terça-feira, junho 14, 2022

Fome no país do agronegócio




Por Fernando Gabeira (foto)

Trinta e três milhões de pessoas passam fome no Brasil. O número praticamente dobrou em dois anos. É um caso de emergência nacional.

Não creio que Bolsonaro esteja se importando muito com isso. Quando morriam as pessoas com Covid-19, ele disse:

— E daí? Não sou coveiro.

Um humorista lembrou muito bem que ele pode dizer agora:

— E daí? Não sou cozinheiro.

Tenho escrito que Bolsonaro é um bode na sala. Um imenso bode. Por trás de sua incompetência e insensibilidade, há uma crise muito séria, que não se resolverá com paliativos. Desde a década passada sobem os preços de alimentos e energia, assim como se sucedem eventos extremos causados pela emergência climática.

A crise ficou apenas mais profunda com a pandemia, que matou mais de 6 milhões, e uma estúpida guerra, que opõe um grande produtor de petróleo a um grande produtor de alimentos.

Evidente que esse pano de fundo será ofuscado pela ruidosa derrota de Bolsonaro. O alívio imediato é uma sensação que precisa ser vivida até que deparemos com a realidade de um mundo que mudou e com a evidência de que o passado não volta mais.

Ironicamente, Bolsonaro venceu em 2018 colocando-se contra o sistema. Desprezava tudo, até o marketing político.

Agora, aconselhado por seus amigos sistêmicos do Centrão, procura jovens dos mais jovens. Como? Com um discurso paternalista, do tipo “obedeçam aos seus pais”.

Quem obedece aos pais não precisa de ajuda de Bolsonaro para fazê-lo; quem não obedece não o fará influenciado por ele.

No fundo, seu movimento de conquista dos jovens, no máximo, reforçou seu discurso para os mais velhos. Coisas do marketing político que, como tantas outras iniciativas, acaba obtendo o contrário do que almeja.

No auge da crise planetária, quando o bode sair da sala, nos daremos conta de que a destruição da Amazônia é um de seus componentes mais dramáticos.

Neste momento, o desaparecimento de um jornalista inglês, Dom Phillips, e de um indigenista, Bruno Pereira, é um aprendizado nacional.

Poucos conhecem o Vale do Javari, que, com 85 mil quilômetros quadrados, é maior que a Áustria. Poucos sabem que vivem ali indígenas que chamamos de isolados, mas são, na realidade, grupos que não querem contato, preferem viver sua vida.

Fica mais evidente, com o desaparecimento de Dom e Bruno, que a Amazônia é controlada por grupos criminosos um pouco como alguns morros do Rio. Jornalistas que tentam mostrar essa realidade podem sofrer o que sofreu Tim Lopes.

Continuo esperançoso em que os desaparecidos sejam encontrados. Mas é impossível não acentuar que a presença do crime organizado na Amazônia é fruto de uma política.

Hoje podemos dizer que é uma insanidade a ideia de controlar a natureza, ainda mais o sonho dos militares, teorizado por Golbery do Couto e Silva, de domar a floresta, vista como um “inferno verde”.

Essa concepção certamente levaria a uma tolerância com o garimpo, a grilagem, o desmatamento e agora o tráfico de drogas e animais silvestres.

Nesse sentido também, Bolsonaro é apenas um bode na sala. Simboliza, de forma caricatural, toda uma concepção de mundo que vai da produção ao consumo, até a maneira como se faz da natureza um simples objeto do avanço tecnológico. Ironicamente, a Amazônia que os militares querem proteger dos invasores imaginários já está invadida pelo crime organizado, que a destrói impiedosamente.

Nosso orgulho nacional de alimentar o planeta com um poderoso agronegócio torna-se um constrangimento, diante do fato de cerca de 15% do nosso povo passar fome.

Não cabe mais perguntar que país é este. Já sabemos o bastante para responder dolorosamente.

Árvores tombando, rios contaminados, corpos humanos torturados pela fome, talentos perdidos. O Brasil é um país suicida.

O Globo

Bondades fiscais em ano eleitoral podem custar R$ 111,4 bilhões aos cofres públicos




As bondades fiscais concedidas pelo governo em 2022, ano em que o presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), tenta a reeleição, podem custar pelo menos R$ 111,4 bilhões aos cofres públicos. Até o momento, a equipe econômica tem contabilizado no Orçamento R$ 65 bilhões em renúncias fiscais no ano.

