terça-feira, junho 14, 2022

Eleições - a festa da liberdade




Se a ditadura politicamente correta constrange a cidadania, não pode, por óbvio, acuar jornalistas e formadores de opinião. 

Por Carlos Alberto Di Franco (foto)

Escrevo este artigo num ano desafiador. A temperatura eleitoral, marcada por preocupante radicalização e uma participação sem precedentes da cidadania, sobretudo na internet, transmite um forte recado à Presidência da República, aos governos estaduais, ao Congresso Nacional e ao Poder Judiciário. Todos, sem exceção, devem evitar a invasão de outros Poderes e superar a síndrome opinativa superficial e imprópria de quem ocupa funções de responsabilidade na República. Aparentemente, o povo percebeu, finalmente, que os governantes são representantes da sociedade, mas não são, como pretendem alguns, donos do poder. A maioria dos brasileiros, mesmo os que foram seduzidos pelas lantejoulas do marketing político, não está disposta a renunciar aos valores que compõem a essência da nossa história: a paixão pela liberdade e a prática da tolerância e da convivência civilizada.

A radicalização ideológica, de direita ou de esquerda, não tem a cara do brasileiro. Tentam dividir o Brasil ao meio. Jogar pobres contra ricos, negros contra brancos, homos contra héteros. Querem substituir o Brasil da alegria pelo país do ódio e da divisão. Tentam arrancar com o fórceps da intolerância o espírito mágico dos brasileiros. Procuram extirpar o DNA, a alma de um povo bom, aberto e multicolorido. Não querem o Brasil café com leite. A miscigenação, riqueza maior da nossa cultura, evapora nos rarefeitos laboratórios do fanatismo ideológico.

Está surgindo, de forma acelerada, uma nova “democracia” totalitária e ditatorial, que pretende espoliar milhões de cidadãos do direito fundamental de opinar, elemento essencial da democracia. Se a ditadura politicamente correta constrange a cidadania, não pode, por óbvio, acuar jornalistas e formadores de opinião. O primeiro mandamento do jornalismo de qualidade é a independência. Não podemos sucumbir às pressões dos lobbies direitistas, esquerdistas, de orientação sexual ou racial. O Brasil eliminou a censura. E só há um desvio pior que o controle governamental da informação: a autocensura. Para o jornalismo não há vetos, tabus e proibições. Informar é um dever ético. E ninguém, ninguém mesmo, impedirá o cumprimento do primeiro mandamento da nossa profissão: transmitir a verdade dos fatos.

A preservação da democracia, sempre acossada por projetos autoritários, depende, e muito, da qualidade técnica e ética da informação. Um exercício de autocrítica do nosso trabalho é necessário e conveniente.

As virtudes e as fraquezas dos jornais não são recatadas. Registram-nas fielmente os radares dos consumidores de informação. Precisamos, por isso, derrubar inúmeros desvios que conspiram contra a credibilidade do noticiário.

Um deles, talvez o mais resistente, é o dogma da objetividade absoluta. Transmite, num pomposo tom de verdade, a falsa certeza da neutralidade jornalística. Só que essa separação radical entre fatos e interpretações simplesmente não existe. É uma bobagem.

Jornalismo não é ciência exata e jornalistas não são autômatos. Além disso, não se faz bom jornalismo sem emoção. A frieza é anti-humana e, portanto, antijornalística. A neutralidade é uma mentira, mas a isenção é uma meta a ser perseguida. Todos os dias. A imprensa honesta e desengajada tem um compromisso com a verdade. E é isso que conta.

Mas a busca da isenção enfrenta a sabotagem da manipulação deliberada, da falta de rigor e do excesso de declarações entre aspas. O jornalista engajado é sempre um mau repórter. Militância e jornalismo não combinam. Trata-se de uma mescla que traz a marca do atraso e o vestígio do sectarismo. O militante não sabe que o importante é saber escutar. Esquece, ofuscado pela arrogância ideológica ou pela névoa do partidarismo, que as respostas são sempre mais importantes do que as perguntas.

A grande surpresa no jornalismo é descobrir que quase nunca uma história corresponde àquilo que imaginávamos. O bom repórter é um curioso essencial, um profissional que é pago para se surpreender. Pode haver algo mais fascinante?

O jornalista ético esquadrinha a realidade, o profissional preconceituoso constrói a história. É necessário cobrir os fatos com uma perspectiva mais profunda. Convém fugir das armadilhas do politicamente correto e do contrabando opinativo semeado pelos profetas das ideologias.

Veículos de comunicação tradicionais e produtos digitais de credibilidade oxigenam a democracia. As tentativas de controle da mídia tradicional e também do mundo digital, abertas ou disfarçadas, são sempre uma tentativa de asfixiar a liberdade. Num momento de crise no modelo de negócio, evidente e desafiante, o que não podemos é perder o norte. E o foco é claro: produzir conteúdo de alta qualidade técnica e ética. Somente isso atrairá consumidores – no papel, no tablet, no celular, em qualquer plataforma. E só isso garantirá a permanência da democracia. Por isso, setores autoritários, apoiados em currais eleitorais comprados com o preço da cruel perenização da ignorância e, consequentemente, da falta de senso crítico, investem contra a liberdade de imprensa e de expressão e contra os formadores de opinião que não admitem barganha com a verdade.

O Estado de São Paulo

Os empresários estão mesmo fechados com Bolsonaro?




Resumo da ópera: os empresários, em especial os donos de grandes negócios, estão com Bolsonaro só até a página dois. 

