas no contexto atual, em que a inflação e os preços da energia estão tão altos, quais são as alternativas para os governos? Muitas pessoas hoje têm dificuldade de encher o tanque para ir trabalhar. Existe alguma solução viável?

Höhne - Sim, se a ideia é compensar o aumento dos preços de energia, então deve-se compensar as famílias mais pobres, e não as mais ricas.

Alguns sugeriram uma política de compensação com base per capita, para que cada pessoa recebesse a mesma quantia. Outros dizem que é melhor passar pelo sistema tributário, para que a população pobre receba um incentivo fiscal adicional ou dinheiro extra no bolso, o que definitivamente seria possível e seria uma opção melhor.

A verdadeira solução a longo prazo, entretanto, é economizar energia e usar mais energia renovável. Economizar energia é sempre uma opção lucrativa.

Por exemplo, dirigir mais devagar, diminuir um pouco o aquecimento no inverno, restringir o acesso de carros às cidades para que as pessoas usem o transporte público. Subsidiar mais o transporte público para que as pessoas não usem carros, mas sim transporte coletivo — são muitas as opções para os governos ajudarem seus cidadãos e empresas nesta crise.

'Espanha é um dos países que reduziram impostos sobre combustíveis'

BBC News Mundo - No relatório, o senhor aponta que a maioria dos países ocidentais procurou reduzir ou parar completamente de comprar combustíveis fósseis da Rússia, e muitos anunciaram metas ambiciosas para a transição para fontes de energia renováveis, como eólica e solar. Isso não é bom para a luta contra as mudanças climáticas?

Höhne - Sim, há coisas que alguns países estão fazendo bem. Vários aumentaram suas metas para energia renovável e alguns também introduziram subsídios para o transporte público.

Tudo bem, mas estamos tão atrasados ​​na política climática e precisamos cortar as emissões tão drasticamente que não temos tempo para cometer erros.

A Agência Internacional de Energia diz que, a partir de agora, não devemos investir em nenhuma nova infraestrutura de combustíveis fósseis. E se agora vemos uma "corrida do ouro" em investimentos em infraestrutura de energia de combustíveis fósseis, isso seria um problema sério nesse sentido.

Neste momento, devemos usar o mesmo dinheiro, esforço e tempo para impulsionar a eficiência energética e energia renovável, e não expandir a infraestrutura de combustíveis fósseis.

BBC News Mundo - Mas é realmente possível aproveitar no curto prazo as fontes renováveis ​​para resolver a crise atual?

Höhne - Bom, a expansão das energias renováveis ​​não é rápida, mas a construção de um novo gasoduto ou a construção de um novo terminal de GNL também não. Na essência, é o mesmo problema.

O mais rápido é reduzir o consumo de energia — dirigindo mais devagar ou diminuindo o aquecimento. Isso seria muito rápido, mas infelizmente muitos governos não estão usando essa opção.

'Também como resposta à crise, alguns países passaram a investir mais em energia renovável'

BBC News Mundo - O relatório do CAT não menciona a China, o maior consumidor de energia do mundo. Qual sua opinião sobre a resposta de Pequim a esta crise?

Höhne - Acho que a China tem sido um pouco menos afetada pela crise. O país tem algum comércio de energia com a Rússia, mas não é tão dependente quanto a Europa.

A China também está pensando em aumentar suas metas para energia renovável. Isso seria bom. Mas, ao mesmo tempo, tem considerado comprar petróleo e gás mais baratos da Rússia. Em condições de mercado, até poderia ser, mas por outras razões isso não seria um bom sinal.

A China é muito importante do ponto de vista climático. É responsável por um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, e o que acontece lá é muito importante para as emissões globais e o clima do planeta.

BBC News Mundo - E a América Latina? Não há menção a países latino-americanos no relatório.

Höhne - Não. Atualmente, as exportações de GNL e gás estão mais concentradas na América do Norte, África e Ásia.

Mas há outra coisa positiva que vimos: alguns governos estão fazendo acordos para fornecer ou comprar hidrogênio verde. Acho que é uma nova oportunidade. Pensávamos que isso aconteceria em cinco anos ou mais, mas já está acontecendo agora. Portanto, há uma aceleração que é boa.

A América Latina tem muito potencial para energia renovável. Poderia pensar em exportar hidrogênio verde feito a partir de energia renovável e vendê-lo para a Europa ou outras regiões, e acho que seria uma boa oportunidade de negócio.

BBC News Mundo - O senhor tem outras recomendações ou soluções alternativas para esta crise?

Höhne - Tem mais uma coisa. Muitas empresas de combustíveis fósseis estão tendo lucros recordes porque os preços da energia estão altos, enquanto os custos de produção permanecem os mesmos.

Alguns governos começaram a tributar esses lucros adicionais e investir os recursos arrecadados em energias renováveis. Apenas alguns, entretanto, o fizeram — e essa poderia ser outra medida tomada pelos governos neste momento.

BBC Brasil

Os cinco nomes do marechal




Se o enredo de 2022 for igual ao de 2018, vamos ser forçados a recordar que a situação de 1964, comparada à atual, foi só um festival de blefe

Por Bolívar Lamounier* (foto)

Naquele longínquo 31 de março de 1964, estagiando num jornal, eu sofria com a inexperiência e a timidez. Quando sobreveio o golpe, tomei coragem e perguntei a um político importante quem, ao ver dele, seria o presidente da República. A resposta veio em três segundos: o Exército só aceitará cinco nomes, Humberto Carlos de Alencar Castello Branco.

Para mim, todo golpe é ruim. Abomino todos os regimes de exceção. Mas antes ter um Castelo Branco, que pairava metros acima dos demais, que muitos outros que nada tinham entre as orelhas. Castelo garantia que a intervenção militar seria de curta duração, dois ou três anos para acabar com o comunismo e a corrupção e implantar algumas reformas na economia.

