quinta-feira, dezembro 02, 2021

Caminhos cruzados na terceira via




Moro e Dória

PSDB e Podemos precisarão conversar sobre projeto comum

Por Fernando Exman 

No dia 19 de outubro, quando “O Globo” e Valor realizaram o primeiro debate das prévias tucanas, a presidente do Podemos, Renata Abreu, fez questão de ir ao Rio de Janeiro acompanhar o evento.

Antes de entrar no auditório, disse que esperava ver um debate "equilibrado", que assegurasse não só a união interna do próprio PSDB, mas também a construção de pontes com outros partidos que buscavam consolidar uma terceira via, como o próprio Podemos. “Estamos todos trabalhando para viabilizar uma terceira via, que não pode se digladiar. Espero que tenha muito respeito não só aqui, mas depois também, nos debates que ocorrerão entre os candidatos de centro”, afirmou.

Um desafio e tanto. Naquele dia, sim, correu tudo bem. Deu-se de forma polida a interação entre o governador de São Paulo, João Doria, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio. Mas, o ambiente dentro do PSDB foi se deteriorando.

Piorou tanto que hoje é difícil prever como será o dia em que representantes do Podemos e do PSDB precisarão discutir os rumos da terceira via. Tampouco está claro com quais tucanos Renata Abreu e seus colegas de legenda se sentarão à mesa. O que ambos os lados sabem, apenas, é que esse dia inevitavelmente chegará.

O Podemos e seu pré-candidato, Sergio Moro, surpreenderam os adversários. Inclusive aqueles que estão dentro governo: não se imaginava que o ex-ministro da Justiça executaria um plano tão estruturado antes mesmo do fim de 2021.

Em poucos dias, o ex-juiz da Lava-Jato formalizou sua filiação ao Podemos, apontou o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore como conselheiro econômico, mirando os agentes do mercado financeiro que se desapontaram com as promessas liberais não cumpridas pelo presidente Jair Bolsonaro, e publicou um livro para eternizar sua versão sobre os episódios polêmicos que viveu na magistratura e no Executivo.

Não parou por aí. Tentou se reconectar com o meio militar ao anunciar a filiação do general Carlos Alberto dos Santos Cruz, outro ex-auxiliar de Bolsonaro que rompeu com o presidente e deixou o governo. Moro possui bons contatos na caserna. Tem gente que não esquece uma postagem da sua mulher em 25 de agosto de 2019, Dia do Soldado, com uma imagem do marido desfilando numa parada militar de uniforme e arma junto ao corpo. A legenda: “Moro foi um deles”.

Em relação ao PSDB, alguns integrantes do governo Bolsonaro demonstravam maior inquietação com a postulação do governador do Rio Grande do Sul. Argumentavam que sabiam o que esperar de Doria, em referência aos embates do paulista durante os períodos mais críticos no enfrentamento da pandemia. Já Eduardo Leite ainda seria testado no enfrentamento com Bolsonaro e poderia atrair, além de um eleitorado mais jovem, uma parcela da população que busca uma alternativa progressista nos costumes e não intervencionista na economia.

Esta é uma visão de quem está próximo a Bolsonaro, e não será nas próximas eleições que ela deverá ser testada.

Leite sucumbiu nas prévias. Nos quatro colégios eleitorais, ganhou em apenas um, o formado por vereadores, deputados estaduais e distritais, e ainda assim por pouca margem de votos. Doria venceu entre os filiados, no grupo formado por prefeitos e vice-prefeitos e no colégio constituído por governadores, vice-governadores, ex-presidentes do partido, seu atual presidente, senadores e deputados federais.

Durante semanas preciosas, Leite fez mais campanha para fora do partido. Esperava que um clamor popular aumentasse a pressão sobre os delegados tucanos, o que acabou não ocorrendo. E acabou assistindo ao seu principal adversário, veterano de prévias, conquistar os votos que lhe asseguraram a vitória.

Na primeira quinzena de janeiro, Doria retomará sua agenda de viagens aos finais de semana. Irá rodar as 27 unidades da federação, incluindo as poucas que não conseguiu visitar durante as prévias, e cada vez mais buscará passar a mensagem de que é o candidato capaz de unir liberalismo econômico com proteção social. Para tanto, colocará para a avaliação do eleitor o que vem fazendo em São Paulo e também mostrando de quem pretende estar acompanhado, caso seja eleito presidente da República.

Assim como no caso de Moro, o primeiro nome que surgiu foi o coordenador das discussões econômicas: Henrique Meirelles, secretário de Fazenda de São Paulo, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central. No entorno do governador, espera-se o envolvimento direto da economista Ana Carla Abrão, ex-secretária de Fazenda de Goiás. É dado como certo, também, que seus auxiliares nas áreas de educação e saúde permaneçam ao seu lado durante a campanha, independentemente do Estado de origem ou de terem mantido no passado conexões com outras siglas. Pretende mostrar que sabe montar times e resolver problemas, além de afastar a pecha de desagregador. Até já acenou para Moro.

Este, por sua vez, tem se reunido com lideranças do seu próprio partido e aliados. E começou a intensificar os movimentos em direção ao mercado.

Seus caminhos se cruzarão mais à frente. Não há espaço para todos que querem ser a terceira via e, se o mais bem posicionado não souber atrair para a sua candidatura os demais, acabará ajudando a confirmar o vaticínio daqueles que apostam na manutenção da polarização até o fim das eleições. Em outras palavras, que um candidato de terceira via nada mais será do que o terceiro colocado.

