quarta-feira, março 10, 2021

Bolsonaro completa um ano sem apresentar provas de fraude na eleição de 2018


Charge do Duke (domtotal.com)

Daniel Gullino
O Globo

Nesta terça-feira, dia 9, completa-se um ano que o presidente Jair Bolsonaro afirmou que “brevemente” iria apresentar provas de fraudes na eleição de 2018 — Bolsonaro diz que teria tido votos suficientes para vencer já no primeiro turno. Um ano depois, o presidente não só não cumpriu a promessa como lutou na Justiça para não ter que apresentar as provas que disse ter: a Advocacia-Geral da União (AGU) conseguiu derrubar ao menos duas decisões que determinavam a apresentação das supostas provas.

Em manifestações apresentadas à Justiça, a AGU minimizou as declarações de Bolsonaro, dizendo que foram falas informais e que não houve dano à imagem da Justiça Eleitoral. Até o momento, o órgão conseguiu evitar decisões que obriguem a apresentação das provas.

“PROVAS” – A primeira declaração ocorreu durante viagem de Bolsonaro a Miami, em 9 de março de 2020:”Eu acredito que, pelas provas que tenho em minhas mãos, que vou mostrar brevemente, eu tinha sido, eu fui eleito no primeiro turno, mas no meu entender teve fraude. E nós temos não apenas palavra, nós temos comprovado, brevemente eu quero mostrar”, disse o presidente na ocasião.

Na época, a então presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber, defendeu o sistema eleitoral brasileiro e cobrou a apresentação de provas. Pouco mais de um mês depois, o presidente voltou a tocar no assunto e disse que iria apresentar as provas junto com um “projeto de lei”, sem especificar qual: “Na hora oportuna você vai ter a resposta, se eu não tivesse (provas) eu não falaria, meu Deus do céu. É muito simples, eu sei do peso do que eu falo”, afirmou o presidente, em conversa com jornalistas no Palácio da Alvorada.

“Eu quero apresentar juntamente com um projeto de lei. Calma. Eu não tenho obrigação de apresentar para vocês (jornalistas)”, acrescentou. Dias depois, o deputado federal Célio Studart (PV-CE) entrou com uma ação na Justiça Federal do Ceará pedindo para Bolsonaro ser obrigado a apresentar as provas. Em resposta, a AGU minimizou a declaração, dizendo que não havia ato administrativo e que questionamentos como esse fazem parte da democracia.

AÇÃO ARQUIVADA – “Ora, claudicante seria a democracia incapaz de lidar com questionamentos sobre suas instituições. Na realidade, eventuais questionamentos, denúncias, apurações de faltas eleitorais fazem parte constituinte e inafastável da dinâmica eleitoral, sendo uma das funções precípuas da Justiça Eleitoral, delineadas no Código Eleitoral”, escreveu o órgão na época. A ação acabou sendo arquivada.

Em janeiro, o movimento Livres entrou com pedido semelhante, desta vez na Justiça de São Paulo. A AGU repetiu alguns dos argumentos e disse que a declaração de Bolsonaro foi uma “manifestação pessoal”. A ação foi rejeitada no mês passado, por um motivo técnico: a juíza considerou que o Livres não teria legitimidade para entrar com o processo.

“Cumpre-nos destacar que uma manifestação pessoal do Presidente expressada de maneira completamente informal não pode ser tomada como um ato formal, muito menos se pode dela extrair qualquer tipo dano aos direitos antes indicados”, disse a AGU.

CRÍTICA – Diretor jurídico do Livres e colunista do O Globo, o advogado Irapuã Santana afirma que o movimento já recorreu da decisão. Ele critica as declarações de Bolsonaro e afirma que elas podem configurar crime de responsabilidade, o que poderia embasar um pedido de impeachment.

“Quando você coloca em dúvida um sistema eleitoral que vem sendo construído há décadas, você está retirando a legitimidade das instituições e isso é uma espécie de crime de responsabilidade”, disse.

Para o advogado, a estratégia pode servir para justificar uma possível derrota nas eleições de 2022. “Você colocar em xeque as eleições, apesar de ter ganhado, é extremamente contraditório. Isso pode servir (nas próximas eleições) para você trazer um descrédito das instituições e falar: `na verdade eu não perdi, eu ganhei´”, afirma.

SEM RESPOSTA – O Globo questionou a Presidência sobre o motivo das provas ainda não terem sido apresentadas e se Bolsonaro ainda pretende mostrá-las, mas não houve resposta. Na semana passada, o presidente encerrou uma entrevista coletiva ao ser perguntado sobre o assunto.