Esse valor considera, entre outras medidas, a redução das alíquotas de IPI em 35% (R$ 23,4 bilhões), a queda das alíquotas de PIS/Cofins para o diesel e para o GLP (R$ 14,9 bilhões), a prorrogação da desoneração da folha de pagamentos (R$ 9,2 bilhões) e as reduções das alíquotas do Imposto de Importação (R$ 9,7 bilhões).

Caso o Congresso aprove o pacote para combustíveis proposto por Bolsonaro, que tem custo estimado em pelo menos R$ 46,4 bilhões, as bondades do governo com o dinheiro público sobem para pelo menos R$ 111,4 bilhões.

O relator no Senado das propostas do governo para baratear os combustíveis, senador Fernando Bezerra (MDB-PE), estimou que o governo gastará pelo menos R$ 29,6 bilhões para compensar, fora do teto de gastos, os Estados que zerarem as alíquotas do diesel e do gás de cozinha.

Outros R$ 16,8 bilhões se referem as estimativas sobre quanto o governo federal vai abrir mão de receitas para zerar tributos federais sobre a gasolina.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, e seus auxiliares têm afirmado publicamente que a redução de impostos, como o IPI, decorre de um aumento estrutural de arrecadação que é revertido em menores alíquotas.

No caso das duas reduções do Imposto de Importação, o governo anunciou que tomou as medidas para aumentar a oferta de produtos e para tentar frear a inflação.

Guedes, entretanto, tem sido pressionado por Bolsonaro e pelo Centrão a reduzir o preço dos combustíveis. Segundo parlamentares e ministros da ala política, os custos da gasolina e do diesel são os principais obstáculos para o presidente decolar nas pesquisas eleitorais e podem prejudicar o projeto de reeleição.

O ministro da Economia sempre foi contra uma redução de impostos para a gasolina, uma medida que contraria o discurso de que o Brasil é uma economia verde. Além disso, o ministro teme pela solidez das contas públicas e pela credibilidade da equipe econômica, acusada de abandonar o rigor fiscal.

A ideia original de Guedes era bancar apenas uma compensação para o diesel, ao custo máximo de R$ 22 bilhões. A decisão de Bolsonaro, entretanto, foi aumentar a renúncia fiscal para baratear também a gasolina.

Estadão / Dinheiro Rural

Alta comissária da ONU diz que ataques antes das eleições no Brasil são ‘preocupantes’




A alta comissária de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ACNUDH), Michelle Bachelet, diz que ataques antes das eleições de outubro contra parlamentares e candidatos são "preocupantes", principalmente mulheres, LGBT+ e afrodescendentes.

Bachelet também afirma estar alarmada por causa das ameaças contra defensores dos direitos humanos e indígenas no Brasil.

A declaração foi feita durante a abertura do Conselho dos Direitos Humanos nesta segunda-feira, 13, em Genebra, na Suíça.

Bachelet também anunciou que não irá concorrer à reeleição de seu posto nos Direitos Humanos da ONU, sendo a de hoje a última sessão em que participará do Conselho.

Essa é a segunda vez em uma semana que o Brasil é citado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos.

Na sexta-feira, 10, a porta-voz da ACNUDH, Ravina Shamdasani, disse que a resposta inicial das autoridades brasileiras para buscar Dom Phillips e Bruno Pereira foi "lenta", tendo ocorrido após decisão judicial que obrigou o governo federal a empregar meios necessários para procurar a dupla.

Estadão / Dinheiro Rural

Lula recua para 44% e Bolsonaro continua com 32% em pesquisa FSB/BTG




Nova rodada da pesquisa do Instituto FSB Pesquisa, encomendada pelo BTG Pactual e divulgada nesta segunda-feira, 13, mostra que o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva continua liderando a corrida presidencial, mas sem potencial de vencer as eleições já no primeiro turno, como indicou a mostra do mês de maio. Nessa pesquisa mais recente, ele soma 48% dos votos válidos e teve 44% das intenções de voto, perdendo dois pontos porcentuais em comparação com a do mês anterior, mas dentro da margem de erro.

De acordo com os dados do relatório feito entre os dias 10 e 12 de junho deste ano, o presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), manteve o mesmo porcentual do mês passado, ficando com 32%.

Ciro Gomes (PDT) foi citado por 9%, enquanto Simone Tebet (MDB) atingiu 2%, ambos no mesmo patamar da pesquisa de maio.

André Janones (Avante) e Felipe D’Ávila (Novo) obtiveram 1% e o restante não pontuou.

Brancos e nulos somam 2% e os entrevistados que não responderam ou não pretendem votar em nenhum candidato somaram 7%.