Por Diogo Schelp (foto)

Os empresários brasileiros estão fechados com Jair Bolsonaro. Mesmo você que não acredita em pesquisas deveria se impressionar com o fato de que, segundo o levantamento do Datafolha que foi registrado no TSE sob o número BR-05166/2022, 48% dos empresários consideram a gestão do atual presidente ótima ou boa. Bem acima da média geral dos entrevistados, que cravou 25% de avaliações positivas. Nas intenções de voto, Bolsonaro está 33 pontos percentuais à frente de Lula entre os empresários. É um abismo de preferência. Há também evidências do mundo real que confirmam esse favoritismo de Bolsonaro entre empresários ou entre a elite econômica nacional de maneira mais geral.

É o que conta a história da pesquisa da XP Investimentos encomendada ao instituto Ipespe e cuja divulgação foi cancelada depois que aliados do presidente, inclusive seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), reclamaram dos últimos resultados, que mostraram Lula bem à frente nas intenções de voto. Segundo relatos na imprensa, investidores endinheirados começaram a fechar suas contas ou tirar seus investimentos dos fundos da XP.

A aversão dos empresários à possibilidade de o PT voltar à presidência com Lula é compreensível. Quem trabalha com empreendedorismo tende a rechaçar projetos econômicos que privilegiam o Estado como motor da economia, com afrouxamento fiscal e propenso a engessar as regras trabalhistas, com defende o PT (conforme comprovado por rascunho de programa de governo vazado dias atrás).

Mas o governo Bolsonaro tampouco foi o primor de liberalismo econômico que prometia ser quando começou. Com a desculpa de que é preciso evitar "a volta do comunismo" ou algo assim, esse governo rompeu o teto de gastos para abraçar medidas assistencialistas (que antes Bolsonaro chamava de "migalhas") e agora ensaia torrar duas vezes o valor da esperada privatização da Eletrobras em subsídios para conter a alta no preço dos combustíveis.

O último arroubou liberal do governo Bolsonaro (alerta de ironia) foi o de pedir ao setor de supermercados que entre no modo de contenção voluntária dos preços de alimentos pelo bem do país. Ah, tá.

A verdade é que Bolsonaro só pode contar, de fato, com a lealdade de parte dos pequenos e médios empresários para apoiá-lo para o que der e vier. Os grandes, aqueles com maior perspectiva para fazer lobby por seus interesses junto aos detentores do poder, sejam eles quais forem, tendem a debandar para o adversário (Lula) se sentirem o cheiro da derrota de Bolsonaro.

Um clássico nos estudos dos grupos de pressão é a obra A Lógica da Ação Coletiva, de Mancur Olson, de 1971, que demonstra como grupos pequenos, com poucos membros, têm mais oportunidade de obter ganhos com o lobby, mesmo quando há menor coesão de interesses entre eles.

Membros de grupos maiores, mais numerosos — por exemplo, os que representam os interesses de donos de bares e restaurantes — não podem contar tanto com o sucesso da atividade de lobby junto a políticos e governantes para resolver seus problemas quanto, em contraste, os integrantes de grupos menores, como os que defendem os interesses de banqueiros.

Tanto é assim que poucos foram os setores do grande empresariado que não lucraram, e bastante, nos governo do PT. Posso citar aqui o exemplo óbvio de empresários individuais, como aqueles das empreiteiras e de indústrias de alimentos que viram seus negócios irem à estratosfera nos anos Lula e Dilma Rousseff.

No primeiro mandato do governo Lula, por uma série de fatores, como a valorização do real e o boom internacional das commodities, o lucro das grandes empresas quadriplicou e o dos 23 bancos de capital aberto dobraram em comparação com o período do segundo mandato do governo de Fernando Henrique Cardoso.

Mas não foram apenas as circunstâncias econômicas que favoreceram os grandes empresários. Os governos do PT trabalharam em prol dos ganhos empresariais. Segundo levantamento feito em 2017 pelo então Ministério da Fazenda, a maior parte do gasto dos governo Lula e Dilma com subsídios e crédito, mais precisamente 60%, foram para setores empresariais. O restante foi para programas sociais.

Resumo da ópera: os empresários, em especial os donos de grandes negócios, estão com Bolsonaro só até a página dois. Quanto mais alta a escala dos lucros, mais sensíveis e adaptáveis eles são à perspectiva dos novos inquilinos do poder.

Gazeta do Povo (PR)

20 indícios de que Bolsonaro pode tentar dar um golpe




Presidente já deu diversos motivos para que a sociedade creia que ele pode não aceitar um eventual resultado negativo

Por Ricardo Corrêa 

As eleições só acontecem em outubro e a campanha efetivamente nem começou, o que sugere que mesmo que esteja atrás hoje nas pesquisas de intenção de voto, o presidente Jair Bolsonaro (PL) pode reagir, virar o jogo e vencer a disputa contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O histórico de eleições anteriores, como 2014 e 2018, mostram que fatos novos e muita movimentação ao longo do processo tendem a alterar as perspectivas rapidamente. E é por isso que não se pode cravar quem vencerá. Contudo, são cada vez mais claros os indícios de que, se não vencer ou se enxergar que não tem qualquer chance para isso, Bolsonaro pode optar pela saída mais radical: um golpe de Estado, seja tentando impedir a realização das eleições, seja não aceitando seus resultados.

Na última semana, tivemos mais dois episódios que indicam que essa possibilidade, embora rechaçada pelos adversários, possa se concretizar. Falo do recado de que as Forças Armadas são o último obstáculo contra o socialismo no Brasil e do pedido de ajuda a ao presidente norte-americano Joe Biden. Não significa dizer que Bolsonaro conseguiria dar um golpe, mas é possível que tente, e a sociedade deve se preparar para isso. Para quem não acredita que ele de fato tentará, elenco abaixo vinte motivos para pensar um pouco mais detidamente sobre o assunto:

  1  No sábado, em evento no CPAC, evento de conservadores organizado pelo deputado federal e filho Eduardo Bolsonaro, o mesmo que já disse que para fechar o STF bastaria um cabo e um solado, o presidente afirmou que as Forças Armadas são o último obstáculo contra a instalação do socialismo no Brasil. Notem a mudança de discurso. Não é mais a candidatura de Bolsonaro que representa essa chance, mas a ação das Forças Armadas. Considerando que Exército, Marinha e Aeronáutica não disputam as eleições e nem podem nela interferir, como é que as Forças Armadas poderiam se insurgir com a implantação do socialismo, que Bolsonaro por diversas vezes atribui a Lula, seu principal adversário e hoje líder das pesquisas?
    