O TSE e a Procuradoria-Geral da República (PGR) foram perguntados se a Presidência enviou oficialmente indícios de fraudes e sobre se há alguma investigação sobre possíveis irregularidades no pleito, mas também não responderam.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG 
– Bolsonaro ganha tempo disseminando desinformação e criando factoides. Espalha diariamente cortinas de fumaça para desviar o foco da sua incompetência e das trapalhadas de sua trupe familiar. Em tradução simultânea, houve sim uma fraude em 2018, e o nome do embuste é Bolsonaro. (Marcelo Copelli)

Crises sem respostas no Norte viram desafio político para o governo e desgastam imagem de Bolsonaro

Publicado em 9 de março de 2021 por Tribuna da Internet

Crises recentes têm causado dor de cabeça política para Bolsonaro

Marcelo de Moraes
Estadão

Com pelo menos três crises ocorridas nos últimos quatro meses, lidar com a região Norte virou um desafio ainda sem respostas para o governo. O apagão de energia do Amapá, o colapso sanitário do Amazonas e o “combo” do Acre (enchente/ crise de imigrantes da  fronteira/ dengue/ Covid) pegaram o governo de surpresa. E a demora nas respostas a esses problemas tem provocado grande desgaste na imagem do presidente Jair Bolsonaro.

A região já é um foco de preocupação natural desde o início do governo por causa das constantes queimadas e do desmatamento da Amazônia. Criticado por sua política ambiental, o Planalto levou tempo para construir uma estratégia de reação ao tema – e que está longe de ser eficiente.

DOR DE CABEÇA – Mas as três crises mais recentes são completamente diferentes desse contexto. Além de pegarem o governo completamente desprevenido, expuseram uma fragilidade ainda maior do Norte do País e têm causado dor de cabeça política para Bolsonaro.

O presidente cobrou monitoramento constante da região e reações mais rápidas. O primeiro efeito dessa chamada feita por Bolsonaro já foi visto nas ações para reduzir os problemas causados pela enchente do Acre. Mesmo ainda demorando para lidar com o assunto, o próprio presidente liderou uma comitiva para o Estado no fim de fevereiro, ao lado do governador Gladson Cameli e de parlamentares do Acre, e assinou a liberação de recursos via medida provisória, que destina R$ 450 milhões para Estados e cidades em situação de calamidade pública.

“A situação do Acre eu não diria que é grave. Ela é gravíssima”, resume o senador Sérgio Petecão (PSD-AC), presidente da Comissão de Assuntos Sociais do Senado, que participou da comitiva presidencial.

REGIÃO ESTRATÉGICA  – Eleitoralmente, a região Norte é estratégica para os planos de Bolsonaro. Com cerca de 11,5 milhões de eleitores, o Norte deu 51% dos seus votos para o presidente em 2018. Além disso, políticos aliados foram eleitos em cinco dos sete Estados: Amazonas, Rondônia, Roraima, Acre e Tocantins. O presidente conta com a repetição desse apoio para garantir seu caminho para a reeleição. Mas tem dito a auxiliares próximos que a sequência de crises está minando seu apoio local.

Os números das pesquisas comprovam essa preocupação do presidente e seus aliados. O levantamento feito pela CNT/MDA mostra que, nos últimos quatro meses, Bolsonaro e seu governo perderam apoio. Norte/Centro-Oeste, que são reunidos na pesquisa, ainda são responsáveis pela melhor avaliação positiva do governo entre as regiões, com 36%. Mas, ao mesmo tempo, são responsáveis pela maior queda regional, já que na pesquisa anterior, feita em outubro, a aprovação do governo ali era de 48%. Ou seja, houve um recuo de 12 pontos.

DIVISOR DE ÁGUAS – Das três crises, o colapso sanitário do Amazonas, quando pacientes de Covid morreram asfixiados porque não havia oxigênio disponível nos hospitais locais, é visto como uma espécie de divisor de águas na queda de popularidade do presidente. A falta de ação do Ministério da Saúde, que tinha sido alertado previamente para o problema, mostrou o governo batendo cabeça diante do agravamento da pandemia na Amazônia.

Com o desgaste causado, as redes bolsonaristas foram acionadas para tentar vender a versão de que o Bolsonaro tinha destinado muito dinheiro para a região, mas o governo local não tinha usado. A história não colou, e o Amazonas precisou ser socorrido, mas muito tempo depois do que deveria ter ocorrido. O colapso sanitário acabou gerando repercussão negativa muito grande.