De acordo com Marcelo Tokarski, sócio-diretor do Instituto FSB Pesquisa, a confirmação de Simone Tebet como candidata da coligação MDB, PSDB e Cidadania e a leve melhora no pessimismo quanto à inflação futura não foram suficiente para alterar as intenções de voto. "O cenário segue sem mudanças", destaca.

O Instituto FSB ouviu, por telefone, 2.000 pessoas entre os dias 10 e 12 de junho.

A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-03958/2022.

A margem de erro é de dois pontos porcentuais, para mais ou para menos.

Estadão / Dinheiro Rural

Brasil fica atrás na corrida mundial - Editorial




Efeito da guerra e da covid é global, mas o desempenho brasileiro segue inferior ao da maioria dos emergentes e ricos

O mundo vai mal, com as condições econômicas afetadas pela invasão da Ucrânia e pelos novos casos de covid-19. O Brasil, sem surpresa, continua em condições piores que as da maior parte dos países emergentes e avançados, como estava antes da pandemia e da guerra iniciada pelo presidente russo, Vladimir Putin. O Banco Mundial até elevou o crescimento estimado para o Brasil em 2022, mas de 1,4% para 1,5%, pouco mais da metade da taxa prevista para a produção global, agora reduzida de 4,1% para 2,9%. Bem mais fraco é o desempenho calculado para a economia brasileira pela OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico: expansão de apenas 0,6% para o Produto Interno Bruto (PIB), um quinto do esperado para o produto mundial, 3%, contra 4,5% projetados em dezembro.

Mais inflação, piores condições de financiamento, menor crescimento e maiores provações para as populações mais pobres compõem o cenário apresentado pelas duas instituições. Segundo o presidente do Banco Mundial, David Malpass, em muitos países será difícil evitar a recessão. O mais urgente, agora, é evitar uma crise de alimentação ocasionada pela alta de preços, escreveu a economista-chefe da OCDE, Laurence Boone.

Inflação, desemprego elevado e perda de renda do trabalho estão entre os grandes obstáculos ao crescimento brasileiro neste ano, segundo a análise da OCDE. A forte retomada inicial da economia, favorecida no ano passado pela vacinação, perdeu impulso neste ano. O ritmo poderá aumentar para 1,2% em 2023, mas ainda continuará bem abaixo das médias global e do Grupo dos 20 (G-20), ambas estimadas em 2,8%.

Os preços ao consumidor continuarão subindo velozmente no Brasil, embora em ritmo inferior ao atual. As projeções da OCDE apontam variação de 9,7% neste ano e de 5,3% no próximo. São números pouco superiores aos do mercado, citados no boletim Focus do Banco Central: 8,9% em 2022 e 4,4% em 2023. Mas são bem mais altos do que aqueles previstos para quase todos os membros da Organização. Nove países aparecem com taxas maiores que as do Brasil, nas estimativas para este ano. A maior alta é a da Turquia (72%), seguida por aquela calculada para a Argentina (60,1%). O nono país em pior posição que a brasileira, nesse conjunto, é a Hungria, com inflação esperada de 10,3%.

Também se mencionam as incertezas da fase eleitoral e a piora dos sentimentos. Essas incertezas devem desestimular o investimento neste ano, baixando o ritmo de atividade e retardando o aumento da capacidade produtiva. Desajustes nas cadeias produtivas e aumentos de preços de matérias-primas estão entre os efeitos atribuídos à guerra na Ucrânia. O quadro inclui também a irregularidade das chuvas e suas consequências na agricultura e na geração de eletricidade.

Problemas podem variar, como o surgimento, por exemplo, da guerra na Ucrânia ou de uma pandemia, mas chama a atenção a constância, há cerca de dez anos, do desempenho brasileiro abaixo das médias internacionais. Eis um bom tópico para as eleições deste ano. 

O Estado de São Paulo

Dar de comer a quem tem fome




Por Carlos Brickmann (foto)  

Bolsonaro disse nos Estados Unidos que o Brasil alimenta um bilhão de pessoas no mundo. Talvez; mas falta alimentar 33 milhões de brasileiros para quem não há comida. Falta alimento? Não: falta administração. E, embora não falte dinheiro para mordomias nos três Poderes, jet-skys, motociatas, falta dinheiro para dar de comer a quem tem fome. Aos números: em 2009, no fim de seu segundo mandato, Lula criou o PNAE, Programa Nacional de Alimentação Escolar. Dilma assumiu, manteve o PNAE no mesmo valor. Temer assumiu, manteve o PNAE no mesmo valor. Bolsonaro também não mexeu em nada: para todos foi mais confortável fingir que não houve aumento de população de 2010 até 2022 e os preços não subiram em 13 anos.

