
Charge do Gilmar Fraga (Zero Hora)
Pedro do Coutto
A derrota nas urnas ainda não havia produzido todas as suas consequências políticas quando Flávio Bolsonaro acrescentou um novo problema ao futuro do bolsonarismo: a saída do Brasil rumo aos Estados Unidos, dois dias depois de perder a disputa presidencial para Lula da Silva. O episódio, confirmado por veículos como Reuters, Folha de S.Paulo e CNN Brasil, provocou surpresa entre integrantes do próprio Partido Liberal (PL), que afirmaram não ter participado do planejamento da viagem.
A reação revela uma fratura importante em um movimento que precisa se reorganizar depois da derrota eleitoral e que, em vez de apresentar uma estratégia comum para a oposição, se viu diante de uma decisão tomada por seu principal candidato sem o conhecimento de parte de sua própria equipe.
EXPECTATIVA — O contexto torna o episódio ainda mais delicado. Na segunda-feira, Flávio havia afirmado publicamente que não deixaria o país e que pretendia liderar a oposição ao governo Lula no Congresso Nacional. No entanto, no dia seguinte, a imprensa noticiou sua chegada aos Estados Unidos, enquanto se acumulavam informações sobre o descumprimento de uma ordem judicial para entregar os passaportes e a determinação de impedir sua saída do território brasileiro.
Os passaportes foram cancelados depois de expirado o prazo estabelecido pelo Supremo Tribunal Federal. A Folha noticiou posteriormente a chegada a Miami da aeronave em que o senador estaria viajando. A sequência entre a declaração pública e a saída do país abre um problema que vai além da disputa política: coloca em questão a coerência entre o discurso do candidato e sua conduta diante das instituições.
LIDERANÇA DA OPOSIÇÃO — A perplexidade manifestada pelo coordenador da campanha, Rogério Marinho, é particularmente reveladora. O senador afirmou que esperava ver Flávio assumir a liderança da oposição, considerando os votos recebidos. A própria direção partidária reuniu-se para discutir o episódio, enquanto dirigentes procuravam esclarecer o que havia acontecido.
O contraste é evidente: depois de uma campanha presidencial, seria de esperar que o candidato derrotado se tornasse o centro de uma estratégia de reorganização política. Em vez disso, sua saída abriu espaço para dúvidas sobre quem conduzirá o partido e quem terá condições de representar a direita no Congresso.
Há também uma questão institucional que não pode ser reduzida a uma disputa entre adversários políticos. Flávio é alvo de investigações judiciais e contesta as suspeitas que lhe são dirigidas. A existência de uma investigação não equivale a uma condenação, assim como qualquer medida cautelar deve ser examinada à luz da lei e das garantias processuais.
DECISÕES JUDICIAIS — Mas é precisamente por isso que o cumprimento das decisões judiciais importa. Se um político considera que está sendo alvo de perseguição, dispõe de instrumentos jurídicos para contestar as medidas que considera injustas. A saída do país depois de uma ordem judicial que determinava a entrega dos passaportes transforma o caso em um confronto que exigirá esclarecimentos das autoridades e do próprio senador.
O episódio evoca, inevitavelmente, o percurso de Jair Bolsonaro, que deixou o Brasil depois da derrota eleitoral de 2022 e acabou retornando. A comparação, contudo, deve ser feita com rigor: as circunstâncias jurídicas de cada caso não são idênticas. O que aproxima os dois episódios é a dificuldade do núcleo familiar em construir uma resposta política à derrota que não esteja condicionada por seus próprios problemas judiciais.
Para um movimento que se apresentou como defensor da ordem e do combate à corrupção, a imagem de um de seus principais dirigentes deixando o país em circunstâncias contestadas cria uma contradição que seus adversários dificilmente deixarão de explorar.
REFLEXOS — O maior dano para o bolsonarismo poderá, assim, não estar apenas na saída de Flávio, mas no que ela revela sobre sua capacidade de organização. A derrota eleitoral exigia uma reflexão sobre os erros da campanha, uma definição de prioridades e a construção de uma oposição capaz de atuar dentro das instituições. A ausência do candidato no país dificulta esse processo e abre uma disputa pela liderança que envolve diferentes figuras da direita. Segundo o UOL, o afastamento de Flávio poderá favorecer dirigentes do próprio PL e outras lideranças interessadas em ocupar o espaço deixado pela família Bolsonaro.
Flávio tinha a oportunidade de transformar o resultado eleitoral numa plataforma para reorganizar o seu campo político. Ao deixar o Brasil depois de afirmar que permaneceria para liderar a oposição, colocou em segundo plano essa possibilidade e passou a ser o protagonista de uma controvérsia que ultrapassa a derrota nas urnas.
O bolsonarismo terá agora de responder a uma pergunta essencial: consegue construir uma liderança política autónoma, capaz de respeitar as regras institucionais e sobreviver para além do destino judicial da família que o personificou? A resposta não depende apenas do regresso de Flávio, mas da capacidade do movimento de separar o seu futuro político dos problemas particulares dos seus dirigentes.