
Para servir a família Bolsonaro, Heleno agiu criminosamente
Carlos Newton
Na visão do filósofo americano Ralph Emerson, as instituições são apenas a extensão de seu principal dirigente. Assim, quando se fala na atuação da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), deve ser entendido que se trata do trabalho do ministro Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional. Portanto, no caso da reportagem da revista Época sobre a espantosa atuação da Abin em defesa do senador Flávio Bolsonaro, deve ficar claro que estamos abordando gravíssimas ilegalidade cometidas pelo general Heleno.
Não há a menor dúvida de que Heleno, ao tentar inocentar Flávio Bolsonaro, sob a alegação de ter havido perseguição política pela Receita Federal e pelo Conselho de Controle de Atividade Financeira, não agiu de “moto-próprio”, estava apenas obedecendo ao chefe do governo.
O mais incrível é que o ministro-general tenha agido normalmente, como se não estivesse cometendo diversos crimes gravíssimos para um gestor público. A certeza da impunidade era completa e Heleno acreditava-se tão acima da lei e da ordem que aceitou se fizessem relatórios escritos, algo que o jargão policial chama de “batom na cueca”.
ACUSAÇÕES LEVIANAS – Na ânsia de atender à determinação do ministro e blindar o filho do presidente da República, a direção da Abin (leia-se: ex-delegado federal Alexandre Ramagem) não teve pudor em vergastar competentes e dedicados servidores da Receita Federal, que lá estão por concurso e trabalham em defesa do interesse público, ao contrário do próprio Ramagem e de seu chefe Heleno, que se dedicam entusiasticamente a atender os interesses de Jair Bolsonaro, que muitas vezes (ou quase sempre) não se confundem com os interesses nacionais.
A reportagem de Guilherme Amado mostra que o relatório da Abin reclama da dificuldade para a obtenção dos dados pedidos à Receita, faz acusações levianas a servidores e ex-secretários do órgão, como Everardo Maciel, e até chama de “estrutura criminosa” a atual forma de gestão da Receita, que na verdade descobre criminosos, como o já notório chefe de quadrilha Flávio Bolsonaro.
“A dificuldade de obtenção da apuração especial (Tostes, secretário da Receita) e diretamente no Serpro é descabida porque a norma citada é interna da RFB da época do responsável pela instalação da atual estrutura criminosa — Everardo Maciel”, diz a Abin.
MAIS CALÚNIAS – “Existe possibilidade de que os registros sejam ou já estejam sendo adulterados, agora que os envolvidos da RFB já sabem da linha que está sendo seguida”, diz o relatório dos arapongas do Dr. Ramagem, aquele que Bolsonaro queria à frente da Polícia Federal, lembram?
Esse primeiro relatório pede que sejam substituídos os servidores que resistem ao estupro institucional a ser praticado na Receita pela Abin, insistindo na recomendação de demitir os chefes, que já havia sido feita em 2019.
“Permanece o entendimento de que a melhor linha de ação para tratar o assunto FB e principalmente o interesse público é substituir os postos conforme relatório anterior. Se a sugestão de 2019 tivesse sido adotada, nada disso estaria acontecendo, todos os envolvidos teriam sido trocados com pouca repercussão em processo interno na RFB!”, explica o relatório.
DEMISSÃO DE MINISTRO – No fim do texto, a Abin sugere que o presidente Bolsonaro demita o ministro Waller Júnior da Corregedoria-Geral da União (CGU) e coloque no lugar dele um policial federal: “Neste caso, basta ao 01 [referência a Bolsonaro] comandar a troca de WALLER por outro CGU isento. Por exemplo, um ex-PF, de preferência um ex-corregedor da PF de sua confiança”.
E o mapa do crime era o seguinte: “Com base na representação de FB protocolada na RFB (Tostes), CGU instaura sindicância para apurar os fatos no âmbito da Corregedoria e Inteligência da Receita Federal; Comissão de Sindicância requisita a Apuração Especial ao Serpro para instrução dos trabalhos. Em caso de recusa do Serpro (invocando sigilo profissional), CGU requisita judicialização da matéria pela AGU. (…) FB peticiona acesso à CGU aos autos da apuração especial, visando instruir Representação ao PGR Aras, ajuizamento de ação penal e defesa no processo que se defende no RJ”.
De acordo com a revista, a Abin resume a estratégia: “Em resumo, ao invés da advogada ajuizar ação privada, será a União que assim o fará, através da AGU e CGU — ambos órgãos sob comando do Executivo”.
DEMITIR TRÊS ELEMENTOS – Outro trecho atribuído pela revista ao documento também trata da “neutralização da estrutura de apoio”, a demissão de “três elementos-chave dentro do grupo criminoso da RF”, que “devem ser afastados in continenti”.
“Este afastamento se resume a uma canetada do Executivo, pois ocupam cargos DAS. Sobre estes elementos pesam condutas incompatíveis com os cargos que ocupam, sendo protagonistas de diversas fraudes fartamente documentadas”, dizem os espiões a serviço da quadrilha criminosa, “inventando fraudes” nas carreiras do corregedor José Barros Neto; do chefe do Escritório de Inteligência da Receita no Rio de Janeiro, Cléber Homem; e do chefe do Escritório da Corregedoria da Receita no Rio, Christiano Paes.
UM JÁ FOI DEMITIDO – Christiano Paes foi demitido na semana passada. Do Diário Oficial da União, consta que a demissão foi “a pedido” do servidor. Ele comandava a Corregedoria da Receita do Rio há 15 anos e ajudou a força-tarefa da Lava Jato em duas investigações contra auditores fiscais sob suspeita de cobrar propina de empresários investigados.
O segundo relatório traça uma “manobra tripla” para tentar conseguir os documentos que a defesa espera. E faz uma recomendação:
“A dra. Juliet [provável referência à advogada Juliana Bierrenbach, também da defesa de Flávio] deve visitar o Tostes (Receita Federal), tomar um cafezinho e informar que ajuizará a ação demandando o acesso agora exigido”, diz o texto da Abin, segundo a “Época”.
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P.S. – A matéria de Guilherme Amado comprova que o Brasil está sendo governado por uma quadrilha familiar, cujo chefão é Dom Bolsonaro, e tem como “consigliere” o general Augusto Heleno, de saudosa memória, digamos assim. Heleno devia se demitir, ir para casa e parar de manchar uma biografia antes impecável, deixando Bolsonaro cuidar sozinho do impeachment, que agora se torna inevitável. (C.N.)