MENTIRA –  O constrangimento foi maior ainda com a presença do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, no Senado para dizer que não fora alertado sobre o problema. Acabou desmentido pelo senador Eduardo Braga (MDB-AM). “Eu estive com vossa excelência no seu gabinete, em dezembro. E lá, no início de dezembro, já dizia a vossa excelência que nós iríamos enfrentar uma onda no Amazonas muito grave. Sugeri, inclusive, que assumisse uma unidade hospitalar no Amazonas diante da comprovação da ineficiência do governo do meu estado quando da primeira onda, que, lamentavelmente, mesmo com recursos, não conseguiu evitar mortes. Eu fui a vossa excelência e disse: é grave”, rebateu Braga.

Já no apagão de energia do Amapá, o estrago político foi grande. Aliado de Bolsonaro, o então presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), contava com essa proximidade do governo para alavancar a eleição do irmão Josiel Alcolumbre (DEM) para a prefeitura de Macapá. Com o apagão, Macapá e várias outras cidades colapsaram, sem que o governo federal se mexesse.

Os problemas foram tão graves que as eleições de Macapá precisaram ser adiadas. Quando o governo se moveu para cuidar da questão, o desastre político já estava consolidado. Irritados com o descaso, os eleitores de Macapá elegeram Doutor Furlan (Cidadania) como prefeito, impondo derrota ao grupo de Alcolumbre.

Com anulação de processos, metade dos crimes imputados a Lula pode prescrever até o fim de 2022


Outros seis casos já esgotaram prazo de oito anos

Bernardo Mello
O Globo

A contagem do prazo para prescrição de quatro processos movidos pela Lava-Jato contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve ser mantida, de acordo com juristas, mesmo após a anulação das condenações, decidida pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), na segunda-feira.

Com isso, cinco dos 12 delitos atribuídos a Lula em denúncias do Ministério Público Federal (MPF) e nas sentenças proferidas pela 13ª Vara Federal de Curitiba podem prescrever até dezembro de 2022. Em outros seis casos, já se esgotou o prazo máximo de oito anos para apresentação da denúncia, contado a partir do término da atividade criminosa investigada.

PRESCRIÇÃO –  Crimes de corrupção ativa e passiva e de lavagem de dinheiro, imputados a Lula em diferentes processos pela Lava-Jato de Curitiba, prescrevem normalmente em 16 anos, de acordo com o Código Penal. No caso de réus que têm 70 anos ou mais no momento da sentença, o prazo cai pela metade. Hoje, Lula tem 75 anos.

O Código Penal abre a possibilidade de que o prazo seja alargado em caso de agravantes que aumentem a pena máxima de cada crime. A análise desses agravantes caberá aos novos procuradores e ao novo juiz que assumirão os casos de Lula na Justiça Federal do Distrito Federal. Mesmo assim, o máximo previsto pela legislação, nesse caso, é de dez anos até a prescrição.

A maioria dos delitos imputados a Lula teria se desenrolado, segundo as denúncias e sentenças proferidas no âmbito da Lava-Jato de Curitiba, em paralelo ao primeiro mandato do petista na Presidência, encerrado em 2006, e ao primeiro governo de Dilma Rousseff, até 2014.

PROLONGAMENTO DOS PRAZOS  – Para o criminalista Davi Tangerino, professor da FGV-SP e da Uerj, o fato de a maioria das acusações ter sua janela temporal delimitada nas denúncias e sentenças da primeira instância faz com que seja menos provável um prolongamento dos prazos de prescrição, amparada numa eventual lógica de “continuidade” dos crimes. O especialista também afirma que a possibilidade de prescrição ganhará ainda mais força caso o novo juiz do caso decida anular total ou parcialmente as provas colhidas pela investigação em Curitiba.

“A convalidação é o que mais vai ditar o ritmo dos processos. Se o juiz convalidar as provas, o MP ganha tempo. Mesmo assim, vale lembrar que a tese de suspeição de Moro, se for confirmada pelo STF, leva à anulação de todos os atos “,  disse Tangerino.

A Segunda Turma do STF pode determinar que o caso volte à estaca zero no julgamento da suspeição do então juiz Sergio Moro, que foi retomado nesta terça com o voto do ministro Gilmar Mendes. Após Gilmar votar pela suspeição, o ministro Kassio Nunes Marques pediu vista do processo.