Quando o momento chegar, o bom relacionamento entre as cúpulas do Podemos e do PSDB será de grande valia. No entanto, elas precisarão discutir o critério para escolher quem ficará com a cabeça de chapa. Um deles, claro, será quem estiver pontuando mais nas sondagens de intenção de voto. Quem estiver atrás tende a discordar, com o argumento de que se deve olhar para os índices de rejeição ou dar preferência a pesquisas qualitativas que apontem quais serão as motivações do eleitor. A pré-campanha está só começando.

Valor Econômico

Congresso mantém emendas do relator sem transparência - Editorial

 




Com a entrega do Orçamento ao Centrão, a régua da ética, da moralidade e da responsabilidade no uso de recursos públicos baixou muito

Entra para os anais da história política brasileira a desfaçatez com que os grupos ligados aos presidentes da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL) e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG) decidiram impedir que seja conhecido de todos os patronos e os beneficiários de R$ 30,8 bilhões (até agora) em recursos públicos. A resolução aprovada na segunda-feira pelas duas Casas atende mal e parcialmente a determinação do Supremo Tribunal Federal de transparência total do processo de distribuição das emendas do relator. Lira e Pacheco dizem que há “impossibilidade fática” de atender a exigência da ministra Rosa Weber, e uma suposta tragédia em curso, igualmente fática, de centenas de municípios terem obras paralisadas sem esses recursos.

Sob o comando do Centrão, e no Senado, de um político novo, cotado para candidato à Presidência pela terceira via, mas que se sente plenamente à vontade com orçamentos secretos, o Congresso se apropriou do orçamento e tenta esconder uso de verbas públicas para fins privados - eleitorais ou pessoais. Com o uso da lei de acesso à informação, o “Estado de S. Paulo” levantou dezenas de nomes de patrocinadores de emendas, de receptores de verbas bilionárias e de pequena parcela de seu uso - compras superfaturadas de tratores, por exemplo.

Não existe chance de políticos verem passar bilhões de reais passeando soltos por aí sem saberem de onde vêm e para onde vão. Mas o distinto público não pode ter esse conhecimento e, o que é mais grave agora, nem o Supremo Tribunal Federal. A impossibilidade, que nada tem de “fática”, mascara objetivos coronelísticos da distribuição de recursos pelos chefes do Legislativo e tenta apagar as pistas de um acordo, selado com verbas, para salvar o presidente Jair Bolsonaro de um impeachment e garantir sua disputa à reeleição. Apenas uma fresta aberta nos repasses secretos revelou, por exemplo, que o pai e um primo de Lira foram agraciados por essas emendas.

A farsa das emendas do relator foi punida no escândalo dos anões do Orçamento e a resolução do Congresso de 2006 restringiu essas emendas à “correção de erros e omissões”, ou seja, verbas marginais. Mas como nada existe por lá sem uma finalidade, a mesma resolução deixou em aberto que o relator atendesse “às especificações preliminares de pareceres parlamentares”, ou seja indicações da Comissão Mista de Orçamento. Erros e omissões então se transformaram em 28 itens do orçamento em 2020 e 22 no de 2021 (Poder 360).

O sigilo tornou-se a essência da RP9 turbinada. Afora dificultar o rastreio do dinheiro, o segredo encobre o fato de que alguns deputados e senadores são mais iguais que outros ou menos iguais que os aliados do Planalto. Não existe razão para isso nos regulamentos do Congresso. As legendas do Centrão e aliados formam a maioria do Congresso e portanto já tem o direito de obter maior volume de emendas que a oposição. As emendas individuais e de bancadas estaduais atendem a essa realidade política. A rigor a RP9 deveria ser extinta.

O Congresso não pensa assim, tanto que a Câmara aprovou uma resolução enviesada mantendo as RP9 por 268 favoráveis e 31 contrários, e o Senado também, por 34 a 32. Para dificultar a identificação da origem dos pedidos, que muitas vezes denuncia seus fins, as emendas do relator agora atenderão a solicitações vindas não só de parlamentares, mas de “agentes públicos ou da sociedade civil”, um estímulo à criação de muitos “laranjais” nos currais eleitorais do Brasil, como disse o deputado Marcel van Hattem (Novo-RS).

Outra esperteza da resolução é aparentemente atender à determinação de fixação de um teto para as emendas do relator determinando um mínimo para elas - ambos inexistiam. O Congresso estabelece que as RP9 serão no máximo a soma das verbas destinadas a emendas individuais e de bancada (que corresponde a 1,1% das despesas primárias), que são equitativas, enquanto as do relator não. Para o Orçamento de 2022 serão R$ 16,3 bilhões. Além disso, a resolução não torna obrigatória nem a identificação de quem solicitou os gastos nem a distribuição igualitária dos recursos. E ficam a critério do relator e da elite dos grupos aliados do Planalto.

Com a entrega do Orçamento ao Centrão, a régua da ética, da moralidade e da responsabilidade no uso de recursos públicos baixou muito. A exigência do STF ecoa a de um filósofo libertino francês do século XVIII: “Um pouco mais de esforço se quereis ser republicanos”.

Valor Econômico

3 números que mostram o impressionante aumento da fome na América Latina

 




A região teve um grande aumento na insegurança alimentar; acima, pessoas em um refeitório popular na Venezuela

A fome na América Latina alcançou no ano passado um patamar que não se via há décadas, segundo o mais recente relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre segurança alimentar, publicado nesta quarta-feira (1/12).

De acordo com a ONU, a América Latina foi a região na qual o número de pessoas passando fome mais cresceu.

"A América Latina e o Caribe enfrentam uma situação crítica em termos de segurança alimentar", diz Julio Berdegué, representante da FAO, braço da ONU para Alimentação e Agricultura.

Veja abaixo três números impactantes presentes no relatório que mostram a situação da segurança alimentar na região.