Pouco tempo antes, chegara ao Brasil o brasilianista Alfred Stepan, que iria fazer uma tese sobre os militares. Tornamo-nos amigos até o recente falecimento dele. Stepan admirava Castelo e não tardou a conseguir acesso à alta oficialidade. Mas, sobre a promessa de Castelo de manter o Exército no poder por um curto período, Stepan não acreditava que ele lograsse tal proeza. Outros oficiais-generais lhe haviam dito precisamente o contrário. Não devolveriam o poder aos civis em menos de 20 anos.

Meus leitores, se os tenho, devem estar impressionados com a exatidão da ciência política. Stepan acertara em cheio. Castelo errou redondamente. Fato é, entretanto, que nos 56 anos decorridos desde aqueles diálogos, este campo de estudos que nos orgulhamos em denominar ciência foi posto em xeque pelo menos umas 50 vezes. Por isso insisto em perscrutar o futuro, fazendo entrevistas, revirando estatísticas ou pacientemente observando o voo dos pássaros, como faziam os antigos adivinhos romanos.

No momento, vejo somente tênues indícios de uma intervenção militar, nada além disso, e así quiera Diós que permanezca! Mas cá, na planície, fora da caserna e do governo, volta e meia vemos milhões de energúmenos vociferando por um novo 31 de março de 1964. Tal ideia lhes ilumina a cabeça e os faz saltitar de alegria. Creem piamente que o verde das fardas livrará nosso país de suas mazelas e desavenças. Em seus momentos de maior devaneio, cogitam que alguns tanques nas ruas trariam de volta nossa tradição de ameno convívio, acabariam com as desordens, nos livrariam da corrupção e do paradeiro econômico, da inflação e de tudo mais que nos desengrandece aos olhos do mundo civilizado.

É possível; tudo é possível. Nos espaços siderais da imaginação, tudo é possível. Alguns chegam mesmo a crer que paraísos políticos, uma vez estabelecidos, não se desfazem. Que a uma elite sábia e honrada se segue outra, esquecendo-se de que, na antiga Roma, governantes sábios e justos foram sucedidos por dementes como Nero, Calígula e Cômodo.

O leitor por certo percebeu que estou falando do desvario de umas poucas mentes doentias, confiante em que males de tal ordem não estão a nos espreitar. No fundo, sinto-me despreocupado, mas sentiria um alívio ainda maior se três espectros vez por outra não me atormentassem. Primeiro, sabemos que o Brasil e a América Latina são as mais perfeitas estufas do populismo, e que populismo, por definição, é um modo de agir político sempre propenso a atropelar as instituições. Em todas as latitudes, populistas são aqueles que não encontram conforto nos limites institucionais da democracia e conclamam o que entendem por “povo” para derrubá-la.

Segundo, a oferta de populistas aumentou. Em épocas pretéritas, os portadores de tal DNA populista apresentavam-se um de cada vez, apoiados por meia dúzia de policiais, e os golpes assemelhavam-se a meras operações de despejo. Foi o que se passou na Argentina em 1928, quando o desmiolado general Uriburu derrubou o presidente Yrigoyen e deu início à sucessão de tragicomédias que transformou a outrora próspera nação pampeana na caricatura que dela resta. No rastro da multiplicação de populistas, nós, brasileiros também teremos no dia 2 de outubro uma oportunidade de ouro de também nos transformarmos numa caricatura da quase caricatura que sempre fomos.

Se recaírmos na polarização iniciada em 2018, estará redondamente enganado quem pensar que acordaremos do pesadelo quando a Justiça Eleitoral der por encerrada a contagem dos votos. Se o enredo deste ano for o mesmo de 2018, seremos forçados a recordar que, comparada à situação de hoje, a de 1964 foi apenas um festival de blefes, uma peça de segunda personificada por artistas do gogó: Carlos Lacerda, de um lado, e o indefectível Almirante Aragão, do outro.

Seria tudo muito engraçado se nós também não nos tivéssemos transformado numa caricatura moderna daquela que antigamente já éramos. Hoje, nada mais parece nos impressionar. Pobres sempre fomos, mas, ao fim da Segunda Guerra, não era comum presenciarmos indivíduos disputando uma vaga para dormir debaixo de algum viaduto, ou para chegar primeiro na cata de restos de comida. A própria violência tornou-se mais violenta, gratuita e cruel.

*Cientista político, é sócio-diretor da Augurium Consultoria. Seu último livro é ‘Jano – imagens da virtude e do poder’ (Editora Desconcertos, São Paulo)

O Estado de São Paulo

A pior corrupção que pode existir




A burocracia torna a vida miserável e serve apenas para criar empregos caros e inúteis de forma corrupta. 

Por Theodore Dalrymple (foto)

No decorrer da minha vida, meu próprio país — a Inglaterra — se tornou profundamente corrupto. Seus serviços públicos sempre foram ineficientes, uma espécie de poço sem fundo de absurdos, mas agora eles são ineficientes e corruptos.

A forma que essa corrupção assume é muito pior do que apenas financeira. Afinal, a corrupção financeira — que não exalto de maneira nenhuma — pelo menos faz as coisas acontecerem. Se eu subornar alguém, espero que essa pessoa faça algo em troca. Se não fizer, ela vai arruinar o mercado de subornos. E, em teoria, pelo menos a corrupção financeira pode ser contida por ações legais.

Não que eu já tenha subornado alguém na Inglaterra. O único suborno de que consigo me lembrar foi no Aeroporto de Lagos, Nigéria. O funcionário da alfândega me perguntou: “Você trouxe algum presente?” Respondi que não, porque não conhecia ninguém na Nigéria.

“Para mim”, explicou ele. E me senti um idiota.

Paguei uma pequena quantia com uma risada (ele riu também), porque entendi imediatamente que, se eu subisse no meu pedestal moral e denunciasse a corrupção e todos os seus meandros, ainda estaria no Aeroporto de Lagos décadas depois. Ele era mal remunerado, sem dúvida tinha uma família (que continuava crescendo) para alimentar, e meu pequeno suborno, que pude pagar sem dificuldade, me fez conseguir o que eu queria. Nós nos despedimos de forma amigável, rindo alegremente.