 2   Dias antes desse encontro, em Los Angeles, nos Estados Unidos, o presidente brasileiro se encontrou com Joe Biden e, segundo a imprensa norte-americana, pediu ao presidente dos Estados Unidos ajuda, dizendo que Lula seria uma ameaça aos interesses daquele país. Bolsonaro negou sem muita convicção, dizendo ser especulação. Considerando que Biden não vota no Brasil, que não tem como participar da campanha aqui e nem mandar recursos ou outras coisas, por proibições da lei eleitoral, o que exatamente Bolsonaro queria de Biden? É razoável supor tratar-se da tentativa de ter respaldo para alguma medida que o mantivesse no poder. Sabe-se que um golpe não se sustenta sem apoio externo e que o isolamento internacional aniquilaria qualquer chance de uma ruptura prosperar em uma nação democrática.
    
 3   Nos últimos dias, Bolsonaro também ampliou os ataques a presidentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Critica duramente o anterior, Luís Roberto Barroso, o atual, Edson Fachin, e o futuro, Alexandre de Moraes, acusando-os de participar de uma espécie de complô para devolver Lula ao poder. Mesmo com esses ministros tendo votado majoritariamente contra Lula em grande parte dos episódios da Lava Jato. Sustenta assim que as eleições não seriam limpas.

 4   Além do mais, ele reforça essa tese ao dizer, embora ele próprio ressalte que não tem provas, que houve fraude quatro anos atrás. Bolsonaro diz que foi eleito no primeiro turno e criou a tese de que hackers interferiram na disputa na primeira etapa e só não o fizeram na segunda pois não foram pagos. Falou disso duas vezes nessa semana e afirmou que não deveria ter havido eleição em 2020 sem a conclusão de um inquérito sobre invasão de hackers a dados administrativos do TSE. O inquérito não foi encerrado ainda.

 5   Mas e quando é perguntado se aceitará o resultado das eleições? Geralmente, o presidente não responde a essa pergunta simples. Quando o faz, diz textualmente que só sai do poder se houver eleições limpas. Isso, repito: após acusar os ministros do TSE de um complô contra ele e de dizer que houve fraude nas eleições de 2018, que ele venceu e que usará o mesmo modelo deste ano, foi fraudada. É bem visível o recado neste caso.
    
 6   Essa luta contra o TSE, as urnas eletrônicas e o Judiciário não dá votos ao presidente. Pesquisas de aliados, alertas dados pelo centrão e resultados de todos os institutos profissionais sugerem que, quanto mais o presidente insiste nessa tese, mais ele perde votos. E, mesmo assim, ele opta por esse caminho, o que indica que Bolsonaro pode não estar mais trabalhando por votos, mas por apoio a uma ruptura. Por qual outro motivo ele sacrificaria as próprias chances de vencer nas urnas?

7   O presidente já compartilhou com seus aliados uma série de mensagens de cunho golpista, com pedidos de intervenção e um artigo que indica que é o STF quem quer dar um golpe na população.

 8   As Forças Armadas, embora nos bastidores falem que não há possibilidade de embarcarem em um golpe, não o fazem publicamente. Nenhum integrante da ativa jamais afirmou abertamente que o presidente não conseguiria romper a ordem democrática. Instado a dizer isso no Congresso, o ministro da Defesa driblou a resposta. Não há reação institucional.
    
 9   O ministro da Defesa, inclusive, enviou novas contestações ao TSE e reclamou que as Forças Armadas não se sentem prestigiadas no processo. Chamou as eleições de uma questão de soberania nacional (aliás, não se sabe o que Biden tem a ver com a soberania do Brasil) e afirmou que não interessa às Forças Armadas ‘concluir o pleito eleitoral sob a sombra da desconfiança dos eleitores’. Chama ainda mais atenção essa atitude ser tomada após os militares passarem 25 anos sem fazer qualquer questionamento às urnas eletrônicas, como mostrou o jornal ‘Folha de S.Paulo’.

10   Inicialmente apontado como um anteparo, ou amortecedor aos rompantes do presidente e suas iniciativas para criar crises institucionais, o Centrão se calou. Integrantes de partidos que até então saíam a público para aparar arestas e reforçar a defesa das urnas já não o fazem. Ciro Nogueira virou ministro da Casa Civil e não trata mais do assunto. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), deixou o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), fazendo sozinho a defesa do processo eleitoral brasileiro.

11   O chefe do Executivo também não acredita em nenhuma pesquisa de intenção de voto e sugere que há um acordo dos institutos com o TSE para justificar o resultado, o que reforça a crença de que, qualquer que seja a decisão que sair das urnas, ele não acreditará nela.
    
 12   O presidente também continua duvidando das eleições americanas, indicando que o problema não é o sistema eleitoral brasileiro. Mesmo às vésperas de se encontrar com Biden, o brasileiro reafirmou sua desconfiança de que ele tenha vencido. Bolsonaro nunca criticou a invasão do Capitólio e usa o episódio de lá como exemplo do que pode acontecer no Brasil, numa espécie de ameaça velada.

 13   O presidente também disse, recentemente, que era do tempo de que se obedecia decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), mas que não é mais. E já disse textualmente mais de uma vez que pode desacatar uma ordem da Justiça.