Resultado: na pré-escola, há R$ 0,53 para encher o prato dos garotos da pré-escola, que ou se alimentam direito ou têm a saúde prejudicada para sempre. Os alunos do Fundamental e do Médio têm menos ainda, R$ 0,36 por pessoa. No ensino em tempo integral o custo vai de R$ 1,07 a R$ 2,00. Não é só isso: em muitos casos, a merenda escolar é a única refeição do dia.

Num país em que cada parlamentar tem até 80 assessores, os ministros do Supremo têm funcionários para puxar suas cadeiras, o presidente precisa colocar seus gastos no cartão em sigilo para evitar escândalo, candidatos usam bilhões públicos para a campanha, há gente que não sabe quando vai comer. Os campeões de gastos brigam entre si. Os famintos que se danem.

Alguém contesta?

Quem fez o brilhante levantamento foi a repórter Laura Mattos, da “Folha de S.Paulo”. Não há um pingo de partidarismo neste notável trabalho. Só há números, só há fatos: o PNAE deve atender a 40 milhões de estudantes de escolas públicas. Certas categorias profissionais mais iguais que as outras compram filé-mignon, salmão, picanha, com recursos públicos. Quem não tem o que comer simplesmente não come. Não, não há qualquer tentativa de reduzir gastos públicos. É como se os famintos simplesmente não existissem.

Sentindo-se em casa

Mas é injusto responsabilizar certas despesas de Bolsonaro pela falta de verbas essenciais. Agora, foi a Los Angeles participar da Cúpula das Américas (e se disse encantado com o presidente Biden). E, já que estava por lá, resolveu voar 3.500 km para inaugurar um vice-consulado que existe desde janeiro, em Orlando – onde fica a Disneyworld. Como perder a oportunidade? É lá que estão o Pateta, os Irmãos Metralha, João Bafodeonça, o rato Mickey.

Há até o Zé Carioca, que se veste igualzinho a um eleitor dele.

Armas, armas às mancheias

Anote: falta comida para alimentar 33 milhões de pessoas, falta dinheiro para a merenda escolar de 40 milhões de crianças, mas para armas o dinheiro sobra. A Polícia Militar do Rio vai entregar uma arma de fogo do Estado, gratuitamente, para 10 mil PMs da reserva remunerada. Cada PM aposentado poderá pedir três carregadores e um mínimo de 50 balas. Motivo? Segundo o porta-voz da PM, Ivan Blaz, os soldados reservistas poderão usar as armas para fazer “bicos” particulares como seguranças.

Com o nosso dinheiro.

A área dos desaparecidos

Faz tempo, muito tempo, mas este repórter conheceu a região da Tríplice Fronteira amazônica, onde estão Tabatinga (Brasil), Santa Rosa (Peru) e Letícia (Colômbia). Letícia e Tabatinga são, na prática, uma cidade só. Em Tabatinga há uma base aérea brasileira. Letícia é, há uns cem anos, a capital da Tríplice Fronteira (o Governo colombiano se preocupa com ela, que já foi uma vez invadida pelos peruanos). E, desde a década de 60, a cocaína vai de lá para o Exterior. A guerrilha movida pelas FARCs providenciou armas de primeira linha para os traficantes. Derrotadas as FARCs, parte de suas forças decidiu continuar na ilegalidade, traficando drogas. Ali operam o Comando Vermelho, CV, com base no Rio de Janeiro; e a FDN, Família do Norte, com gente da própria região. Aos traficantes, com quem colaboram e que lhes dão segurança, se aliam madeireiros e garimpeiros ilegais. E todos se beneficiam do desmonte do aparato de defesa dos índios e de proteção à floresta: ficou bem mais fácil a vida para os ilegais.

Difícil já não era: não só o Javari e outros inúmeros rios e igarapés, mas até o Solimões (que irá se tornar Amazonas após receber as águas do Rio Negro), são excelentes rotas de fuga.

É nessa área, onde prosperam atividades ilegais de todos os tipos, onde o crime organizado opera com certa tranquilidade cruzando fronteiras, que Dom Phillips e Bruno Pereira estão desaparecidos.

Como é mesmo? Já está em vigor desde quarta-feira a norma da Anatel segundo a qual as operadoras de telemarketing são obrigadas a usar o código 0303. Dizem que, assim, o cliente pode decidir se quer ou não atender à chamada.

OK, só que não é assim: praticamente todas as chatíssimas chamadas de telemarketing chegam pelo meu telefone com fio – e aí, como descobrir o prefixo do chato?
 
