terça-feira, julho 21, 2026

Superfaturado em R$ 1,3 mi, projeto lançado por Bolsonaro entrega redes de vôlei para escolas sem quadras

 

Superfaturado em R$ 1,3 mi, projeto lançado por Bolsonaro entrega redes de vôlei para escolas sem quadras

Auditoria da CGU identificou desperdício de dinheiro público na execução do programa DNA do Brasil Talentos no Tocantins, financiado por emendas parlamentares e executado por ONG em parceria com ministério então comandado por Damares.

Esta semana eu, Thalys Alcântara, ocupo o espaço de Cartas Marcadas enquanto Paulo Motoryn aproveita suas merecidas férias. Eu vou te contar um caso curioso sobre um programa lançado no governo de Jair Bolsonaro e envolvendo a então ministra Damares Alves.

A iniciativa deu errado, mas muita gente não ficou sabendo. Pega seu café (e uma calculadora) e vem comigo conhecer esse caso e a grana envolvida.

Dos R$ 7,5 milhões de emenda parlamentar pagos para o Idecace, um total de R$ 2,9 milhões foi repassado a duas empresas fornecedoras: R$ 2,13 milhões para a Cooperativa de Trabalho em Educação Cultura, Esporte e Lazer, a Coopera, e R$ 782 mil para o Instituto de Educação Superior Horizonte.

As duas organizações tiveram como sócias ou diretoras as irmãs Alessandra Gomes da Silva e Luana Gomes. Ambas são filhas da empresária Silvana Pereira Gomes da Silva, que já foi condenada por improbidade administrativa, quando dirigia uma outra entidade, e chegou a ser proibida de ser contratada pelo poder público.

Segundo investigação do Ministério Público de Goiás, Silvana teria enriquecido ilicitamente por meio de uma contratação ilegal feita pela prefeitura de Aparecida de Goiânia.

O contrato foi assinado com o Instituto Brasileiro de Educação e Gestão, o Ibeg, do qual Silvana era presidente, e tinha como objeto a organização de uma prova de concurso público em 2009. Essa contratação teria sido feita a partir de uma dispensa indevida de licitação.

O prazo de proibição de contratos públicos firmados por Luciana expirou em outubro de 2020, segundo o Tribunal de Justiça de Goiás, onde o caso foi julgado. No entanto, essa mistura de sociedades chamou a atenção da CGU ao analisar a execução do programa DNA do Brasil no Tocantins.

Isso porque Silvana assinou os contratos com o Idecace, como representante do Instituto de Educação Superior Horizonte, apesar de ter saído da sociedade da instituição de ensino anos antes, em 2020.

"É necessário aprofundamento desse ponto, a fim de verificar se há caracterização de alguma espécie de direcionamento ou conluio entre as organizações", avalia trecho do relatório da CGU.

A Controladoria ainda entende que não há “evidências de efetiva prestação dos serviços” pelo Instituto de Educação Superior Horizonte e que não há elementos que justifiquem tal contratação.

Outro lado

Em nota, a assessoria da ex-ministra, e atual senadora, Damares Alves, reforçou que o pedido de investigação contra o Idecace foi feito pela própria pasta durante a gestão dela ainda em 2022.

"A senadora à época considerou gravíssimas as irregularidades atribuídas à entidade executora e defendeu, já à época, a apuração integral, o ressarcimento ao Erário e a responsabilização dos envolvidos", diz trecho da nota.

Sobre o dia do lançamento do projeto, a assessoria de Damares defendeu que a então ministra não defendeu antecipadamente cada contratação que viria a ser feita pelo Idecace, nem a garantia de regularidade de sua futura execução.

Já a atual senadora Professora Dorinha, que indicou a emenda de bancada ao Idecace quando era deputada federal, defendeu que apesar de ter feito a indicação, a aprovação do projeto, a fiscalização e o acompanhamento são responsabilidade do Poder Executivo, que interrompeu a continuidade do projeto ao identificar irregularidades.

A reportagem entrou em contato com os outros parlamentares que indicaram a verba, Vicentinho Júnior e Carlos Henrique Gaguim, mas não tivemos retorno até a publicação da matéria.

O Intercept ainda entrou em contato com o advogado do ex-presidente Jair Bolsonaro, com a Coopera, o Instituto Horizonte e Silvana Pereira Gomes, mas não obteve retorno até a publicação desta newsletter.

A CGU informou que as recomendações feitas no relatório foram implementadas pelo Ministério dos Direitos Humanos e, por isso, o documento não foi enviado aos órgãos de persecução penal.

Em nota, o Tribunal de Contas da União, responsável pela devolução da verba, informou que o processo está com a relatoria do ministro Jhonatan de Jesus e ainda não foi apreciado.

O Idecace defendeu em nota que o caso ainda está sendo tratado no TCU e que seria precipitado publicar discussões técnicas. (Leia a nota na íntegra).

"Para a correta compreensão da execução da parceria, é necessário considerar circunstâncias e condições específicas das localidades atendidas, próprias da realidade brasileira e com impacto direto sobre a prestação dos serviços", escreveu a organização em nota.

Ainda no mesmo documento, o Idecace reclamou da suspensão dos repasses financeiros durante a execução do projeto, e alegou que por causa disso teria tido gastos financeiros além da sua capacidade financeira na época.

Sobre a falta específica de quadras de esporte, o Idecace afirmou que as escolas realizam essas atividades mesmo sem infraestrutura adequada, utilizando postes, pilares e troncos de árvores para instalar redes, por exemplo. O Idecace ainda alegou que a falta de e-mails não foi um impedimento para a execução do projeto, já que teria criado contas para os estudantes que não tinham.

Por telefone, o presidente do Idecace, Wilson Alves Cardoso, disse que está recorrendo sobre a reprovação das contas junto ao TCU, e reclamou sobre o uso do seu caso como "ferramenta política".

"Existe um processo hoje das entidades de terceiro setor no nosso país, que é o seguinte: primeiro você culpa, depois você tem que provar sua legalidade. Se você não tem lastro, você quebra uma entidade. Por que que eu não estou trabalhando mais com emenda parlamentar? Justamente por isso", lamentou.

Em relação aos apontamentos de superfaturamento, Wilson alegou que os valores calculados pela fiscalização não teriam levado em conta o deslocamento dos materiais até as escolas. O Idecace e Wilson não responderam aos questionamentos sobre o Instituto Horizonte e a Coopera.

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Nos vemos em breve,
Thalys Alcântara

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