DUAS SENTENÇAS – Dos quatro processos que foram alvo da decisão de Fachin, dois já haviam tido sentenças na 13ª Vara de Curitiba condenando Lula: os casos do tríplex do Guarujá, no qual o petista recebeu nove anos de prisão, e do sítio de Atibaia, que condenou o ex-presidente a 12 anos de prisão.

Ambas as sentenças haviam sido confirmadas em instâncias superiores, o que tornou Lula enquadrado pela Lei da Ficha Limpa — a anulação das condenações por Fachin, contudo, deixou o petista elegível novamente. Outros dois processos, referentes a obras e doações no Instituto Lula, já tiveram recebimento da denúncia, mas a sentença não chegou a ser proferida.

No caso do tríplex do Guarujá, Lula foi condenado pelo então juiz Sergio Moro, em julho de 2017, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo a sentença, os últimos “atos criminosos” do ex-presidente teriam ocorrido em junho e em dezembro de 2014, respectivamente. Considerando o prazo de oito anos de prescrição, os supostos delitos perdem totalmente a validade até o fim do ano que vem.

ATIBAIA – No processo do sítio de Atibaia, três delitos atribuídos a Lula já não poderiam mais ser julgados, de acordo com este prazo: acusações de corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro pelo suposto pagamento de propina pela Odebrecht, no valor de R$ 700 mil, para reformas no local. Segundo a sentença proferida por Moro, esses crimes prescreveriam entre maio de 2019 e janeiro de 2020. Já os supostos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro pelo recebimento de R$ 170 mil da OAS, também através de reformas no sítio, alcançam os oito anos do prazo de prescrição em agosto de 2022.

Nos processos referentes ao Instituto Lula, as acusações de corrupção envolvendo diretores da Petrobras e a compra do terreno da instituição em São Bernardo do Campo (SP), por R$ 12 milhões, teriam ocorrido entre novembro de 2004 e janeiro de 2012. Isto significa que as acusações de corrupção esgotaram o prazo no ano passado. Já as imputações a Lula de lavagem de dinheiro, que envolvem também doações feitas pela Odebrecht ao instituto, no valor de R$ 4 milhões, só devem prescrever em 2022.

A acusação de lavagem de dinheiro pela compra de um apartamento em São Bernardo, por R$ 504 mil, é a única cujo prazo de prescrição deve correr além do ano que vem. Na denúncia, apresentada em dezembro de 2016, o MPF argumenta que a ocultação da origem dos recursos teria ocorrido “desde 11/08/2010 até a presente data”, por conta de manobras que teriam sido feitas pelos acusados já no decorrer da investigação. Por esse entendimento, a prescrição poderia se alongar pelo menos até 2024.

APRESENTAÇÃO DE DENÚNCIA –  Em 2014, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) construiu o entendimento de que a contagem do tempo de prescrição é interrompida quando há apresentação de denúncia, ainda que depois seja declarada a incompetência do tribunal — como ocorreu no caso da 13ª Vara de Curitiba após a decisão de Fachin.

A votação, porém, se referiu a situações em que a perda de competência não leva à anulação dos chamados “atos decisórios”. No caso de Moro, Fachin anulou os “atos decisórios”. Além disso, segundo o criminalista Davi Tangerino, o STF não tem adotado esta jurisprudência do STJ nesse tipo de situação.

ANULAÇÃO – De acordo com o criminalista Miguel Pereira Neto, conselheiro do IASP (Instituto dos Advogados de São Paulo), embora apresentar a denúncia leve ao reinício da contagem do prazo de prescrição, o que ocorreu nos processos de Lula foi a anulação da apresentação e recebimento da denúncia, além da sentença do caso.

2No caso em tela, a denúncia foi anulada, o que implica em sua inexistência. Em princípio, portanto, a contagem da prescrição é feita desde a ocorrência dos fatos atribuídos ao acusado”, avaliou.

Brasil, com Bolsonaro e Araújo, corre risco de ficar sem aliados e defender posições imorais

Publicado em 10 de março de 2021 por Tribuna da Internet

DE VOLTA À ESCURIDÃO DA CAVERNA – Contra o Vento

Charge do Duke (O Tempo)

Hélio Schwartsman
Folha

Há uma diferença importante entre o policial e o diplomata. Diante de crimes mais sérios, policiais não têm opção que não a de indiciar os suspeitos, independentemente do que achem da lei ou das circunstâncias que levaram ao delito.

Nas relações internacionais, as coisas são um pouco mais complicadas. Mesmo quando a diplomacia está diante de um crime gravíssimo e muito bem documentado, pode ver-se compelida a pegar leve com o autor.