14   No passado, o presidente brasileiro já elogiou o venezuelano Hugo Chávez que, à esquerda, também implementou um golpe para manter seu partido indefinidamente no poder, inclusive após sua morte. Bolsonaro, lá atrás, no distante ano de 1999, demonstrou admiração pelo general, que considerava uma esperança para a América Latina. E engana-se quem pensa que o presidente não sabia o que viria pela frente, já que ele enfatizou que o venezuelano faria lá o que os militares brasileiros fizeram de 1964 em diante.
    
 15   Naquela mesma época, Bolsonaro também disse que pelo voto não se mudaria nada pelo Brasil e afirmou que, se virasse presidente, daria um golpe no mesmo dia. Foi a mesma entrevista na qual ele se disse favorável à tortura e que questionou por qual motivo os militares não teriam matado mais gente durante o período da ditadura.

 16   Aliás, Bolsonaro nega o golpe de 1964 como de fato aconteceu. Reitera frequentemente que não foi um golpe, exalta acusados de tortura, aplaude todas as medidas do regime militar e não faz ressalvas à atuação repressiva e que impediu que os brasileiros elegessem presidentes da República por décadas.

17   Com cada vez mais frequência o presidente exalta líderes autoritários, como os da Rússia, Polônia, Hungria, assim como ditadores de países árabes a que visitou com pompa e circunstâncias. Não é privilégio só dele. Seu principal adversário, Lula, faz o mesmo, mas chama atenção no caso de Bolsonaro pelo conjunto da obra.
    
 18   O presidente brasileiro também se comparou, na última semana, à boliviana Jeanine Áñez, ex-presidente que foi condenada pela Justiça daquele país acusada de um golpe de Estado. Ela assumiu após o resultado da eleição boliviana ser descartado e o presidente Evo Morales ser obrigado a renunciar. Bolsonaro questionou a decisão e perguntou se era um recado para ele.

 19   Bolsonaro incentiva o rápido armamento da população em faixas que o apoiam incondicionalmente, facilitando o acesso a equipamentos militares através de CACs e incentivando que um povo armado jamais será escravizado.

20   Mesmo depois do estratégico recuo no dia seguinte às manifestações de 7 de setembro do ano passado, o presidente, com meses de antecedência, começa a organizar um novo ato para esta data. Dessa vez, realizado a menos de um mês das eleições, quando estará muito claro se ele tem ou não chances de vencer nas urnas. Na ocasião anterior, sobretudo na noite do dia 6 de setembro, houve presença ostensiva de apoiadores na Esplanada dos Ministérios, com tentativas isoladas de rompimento do cordão de isolamento e invasão do STF. O presidente nunca condenou essas iniciativas. Fez o discurso do dia 7 inflamando ainda mais a militância, dizendo que tratava-se de um recado aos demais Poderes, em uma espécie de ensaio do que pode acontecer em 2022. É bom não subestimar.

O Tempo

Trump ignorou assessores e insistiu na propagação de 'mentiras' sobre as eleições

 




Donald Trump ignorou o conselho de seus principais assessores que recomendaram que ele parasse de alegar que os democratas haviam roubado a eleição de 2020, revelou nesta segunda-feira (13) o comitê do Congresso que investiga o ataque ao Capitólio em 2021.

"Mesmo antes da eleição, Trump decidiu que, independentemente dos fatos e da verdade, se perdesse a eleição, diria que foi fraudada", afirmou Zoe Lofgren, deputada democrata desse grupo que busca esclarecer a responsabilidade do bilionário republicano no ataque ao Congresso dos Estados Unidos por seus apoiadores em 6 de janeiro de 2021.

Na segunda de uma série de audiências após quase um ano de investigação, a comissão exibiu depoimentos em vídeo sobre as manobras do ex-presidente entre a noite das eleições presidenciais e o assalto ao Capitólio.

- Giuliani "bêbado" -

Uma hora depois do fechamento das urnas, no dia 3 de novembro de 2020, Joe Biden e Donald Trump estavam empatados.

"Estava cada vez mais claro que as eleições não seriam decididas essa noite", declarou Ivanka Trump, filha do ex-presidente e uma de suas principais assessoras na época, em testemunho divulgado nesta segunda-feira pela comissão.

Contudo, pouco antes das 02h30 da madrugada, no horário local, Donald Trump fez uma declaração pela televisão da Casa Branca. "Ganhamos as eleições", garantiu, num momento em que a contagem dos votos ainda não tinha sido concluída.

Um dos poucos que incentivaram o presidente a se pronunciar publicamente foi seu advogado particular, Rudy Giuliani, que, segundo o testemunho de um dos assessores do presidente, estava "aparentemente bêbado".

- Trump irritado -

Em 7 de novembro de 2020, pouco antes das 11h30, Joe Biden foi declarado o vencedor da eleição. No mesmo dia, o chefe de campanha de Donald Trump participou de uma reunião com o presidente em fim de mandato.

"Dissemos a ele quais eram suas chances de ganhar naquele momento, que tinha talvez 5 ou 10% de chances", lembrou Bill Stepien.

Ainda segundo Stepien, essas afirmações irritaram cada vez mais Trump, que decidiu mudar sua equipe e se cercar de pessoas que o apoiavam a qualquer custo.

Em 19 de novembro, essa nova equipe jurídica concedeu uma coletiva de imprensa, na qual Sidney Powell, uma das advogadas de Trump, acusou a Venezuela, Cuba e os democratas de tramar um complô eleitoral.

Ao seu lado, Rudy Giuliani denunciou "uma escandalosa cortina de ferro da censura".

- "desconexo com a realidade" -

Quatro dias depois, o procurador-geral Bill Barr foi até a Casa Branca para examinar diversas vezes a suposta fraude eleitoral apresentada por Donald Trump.