Brickmann.com.br

A hora do populismo e do estelionato eleitoral

 




Como o objetivo é baixar a inflação para melhorar a popularidade de Bolsonaro, considerações sobre 2023 e depois não entram mais na conta do governo

Por Sergio Lamucci (foto)

Na semana passada, o governo avançou ainda mais na tentativa de reduzir a inflação a qualquer custo, escancarando a estratégia populista na busca para reverter a baixa popularidade do presidente Jair Bolsonaro. Primeiro, com o anúncio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para ressarcir os Estados que concordarem zerar o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do óleo diesel e do gás de cozinha, casada à ideia de jogar a zero a alíquota dos tributos federais sobre a gasolina e o etanol. Depois, com o pedido de Bolsonaro e do ministro da Economia, Paulo Guedes, para que empresários segurem reajustes de preços.

O que se prepara, às claras, é um estelionato eleitoral, como definiu Bernard Appy, diretor do Centro de Cidadania Fiscal (CCiF), em entrevista ao Valor. Se aprovados em conjunto a PEC e o projeto que limita a alíquota do ICMS de itens como energia elétrica e combustíveis (o PLP 18/2022), a inflação poderá ter uma queda considerável neste ano, para voltar a subir no ano que vem. Com um Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais elevado em 2023, a perspectiva é que os juros fiquem mais altos por mais tempo, o que deverá afetar o crescimento. Além disso, essas medidas tendem a minar estruturalmente as contas públicas.

A PEC foi o instrumento escolhido para que os recursos a serem usados para ressarcir os Estados sejam excluídos do teto de gastos. Sem cerimônia, o governo dá mais um golpe na credibilidade do mecanismo que limita o crescimento das despesas à inflação do ano anterior.

Os indicadores fiscais do país melhoraram principalmente pelo efeito da inflação elevada e dos altos preços de commodities. Isso eleva a arrecadação e aumenta o PIB em termos nominais, o que reduz a dívida e o déficit público em relação ao tamanho da economia. O endividamento bruto tem mostrado uma trajetória melhor do que as projeções feitas no fim de 2020, que chegavam a apontar um indicador na casa de 96% do PIB no fim de 2021. O indicador, porém, ficou em 80,3% do PIB em dezembro do ano passado, ainda assim um número elevado para um país emergente. Em abril, havia caído para 78,3% do PIB. A partir de 2023, porém, a dinâmica da dívida deverá deixar de ser benigna, com uma inflação mais baixa e juros mais altos, que vão aumentar os gastos financeiros do governo e prejudicar o crescimento. Com a disposição de reduzir a inflação a qualquer preço, a equipe econômica promove uma série de reduções de impostos, usando o pretexto de que o aumento de receitas é estrutural.

O economista-chefe da Neo Investimentos, Luciano Sobral, adverte para os perigos dessa visão. Segundo ele, a ideia de que há um excesso de arrecadação, propagandeada por Guedes e comprada por muitos políticos, é desastrosa. É muito difícil separar dos números atuais o que é de fato estrutural do efeito da inflação alta, dos preços de commodities elevados e do efeito da reabertura da economia, diz Sobral. Era esperado que esses três fatores fizessem a receita crescer a um ritmo mais forte do que a economia, mas é algo que não deve ser extrapolado, afirma ele.

As propostas para limitar a alíquota do ICMS de itens como energia elétrica e combustíveis têm potencial de causar perdas expressivas aos Estados. Nas estimativas do Banco Safra, pode haver uma “perda permanente de receitas do ICMS de R$ 80 bilhões por ano”. Em 2022, ela ficaria na casa de R$ 40,4 bilhões.

As implicações não são triviais. “Essas perdas afetarão o repasse para municípios e para educação e saúde, dada a vinculação dessas despesas às receitas”, lembram os economistas do Safra. “Somadas à provável queda de arrecadação com rebalanceamento do consumo mais para serviços do que para bens, na esteira da diminuição dos impactos da covid-19”, o efeito sobre “a situação fiscal da maior parte dos Estados, especialmente dos que mais dependem de receita própria, será substancial”, advertem eles, em relatório. “Estados estruturalmente endividados como o Rio Grande do Sul poderão sofrer uma deterioração fiscal nos próximos anos, não obstante o progresso no saneamento de suas finanças ocorridos nos últimos oito anos.”

Ha uma compensação proposta pela União para as perdas dos governos estaduais com esse projeto, que valeria apenas para o segundo semestre deste ano, alcançando até R$ 40 bilhões, notam os analistas do Safra. O PLP 18/2022 também prevê zerar as alíquotas do PIS/Cofins sobre gasolina e etanol, com perda de receita de R$ 16,4 bilhões para o governo federal. Com isso, pode levar a uma renúncia de receitas de R$ 56,8 bilhões.