MORTE DO JORNALISTA – É o que acaba de fazer o presidente dos EUA, Joe Biden, ao deixar de responsabilizar o príncipe saudita Mohammed bin Salman pelo assassinato e esquartejamento do jornalista Jamal Khashoggi em 2018.

O problema de base é que, nas relações internacionais, vige o estado de natureza hobbesiano. Sem uma autoridade central forte que a todos submeta, cada Estado é mais ou menos livre para agir como quiser.

As principais limitações são a força de outros países, seguida de acordos e tratados internacionais, cuja imposição, entretanto, é fraca, e, no caso de democracias, da repercussão política que as ações possam ter para o público interno.

PRAGMATISMO TOTAL – A resultante desses vetores em nível nacional costuma ser uma política externa pragmática, com algum tempero moral. Os EUA não podem dar-se ao luxo de romper com os sauditas, um de seus principais aliados na região, então Biden optou por pegar leve com o príncipe, mas sem deixar de sinalizar que reprova o homicídio e que poderá reagir de modo mais duro se violações desse tipo se repetirem.

Uma diplomacia totalmente pragmática, pautada exclusivamente por interesses, até pode funcionar para países autocráticos, onde o líder não deve satisfações a ninguém. Já uma diplomacia que se guie apenas por princípios acabaria rapidamente isolada, sem nenhum aliado. O Brasil, com Bolsonaro e Ernesto Araújo no comando da política externa, corre o risco de terminar sem aliados e defendendo posições imorais.

Ao exaltar Gilmar e Lewandowski, o Jornal Nacional tornou-se a maior vergonha da imprensa brasileira


William Bonner lê novo editorial da Globo no Jornal Nacional e vira assunto na web - Portal Overtube

Bonner abriu espaço para ataques descabidos a Sérgio Moro

Carlos Newton

Foi inacreditável o que aconteceu na noite desta terça-feira, dia 9 de março, com o Jornal Nacional abrindo um espaço inacreditável a dois ministros desclassificados e parciais do Supremo, Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, para que ofendessem a honra de um dos mais notáveis brasileiros, o ex-juiz e ex-ministro Sérgio Moro, que tem lutado de forma desabrida contra a corrupção, enquanto os dois integrantes do STF se notabilizaram nos últimos anos pela defesa empedernida de criminosos que participaram da maior quadrilha já montada no mundo para desviar recursos públicos.

É sabido que a Organização Globo vem sofrendo boicote do presidente Jair Bolsonaro, que mandou cortar as verbas publicitárias do grupo de comunicação criado por Roberto Marinho. Outros grande órgãos da imprensa, como a Folha e o Estadão, também estão amargando prejuízos com esse comportamento do chefe do governo, que desde sempre entrou em guerra com a grande mídia, para beneficiar seus blogueiros e youtubers amestrados.

SEM JUSTIFICATIVA – Mas nada justifica esse comportamento parcial e suspeito da equipe do Jornal Nacional, comandada pelo apresentador William Bonner. Por que dar tamanha força a esse ataque a um homem como Sergio Moro, prestigiado no mundo inteiro, mas agora moralmente espancado e vergastado em seu próprio país?

Isso é sinal de que a Globo jamais deixará de ser jornalismo-lixo. Da mesma forma que aconteceu em 1989, quando os diretores Alberico Souza Cruz e Armando Nogueira fizeram a criminosa edição do debate eleitoral, para prestigiar Fernando Collor e prejudicar Lula da Silva, agora o Jornal Nacional repete a imoralidade, ao abrir espaço para que Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski massacrassem a honra de Moro, de forma a fortalecer a imagem de Lula e auxiliar sua volta ao poder, para recuperar as verbas publicitárias perdidas, só pode ser essa a explicação.

MOTIVO: SUSPEIÇÃO – O mais incrível é o motivo. Os ministros Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski alegam a suspeição de Moro, esquecidos de que, na forma da lei, nenhum dos dois tem moral para fazê-lo, porque ambos são  íntimos de Lula da Silva.

O ministro Lewandowski, por exemplo, é amigo de Lula desde seu casamento com Marisa Letícia em São Bernardo do Campo. Portanto, jamais poderia participar de julgamento que possa beneficiar Lula. Da mesmo forma, Gilmar Mendes tornou-se próximo a Lula desde que ele assumiu a Presidência, em 2003, e suas esposas se tornaram amigas íntimas, conforme o próprio Gilmar revelou, por ocasião da morte de dona Marisa Letícia.