Na Inglaterra, nunca paguei um suborno. Nossos burocratas se consideram honestos demais para isso. Sem dúvida os membros das Câmaras Municipais aceitam propinas para autorizar contratos de construção, mas eu nunca precisei dessas autorizações e não conheço ninguém que tenha precisado.

No entanto, como já mencionei, a Inglaterra de fato se tornou um país muito corrupto. Não é o tipo de corrupção em que o dinheiro é passado sorrateiramente por baixo da mesa, mas algo muito, muito pior. Trata-se da corrupção moral e intelectual que permite que as pessoas, de forma dissimulada, façam coisas erradas, atrapalhem ou dificultem as coisas, enquanto ficam satisfeitas consigo mesmas, como se estivessem trabalhando pelo bem do mundo.

O que é uma regulamentação desnecessária ou até prejudicial senão uma forma de corrupção? É um esquema no qual muitas pessoas, com frequência mais formadas do que o necessário para extrair qualquer benefício dele, são empregadas à custa do dinheiro público e, na prática, impedem que outras pessoas pratiquem atividades lucrativas ou prazerosas. Elas não recebem propinas, porque fazê-lo revelaria sua desonestidade para si mesmas. Em vez disso, com seus procedimentos intelectualmente absurdos, elas obstruem, prejudicam, enlouquecem ou atormentam os cidadãos com procedimentos que consideram necessários para a segurança e o bem-estar do público, e sem os quais acreditam que o mundo vai parar de girar.

Claro, não sou contra um procedimento em si: mas, na nossa sociedade, em vez de um auxílio para um objetivo digno, esses procedimentos se tornaram uma fonte de emprego, uma espécie de deus incontestável diante do qual se espera que nos curvemos cegamente. “Política da casa” é a resposta que qualquer burocrata (seja no setor público, seja no setor privado) oferece a qualquer questionamento sobre a necessidade de algum procedimento impeditivo, qualquer formulário que precise ser preenchido. E a autoridade final e incontestável para qualquer procedimento ridículo é supostamente ser uma determinação do governo. É impossível para um cidadão médio descobrir se essa determinação de fato existe ou não: apenas os monomaníacos conseguem executar as coisas com a obstinação necessária para encontrar a resposta. O mais fácil é simplesmente aquiescer e seguir em frente.

Certa vez me pediram para investigar uma explosão de assassinatos cometidos pelos pacientes de um hospital psiquiátrico, muito maior do que se esperaria normalmente. Havia algum fator comum que explicasse os assassinatos, alguma deficiência nos cuidados médicos que os estaria causando?

Li milhares de páginas de anotações e afirmei ao diretor do hospital que o único fator comum nos casos era a idiotice extrema da equipe. Longe de ficar incomodado, ele não pareceu nada surpreso. “Esse é o padrão esperado hoje em dia”, respondeu ele.

A estupidez da equipe do hospital era especial. Não era um tipo de deficiência mental, um ato de Deus. Era o tipo de estupidez induzida, uma estupidez induzida pelo procedimento. Por exemplo, a cada contato com um paciente, o funcionário precisava preencher um formulário em que constava a pergunta: “O paciente alguma vez foi violento?”. Às vezes, a resposta era “sim”, às vezes era “não”, mesmo em dias sucessivos com o mesmo paciente, mas a contradição nunca era notada nem comentada. E nenhuma vez, nas muitas centenas de vezes em que a pergunta era feita e a resposta era “sim”, algum funcionário perguntou em que tinha consistido a violência, se a garganta de uma avó tinha sido cortada ou se um garfo tinha sido batido na mesa.

Seria de imaginar que a simples curiosidade, ou a depravação da vasta maioria da humanidade, teria compelido alguém a fazer as óbvias perguntas subsequentes, mas, não, isso nunca aconteceu. A partir daí, concluí que eles tinham passado a considerar suas anotações no formulário o verdadeiro trabalho, e não importava em nada se o que tinham registrado tinha qualquer relação com a realidade externa. Assim que preenchiam o formulário, sua tarefa estava cumprida. E o fato é que, quando alguma coisa dá errado, a primeira — e em geral a última — coisa que alguém faz é olhar os formulários, quer eles tenham sido preenchidos como reza o procedimento; quer o que tenha sido registrado tenha qualquer relação com a verdade não tem nenhuma importância para determinar o que aconteceu. Um formulário preenchido “corretamente”, como exigido pelo procedimento implementado, é uma espécie de indulgência papal: ela inocenta você para sempre.

O procedimento hoje é tratado não como necessário, mas como suficiente. Algum refinamento, ou seja, mais tarefas a serem cumpridas, é sempre necessário, de modo que mais empregos são criados.

Recentemente, por e-mail, meu banco me pediu informações, sem as quais ele talvez precisasse encerrar minha conta. Demorei uma hora para responder. Não era necessário que as informações fossem verdadeiras, claro, só que fossem fornecidas. Havia a implicação de que era uma exigência do governo, para impedir a lavagem de dinheiro. Claro, gastei uma hora (uma das muitas horas em que muitas vezes fico tão irritado a ponto de sofrer apoplexia) fornecendo as informações: sou pequeno, meu banco é grande, e preencher os formulários é uma prevenção ao desemprego. Mas essa burocracia não só torna a vida miserável e gera empregos caros e inúteis de modo corrupto, ela prejudica a atividade econômica real.

Revista Oeste

Taxar exportação de petróleo entra no radar para conter preços de combustíveis




Proposta será discutida na reunião de líderes dos partidos que o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), convocou para a próxima segunda

A ofensiva do Congresso contra a Petrobras (PETR3;PETR4) também colocou na mesa das negociações a proposta de taxação das exportações brasileiras de petróleo. Quanto maior o preço do petróleo, maior a receita potencial do Imposto de Exportação (IE) com a venda ao exterior do petróleo produzido pela estatal. Esse tipo de imposto é raramente usado no Brasil. A ideia é que a sua arrecadação seja usada para bancar a redução dos preços dos combustíveis.