Já no caso da PEC, o ressarcimento para os Estados que toparem zerar o ICMS do diesel e do etanol neste ano chegaria até o limite de R$ 29,6 bilhões. “O valor é ligeiramente inferior aos R$ 34 bilhões que estimamos que custaria essa política neste ano”, diz o relatório do Safra, avaliando que as duas mudanças podem trazer perdas de R$ 91 bilhões neste ano.

Se aprovadas, o impacto sobre a inflação de 2022 deverá ser expressivo. Nas contas do Safra, podem tirar até 2,8 pontos percentuais do IPCA, dos quais 2,5 pontos devido ao efeito do PLP 18/2022. O efeito, porém, pode ser menor, a depender das versões das medidas que passarem no Congresso. Com isso, o IPCA tenderia a ficar na casa de 6% a 6,5% em 2022, diz o Safra, que prevê atualmente um índice de 8,7%. Para 2023, uma eventual normalização das alíquotas temporariamente levadas a zero pela PEC acrescentaria 0,9 ponto à inflação, calcula o banco. Eles ressaltam, porém, que é difícil estimar como ficará o IPCA do ano que vem, já que, de outro lado, índices de preços menores em 2022 vão implicar um reajuste menor para o salário mínimo em 2023, além de atenuarem outras pressões que se dariam pela inércia, o fenômeno pelo qual a inflação passada alimenta a futura. Hoje, o Safra estima um IPCA de 4,5% para 2023, bastante acima da meta de 3,25% O alvo de 2022 é de 3,5%.

Sobral diz que o grau de incerteza para 2023 aumentou significativamente. A perspectiva de queda do IPCA neste ano e o risco de alta no ano que vem complicam a tarefa do Banco Central (BC). “O problema é que isso joga a inflação de um ano que estava perdido, do ponto de vista de atuação do BC, para um ano ainda ‘vivo’”, afirma Sobral. Como a meta de 2023 ainda está no horizonte relevante para a política monetária, isso deve forçar o BC a agir. Nesse caso, com a manutenção da Selic alta por mais tempo, diz ele. O BC deve aumentar a taxa em mais 0,5 ponto percentual nesta semana, para 13,25% ao ano.

Como o objetivo é baixar a inflação para melhorar a popularidade de Bolsonaro, considerações sobre 2023 e depois não entram mais na conta do governo. Vale reduzir impostos sem planejamento ou pedir para empresários segurarem preços, recorrendo sem disfarce a uma estratégia abertamente populista.

Valor Econômico

A aflição de Bolsonaro - Editorial




Pedido absurdo para que supermercados não subam preços, com aval do ‘liberal’ Guedes, mostra um presidente atônito ante a possibilidade de derrota eleitoral

O absurdo apelo do presidente Jair Bolsonaro e de seu ministro da Economia, Paulo Guedes, para que os supermercados congelem os preços até o fim do ano para conter a inflação revela um candidato em pânico diante das pesquisas que mostram seu principal adversário se distanciar na liderança. A despeito de tudo o que tem dito e feito para controlar alguns preços essenciais da economia, a posição de Bolsonaro no quadro eleitoral piora a cada novo resultado, pois suas pretensas soluções ou são danosas ou inócuas. Além disso, o apelo expõe um ministro que se dizia liberal, mas que, como cabo eleitoral de seu chefe, propõe o controle de preços, de que ele foi, com razão, um crítico incansável.

“Um apelo que faço aos senhores, para toda a cadeia produtiva, é para que os produtos da cesta básica, cada um obtenha o menor lucro possível para a gente poder dar uma satisfação a uma parte considerável da população, em especial os mais humildes”, pediu Bolsonaro, com sua sintaxe peculiar, ao falar para os participantes de um evento da Associação Brasileira dos Supermercados (Abras). Guedes foi mais enfático: “Nova tabela de preços, só em 2023. Trava os preços. Vamos parar de aumentar os preços por dois ou três meses. Estamos em uma hora decisiva para o Brasil”.

São frases que lembram os tempos do governo Sarney (1985-1990), que, sob a alegação de combater a inflação, tabelou e/ou congelou preços e apelou à população para denunciar estabelecimentos que estivessem praticando aumentos. Era o tempo dos “fiscais do Sarney”. Seus resultados mais óbvios foram a desorganização da economia e a hiperinflação.