'Fome também levou ao aumento da imigração; acima, haitianos repatriados'

1) 60 milhões de pessoas passam fome na América Latina

Em apenas um ano, o número de pessoas passando fome na América Latina aumentou em 13,8 milhões, de 45,9 milhões para 59,7 milhões, segundo o Panorama Regional de Segurança Alimentar e Nutricional 2021, da ONU.

Isso equivale 9,1% da população da América Latina e do Caribe - é a maior prevalência da fome dos últimos 15 anos, embora esteja abaixo da média mundial de 9,9%.

De acordo com a ONU, grande parte desse aumento tem a ver com o impacto da pandemia covid-19, que reduziu a renda de milhões de pessoas na região.

No entanto, não é o único motivo, já que os números da fome na região vêm crescendo há seis anos consecutivos.

No Brasil, estimativa feita em novembro de 2020 no Inquérito Nacional sobre Segurança Alimentar, da Rede Penssan, aponta que 19 milhões de pessoas passavam fome, o que também representa um retrocesso de 15 anos.

2) 267 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar

A América Latina registrou o maior aumento do mundo no número de pessoas sem acesso adequado e constante a alimentos, atingindo 267 milhões de habitantes em situação de insegurança alimentar moderada ou grave em 2020 - 60 milhões a mais que no ano anterior.

Quatro em cada 10 pessoas da região não se alimentam adequadamente todos os dias, e quase uma em cada 10 vive na condição de fome. Novamente, trata-se de um retrocesso de 15 anos no combate à fome, explica Berdegué.

O relatório da ONU destaca que a insegurança alimentar afeta mais as mulheres do que os homens: em 2020, quase 42% das mulheres tinham insegurança alimentar, em comparação com 32% dos homens.

3) Metade da população da Guatemala não tem acesso adequado a comida

Os países do Triângulo Norte da América Central - Guatemala, Honduras e El Salvador - experimentaram os maiores aumentos na insegurança alimentar moderada ou grave, de acordo com o relatório.

Na Guatemala, o índice é de 49,7%. El Salvador e Honduras seguem de perto, com 47,1% e 45,6%, respectivamente.

Além da pobreza acumulada em décadas, que foi agravada ainda mais pela pandemia covid-19, em 2020 esses países sofreram a passagem dos furacões Eta e Iota, que deixaram cerca de 200 mortos, dezenas de desaparecidos e milhares de desabrigados. Os furacões também destruíram casas, infraestrutura e plantações.

A fome e a violência levaram muitas pessoas da América Central a tentarem migrar para os Estados Unidos nas chamadas caravanas de migrantes.

Na América do Sul, os maiores aumentos foram registrados pela Argentina - onde 35,8% da população sofre de insegurança alimentar - e pelo Equador, onde a porcentagem é 32,7%.

Em 2021, a Argentina registra uma taxa de inflação de 52,1% com relação ao ano anterior, uma das mais altas dos últimos 30 anos e a mais alta da América Latina depois da Venezuela.

Obesidade infantil e sobrepeso

Enquanto isso, o relatório também alerta para o crescente problema de obesidade na região, resultado de uma alimentação de má qualidade, muitas vezes baseada em produtos ultraprocessados que não contêm nutrientes, mas são ricos em sódio, açúcares e gorduras. O problema afeta um em cada quatro adultos, um total de 106 milhões de pessoas.

O texto destaca ainda o problema do sobrepeso infantil, que afetou 7,5% das crianças menores de cinco anos na região, dois pontos percentuais acima da média mundial. Foram cerca 3,9 milhões de crianças afetadas pelo problema em 2020.

De acordo com a Unicef, a entidade da ONU para proteção à infância, a pandemia agravou uma crise de desnutrição pré-existente na região e as famílias agora têm mais dificuldade em colocar alimentos saudáveis ​​na mesa, deixando muitas crianças com fome e outras com excesso de peso.

"Para que cresçam saudáveis, devemos garantir que todas as famílias tenham acesso a alimentos nutritivos e acessíveis", disse Jean Gough, diretor regional da Unicef.

BBC Brasil

Ômicron: qual a previsão de novas vacinas

 




Por ora, não há confirmação de que as vacinas deixam de funcionar contra a variante ômicron

Por André Biernath, em São Paulo

Classificada como uma variante de preocupação no dia 26 de novembro, a ômicron segue cercada de incertezas e especulações. Um dos aspectos que levanta mais dúvidas tem a ver com a imunidade: será que as vacinas disponíveis atualmente são capazes de barrar uma infecção (ou ao menos diminuir a gravidade da doença) causada por essa nova versão do coronavírus?

Por ora, não há nenhuma evidência de que os imunizantes perdem completamente a capacidade de proteção — os estudos que avaliam essa questão estão em andamento e devem ter seus resultados preliminares divulgados ao longo da próxima semana. A vacinação continua indicada como a principal estratégia para se proteger contra a covid.

Porém, de forma geral, boa parte dos especialistas espera que ocorra, sim, uma queda na efetividade das doses. Essa expectativa tem a ver com as mutações encontradas na ômicron que aparecem em outras variantes e com algumas simulações feitas em computador.

Mas ninguém sabe ainda responder ao certo a magnitude dessa diminuição da efetividade ou se haverá a necessidade de desenvolver novas vacinas capazes de conter especificamente a ômicron.

Uma das previsões mais pessimistas veio do executivo-chefe da farmacêutica Moderna, Stéphane Bancel, numa entrevista ao jornal Financial Times. "Me parece que haverá uma queda importante [da imunidade]. Só não sei quanto, porque precisamos esperar os dados. Mas todos os cientistas com quem conversei dizem que 'não vai ser bom'", declarou.