A proposta será discutida na reunião de líderes dos partidos que o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), convocou para a próxima segunda-feira para discutir a política de preços da Petrobras, hoje atrelada ao mercado internacional.

No ano passado, as exportações chegaram a US$ 30 bilhões com a média do preço barril em torno de US$ 70. Hoje, o preço do petróleo brent projetado para agosto está em torno de US$ 113. Com média em US$ 110, como em 2022, as exportações podem chegar a quase US$ 50 bilhões neste ano.

Em reação ao reajuste de preços do diesel e da gasolina, Lira anunciou que os parlamentares vão aprovar proposta para dobrar a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) da Petrobras para bancar diferença do custo do diesel do exterior ou para ser usado para um vale para caminhoneiros, taxistas e motoristas de aplicativos, fora do teto de gastos, a regra que limita o crescimento das despesas à inflação. Na prática, a medida sugerida por ele é de um subsídio.

Segundo ele, já há uma proposta similar a essa nos Estados Unidos, feita pelo presidente Joe Biden. “As petrolíferas lá pagam 21% de impostos sobre o lucro e eles estão discutindo dobrar para 42%”, ressaltou.

Por ser uma contribuição, o aumento da CSLL para entrar em vigor precisa de prazo de três meses (chamado de noventena). Já uma elevação do Imposto de Renda demandaria esperar a virada do ano para começar a ser cobrada. Hoje, a alíquota da CSLL para as empresas de petróleo é de 9%.

Em entrevista ao canal GloboNews, Lira disse que o Congresso vai abrir a “caixa preta” e mudar a política de reajuste, hoje atrelada ao preço em dólares praticado no mercado internacional. “Ela não revela como faz essa contabilização da política de preços. É necessário que agora tenhamos que discutir essa política de preços da Petrobras e chamar o Cade mais uma vez à responsabilidade pelo monopólio que existe na Petrobras”, afirmou.

Para o deputado Danilo Forte (União-CE), relator da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata de biocombustíveis e faz parte do pacote anunciado pelo governo para reduzir os preços dos combustíveis, “está na hora” de cobrar o Imposto de Exportação. “A gente isenta a Petrobras do produto e ele vira margem de lucro para ela. Vamos discutir isso na reunião de segundo”, disse Forte ao Estadão. “De que adianta dar essa isenção se o povo brasileiro não está se beneficiando nesse momento de alta dos preços e de guerra”, ressaltou.

Forte é também relator da Medida Provisória 1118, que restringe até 31 de dezembro de 2022, o uso de créditos tributários decorrentes de contribuições sociais (PIS/Pasep e Cofins) a produtores e revendedores de combustíveis. Para conceder um subsídio, o governo terá que abrir uma exceção no teto de gastos. Já há uma PEC no Senado para mudar a regra e permitir a compensação pela União aos Estados que reduzirem a zero o diesel e o gás de cozinha.

As duas propostas poderão ser utilizadas para mudanças que as lideranças decidiram propor na segunda-feira. Outro projeto, o PL 1472 de autoria do senador Rogério Carvalho (PT-SE), também poderá ser utilizado nessa ofensiva política deflagrada contra a Petrobras, depois que a empresa reajustou o preço do diesel e da gasolina.

Esse projeto já foi aprovado pelo Senado e tem apoio do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Ele que cria diretrizes de preços para o diesel, a gasolina e o gás liquefeito de petróleo e contém brechas no texto que forçam a mudança na política de preços da Petrobras, como quer o governo e as lideranças do Centrão.

Para especialistas, o projeto, que foi aprovado no auge da disparada de preços por conta da guerra da Rússia e Ucrânia, é confuso, fragiliza a política de liberdade de preços e contém zonas cinzentas ao determinar que os preços internos praticados por produtores e importadores devem ter como referência as cotações médias do mercado internacional, os custos internos de produção e os custos de importação “conforme aplicáveis”. A leitura é de que esse ponto do texto – “conforme aplicáveis” – poderá ser usado de qualquer maneira colocando uma “espada na cabeça” para um controle de preços no futuro.

O projeto prevê a criação de uma conta de estabilização, prevista no projeto com receitas do governo para reduzir o impacto da volatilidade de preços. Pacheco quer que essa conta seja abastecida com os dividendos pagos pela Petrobras pelo lucro da empresa.

“Se a situação dos preços dos combustíveis está saindo do controle, o governo deve aceitar dividir os enormes lucros da Petrobras com a população, por meio de uma conta de estabilização de preços em momentos de crise”, escreveu ele em sua conta no Twitter.

A área econômica sempre foi contra a criação dessa conta e adoção de subsídios. Para mudar a política de preços, integrantes da Petrobras afirmam que será preciso mudar a Lei das Estatais e depois o estatuto.

Uma das travas que foram incluídas depois dos escândalos descobertos pela Lava Jato é a autonomia do diretor de Governança e Conformidade. Ele tem poder de veto quando julgar que a matéria em discussão está violando a governança e conformidade da empresa. Essa posição é atualmente ocupada pelo diretor Salvador Dahan. “Para que ele não saia apertando alguns botões de emergência neste processo, é de se esperar que tentem alterar os poderes desta diretoria executiva”, disse uma fonte.

Estadão / InfoMoney

Russos consolidam controle sobre Ilha da Cobra, no mar Negro

 




O Exército russo consolidou seu controle sobre a Ilha Zmiinyi (Ilha da Cobra), no mar Negro, mobilizando vários sistemas de defesa, uma medida que indica que pretende manter este ponto estratégico, apesar da ameaça de novos sistemas de artilharia e mísseis ucranianos.