"Isso me desmoralizou, porque eu pensei: 'Isso é loucura, se ele realmente acredita em tudo isso, significa que ele está realmente desconexo com a realidade'", declarou Bill Barr, que renunciou ao cargo em 14 de dezembro.

No mês seguinte, Donald Trump e seus colaboradores seguiram defendendo "estas mentiras" sobre a fraude eleitoral para arrecadar dinheiro, concluiu a comissão.

A equipe de campanha de Trump inundou seus apoiadores com dezenas de mensagens e arrecadou 250 milhões de dólares entre o dia da eleições e o 6 de janeiro de 2021, revelou.

"A grande mentira também foi uma grande farsa", disse Lofgren, conhecida por trabalhar nas acusações perante o Congresso de três presidentes: Richard Nixon, Bill Clinton e Donald Trump.

A chamada comissão "de 6 de janeiro", composta por sete democratas e dois republicanos, continuará apresentando suas conclusões sobre a investigação, segundo a qual o ex-mandatário planejou "uma tentativa de golpe de Estado".

Donald Trump voltou a denunciar nesta segunda-feira o trabalho da comissão, que chamou de "caça às bruxas" e "a vergonha dos Estados Unidos".

O procurador-geral Merrick Garland afirmou que está acompanhando "todas as audiências" dessa comissão e prometeu que responsabilizará todos os envolvidos nos eventos de 6 de janeiro de 2021, "independentemente de sua patente, sua posição ou se estavam" presentes no ataque ao Congresso.

AFP / Estado de Minas

Governar bem não é a mesma coisa que impedir o uso ilegal de dinheiro público




Corrupção é normal; roubalheira bilionária, não. 

Por Bruna Frascolla (foto)

É uma banalidade entre cientistas sociais apontar problemas em países de cultura católica e atribuí-los ao catolicismo. Os católicos, sempre dispostos a reconhecer a falibilidade humana, tomam para si sem chilique todas as críticas, sejam merecidas ou imerecidas. Por outro lado, quem fizer o mesmo com o protestantismo há de se deparar com uma torrente de reações emocionais. Como críticas não saem de máquinas, mas de cérebros humanos, o natural é que esculhambar católico seja rotina, e que se critiquem pouco os protestantes para evitar dor de cabeça (é mais fácil criticar protestante dizendo que está criticando os brancos, que aí a crítica passa por antirracismo). No fim, com todo o mundo falando mal dos católicos e bem dos protestantes, fomenta-se na América Latina o complexo de vira-latas. Os países de formação protestante seriam ricos e maravilhosos; nós, uns pobretões sem valor. É preciso corrigirmos isso para avaliar bem o que queremos para o país.

Os Estados Unidos foram formados por seitas protestantes, e são capazes de parar a República para averiguar o uso que Bill Clinton faz do próprio pênis. O Brasil é de formação católica da Contrarreforma, e o pênis do presidente só é assunto público se houver algum outro componente envolvido. Entre nós, foi o caso do embarque clandestino de uma dama no avião presidencial.

O protestantismo surgiu justamente com o combate à corrupção da Igreja. Não conheço um católico que aprove a venda de indulgências. Assim, é um traço cultural católico aceitar que até as coisas mais importantes são falíveis. A índole de certas culturas protestantes, por outro lado, é a de desprezar as coisas que se revelaram falhas, dar as costas ao passado e se proclamar no mínimo moralmente superior àquilo que foi descartado. Na cultura católica, a falibilidade é uma regra da qual só o papa escapa. Nas culturas protestantes, a infalibilidade deve ser uma meta do pastor, do presidente e até do verdureiro. Falho mesmo, com certeza, só o papa.

Corrupção é normal; roubalheira bilionária, não

Penso que a análise da complacência do Brasil com a roubalheira tenha de passar por essa cosmovisão católica. Por paradoxal que seja, penso que voltar a retórica contra a corrupção – e não contra a roubalheira – torne o brasileiro ainda mais propenso a aceitá-la. Pois, como diz o teólogo por Roma e eterno crítico-defensor do PT Wilson Gomes, a palavra corrupção “indica a mudança de um estado de coisas e pessoas, do positivo para o negativo: corrompe-se o que era puro, íntegro, perfeito. No cristianismo, é uma palavra religiosa: queremos a pureza, a corrupção nos tenta o tempo inteiro”. Até aí, partilho do sentimento e do raciocínio dele, pois discurso anticorrupção não me parece honesto. Quando vinha do PSDB, então… Mas ele continua: “Para funcionar politicamente, bastava decidir que o PT inventou a corrupção no Brasil e se tornou um mestre nessa arte” (Crônica de uma tragédia anunciada, p. 26). Discordo. Enquanto se bateu na tecla da corrupção, o PT ganhou eleição. O pensamento expresso por Wilson Gomes foi a desculpa ideal do PT para se apresentar como candidato viável desde o Mensalão: a corrupção não foi inventada pelo partido, é intrínseca à realidade brasileira etc. Batendo nessa tecla, o PT ganhou mais três eleições presidenciais. A mídia falava sozinha contra a corrupção e vendia o PSDB como solução para o problema. Certo esteve o povo em não acreditar na mídia. Na verdade, é bem provável que as acusações de corrupção tenham sido especialmente graves para o PT em 2005 não por termos um horror à corrupção, mas sim pelo fato de o PT ter se vendido como Partido da Ética até 2003. Essa memória estava fresca demais para que o PT pudesse se assumir como um adepto de Realpolitik. Restou-lhe dizer, bem ao estilo católico, que errou, sim, e que neste país se tem errado desde quando Cabral desembarcou. O PSDB, a seu turno, nos pedia que acreditássemos que São Paulo era um estado sem corrupção. Pedia demais.