E nesta terça-feira, no JN, o ministro Gilmar Mendes apareceu num tremendo “ato falho”, ao se dizer “insuspeito” para defender Lula e atacar Moro. Vejam que ironia do destino, sendo ele o ministro mais “suspeito” da História do Supremo. Deve ser a Piada do Ano.

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P.S.
 – Ao final, daqui vai nossa solidariedade ao Dr. Sérgio Moro, sua esposa, seus pais e amigos, pedindo que não desistam do Brasil. (C.N.)

Cúpula das Forças Armadas evita novos curtos-circuitos públicos e opta pela lei do silêncio sobre Lula


Generais da ativa ficaram contrariados com decisão de Fachin

Igor Gielow
Folha

A cúpula do serviço ativo das Forças Armadas não gostou de ver Luiz Inácio Lula da Silva com seus direitos políticos restaurados, mas determinou silêncio de rádio na corporação sobre o assunto.

É um resultado direto da retomada da discussão sobre o papel institucional dos militares depois que o ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas detalhou as condições em que divulgou uma postagem pressionando o Supremo Tribunal Federal a não conceder habeas corpus para evitar a prisão de Lula, em 2018.

LIVRO DE VILLAS BÔAS – O episódio havia ficado para trás, sob a bruma de toda a confusão da volta dos militares ao palco político com Jair Bolsonaro. Mas Villas Bôas discorreu sobre ele, envolvendo todo o Alto-Comando do Exército, em um livro-depoimento lançado pela Fundação Getúlio Vargas.

Para complicar, a reação mais vocal contra o caso nesta sua segunda encarnação foi de Edson Fachin, o ministro que agora anulou as condenações do petista na Lava Jato, transferindo seus processos de Curitiba para Brasília.

Foi Fachin que chamou a pressão de 2018 de “intolerável” após a Folha revelar, em 14 de fevereiro, que o tuíte de Villas Bôas tinha um teor ainda mais grave e que havia sido discutido, segundo o general, com três atuais integrantes do governo Bolsonaro e com o atual comandante da Força, Edson Pujol.

IRONIA – O próprio Villas Bôas, em sua última participação no Twitter desde então, ironizou Fachin pelo atraso de três anos na crítica. Lula foi na mesma linha e criticou o ministro que agora o trouxe para o jogo de 2022.

A marola virou um maremoto institucional, levando ao caso da prisão do deputado federal bolsonarista Daniel Silveira (PSL-RJ), que gravou vídeo ameaçando Fachin e outros ministros devido à crítica, por ordem de outro titular da corte, Alexandre de Moraes.

Com isso, oficiais-generais, em consultas na segunda-feira, dia 8, consideraram que o ideal seria não se manifestar mais. Seguem orientação direta de Pujol, que já no fim do ano passado havia feito duras críticas à presença de militares na política, em consonância com a determinação do Fernando Azevedo (Defesa).

NOTAS POLÍTICAS – O ministro, general de quatro estrelas da reserva, diz que apenas ele pode emitir notas de caráter político para o público externo. Isso não reduziu, internamente, as críticas ouvidas pela Folha à decisão de Fachin. Com diversas tonalidades, elas foram condensadas no que um general da reserva, o presidente do Clube Militar, Eduardo José Barbosa, escreveu em nota na segunda.

Ele criticou a decisão do ministro, a quem acuso de uma ligação, de resto histórica, com o PT, e afirmou temer que “o meliante fique definitivamente impune”. O caso todo ilustra a difícil relação entre os fardados e o PT, que teve momentos de grande proximidade, mas que esgarçou-se no governo de Dilma Rousseff devido à instauração da Comissão da Verdade — que, na visão dos militares, privilegiou apenas a apuração de crimes da ditadura, ignorando os da luta armada.

O processo de antipetismo crescente, que passava também pela debacle econômica do país e as revelações da Operação Lava Jato, é explicitado no depoimento de Villas Bôas, assim como a crescente identificação com a candidatura de Bolsonaro.

DOMÍNIO DO EXÉRCITO – O resultado está aí, com 9 dos 23 ministros saídos das Forças, com amplo domínio do Exército, e episódios seguidos de desgaste de imagem —a começar pelo desgoverno na pandemia, cuja pasta responsável, a Saúde, é liderada por um general da ativa, Eduardo Pazuello.

Com tantos fios desencapados na praça, até que se prove em contrário os fardados evitarão ao máximo novos curtos-circuitos, ao menos em público.

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