As últimas imagens de satélite desta ilhota localizada na costa ucraniana e na romena permitem distinguir diferentes tipos de defesa terra-ar. Os russos também instalaram sistemas de defesa em navios próximos para reforçar a proteção.

"Os russos implantaram vários sistemas antiaéreos na ilha que cobrem vários espectros de ameaças: SA-13, Pantsir, Tor, canhões antiaéreos ZU-23-2", destaca o pesquisador francês Pierre Grasser, especialista em Defesa Russa.

"Recentemente, consolidaram sua posição (...) Estrategicamente, tudo isso obedece a uma lógica, mesmo antes dos novos recursos ucranianos", analisa uma fonte militar francesa, que pediu para não ser identificada.

Os ocidentais deram à Ucrânia vários sistemas de artilharia móvel que permitiriam, em tese, bombardear a ilha de litorais localizados a cerca de 30 km de distância. Entre eles, estão os canhões franceses Caesar, mas, sobretudo, os lança-foguetes múltiplos Himars enviados pelos americanos - atualmente em uso em algum lugar entre a Europa Ocidental e a Ucrânia.

"Esses sistemas participarão em breve dos combate, e nos comprometemos a continuar alimentando o fluxo de munições", declarou esta semana o subsecretário de Defesa dos EUA, Colin Kahl.

Os sistemas antiaéreos atualmente mobilizados pelos russos "não conseguirão interceptar os foguetes guiados lançados pelo Himars, isso é certo", afirmou Grasser, que, ao mesmo tempo, relativiza essa possível limitação.

Por serem sistemas móveis, no entanto, "os russos podem fazer o que os ucranianos fazem muito bem desde o início da guerra: deslocá-los assim que percebem uma ameaça iminente", até mesmo "em uma pequena ilha", observou este especialista.

- Assalto repelido -

As defesas russas "estão ali, sobretudo, para repelir tentativas de se levar comandos ucranianos para a ilha", explica, lembrando que Kiev já tentou fazer isso pelo menos uma vez, na noite de 7 para 8 de maio. Os comandos foram exterminados.

A ilha tem uma importância fundamental.

Desde o primeiro dia da ofensiva russa, em 24 de fevereiro passado, os invasores garantiram seu controle e depois lutaram para mantê-la, perdendo homens e material. Não muito longe, o cruzador "Moskva" foi atingido por um míssil ucraniano, infligindo à Marinha russa sua maior humilhação em décadas.

Na sexta-feira (17), os ucranianos disseram terem bombardeado, com um míssil, um navio auxiliar russo perto da ilha, dotado de um sistema antiaéreo a bordo.

"Inicialmente concebido para resgate no mar, esse navio servia de plataforma antiaérea improvisada. Um sistema Tor foi instalado nele", destaca Grasser.

No Twitter, o analista de defesa HI Sutton, especialista em temas navais, considera que estes navios "são usados para abastecer a ilha", a qual "tem uma importância estratégica" - não apenas do ponto de vista militar, mas também econômico.

A ilha está localizada na foz do Danúbio, um dos rios mais importantes do continente e uma artéria comercial europeia. Quem controlar a ilha, pode atacar este ponto. Ela também pode servir como plataforma de lançamento em direção a Odessa, ou mesmo da Romênia. Além disso, tem jazidas de hidrocarbonetos próximas.

AFP / Estado de Minas

Ucrânia admite perda de 50% do equipamento militar na guerra




General responsável por logística terrestre apela para o envio de mais armamentos e diz que armas recebidas até agora cobriram apenas 15% da demanda.

O exército da Ucrânia sofreu grandes perdas materiais desde o início da guerra com a Rússia, segundo um general do alto escalão. Em uma entrevista a uma revista americana, o general que é responsável pela logística das forças terrestres admitiu que quase 50% do equipamento militar do país foi perdido em combates nos últimos meses.

"Até hoje, perdemos aproximadamente entre 30% e 40%, às vezes até 50% do equipamento como resultado do combate ativo. Assim, nós perdemos aproximadamente 50%", afirmou o general de brigada Volodimir Karpenko em entrevista à revista National Defense publicada na quarta-feira (15/06).

Karpenko admitiu que cerca de 1,3 mil veículos de combate de infantaria, 400 tanques e 700 sistemas de artilharia das Forças Armadas ucranianas foram perdidos na guerra. O general ressaltou que essa era uma estimativa feita com base na linha de frente e intensidade do conflito.

Na entrevista, Karpenko reiterou o pedido de ajuda para o envio de mais armamentos ao país. "Recebemos um grande número de sistema de armas, mas que só cobriu de 10% a 15% de nossa demanda", afirmou. "A guerra que estamos vendo agora na Ucrânia ocorreu a última vez em 1945 quando o mundo ganhou o mal".

Desde o início da invasão russa, em 24 de fevereiro, a Ucrânia apela para o envio de armamentos. Há uma semana, o vice de inteligência militar do país afirmou que as tropas ucranianas estavam em desvantagem em artilharia e dependiam quase que exclusivamente de armas do Ocidente para resistir. Os militares também estariam quase sem munição na frente de batalha.

Diversos países já se comprometeram a ajudar à Ucrânia. Os Estados Unidos prometeram recentemente enviar para sistemas de mísseis de médio alcance de alta tecnologia. Os lançadores fazem parte de um novo pacote americano de ajuda de segurança à Ucrânia no valor de 700 milhões de dólares, que vai incluir ainda helicópteros, sistemas de armas antitanque do tipo Javelin, veículos táticos, peças de reposição, entre outros.

A Alemanha, a França, a Dinamarca, o Reino Unido, Canadá, Polônia, além de outros países, também já forneceram ou planejam enviar armas à Ucrânia.

Confrontos em Donbass

A linha de frente da guerra concentrasse atualmente na região de Donbass. A situação é particularmente dramática em Sievierodonetsk, onde o exército russo bombardeou a fábrica química Asot, um dos últimos pontos de resistência na cidade. Segundo fontes ucranianas, mais 560 civis, incluindo 38 crianças, buscaram proteção nos bunkers da fábrica.