Na contramão, o ministro da Saúde de Israel, Nitzan Horowitz, acredita que "há espaço para otimismo". "Nos próximos dias, nós teremos informações mais precisas sobre a eficácia das vacinas contra a ômicron. Mas alguns indicadores iniciais revelam que os indivíduos vacinados continuam protegidos contra essa variante", declarou, durante uma coletiva de imprensa na terça-feira (30/11).

Nos últimos dias, representantes de alguns laboratórios afirmaram que estão desenvolvendo versões atualizadas de seus imunizantes. Foi o caso de Pfizer/BioNTech, Moderna, AstraZeneca e Janssen.

Mas, caso a necessidade de novas vacinas contra a ômicron fique realmente comprovada, quanto tempo demoraria para elas ficarem prontas?

O que falta descobrir

Identificada na África do Sul no final de novembro, a ômicron logo chamou a atenção dos especialistas pela quantidade e pela variedade de mutações, muitas delas localizadas na proteína S.

Esse "S" é a inicial de spike, ou espícula em português. Essa proteína fica na superfície do coronavírus e tem a função de se conectar no receptor das células humanas para dar início à infecção.

Na perspectiva das vacinas disponíveis, essa estrutura é muito importante. A maioria dos imunizantes tem como base justamente a tal da proteína S.

As vacinas de mRNA (como aquelas desenvolvidas por Pfizer e Moderna) trazem na sua formulação um pedacinho de código genético com instruções para que nossas próprias células fabriquem a proteína S. Na sequência, esse material é identificado pelo sistema de defesa, que gera uma resposta imunológica capaz de nos proteger de uma infecção de verdade.

Já nos imunizantes de vetor viral (caso de AstraZeneca e Janssen), o produto traz um vírus inofensivo para seres humanos que possui um código genético em seu interior. Daí, o processo é mais ou menos igual: nossas células produzem a proteína S e o sistema imunológico faz o seu trabalho de montar uma resposta contra o invasor.

Agora, se a ômicron traz mutações importantes justamente na proteína S, existe a probabilidade de as células de defesa não reconhecerem mais essa nova versão do coronavírus e não lançarem um contra-ataque efetivo. E isso, por sua vez, aumenta o risco de infecção mesmo entre os vacinados ou aqueles que tiveram covid-19 anteriormente.

"Essa variante traz muitas mutações em lugares estratégicos, como a região da espícula que se liga ao receptor das células", observa o imunologista Jorge Kalil Filho, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

"E isso abre a possibilidade de que os anticorpos neutralizantes parem de funcionar como observado até agora", completa.

De novo: ainda não se sabe se isso vai acontecer na prática e o quanto a ômicron é realmente capaz de "driblar" a imunidade prévia. Mas há alguns cenários possíveis, como você confere a seguir (do mais otimista para o mais pessimista):

1) A imunidade de quem já teve covid-19 ou tomou as doses recomendadas de vacina continua suficientemente alta;

2) Há uma perda da imunidade, mas boa parte de quem está vacinado ou já foi infectado continua com um nível bom de proteção contra as formas mais graves da doença;

3) A perda da imunidade é grande e boa parte da população volta a ficar mais vulnerável, especialmente os mais velhos e aqueles com o sistema imunológico comprometido.

Há quem aposte em cada um desses cenários e nas possíveis variações e combinações entre eles. Mas isso ainda não passa de uma aposta ou de uma especulação.

É justamente para acabar com essas dúvidas que diversos grupos de pesquisa estão trabalhando nos últimos dias. Uma das formas de encontrar respostas é pegar amostras de sangue de pessoas vacinadas (ou recuperadas da covid) e ver no laboratório como as células imunes delas reagem ao ômicron.

"Essa estratégia nos dá uma ideia se os anticorpos conseguem neutralizar a nova variante de uma maneira parecida ao que acontecia com as outras versões anteriores do coronavírus", explica Kalil Filho.

"Outra maneira de conferir essa eventual perda de efetividade das vacinas é observar o que acontece nos lugares onde a ômicron circula com mais intensidade. Será preciso acompanhar a população, fazer testes de diagnóstico, ver quantas pessoas ficaram doentes, quantas tiveram quadros mais graves e quantas estavam vacinadas", continua o especialista.

"A partir daí, é possível fazer cálculos estatísticos para determinar o tamanho do problema", completa.

'Vários grupos de pesquisa estão tentando entender como a variante ômicron afeta a efetividade das vacinas'

Outra etapa mais complexa é entender como ficarão outros aspectos importantes da imunidade que não dependem necessariamente dos anticorpos, como a atuação dos linfócitos T, uma unidade de defesa que destrói as células infectadas pelo coronavírus.

Boa parte dessas investigações já está em curso, sob a liderança das próprias farmacêuticas e de grupos de estudos independentes. A expectativa é que os primeiros resultados saiam até a próxima semana.

Até agora, todas as novas versões do vírus que causaram maior preocupação (alfa, beta, gama e delta) continuam a ser barradas pelas vacinas. "Os dados de vida real nos mostram um bom nível de proteção contra essas variantes", informa a imunologista Cristina Bonorino, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre.

"O grande problema é que, se continuarmos nessa situação de não vacinar grande parte do mundo, como os países mais pobres da África e da Ásia, uma hora ou outra vai surgir uma nova variante com mutações que conseguem escapar totalmente das vacinas", alerta a especialista, que também integra a Sociedade Brasileira de Imunologia.

"Estamos diante de um problema global cujas soluções são pensadas de maneira local. Assim fica difícil acabar com a pandemia", critica.

O que será feito na sequência?