As coisas só mudaram com uma brutal crise econômica induzida por Dilma Rousseff, bem como com o dimensionamento da roubalheira e o conhecimento dos destinatários. Com a Lava Jato, o brasileiro viu cifras bilionárias saírem do país rumo não só aos bolsos dos políticos, mas também de ditadores terceiro-mundistas. “Virar a Venezuela” tornou-se uma assombração para nós. Por “Virar a Venezuela” entende-se chegar à bancarrota, perder a soberania e deixar-se escravizar por Havana. Junto da turma do Foro de São Paulo, Geddel é um anjo.

O outro vício

O vício católico na política é perder o controle da situação, sendo cozido a fogo lento na esculhambação e no oba-oba. Por outro lado lado, se nos pusemos no lugar do protestante dos EUA, bem pensaremos que a simplicidade desse povo é de cair o queixo. Eles só se escandalizaram com Bill Clinton porque supõem que todos os presidentes casados – isto é, homens cheios de poder que vivem cercados por secretárias e puxa-sacos – se mantinham fiéis às suas esposas, sem nem uma puladinha de cerca. De nada adianta olhar para a história dos reis da Inglaterra. Na Europa há uma outra humanidade, corrupta e decaída, ao passo que na América todos são anjos até prova em contrário. E assim cada governador, cada autoridade, cada burocrata, não só é marido exemplar, como não desvia um centavo do dinheiro dos pagadores de impostos. Sabem a USAID, uma agência estatal dos EUA que se porta como uma ONG globalista no resto do mundo, promovendo “empoderamento feminino” e tudo? São uns anjos essas criaturas que pegam dinheiro dos EUA para gastar em locais remotos, de difícil fiscalização pela oposição.

Um bom “católico cultural” (digamos assim) deveria desconfiar desses santarrões e julgar que os EUA são falíveis. Se eles não têm escândalos de corrupção, isso é um péssimo sinal, pois quer dizer que está tudo muito bem escondido. Um mau “católico cultural” padece de complexo de vira-latas e se deslumbra com conversa mole. Infelizmente o PT não ensinou nada à maioria dos letrados, que continuam procurando algum grupo político que acabe com a corrupção, como se a corrupção pudesse ter fim um dia.

Não é razoável deixar a roubalheira se generalizar, nem é razoável esperar que um dia nem um único guarda de trânsito deste país continental peça propina para deixar de aplicar uma multa. Só se implementarmos uma ditadura totalitária com vigilância massiva; neste caso, a corrupção sai das pontas e vai para o topo do sistema.

O razoável é considerar que a corrupção sempre vai estar presente, e por isso mesmo deve ser combatida o tempo inteiro, como as sementes de baobá do Pequeno Príncipe. Ao contrário do que diziam os procuradores da Lava Jato, o fim da corrupção não é uma opção, e o Brasil não é um país fadado à desgraça por ter em sua formação os degredados, em vez dos puritanos virtuosos que foram para os EUA.

Deslumbramento com a Lava Jato

Em 1992, o Partido da Ética, que nunca fora vidraça, usava de todo moralismo para pedir o impeachment do presidente Fernando Collor. Em 2016, o Partido da Ética eram os operadores do Direito, e o PT ocupava o local de vidraça havia mais de 10 anos.

Como vimos, os petistas que roubaram do Brasil para entregar às ditaduras terceiro-mundistas foram em cana, ao passo que Dilma Rousseff, que deu 530 milhões de dólares da Petrobrás para uma empresa belga comprando uma refinaria nos EUA, passou pela Lava Jato com a pose de mulher honesta e os direitos políticos intactos. O PT deixou de ser o partido dos “machos tóxicos” que emulavam Fidel Castro e ficou com cara de PSOL. Hoje, até o MDB tem cara de PSOL, com Simone Tebet bajulando Djamila Ribeiro e dizendo que mulher vota em mulher. E mais: Lula entrou na cadeia como “macho tóxico” comedor de picanha e saiu amigo dos veganos, preocupado com a pegada de carbono.

Se os operadores do direito se portam como partido e impõem agendas sem voto, apegar-se ao combate à corrupção como fim em si mesmo torna-se uma via para o totalitarismo. Porque as leis definem o que é corrupção e o que não é; se as leis forem manipuladas para tornar crime entrar num curso com a cor de pele errada, “combater a corrupção” significa implementar tribunais raciais. Só podemos ter o combate à corrupção como uma coisa boa em si mesma se pensarmos segundo uma ideia de bem que independe de leis. Essa ideia não pode ser negativa; já o combate à corrupção é negativo em si mesmo. Se o combate à corrupção tiver sucesso, ele impossibilita que tal e tal coisa sejam feitas - mas não diz nada quanto às coisas que devam devem ser feitas. Isto, só a política resolve.

Mas, para continuarmos em Dilma e no reino das finanças que tanto encanta o lavajatismo, dou o exemplo de uma coisa que não é ilegal, mas causou mais prejuízos ao país do que a Odebrecht. É o Ciências sem Fronteiras (CsF), da Mulher Honesta.

Transferência de dinheiro brasileiro para Harvard

A Odebrecht desviou R$ 6 bilhões da Petrobras. O CsF, feito dentro da lei, custou ao país R$ 13 bilhões. O projeto criado por Dilma e encerrado por Temer consistia em mandar brasileiros para fazer graduação nos Estados Unidos e na Europa, pagando as mensalidades deles. As universidades não eram necessariamente baratas – estavam incluídas as da Ivy League –, nem necessariamente boas – estavam incluídos os community colleges estatais voltados para negros. Não conheço nenhum membro da comunidade acadêmica que tenha se responsabilizado pela ideia. Findo o programa, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, basicamente um sindicato de acadêmicos, não esboçou nenhuma defesa. Reproduziu em sua página a matéria da Fapesp, que, empenhando-se em encontrar alguém que defendesse o CsF, achou só uma associação de egressos do programa.