Autoridades russas afirmaram neste sábado que ainda não foi alcançado um acordo para evacuar a fábrica e culpou os ucranianos por se recusarem a aceitar um acordo de cessar-fogo.

A cidade de Sievierodonetsk é o último reduto das forças ucranianas em Lugansk e o cenário mais ativo de hostilidades nas últimas semanas.  As forças ucranianas se isolaram nesta fábrica química numa manobra semelhante à realizada em Mariupol, onde o exército ucraniano se refugiou na siderurgia Azovstal, que acabou por cair, como toda a cidade, no poder de Moscou.

Deutsche Welle

Entrevista: Christopher Thornhill: Risco autoritário




Historiador e pesquisador britânico de temas como populismo e direito constitucional diz que solidez das instituições barra pressões contra democracia

Por Reynaldo Turollo Jr.

Em temporada no Brasil para ministrar um curso no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), em Brasília, em homenagem ao ministro aposentado do STF Celso de Mello, o professor de direito da Universidade de Manchester, na Inglaterra, e conceituado pesquisador de temas como populismo e democracia, Christopher Thornhill, afirma que o presidente Jair Bolsonaro busca uma ruptura, mas não tem tido sucesso devido à solidez das instituições do país. “Sou otimista”, diz. Numa conversa presencial, ele falou a VEJA sobre as perspectivas das eleições no país, analisou a participação dos militares no governo Bolsonaro e explicou como os movimentos antidemocráticos vêm ganhando tração em vários países, inclusive no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Como estudioso dos ataques que governantes fazem na atualidade contra a democracia, acha um exagero a análise que muitos setores fazem no Brasil de que Jair Bolsonaro ensaia uma ruptura institucional? De forma especulativa, pode-se dizer que ele vem tentando isso. Mas, até o momento, esse esforço não levou a uma suspensão do processo democrático no Brasil. Bolsonaro tentou realizar algum tipo de ruptura constitucional, mas a extensão foi limitada até aqui. Não acho que será bem-sucedido se insistir nesse caminho. E isso tem a ver com a robustez relativa das instituições do país. Sou um otimista.

Nos últimos tempos, o presidente vem aumentando o tom das ameaças, na tentativa de minar a confiança em nosso sistema eleitoral. Mesmo assim, o senhor continua otimista a respeito da capacidade de as instituições do país resistirem? Não concordo com a visão apocalíptica que muitas pessoas do seu país têm a respeito do estado da democracia no Brasil. Ao longo das últimas décadas, ela se solidificou e, em certos aspectos, se transformou numa democracia extremamente avançada, cujas estruturas institucionais se desenvolveram além da simples consolidação constitucional da democracia. São sinais de uma democracia relativamente robusta. Quando uma democracia nova como a brasileira muda de direção, como ocorreu na transição do governo de Fernando Henrique Cardoso para o de Luiz Inácio Lula da Silva, em algum momento tal processo desencadeia uma reação. E o Bolsonaro foi a reação.

Qual será a reação internacional se o presidente não aceitar o resultado das eleições, em caso de derrota? O Brasil é uma das democracias-chave do mundo. Tem um papel importante não só na América do Sul, mas em todo o Hemisfério Sul. Na hipótese de não aceitarem o resultado das eleições, a reação internacional certamente será de ultraje. Mas acho improvável chegarmos até esse ponto.

Nesse contexto, a participação recorde de militares no atual governo não é um motivo de preocupação? Sem dúvida. É fato que a presença dos militares não apenas em um nível social, mas dentro da estrutura executiva do governo, mudou sob Bolsonaro. Em algumas regiões, como na Amazônia, os militares exercem funções que vão além das funções militares puras, incluindo até cuidados médicos. Eles têm uma presença e um papel na sociedade brasileira que não têm em outras sociedades. Um complicador é que as disposições da Constituição relacionadas ao papel dos militares na garantia da ordem pública são abertas a interpretações bastante abrangentes. Isso cria uma ambiguidade sobre o que eles podem ou não fazer. É de se esperar que haja maior clareza constitucional no futuro, sob um governo com mais compromisso democrático, a respeito das funções concretas do Exército.

O atual favorito à Presidência é Lula, que já ficou preso por corrupção. Como a comunidade internacional vê a volta dele ao cenário e a atual boa posição dele nas pesquisas? Um fracasso das instituições brasileiras pode significar diversas coisas. Pode ser um fracasso pelo Lula ter sido preso ou pode significar um fracasso por ele ter sido solto em seguida. Existe um consenso na Europa sobre o Brasil e ele é extremamente pró-Lula, extremamente simpático a ele. Enquanto isso, a antipatia internacional pelo Bolsonaro é intensa. Isso se sobrepõe e vai prevalecer sobre quaisquer reservas ligadas ao Lula por causa dos procedimentos legais que ele sofreu.

Esse apoio internacional a Lula permanece mesmo quando ele se coloca em relação à atual guerra no Leste Europeu, fazendo críticas ao governo da Ucrânia por não ter conseguido negociar com a Rússia antes da invasão? Lula obviamente não aprovou a guerra na Ucrânia. Ele simplesmente disse que temos de fornecer uma explicação para a guerra que leve em consideração causas diferentes e que também reconheça que as lideranças da elite ucraniana e as organizações internacionais têm algumas responsabilidades pelas causas da guerra. Eu concordo com essa análise.