Bolsonaro está obcecado com as pressões inflacionárias, por causa de seu forte impacto eleitoral. A maioria da população aponta o governo como responsável pela alta dos preços. Por isso, Bolsonaro viu na tentativa de conter os preços dos combustíveis um meio de dar alguma resposta aos eleitores prejudicados pela alta da gasolina, do óleo diesel e do gás de cozinha. Tem culpado os governadores, atribuindo a alta dos preços aos impostos estaduais, ou a Petrobras, por sua política de preços que considera “insensível”, omitindo ou ignorando deliberadamente os fatores externos que fazem subir a cotação do petróleo e seus derivados.

Sem saber o que fazer diante da inflação, que corrói suas pretensões eleitorais, o presidente parece estar perdido, como também parece estar seu ministro da Economia. Com o apelo para que o comércio varejista congele seus preços, passa a mostrar também desespero. Se a inflação continuar alta, parece argumentar, o populismo lulopetista pode voltar. 

Seu esforço para se mostrar competente e determinado na defesa dos menos favorecidos – cujo número, como se sabe, aumentou exponencialmente sob seu governo, como mostra o total de brasileiros que passam fome – tem sido comoventemente hercúleo. No entanto, longe de estar preocupado com a situação da população, que nunca levou em conta, Bolsonaro está mesmo preocupado consigo e com seus familiares.

Sabe que, quanto maior for a diferença entre ele e o líder das pesquisas eleitorais, o igualmente populista (com sinal trocado) Luiz Inácio Lula da Silva, maior será a perda de aliados, aqueles que lhe evitaram dificuldades políticas no Congresso em troca do domínio de boa parte do Orçamento da União. E já surgem sinais de desunião, para dizer o mínimo, até no grupo de confiança do presidente.

E eles surgem justamente no núcleo mais próximo do chefe do governo, o núcleo familiar. Têm sido frequentes informações de que os dois filhos mais velhos do presidente, Flávio e Carlos, já estão se desentendendo a respeito da qualidade das peças publicitárias da campanha pela reeleição. 

Ainda há tempo para que os responsáveis pela campanha de Bolsonaro ajustem os parafusos soltos, mas os obstáculos são muitos – a começar não pela inflação, mas pela cada vez mais evidente incapacidade do presidente de governar. Se a melhor resposta que Bolsonaro pode dar à alta dos preços é o congelamento, não há razão nenhuma para reelegê-lo. 

O Estado de São Paulo

“Bolsonaro se empenha em vender um faz de conta”, diz professor de Oklahoma




Professor assistente de Estudos Internacionais e professor Wick Cary de Estudos Brasileiros na Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos, Fábio Costa Morais de Sá e Silva considera limitados os efeitos da visita do presidente Jair Bolsonaro aos EUA. “Bolsonaro continua empenhado em vender ao seu eleitorado um faz de conta. Vai dizer que a reunião foi boa, espalhar clipes de motociata, enfim, vender como uma vitória. Na prática, sabemos que não foi nada disso”, disse, em entrevista ao Correio. Ele alerta também sobre os ataques do presidente brasileiro às urnas eletrônicas, ao que caracterizou como uma possível “versão tupiniquim da invasão ao Capitólio”. Sobre as eleições, Sá e Silva afirma que o governo não conseguirá dar respostas econômicas satisfatórias para o eleitor. Leia os principais pontos da entrevista.

Como avalia a atual relação entre Brasil e EUA?

É uma relação desgastada. Bolsonaro cometeu um erro; alinhou-se a uma candidatura que foi derrotada (Trump) e demorou para reconhecer a vitória de Biden. Além disso, abraça agendas antagônicas a preocupações centrais da administração Biden, como mudanças climáticas, violência contra negros, direitos dos povos indígenas e a própria democracia. Também cresceu no Congresso dos EUA (em especial entre os democratas) uma bancada em favor da democracia e dos direitos humanos no Brasil, cujos parlamentares já escreveram várias cartas ao presidente Biden pedindo medidas mais duras visando constranger Bolsonaro. A sorte do Brasil é que, hoje, a prioridade da política externa norte-americana é o enfrentamento com a China, e Biden não quer deixar o Brasil suscetível à influência de Pequim. Nesse sentido, ele tensiona, mas não rompe com Bolsonaro.

O que representa essa primeira conversa entre o presidente Bolsonaro e Biden?

Bolsonaro continua empenhado em vender ao seu eleitorado um faz de conta. Vai dizer que a reunião foi boa, espalhar clipes de motociata, enfim, vender como uma vitória. Na prática, sabemos que não foi nada disso.

Como é vista a gestão Bolsonaro no exterior?