Ora, nunca na história da universidade brasileira existiu o plano de enviar graduandos para o exterior. Nunca, nunca mesmo. A universidade brasileira está fundada na tríade ensino, pesquisa e extensão. O pai da institucionalização da pesquisa brasileira é Anísio Teixeira, que criou a Capes para fazer programas de pós-graduação. O legado de Anísio se expandiu com os militares, que foram também os primeiros a fazer o Estado financiar mensalidades privadas. Mas fizeram isso mantendo o desenho de Anísio Teixeira, que deixava a pesquisa na pós-graduação pública. O financiamento era entendido como um meio de ajudar os pobres na ascensão social e dar ao mercado mão de obra qualificada.

FHC, o “neoliberal”, manteve esse financiamento. Por muito tempo o Estado financiar universidade privada era coisa “de direita”, enquanto que dar dinheiro à universidade pública era coisa "de esquerda". Com Lula, porém, o Estado brasileiro passou a financiá-las mais ainda, criando um programa que pagava bolsas integrais ou parciais (o Prouni). Com isto, não existe risco de as instituições de ensino levarem calote, porque quem paga é o governo. Foi nessa época que conglomerados estrangeiros passaram a comprar as faculdades locais e as unidunitês se multiplicaram.

Anotemos bem: Geisel criou um programa de financiamento estudantil chamado Creduc, que FHC reformulou e botou o nome de Fies. São programas de crédito para estudantes cursarem ensino privado. Quem paga é o estudante. O Prouni é um programa de bolsas; quem paga é o governo. Foi o primeiro programa de bolsas desvinculado de pesquisa.

O CsF não só foi um programa de bolsas desvinculado de pesquisa, como transferiu dinheiro brasileiro para o sistema de ensino da Europa e da América do Norte, sendo este último um continente com um país com sérios problemas relativos a endividamento estudantil. Segundo matéria do UOL de educação da época, a maioria das bolsas era para os EUA e Inglaterra. Mas Portugal era um país cobiçado por um motivo muito lembrado pelos críticos do programa: os graduandos brasileiros sequer falavam a língua dos países aos quais iam!

O resultado do CsF mais famoso foi o grupo de pagode Samba Rousseff. Diferentemente das cotas raciais, o CsF não tem nenhum acadêmico que faça campanha por ele. É um filho feio sem pai, em meio a um monte de filhos feios com pais orgulhosos (ao menos eu não achei; o máximo de apologia que vi do programa foi dizer que é pra agradar a classe média, que sonha em mandar os filhos para fora do país).

Tem que haver alguma explicação pouco republicana para o CsF. No frigir dos ovos, até esses bonitões de Harvard que ficam falando mal do Brasil embolsaram o nosso dinheiro. Se Dilma conseguiu fazer isso dentro da lei, isso só a torna mais perigosa do que os corruptos pegos pela Lava Jato.

De minha parte, eu chamo o CsF de corrupção sem pestanejar. Chamo-o de um escândalo de corrupção da educação. Cotas raciais são um escândalo de corrupção moral. Mas só posso fazer isso por ter muito claro que a corrupção não é a mesma coisa que afanar dinheiro público. Ao contrário do que ensina a Lava Jato, um país é muito mais que um cofre cheio de dinheiro público, e governar bem não é a mesma coisa que impedir o uso ilegal de dinheiro público.

Gazeta do Povo (PR)

Exército ucraniano deixa centro de Severodonetsk nas mãos das tropas russas




O exército ucraniano admitiu nesta segunda-feira (13) que as tropas russas conseguiram expulsar os seus soldados do centro de Severodonetsk, cidade estratégica do leste da Ucrânia e cenário de combates há várias semanas.

"Com o apoio da artilharia, o inimigo executou um ataque a Severodonetsk, com um triunfo parcial e expulsou nossas unidades do centro da cidade. Os combates continuam", informou o exército em um comunicado no Facebook.

Em sua mensagem diária, o presidente Volodimir Zelensky disse que "o custo humano desta batalha para nós é muito alto". "É simplesmente assustador", afirmou.

Serguei Gaiday, governador da região de Luhansk - de onde Severodonetsk é o centro administrativo para a parte controlada pelas autoridades ucranianas - confirmou que as forças ucranianas foram expulsas do centro da cidade.

"Os combates nas ruas prosseguem (...) os russos continuam destruindo a cidade", afirmou em uma mensagem no Facebook, ao lado de imagens de edifícios destruídos ou em chamas.

Os separatistas pró-Rússia que lutam nesta região afirmaram que as últimas divisões ucranianas em Severodonetsk estavam "bloqueadas", após a destruição da última ponte que permitia o acesso à cidade vizinha de Lysychansk.

"Eles têm duas possibilidades: render-se ou morrer", declarou Eduard Basurin, porta-voz dos separatistas.

Gaiday negou o bloqueio.

- "Bucha de canhão" -

Para as tropas de Moscou, controlar Severodonetsk abriria o caminho para assumir o comando de outra grande cidade do Donbass, Kramatorsk, uma etapa importante para conquistar toda a região de fronteira com a Rússia, que já está parcialmente nas mãos dos separatistas pró-Rússia desde 2014.

De acordo com o governador Gaiday, a fábrica de produtos químicos Azot, onde quase 500 civis estão refugiados, incluindo 40 crianças, foi alvo de bombardeios russos. Instalações de purificação foram atingidas por projéteis.

Na cidade vizinha de Lysychansk, três civis, incluindo uma criança de seis anos, morreram vítimas dos bombardeios das últimas 24 horas, acrescentou Gaiday.