Bolsonaro reclama sempre que seus poderes presidenciais são limitados ou até mesmo tolhidos por interferências indevidas, mirando boa parte de sua bateria de críticas contra o Supremo Tribunal Federal. Esse tipo de confrontação com o Poder Judiciário é um traço em comum dos governos com tendências autoritárias? Essa é uma característica muito comum. Governos autoritários minam consistentemente não só a autonomia das instituições judiciais, mas também a capacidade das instituições judiciais de construir normas que não são especificamente sancionadas pelos processos legislativos. Atualmente, o antagonismo entre o presidente Bolsonaro e o STF é muito forte, mas isso não é atípico. No país, as práticas do Supremo mudaram muito ao longo dos tempos. Em determinadas épocas, como a atual, o STF é muito ativista e muito robusto em defesa das proteções individuais dos cidadãos e claramente contribui para a expansão de alguns direitos dentro da sociedade. Mas, em outras eras, ele esteve em outra posição, mais alinhada com as ordens presidenciais. Por isso, no caso do Brasil, o relacionamento do presidente com o STF torna-se um pouco complicado por causa dessa posição oscilante da Corte.

Um excesso de ativismo judiciário também não é um problema? Sim. Governos com perfil autoritário emergiram ou demonstraram sinais de que poderiam emergir em sociedades em que os tribunais tiveram responsabilidades excedidas. Um exemplo disso é a Hungria, que teve um dos tribunais constitucionais mais importantes ou mais poderosos do mundo. Os ministros do Supremo do país se viam como responsáveis por criar algo como uma Constituição invisível, uma Constituição para a sociedade que não estava nas disposições constitucionais. Isso se tornou alvo do governo autoritário ou semiautoritário que tomou posse na Hungria.

Riscos à democracia podem ser observados hoje em outros países? Sim, e é importante enfatizar que, apesar de a maioria dos países que passam por isso ter democracias relativamente recentes, isso não é uma regra. Podemos claramente incluir os Estados Unidos e o Reino Unido na relação de nações em que há o enfraquecimento de provisões para o estado de direito, enfraquecimento de proteções judiciais, enfraquecimento de direitos básicos e, em alguns casos, também vemos o controle crescente da esfera pública de modo que as formas de interação e participação democráticas necessárias para sustentar a democracia também se enfraquecem. A Itália vem entrando e saindo dessa categoria em décadas recentes. Então, a qualidade da democracia por lá oscila. Existem hoje no país alguns aspectos da organização democrática que estão claramente sujeitos a tensão.

“Em nome da democracia, os populistas costumam mobilizar o povo contra os princípios que tornam a democracia possível. É paradoxal”

Por que vem ocorrendo essa escalada autoritária? Na Europa, isso está fortemente associado ao colapso do modelo de produção de consenso da Guerra Fria, em que diferentes partidos políticos se organizavam em torno de um ponto claro de consenso: eles se posicionavam de forma hostil à União Soviética e à ideologia comunista. O fim da Guerra Fria na Europa marcou o início de um processo em que o consenso democrático foi enfraquecido e provocou o surgimento de uma série de novos partidos políticos, alguns dos quais têm um compromisso relativamente superficial com a democracia. Essa fragmentação tem a ver, muito frequentemente, com o enfraquecimento das instituições do Estado de bem-estar social.

A América Latina segue essa mesma lógica? Sim, apesar de a construção dos Estados de bem-estar social na América Latina ter se dado por um processo diferente. Na Europa, Estados de bem-estar social que apoiam a democracia foram erguidos com base em experiências de solidariedade criadas pela II Guerra, mas também devido ao consenso da Guerra Fria. Já na América Latina, essas condições contextuais não existiam, então, os Estados de bem-estar social se mostraram um pouco mais frágeis do que na Europa. O enfraquecimento da democracia na América Latina está diretamente associado a um ataque ao Estado de bem-estar social.

Em que medida o crescimento do populismo de direita visto na maioria desses países contribui para o enfraquecimento da democracia? Eu diria que a ameaça vem do populismo de esquerda também, até certo ponto, embora existam menos exemplos. Os movimentos e governos populistas se legitimam através da alegação de que traduzem diretamente a vontade do povo em algum tipo de organização governamental. Então, eles geram legitimidade alegando que articulam uma representação imediata dos interesses populares no regime político. E, muitas vezes, fazem isso atacando as elites existentes, argumentando que essas elites, de alguma forma, são um obstáculo para a manifestação de interesses populares no governo.

Se a vontade do povo é a base da democracia, em que ponto está a falácia desse tipo de argumento? Podemos ver claramente que os ataques desse tipo são totalmente enganosos porque alegam promover mais democracia através de premissas que, na verdade, a enfraquecem, já que o reconhecimento de normas internacionais de direitos humanos é uma das principais garantias da democracia nacional. Então, os movimentos populistas, sempre em nome da democracia, costumam mobilizar a população contra os princípios normativos que, na verdade, tornam esse sistema possível. É o paradoxo dos nossos tempos e precisa ser combatido.

Revista Veja

Extrema direita russa está dividida sobre guerra na Ucrânia




Suas opiniões ainda têm ressonância, mas repressão do governo e disputas internas reduziram influência de grupos da extrema direita da Rússia. Alguns lutam em Donbass, enquanto outros criticam a guerra como fratricídio.

Por Sergey Satanovskiy

Algumas dezenas de pequenos grupos compõem hoje o cenário nacionalista de direita da Rússia. Eles se chamam Movimento Nacionalista, Rússia Conservadora, ou simplesmente Os Conservadores. Alguns apoiam o presidente Vladimir Putin e estão lutando ao lado das tropas russas na Ucrânia, enquanto outros rejeitam o Kremlin.   

Um exemplo de quão fragmentado é o cenário da extrema direita na Rússia foram as diferentes posições que esses grupos tomaram em 2014 em reação ao movimento pró-Europa Maidan e ao início do conflito na região de Donbass, no leste da Ucrânia.

A ofensiva militar russa na Ucrânia apenas alimentou as divisões entre nacionalistas. Quando a Rússia invadiu a vizinha Ucrânia em 24 de fevereiro, alguns extremistas de direita se juntaram imediatamente ao esforço da guerra, mas outros rejeitaram a invasão.