Vamos supor que essas pesquisas em andamento mostrem que a realidade se aproxima do cenário 2 (perda da imunidade, mas ainda com um nível suficiente de proteção contra as formas mais graves da covid).

Nesse caso, os especialistas podem indicar, por exemplo, uma dose extra das vacinas já disponíveis. Há diversos estudos mostrando que esse booster, como é conhecido o reforço em inglês, aumenta os níveis de anticorpos contra o coronavírus.

A terceira dose, aliás, já está sendo aplicada de rotina nos países com a campanha de vacinação mais avançada, como é o caso do Brasil.

Agora, se o cenário 3 se concretizar (perda grande da imunidade e muita gente vulnerável), a situação fica um pouco mais complicada: pode ser necessário desenvolver novos imunizantes que consigam barrar especificamente a ômicron.

Farmacêuticas como Pfizer, Moderna, AstraZeneca e Janssen, inclusive, anunciaram nos últimos dias que estão desenvolvendo novas versões de seus produtos para contemplar a nova variante.

A Pfizer anunciou que conseguiria desenvolver um novo produto em cerca de 100 dias. Já a Moderna calcula que levaria "alguns meses" para ter uma versão atualizada de seu imunizante.

'O desenvolvimento de novas versões das vacinas de mRNA e vetor viral não é tão difícil, do ponto de vista técnico'

Em tese, a parte técnica desse processo nem é tão complicada assim: tanto nas vacinas de mRNA (Pfizer e Moderna) quanto nas de vetor viral (AstraZeneca e Janssen), basta trocar aquele código genético que "ensina" nossas células a fabricar a proteína S por uma versão mais aproximada ao que se observa na ômicron.

Ou seja: na mais otimista das hipóteses, todo esse processo demoraria por volta de seis meses para ser finalizado, segundo os próprios cálculos dos laboratórios.

"O desafio maior vem a seguir: fabricar, distribuir e vacinar todo o mundo, num momento em que a maioria da população global ainda não recebeu suas doses", aponta Bonorino.

Segundo a imunologista, a adaptação e a atualização das vacinas não exigiria longos testes clínicos, como aconteceu para a aprovação da primeira leva de imunizantes entre o final de 2020 e o início de 2021.

"É mais ou menos o que acontece com a vacinação contra a gripe, em que temos alterações no produto utilizado a cada ano de acordo com as cepas do vírus influenza que circulam com mais intensidade naquele momento", exemplifica.

Esse processo, claro, exigiria toda uma discussão entre os especialistas e a criação de regras regulatórias que ainda não existem até agora, pois a covid-19 é uma doença relativamente nova.

Órgãos como a Anvisa no Brasil e o FDA nos Estados Unidos precisam definir essas normas e como seria feita essa mudança dos produtos, caso isso se mostre realmente necessário.

O que fazer até lá?

Não custa reforçar: por enquanto, falamos apenas de cenários hipotéticos. Não se sabe se a ômicron realmente escapa da imunidade e se haverá necessidade de criar novas vacinas.

Portanto, é vital que a campanha de vacinação contra a covid-19 continue a evoluir e que todo mundo receba as suas doses no momento indicado. O recado vale inclusive para a terceira aplicação em todos os adultos, como anunciado pelo Ministério da Saúde em novembro.

Em relação a isso, não há dúvidas entre os especialistas: os imunizantes em uso são efetivos e oferecem proteção, especialmente contra as formas mais graves da covid-19.

E, mesmo se a ômicron se mostrar realmente uma péssima notícia, as demais formas de prevenção continuarão a funcionar contra ela: o uso de máscaras de boa qualidade, o cuidado com as aglomerações, a lavagem de mãos e circulação de ar pelos ambientes seguem como recomendações básicas para diminuir o risco de transmissão e infecção com o coronavírus.

BBC Brasil

Eleições 2022: quem são os pré-candidatos a Presidente e os obstáculos que devem enfrentar




Jair Bolsonaro vai disputar a reeleição enquanto Lula tenta retornar ao Palácio do Planalto para um terceiro mandato. Enquanto isso, candidatos de esquerda e direita tentam se viabilizar com 'terceira via'

Por Nathalia Passarinho, em Londres

Esta reportagem será constantemente atualizada para refletir novas candidaturas e a retirada de nomes da disputa presidencial até o registro oficial pelos partidos no ano que vem.

A eleição presidencial de 2022 tende a gerar grande polarização, com Jair Bolsonaro (PL) disputando a reeleição e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tentando retornar à Presidência da República para um terceiro mandato.

Mas pré-candidatos de esquerda, centro e direita tentam se viabilizar como "terceira via", entre eles Ciro Gomes (PDT), a senadora Simone Tebet (MDB) e o ex-juiz Sérgio Moro (Podemos).

Já o PSDB escolheu o governador de São Paulo, João Dória, como pré-candidato do partido à eleição. Mas ele terá a tarefa difícil de resgatar a relevância do partido na corrida presidencial. Em 2018, o candidato tucano, Geraldo Alckmin, ficou em quarto lugar no primeiro turno, com pouco mais de 4% dos votos.

Até agora, a única mulher na disputa é a senadora Simone Tebet, do MDB. A lista definitiva de candidatos só vai ser definida nas convenções partidárias que vão ocorrer entre 20 de julho e 5 de agosto de 2022.

A BBC News Brasil lista aqui as pessoas que, pouco menos de um ano antes da eleição, já foram lançadas como pré-candidatas — e os desafios que cada uma tem a enfrentar.