Do outro lado, os separatistas pró-russos denunciaram que quatro pessoas morreram e 22 ficaram feridas em um bombardeio "maciço" das forças ucranianas sobre a cidade de Donetsk, capital da autoproclamada república de mesmo nome.

- Nova vala perto de Bucha -

Os bombardeios continuam em outras partes do território. No norte, três mísseis russos atingiram a cidade de Pryluky e quatro vilarejos foram evacuados devido a uma ameaça de incêndio causada por bombardeios, anunciaram as autoridades.

E mais a oeste, perto de Bucha, a polícia de Kiev informou que sete corpos foram encontrados em uma nova vala comum perto da cidade de Myrotske.

"Sete civis foram torturados pelos russos e executados covardemente com uma bala na cabeça", informou o chefe da polícia de Kiev, Andrei Nebytov, no Facebook. "Várias vítimas estavam com as mãos e joelhos amarrados", acrescentou.

Após a saída dos soldados russos no fim de março da região de Kiev, as autoridades encontraram cerca de 100 cadáveres de civis ucranianos em Bucha, que se transformou em um símbolo dos crimes de guerra dos quais a Ucrânia culpa a Rússia. Moscou refuta estas acusações.

A Anistia Internacional acusou nesta segunda-feira a Rússia de crimes de guerra na Ucrânia e afirmou que centenas de civis morreram nos ataques incessantes em Kharkiv, muitos deles executados com bombas de fragmentação, que se abrem no ar e liberam milhares de pequenos explosivos com capacidade de atingir zonas mais amplas.

Este tipo de bomba estão proibidas pelos tratados internacionais.

- Perda de terras cultiváveis -

A Ucrânia anunciou que perdeu 25% de suas terras cultiváveis devido à ocupação russa de algumas regiões no sul e leste do território, informou o ministério da Agricultura nesta segunda.

"Apesar da perda de 25% das terras cultiváveis, a estrutura das culturas plantadas este ano é mais do que suficiente para garantir o consumo" da população ucraniana, acrescentou Taras Vysotskiy, vice-ministro da Agricultura.

O conflito na Ucrânia preocupa a comunidade internacional porque provocou um aumento dos preços dos alimentos e o bloqueio dos portos ucranianos no Mar Negro.


Diante de uma possível crise alimentar, os membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) se reuniram no domingo para encontrar uma solução.

A ONU e vários países tentam abrir um corredor marítimo para permitir as exportações.

Mas o encontro foi marcado pela tensão, sobretudo quando os delegados expressaram sua condenação à ofensiva russa e elogiaram o presidente ucraniano, segundo o porta-voz da instituição, Dan Pruzin. 

AFP / Estado de Minas

Estoques de armas nucleares devem aumentar, diz relatório




Instituto sueco especializado em armamentos alerta para novos incrementos atômicos após décadas de redução de arsenais no mundo. Números são relativos a período anterior à invasão da Ucrânia pela Rússia.

Os estoques mundiais de armas nucleares devem aumentar nos próximos anos, revertendo um declínio observado desde o fim da Guerra Fria, alertou nesta segunda-feira (13/06) o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri).

De acordo com mais recente relatório anual da entidade sueca, todos os nove países com armas nucleares estão aumentando ou atualizando seus arsenais.

"Há indicações claras de que as reduções que caracterizaram os arsenais nucleares globais desde o fim da Guerra Fria chegaram a um fim'', disse Hans M. Kristensen, pesquisador do Programa de Armas de Destruição em Massa do Sipri e diretor do Projeto de Informação Nuclear da Federação de Cientistas Americanos.

Atualização de arsenais

Os EUA e a Rússia, que detêm 90% das armas atômicas do mundo, reduziram seus estoques em 2021 devido ao desmantelamento de ogivas defasadas. Seus estoques militares utilizáveis permaneceram relativamente estáveis e dentro dos limites estabelecidos por um tratado de redução de armas nucleares, de acordo com o  Sipri.

De acordo com o Sipri, programas extensos e caros estão em andamento em ambos os países para substituir e modernizar ogivas nucleares, sistemas de lançamento e instalações de produção.

O instituto disse que os outros países nucleares – Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte – estão desenvolvendo ou implantando novos sistemas de armas, ou anunciaram sua intenção de fazê-lo. Israel nunca reconheceu publicamente possuir tais armas nucleares.

"Todos os Estados com armas nucleares estão aumentando ou atualizando seus arsenais, e a maioria está afiando sua retórica nuclear e o papel que armas nucleares têm em suas estratégias militares'', disse Wilfred Wan, diretor do Programa de Armas de Destruição em Massa do Sipri. "Esta é uma tendência muito preocupante", ressaltou.

"Risco de confronto nuclear aumentou"

Segundo os pesquisadores da paz, o risco de um confronto nuclear aumentou como resultado da guerra de agressão russa contra a Ucrânia. Os novos dados do Sipri foram coletados até janeiro de 2022. Um mês mais tarde, a Rússia invadiu a Ucrânia.

O especialista do Sipri Hans M. Kristensen frisa ainda ser cedo para conclusões sobre como a guerra na Ucrânia afetará a situação nuclear no mundo, mas vê um efeito indireto já agora. "Os russos percebem que suas forças convencionais não são tão boas quanto pensavam", afirma, acrescentado que a Rússia provavelmente se concentrará mais em armas nucleares táticas no futuro.

O presidente russo, Vladimir Putin, colocou as armas nucleares do país em alerta redobrado. Em meio à guerra contra a Ucrânia, ele realizou um teste, como demonstração de poder frente à Otan, com um novo míssil balístico intercontinental do tipo Sarmat. Segundo especialistas, o Sarmat é capaz de transportar dez ou mais ogivas nucleares.

Deutsche Welle

O Cafezinho

 


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