Kremlin contra qualquer oposição

De acordo com um novo relatório do Centro de Informação e Análise (Sova), um instituto de pesquisa sobre racismo sediado em Moscou, os grupos de extrema direita não estão muito difundidos pela Rússia. Isso se deve principalmente ao fato de que o Kremlin não tolera oposição. Os protestos e manifestações de rua no país foram completamente proibidos, supostamente devido a preocupações de saúde com a covid-19.

Mesmo assim, as autoridades começaram a negar autorizações aos organizadores das marchas nacionalistas russas em 2019, antes do início da pandemia. Ainda antes, em 2016, o conhecido extremista Dmitry Demushkin foi condenado à prisão por dois anos e meio. Em 2017, as autoridades bloquearam o site do popular grupo nacionalista Sputnik e Pogrom.

Embora o Kremlin tenha conseguido desmantelar quase todas as organizações nacionalistas do país, as ideias que elas propagam continuam a refletir sentimentos populares entre muitos russos, diz Lev Gudkov, chefe do Centro Levada, um instituto independente de pesquisas sediado em Moscou que o Kremlin rotulou como "agente estrangeiro" em 2016.

Gudkov diz que muitos russos rejeitam outras etnias e cita o grupo online de direita Estado Masculino como exemplo. O grupo propaga uma visão patriarcal e nacionalista do mundo e chamou a atenção no verão de 2021 com uma campanha de assédio dirigida à cadeia de restaurantes asiáticos Tanuki. O assédio se concentrou em uma campanha publicitária que apresentava bandeiras do arco-íris e modelos africanos. A Tanuki foi então submetida a uma onda interminável de falsos pedidos de comida e revisões negativas de restaurantes. Algumas lojas chegaram a receber ameaças de bomba.

De acordo com Gudkov, o principal impulso para a atividade desses grupos é um tipo de "racismo cotidiano não agressivo". "Eles não são nacionalistas que insistem na superioridade da raça branca", acrescentou. "Eles propagam a ideia de um sistema nacional-democrático."

Divididos sobre a guerra na Ucrânia

No entanto, há pouco consenso sobre como tal sistema deveria ser. E essa falta de acordo tirou dos nacionalistas a oportunidade de apresentar uma frente unida, diz Vera Alperovich, especialista do Sova e co-autora do relatório Xenofobia, Liberdade de Consciência e Antiextremismo na Rússia em 2021.

Um dos mais conhecidos grupos nacionalistas pró-Kremlin na Rússia é o autoproclamado coletivo de "sabotagem e reconhecimento" Força Tarefa Rusich. Segundo Alperovich, o Rusich, alinhado ao grupo mercenário Wagner, é uma organização neonazista que utiliza símbolos como as suásticas e o código numérico 14/88, que glorifica a raça branca e Adolf Hitler.

'Alguns integrantes da extrema direita russa dizem que estão lutando pelo seu futuro e o de seus filhos brancos'

Entre os que atualmente apoiam o Rusich na Ucrânia estão vários membros do grupo musical Russian Banner. Em entrevistas, o líder da banda Evgeny Dolganov explicou que grupo quer espalhar opiniões nacionalistas patrióticas entre os seus fãs jovens. Quando a DW o confrontou com as acusações de neonazismo e tendências fascistas no grupo, ele ofereceu o que chamou de sua "resposta padrão": "Não somos fascistas. Somos muito piores. Pior para nossos inimigos! Somos homens e mulheres normais que querem viver em nosso país e criar nossos filhos (meninos e meninas) de acordo com a tradição."

Com a guerra, Dolganov acredita que o Kremlin está protegendo "o povo russo na Ucrânia de serem forçados a ter uma identidade falsa, ucraniana e russofóbica imposta a eles". Dolganov diz que o objetivo do movimento é "lutar contra a injustiça e a substituição da população, e pela prosperidade". Ele diz que uma grande maneira de resumir tudo isso é dizer que eles estão lutando "pelo nosso futuro e pelo de nossas crianças brancas".

Oposição ao "mundo russo" de Putin

Mas muitos outros grupos, que o sociólogo Gudkov chama de nacionalistas-democratas, têm se manifestado contra a guerra da Rússia contra a Ucrânia. Um deles é o ex-preso Dmitry Demushkin. "O Batalhão Russo e a Legião Imperial estão sendo liderados por um de meus ex-combatentes", disse.

Hoje Demushkin se vê como um "nacionalista tradicional", mas antes ele organizou "marchas russas" e liderou várias associações de direita que o governo rotulou de extremistas. Agora, ele usa redes sociais para pedir o fim da guerra da Rússia na Ucrânia, criticando-a como "fratricida".

Depois que autoridades em Moscou baniram a organização de Demushkin e ele foi preso por alegar que "a Rússia precisa de uma autoridade estatal russa", ele perdeu toda a fé em Vladimir Putin. Ele também diz não acreditar mais na visão de Putin de construir um "mundo russo", uma civilização que seria única e não ocidental.

Demushkin diz que não está claro que tipo de "mundo russo" o Kremlin está tentando impor à Ucrânia: "Tribunais corruptos, governos poderosos não eleitos pelo povo, censura, restrições, leis penais e banimentos? É por isso que eles estão indo para lá com tanques e não ideias", afirma.

Lema "Rússia para os russos" atrai adeptos 

Mesmo que os nacionalistas russos lutando na Ucrânia atraiam a atenção da imprensa, seus grupos não são tão populares em seu país. Os observadores dizem que as organizações e partidos de direita na Rússia estão muito longe do tamanho ou da influência que tiveram nos anos 2000.

A especialista do Sova, Vera Alperovich, diz que o número real de membros ativos afiliados a grupos nacionalistas no país é pequeno. Ela acrescenta que não há mais "grandes estrelas na constelação de ultradireita", o que provavelmente deve-se à falta de uma vida política no país.

Gudkov, no entanto, oferece uma visão diferente, e lembra do grito de guerra "Rússia para os russos", que ele diz ser mais popular agora do que em qualquer outro momento nos últimos 30 anos.

Deutsche Welle

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