Jair Bolsonaro, pelo PL

O presidente Jair Bolsonaro vai disputar a reeleição pelo Partido Liberal, legenda de Valdemar Costa Neto, um dos condenados no escândalo do mensalão. Atualmente, um dos principais desafios de Bolsonaro é a popularidade em baixa. Segundo pesquisa Datafolha de setembro, 53% consideram o seu governo ruim ou péssimo — o pior índice desde o início do mandato. Na pesquisa anterior, o percentual era de 51%.

Alguns elementos contribuíram para essa queda: a reação do governo à pandemia do coronavírus; os escândalos envolvendo filhos do presidente, especialmente o chamado caso das "rachadinhas"; e as acusações relacionadas à compra de vacinas contra a covid.

A crise econômica, com alta contínua da inflação, e o aumento da pobreza também podem significar desafios para a reeleição de Bolsonaro. Por outro lado, o aumento do valor do Auxílio Brasil (antigo Bolsa Família) pode ajudar a recuperar parte dos votos. Bolsonaro deu novo nome ao Bolsa Família, numa tentativa de imprimir marca própria na assistência social. O presidente também conta com uma base de eleitores fiéis dispostos a ir às ruas para defender suas posições, como ocorreu nos protestos de 7 de setembro.

"O principal desafio de Bolsonaro é a avaliação ruim do seu governo, conforme mostram pesquisas de opinião", disse à BBC News Brasil o cientista político Claudio Couto, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). "Tem bolsonaristas que não abandonam Bolsonaro, mas tem os bolsonaristas de ocasião, que podem abandonar Bolsonaro e ir para outros candidatos de direita, principalmente para Sérgio Moro", avalia.

Para Couto, Bolsonaro tem dois desafios pela frente que não existiam na eleição de 2018. Primeiro, ele vai ter que centrar força na campanha em atacar dois candidatos: Sérgio Moro, seu principal adversário na disputa para chegar ao segundo turno; e Luiz Inácio Lula da Silva, atualmente em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto.

"Em 2018, Bolsonaro só precisava atacar Lula. Ele era o candidato do antipetismo. Agora, tem Moro como alternativa e ele vai precisar centrar fogo em duas frentes no primeiro turno", diz Couto.

O segundo desafio é o fato de que Bolsonaro terá mais dificuldade para sustentar o discurso de combate à corrupção, especialmente após as denúncias de corrupção na compra de vacinas contra a covid e as acusações de que tentou interferir em investigações da Polícia Federal.

Se antes de se eleger presidente Bolsonaro era um dos principais defensores da Lava Jato, foi durante seu governo que a força tarefa foi desmantelada e o ritmo das investigações se reduziu consideravelmente.

"Para Bolsonaro o discurso anticorrupção foi perdido e foi perdido por conta dos problemas na família, o envolvimento em compra de vacina, e o favorecimento de seus aliados do Centrão. Esse discurso, a não ser para quem acredita que o PT detém o monopólio da corrupção, não vai colar como em 2018", diz Couto.

Bolsonaro está, atualmente, em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, atrás apenas de Luiz Inácio Lula da Silva. Num eventual segundo turno com Lula, ele poderá voltar a personificar o antipetismo que o ajudou a se eleger em 2018.

Luiz Inácio Lula da Silva, pelo PT

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silvia aparece em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para presidente da República, seguido por Bolsonaro e Sérgio Moro. Desde que teve sua condenação por corrupção anulada pelo Supremo Tribunal Federal, sua candidatura pelo PT à Presidência é tida como certa por políticos do partido.

Embora, não tenha confirmado que irá concorrer, o ex-presidente tem participado de eventos para discutir propostas para o Brasil, vem se reunindo com setores da sociedade, como lideranças evangélicas, e até rodou a Europa para dialogar com chefes de Estado e de governo.

O principal obstáculo do ex-presidente é o antipetismo, que ainda deve ter peso na próxima disputa presidencial, com eleitores buscando alternativas numa terceira via ou recorrendo a Moro ou Bolsonaro para evitar um retorno de Lula.

"O Lula tem a dificuldade de vencer o antipetismo. Mas isso está mais fraco do que foi anteriormente. Uma parte dos problemas que originou o antipetismo, que é o escândalo de corrupção, se dissolveu pelo tempo que passou, são escândalos já precificados", avalia Claudio Couto, da FGV..

Lula tem a vantagem de, ao menos por enquanto, só ter Ciro Gomes (PDT) como adversário de esquerda na disputa. Todos os demais pré-candidatos são associados à centro-direita ou direita. Isso garante a ele maior facilidade para chegar ao segundo turno.

"Lula, de todos os candidatos, é o que pode estar na posição mais confortável. Ele tem na esquerda um apoio consolidado. Ciro Gomes, ao bater forte em Lula e Dilma, como tem efeito, abdicou de parte do eleitorado da esquerda", diz Couto.

Sergio Moro, pelo Podemos

Em 10 de novembro, o ex-juiz Sergio Moro se filiou ao Podemos numa cerimônia na qual o partido o anunciou como "futuro presidente da República".

Depois de deixar os processos da Operação Lava Jato, renunciar ao cargo de juiz, entrar para a política como ministro da Justiça de Jair Bolsonaro e pedir demissão, Moro se torna o principal adversário do atual presidente na disputa para o segundo turno da eleição presidencial de 2022.

Nas primeiras pesquisas de intenção de voto realizadas após a filiação ao Podemos, o ex-juiz aparece em terceiro lugar na disputa, atrás de Lula e Bolsonaro, mas com tendência de alta no desempenho.

Pesquisa PoderData realizada na semana do dia 22 a 24 de novembro, aponta Lula com 38% das intenções de voto, Bolsonaro em segundo lugar, com 27%, e Moro em terceiro, com 14%.