A avaliação é ruim. Um dos picos foi na pandemia, quando Bolsonaro fez pouco caso da ciência, até mesmo das vacinas e colocou o Brasil no topo do ranking das mortes. Outro está se formando agora, no rescaldo do desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira, o qual escancarou o descaso do presidente com a segurança na Amazônia e o bem-estar dos povos indígenas.

Quais as perspectivas sobre as eleições de outubro no Brasil?

As pesquisas sugerem uma vitória de Lula e uma derrota de Bolsonaro. Isso é condizente com a deterioração da situação econômica e social no Brasil — o retorno da inflação, o aumento do custo de vida, a persistência do desemprego — e também com a estratégia de Bolsonaro, que sempre foi de fidelizar seu eleitorado radical, ao invés de governar para todo o país. O governo parece consciente de que, até outubro, não conseguirá virar o jogo, mas tenta virar a mesa, aprovando corte de impostos para baixar o preço da gasolina e até mesmo pedindo ao varejo para represar aumentos no preço de alimentos. É difícil que consiga. Em paralelo, continua atacando as urnas eletrônicas, talvez preparando uma versão tupiniquim da invasão ao Capitólio.

Há diferença entre as eleições de 2018 e a de 2022?

São contextos radicalmente diferentes. Em 2018, a Lava- Jato estava a pleno vapor, Lula foi excluído das eleições, e as elites políticas prometiam ao país que candidaturas liberais ou antagônicas ao PT trariam investimento e empregos. Em 2022, a Lava-Jato está morta. Lula, de uma maneira ou de outra, venceu todos os processos que tinha contra si, e a política de Guedes resultou numa combinação rara de inflação, desemprego, dólar alto e juros altos. Também houve aprendizado institucional (por exemplo, por parte do TSE) e de boa parte da população sobre como lidar com desinformação.

Como analisa os ataques de Bolsonaro a outros Poderes e os reiterados ataques às urnas?

É o fator de maior preocupação para mim e muitos outros colegas. A inspiração de Bolsonaro na cartilha de Trump é clara. No contexto americano, isso gerou os ataques ao Capitólio, mas Trump não contava com militares. No Brasil, coube ao próprio TSE legitimar os militares como fonte de questionamento da segurança das urnas e, recentemente, em depoimento no Congresso, uma autoridade das Forças Armadas foi incapaz de rejeitar categoricamente que eles apoiariam um golpe. Cabe às forças democráticas no Brasil agirem para reduzirem o espaço desse tipo de golpismo. O tempo é curto, e o desafio, imenso.

Em meio a polarização Lula-Bolsonaro, avalia maior risco de violência e instabilidade nas eleições deste ano?

Sim, mas não exatamente por polarização. O Brasil já teve eleições polarizadas sem violência e instabilidade. O problema é que a extrema direita utiliza a violência e a instabilidade como método e, quanto mais perde capital eleitoral, mais isso fica sendo o único recurso de que ainda dispõe.

Quais fatores influenciarão as eleições em 2022?

O principal é a economia, onde a deterioração foi enorme. Não há espaço para falar de muito mais coisa num país com 30 milhões de famintos.

A terceira via ainda tem chance?

Sempre avaliei que o espaço eleitoral da terceira via era diminuto, afinal, temos um presidente em exercício (Bolsonaro) concorrendo contra um ex-presidente (Lula). A tendência de que a maior parte dos votos confluir para essas duas candidaturas é enorme. Fora isso, as forças políticas que aspiravam à condição de “terceira via” foram incapazes de se entender e se arranjar. Já perdi a conta de quantos candidaturas de “terceira via” foram lançadas e, depois, sepultadas. Por fim, Lula conseguiu reduzir ainda mais o espaço da terceira via ao convidar Alckmin para a vice. Não quer dizer que uma chapa de terceira via não se apresente, mas, a menos que aconteça algum cataclisma político, não conseguirá ser competitiva. Pode, no máximo, forçar um segundo turno.

Bolsonaro pediu a empresários que tivessem “menor lucro possível” em relação a produtos da cesta básica. O que pensa a respeito desse apelo?

São medidas desesperadas. Revelam que o governo entendeu que o peso da pauta econômica será incontornável, mas que não conseguirá dar uma resposta ao problema até outubro. O apelo em si chega a ser risível, quando lembramos que, em 2016, a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) adotou o slogan de que “não iria pagar o pato” daquela crise econômica e se tornou uma das principais patrocinadoras do impeachment da ex-presidente Dilma. Empresários nunca foram altruístas, e duvido muito que agora aderiram em massa ao pleito do presidente.

Correio Braziliense / Daynews

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