"Ele é um candidato que tende a crescer agora. Primeiro, por se confirmar como candidato de fato. Antes era apenas uma hipótese de candidato. Ele agora tem chances de roubar votos de Bolsonaro, já que parte do eleitorado do presidente também é 'morista' ou 'lavajatista'", avalia Claudio Couto, da FGV.

Por outro lado, Moro terá o desafio de comprovar que suas capacidades vão além do discurso anticorrupção. Também terá de enfrentar as acusações de que agiu com parcialidade nos julgamentos da Lava Jato e de que cometeu abusos durante a investigação. Mas ele tem espaço para conquistar votos de antipetistas, e pode roubar parte do eleitorado do PSDB que desaprova Bolsonaro, mas também não quer o retorno de Lula.

"Ele vai ter que demonstrar que consegue dominar outros temas e fazer promessas críveis. Apostaria numa disputa entre Moro e Bolsonaro para chegar ao segundo turno. Os dois vão se vender como baluartes do antipetismo, mas Moro vai precisar comprovar que é mais que um ex-juiz", diz Couto.

João Dória, pelo PSDB

O governador de São Paulo, João Dória, foi escolhido para ser candidato do PSDB após vencer o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, em prévias realizadas pelo partido.

Durante a pandemia do coronavírus, Dória se projetou ao adotar postura oposta à de Bolsonaro na reação à crise. Nos picos de infecção, ele defendeu lockdowns, fechamento de comércio e restaurantes e medidas de isolamento social, além de ter investido, por meio do Instituto Butantan, na produção da CoronaVac, a primeira vacina a ser disponibilizada no Brasil contra a covid-19.

Para se cacifar nacionalmente, a tendência é que ele se apresente como "o candidato da vacina" contra covid, ou seja, como alguém que reagiu à crise. Mas pesquisas de intenção de voto realizadas até agora o colocam na quarta ou quinta posição no primeiro turno.

O PSDB vem passando por um processo de desgaste interno e, na última eleição presidencial, candidato tucano Geraldo Alckmin só alcançou 4% dos votos no primeiro turno — resultado considerado desastroso para um partido que sempre figurava em primeiro ou segundo lugar na disputa presidencial desde 1994.

Além disso, Dória enfrenta resistências dentro do próprio partido e corre o risco de ser alvo de "fogo amigo" durante a campanha. "Há chance de integrantes do PSDB apoiarem outros candidatos de centro e direita, como Sérgio Moro", diz Claudio Couto, da FGV.

Dória também vai enfrentar o desafio de convencer o eleitorado de outras regiões do país, especialmente do Nordeste, que não é um político centrado nos interesses e desafios de São Paulo e do Sudeste.

"Dória ainda tem uma imagem antipática fora de São Paulo, de alguém muito distante da realidade das regiões mais pobres do país. Ele precisa vencer essa resistência e terá a tarefa de comprovar que tem sensibilidade para questões de outros Estados", avalia o professor de ciência política da FGV.

Ciro Gomes, pelo PDT

Se for confirmada a sua candidatura à Presidência pelo PDT, esta será a quarta vez que Ciro Gomes concorre ao cargo. Em 2018, ficou em terceiro lugar no primeiro turno, com 12,5% dos votos.

Ele também concorreu à Presidência em 2002 e 1998. Candidato associado à esquerda ou centro-esquerda, Ciro Gomes tenta novamente despontar como terceira via, ou seja, alternativa a Lula e Bolsonaro.

A seu favor, ele conta experiência política, numa eleição que não dará o mesmo peso a "outsiders" ou figuras antipolíticas como a de 2018. Ciro foi prefeito de Fortaleza, deputado estadual, deputado federal, governador do Ceará e ministro dos governos Itamar Franco e Lula.

Ele passou por sete partidos e deve concorrer à eleição de 2022 pelo PDT. Para fazer frente à candidatura de Lula, Ciro tem adotado uma estratégia de ataque, criticando fortemente o ex-presidente petista.

"Lembre que o Brasil mudou muito e Lula não renovou as ideias. Será que ele se corrigiu e não vai repetir aqueles erros terríveis que você só descobriu depois? O pior é que você nunca viu ele pedir perdão pelos erros e está vendo ele se juntar de novo às mesmas pessoas", escreveu Ciro nas redes sociais.

O ex-governador do Ceará também chegou a acusar Lula de conspirar para o impeachment de Dilma e, quando a petista saiu em defesa do padrinho político, Ciro reagiu dizendo que a ex-presidente foi uma das pessoas "mais inapetentes, incompetentes e presunçosas" a presidir o Brasil.

Se por um lado essa estratégia visa firmar Ciro Gomes como alternativa a Lula, por outro, pode eventualmente afastar eleitores que nutrem alguma simpatia pelo PT ou que defendem uma ampla aliança anti-Bolsonaro.

"Ao mesmo tempo em que essa estratégia pode custar votos de eleitores da esquerda, Ciro tem dificuldade em conquistar, de fato, eleitores da direita. Ele ainda é visto como alguém, no mínimo, de centro-esquerda", diz o cientista político Claudio Couto.

Simone Tebet, pelo MDB

Única mulher até o momento a ser cogitada como pré-candidata à Presidência, a senadora Simone Tebet deve ser lançada para disputar o Palácio do Planalto pelo MDB em dezembro.

Ela foi a primeira mulher a disputar o comando do Senado, em 2021. Também foi a primeira parlamentar mulher a comandar a disputada Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a primeira vice-governadora de Mato Grosso do Sul e primeira prefeita de Três Lagoas (MS).

A possibilidade de candidatura à Presidência surgiu do destaque que Tebet teve na CPI da covid no Senado. Embora não fosse integrante fixa da comissão, ela participou dos principais depoimentos da CPI com uma postura contundente e crítica à gestão do governo Bolsonaro na pandemia.

O principal obstáculo que a senadora deverá enfrentar é se tornar nacionalmente conhecida. "Ela é desconhecida fora de seu estado, o Mato Grosso do Sul. A CPI fez com que ela se tornasse conhecida por uma parcela pequena dos eleitores, aqueles que leem jornal, mas isso não é ainda suficiente", avalia Couto.

Alessandro Vieira, pelo Cidadania

Lançado como pré-candidato pelo partido Cidadania, o senador Alessandro Vieira (SE), assim como Tebet, se destacou durante a CPI da covid no Senado. Ele também é apresentado pelo Cidadania como uma possível "terceira via" para evitar a polarização Bolsonaro-Lula.

"Alessandro representa o pensamento do campo democrático à polarização existente entre Bolsonaro e Lula. É um sistema que não pode continuar pelo retrocesso e atraso que significam. É um senador que tem boa presença, com muito engajamento nas redes, uma postura de extrema competência e reconhecida pela opinião pública", defendeu o presidente nacional do Cidadania, Roberto Freire, ao anunciar que Vieira seria candidato à Presidência pelo partido.

Nascido em Passo Fundo, Vieira tem 46 anos, é delegado da polícia civil e novato na política, sendo eleito pela primeira vez senador em 2018 pelo Sergipe. Na época, ele declarou voto em Bolsonaro, mas depois disse que se arrependeu e se tornou um dos principais críticos do presidente na CPI da covid.

"Me arrependo profundamente do voto no Bolsonaro. Faço parte de um grupo de milhões de brasileiros que, primeiro, estava movido por um sentimento de não votar no PT. Subestimei o mal que Bolsonaro poderia fazer. Imaginei que ele poderia ter um governo com uma equipe técnica forte que evitasse esses equívocos. E foi o contrário, temos ele submetendo a equipe técnica", disse Vieira em entrevista à BBC News Brasil em junho.

Mas, apesar da projeção que ganhou na CPI, Vieira tem como obstáculo o fato de ainda não ser uma figura conhecida em todas as regiões do país

"Ele teve um desempenho bom na CPI, que o tornou uma figura nacionalmente conhecida em alguma medida. Digo em alguma medida, porque quando vemos pesquisas de intenção de voto, muita gente não sabe quem ele é. Ele é conhecida por uma parcela mais elitizada, que acompanhou de perto os trabalhos da CPI", diz Couto, da FGV.

Luiz Felipe D'Ávila, pelo Partido Novo

O cientista político Luiz Felipe D'Ávila foi anunciado no dia 3 de novembro como pré-candidato do Partido Novo à Presidência da República. Em 2018, o partido surpreendeu em desempenho quando seu então candidato à presidente, João Amoêdo, terminou o primeiro turno em quinto lugar, com 2,5% dos votos, à frente de candidatos como Henrique Meirelles e Marina Silva.

Amoêdo, que chegou a anunciar voto em Bolsonaro no segundo turno, passou a defender o impeachment do presidente durante a pandemia. Ele chegou a ser lançado novamente como pré-candidato pelo Novo no início do ano, mas sua candidatura sofreu oposição de parcela dos integrantes do partido, sobretudo entre os que apoiam Bolsonaro. O partido, então, decidiu lançar Luiz Felipe D'Ávila.

Ex-PSDB, D'Ávila coordenou o programa de governo do candidato tucano à Presidência Geraldo Alckmin em 2018, mas depois deixou o partido e recentemente se filiou ao Novo. Ele é crítico de Bolsonaro e Lula, e diz que os dois formaram governos "populistas de direita e esquerda". Ao ser lançado pré-candidato pelo Novo em cerimônia no dia 3 de novembro, ele defendeu privatizações e outras reformas para reduzir o papel do Estado na economia.

"O populismo apenas perpetua a miséria, a pobreza, a corrupção e o mau funcionamento das instituições democráticas", disse.

A dificuldade do partido Novo será tornar D'Ávila conhecido nacionalmente. Além disso, enquanto em 2018 o partido se beneficiou de um forte movimento de rejeição da política e de busca por quadros novos, a eleição de 2022 tende a ser menos focada na busca pelos chamados "outsiders".

Rodrigo Pacheco, pelo PSD

Presidente do Senado, Rodrigo Pacheco se filiou em outubro ao PSD, partido do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab. Embora a pré-candidatura ainda não esteja confirmada, alguns dias antes da cerimônia de filiação de Pacheco, Kassab disse que a ideia é que o senador seja o candidato pelo partido.

"Rodrigo mostrou que tem talento e sabedoria para a vida pública. Se Deus quiser ele é o próximo presidente do Brasil. O PSD está pronto para abraçar suas propostas", disse o ex-prefeito de SP.

Na cerimônia de filiação, Pacheco defendeu, em discurso, que é preciso acabar com a "divisão" na sociedade brasileira.

"Hoje, estamos todos cansados e descrentes. Estamos cansados de viver em meio a tanta incerteza, a tanta incompreensão e intolerância. Uma sociedade dividida, em que cada um não admite o contrário e não aceita a existência do outro, nunca irá chegar a lugar algum", disse.

Mas o senador não quis confirmar se será candidato e disse que "tudo tem seu tempo". Pacheco enfrenta como principal obstáculo o fato de ser desconhecido do público em geral.

"Ele é conhecido por quem acompanha a política muito de perto. O presidente da Câmara, Arthur Lira, está mais no noticiário- um noticiário negativo muitas vezes, mas que o torna mais conhecido", destaca o professor Claudio Couto. 

BBC Brasil

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